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segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

A FLOR DO CARDO


Esta é a hora certa de toda a incerteza futura.

Pois ninguém sabe ao certo como se agarra a face mais brilhante dos dias por vir, há muitas teorias e experiências-piloto, cada um fala ou faz a seu modo, ou não faz nada, deixa que façam por si…



Parece que devia estar para aqui a festejar, mas tenho frio cá dentro, ainda mais que lá fora – baixou imenso a temperatura. embora o astro-rei tinja tudo de um esplendor momentâneo.

Um dia iniciado no contacto com o desvario, com a perda reconfirmada do que se foi e não mais se será, não será talvez a melhor fonte de inspiração. No entanto, se me fosse dada a escolha, não quereria estar noutro local, esta é a cor da minha lenda pessoal, a que escolhi viver de forma consequente.



Pensei que gostaria de dormir um pouco mais nesta manhã gelada de fim de ano, mas na verdade o que quero é permanecer de olhos fechados, solitária  colhedora interior de exóticas flores neste mar de cardos, neste pantanal lúgubre onde há que reinventar a coerência das horas.



Mas também as coisas em geral deixaram de fazer sentido. As coisas estão a adquirir um sentido novo, mas nem sempre o novo é fiável, pois anda tudo empobrecido.  Ontem ouvi alguém de inteligência incontestável e muito influente eleger o Cristiano Ronaldo como figura do ano. Acima dos Costas, dos Sócrates, do iluminadíssimo Papa, o melhor Relações Públicas que uma igreja decadente e de consciência pesada podia ter contratado. Sobretudo, acima dos que trabalham desinteressadamente na expansão da consciência humana e por tal motivo, pagam o preço da sua inconveniência.

Nada, ou quase nada, faz muito sentido. Mas ainda sou eu, acho. Este é só um momento mau, digo-me. Nem consigo sentir que faço anos, um dia tradicionalmente alegre, em que estas almas com quem partilho a minha passageira residência na Terra me mimam sempre e me fazem sentir que a minha vida é verdadeiramente especial para elas.

É assim que me sinto e não me apetece transmutar nada. Pela primeira vez, possivelmente, estou a viver quase só o momento presente, não me são permitidas projecções brilhantemente transformadoras da realidade, vou fazendo de cada pequeno passo, todos os dias, o centro da minha vida.

Ainda assim, tenho de reconhecer que a flor dos cardos é deslumbrante pois, quando se nos revela, afigura-se-nos um sentido não revelado para o caminho duro.
Many returns of the day! E que os cardos nunca deixem de florir...

domingo, 19 de outubro de 2014

NO REINO DOS MALTRAPILHOS


 

É dramático ver como as pessoas seguem cegamente qualquer onda e, hoje em dia, parece que, quanto mais reles, mais apelativa.


A apresentação de uma pessoa inscreve-se na manifestação do seu ser. Não falo nem de luxos nem de formalismos, refiro-me a um respeito mínimo pela estética e por aquele velho ditado que reza assim: "cada macaco no seu galho"! Torna-se absolutamente patética (e ridícula, a maior parte das vezes) a prática de, em qualquer lugar, se andar vestido como se se estivesse a fazer ginástica, a varrer o jardim ou a sair da praia. Como se tivessemos a idade dos nossos filhos ou quisessemos desesperadamente parecer seus irmãos...
Nos aeroportos, nas ruas, nos cafés, pairam multidões que eu diria de maltrapilhos, gente indistinta, muitas vezes pouco lavada, deselegante e sem maneiras. Estou a falar do mundo ocidental, o dito civilizado!
Lamento muito, mas as confusões na cabeça das pessoas são enormes: fealdade, andar sujo, vestimentas inadequadas (as tais que nos estão uniformizando na aparência como se fossemos apenas rascunhos grosseiros de pessoas) e maneiras pouco polidas passaram a ser "cool" e as pessoas não questionam isto (talvez por que dá trabalho).



A verdade é  que  a sujeira, o barato, o despenteado, por vezes a excentricidade vulgarota tomaram conta do mundo. As banhas são exibidas de forma desleixada, como se os seus portadores nem disso se lembrassem, muito menos tivessem consciência da ofensa estética que causam  a quem não aderiu ao rebanho.

Não gosto, não me identifico, mas isto corresponde a algo, talvez represente simbolicamente a rebelião inconsciente  contra o estado das coisas, de uma certa ordem de valores falsamente arrumada, de uma vida certeira e previsível que já ninguém quer.  Mas como também não se sabe o que se quer, as pessoas vão-se metamorfoseando por fora, de experimentação em experimentação, cada vez mais feias, despenteadas e mal cheirosas.

Para quê mudar de roupa, tomar banho ou passar a escova pelo cabelo se ninguém repara, se andamos todos à balda, se a balda é o que se usa, o que se faz, o que dá menos trabalho…?

E as maneiras, essa mania de dizer por favor, de abrir portas às senhoras (pelo menos às mais velhas), dar o lugar nos transportes públicos ou dizer bom dia e sorrir…? Tudo uma treta, uma pirosada. Não serve para nada.


 Não me conformo, custa-me a aceitar, mas chegámos ao reino dos maltrapilhos. Símbolo de uma decadência profunda e de perda de referenciais a nível colectivo, a aparição desse reino sinaliza igualmente o fim de um tempo a que, inevitavelmente , se seguirá outro, ainda velado para nós.

Convem que nos mantenhamos alerta, que trabalhemos continuadamente na nossa consciência e não nos deixemos apanhar na poderosa onda de moleza e inércia que atravessa o mundo, erroneamente interpretada como moda.



Só passa a eternidade o que é belo, profundo e o que radica na força do espírito, a qual encontra na criatividade humana o seu instrumento de eleição.

Jamais abrirei mão desse tesouro!

O MEU PAI




Foto: Miguel Medalha
Desolada, busco alívio na palavra. Dentro de mim ressoam ecos de Mahler, como se uma fria correnteza de lágrimas silenciosas deslizasse, enfim, por uma rota paralela à dos chakras e redimisse a dor neles alojada.

Ante o conflito e o desencontro de almas obviamente próximas, quisera viajar com eficácia até aos confins dos tempos e compreender as razões do desalinhamento actual. Mas o que está oculto não se quer mostrar, é essa ainda a natureza da manifestação, a imagem aparece refractada nas vastas águas, repositório eterno das experiências da alma.



Álguém, na minha família, se ressentiu que eu tivesse mencionado numa das minhas crónicas que o meu pai escolheu partir desta vida, eufemismo para se ter suicidado, que foi a expressão que  então usei. Quedei atónita ante tal facto!

O meu pai não foi um ladrão, um assassino, um politico vigarista. E se o tivesse sido, continuaria a ser o meu pai e assumi-lo-ia como tal, pois não tive outro. O meu pai foi, na verdade, um homem bom e trabalhador, mas triste e atormentado pelas invisíveis sombras que sobre ele adejavam como abutres e lhe secavam a alegria, o viço e a força de viver. Escolheu partir quando tudo se lhe estilhaçava por dentro e a ignorância geral, oficial e implementada, não lhe pôde valer a não ser com uma etiqueta de esquizofrénico e fármacos que lhe adormeciam os sintomas, o que de nada lhe valeu.


Não compreendo por que eu teria de esconder isto.  O meu pai fez com a sua vida o que conseguiu fazer, faltaram-lhe as forças para a preservar. Isso não me envergonha. Doeu-me muito quando ocorreu há mais de quatro décadas e, durante muito tempo, ao caminhar pelas ruas, dava por mim a esperar encontrá-lo na próxima esquina. Mas sempre respeitei a sua decisão que me ensinou mais do que se possa pensar. Uma compaixão infinita pelas suas secretas dores inundou a minha alma e reforçou o meu apoio à Mãe-coragem que lhe sobreviveu.


Era belo o meu pai, ainda que sombrio e ausente. Complexado pelo que não havia conseguido alcançar na sua difícil vida num estado fascista, atormentado por uma sensibilidade exacerbada e ausência de orientação em como gerir a mesma. Não tinha paz interior, apesar da muralha de força que a sua mulher representava e dos quatro filhos saudáveis e inteligentes. Não sabia como, nem ninguém o conseguiu ajudar a dissipar as trevas que sobre ele se abateram.



Todos escolhemos, no fundo, o que fazer com as nossas vidas. O meu pai pôs fim à sua, na flor da idade, Eu, que herdei dele a fronte abaulada e o coração mole, opto por exorcisar pela palavra o que me vai dentro e tentar disciplinar o coração tenro para que a minha soberania pessoal seja respeitada, O meu parente prefere ostracizar-me, fazer-me desfeitas imperdoáveis, em jeito de “castigo”. Assumo a dor que isso me causa mas rejeito o “efeito castigo”. Nutri sempre por ele o mais profundo afecto mas, antes dele estou eu. Eu, mulher em busca da mulher integral dentro de mim, eu e a minha verdade possível, eu e a minha busca de clarificação, eu e a consciência de que somos o que vamos conseguindo ser, que ninguém é mais importante do que nós e que só ao nosso auto-cumprimento devemos explicações.

Apesar das lágrimas, apesar da vida que é breve e se escoa sem as manifestações de amor que seriam naturais e legítimas,  esse é o meu caminho e a minha opção.



Muito grata, pai, meu bom e partido pai, por tudo o que me ensinaste, aparentemente pela negativa.


sábado, 18 de outubro de 2014

O HOMEM ENSOMBRADO



Mas a sombra se o sol está longe, excede a figura.

A sombra quando o sol está no zênite é muito pequenina

 e toda se vos mete debaixo dos pés.

Mas quando o sol está no Oriente ou no

ocaso, essa sombra se estende tão imensamente, que

mal cabe dentro do horizonte.

(Padre Antônio Vieira -Sermões Pregados no Brasil)



Conheci-o desde sempre, pois não me lembro de mim antes do seu nascimento. Enquanto crescia, foi-se revelando a tendência para a complicação e para o detalhe, a alma feminina sempre a buscar consolo e referências junto da mãe. Também a natureza exploratória, aventureira e uma forma de rir alto, com gargalhadas sonoras e frescas quando algo o tocava pela positiva. Guardava no âmago um coração doce  e ternurento que cedo foi cobrindo com capas protectoras reforçadas.
Bonito e inteligente, vulnerável contudo aos grandes embates emocionais, cedo as dores abriram brechas em níveis mais subtis do ser e por elas se esgueiraram forças alheias que tomou como suas. Começou a sentir coisas estranhas, para além do que a consciência poderia explicar, e tomou-as como naturais.
Tornou-se assim, com o passar dos anos, um homem ensombrado, pois entre si e o sol da vida se posicionaram , com frequência crescente, corpos opacos que o privavam da luz.

O tenro coração, ocultado sob densas capas, bem o tentava impulsionar, mas a luta era desigual pois uma certa arrogância de carácter, resquício negativo do que fora a sua força na juventude, fortalecia as sombras invasivas que o habitavam e lhe manipulavam a mente.

Fomos tão próximos, um dia, sangue do mesmo sangue, sonhos bordados num tempo de aventura e idealismo,  afecto transbordante nos corações dourados de inocência e dádiva.
Passou tudo, resta só a ausência, a aparente indiferença. Ambos receamos as palavras, eu por não saber por quê, ele por achar que sabe bem demais. Ou será o contrário de algum modo, quem sabe.
Sinto que nos perdemos um do outro, que já nada pode salvar o nosso laço, pois a força solar do amor não consegue encontrar expressão no pouco tempo que nos resta na Terra.

Sinto que a Sombra venceu e se estende, ameaçadora, para além do horizonte.

Não importa a explicação. Só o que não teve lugar.
Doiem fundo as lágrimas que não deixo que ninguém veja, afasto-me esvaziada pelo que não pode ser…

Às vezes é preciso reconhecer que a desistência é o único caminho, pelo menos por agora, nesta já longa manifestação na Terra.

De uma coisa estou certa: um de nós irá ao funeral do outro.

sábado, 4 de outubro de 2014

CONVERSAS COM ANIMAIS



 Assisti com gosto ao lançamento do livro “Conversas com Animais” da Marta Sofia Guerreiro, uma médica veterinária “que comunica com os animais e cura os seus donos”. Na pequena cidade de Reguengos de Monsaraz, no ainda mais pequeno centro de apoio educativo que tenta promover novas referências para a educação das gentes. Foi um encontro muito agradável, de vinte e tantas pessoas. A energia de compreensão e amor aos animais foi-se adensando à medida que a sessão, moderada por Felippa Lobato, avançava.

A jovem veterinária falou com simplicidade e em tom amoroso da sua relação com os animais, o muito que lhe ensinam todos os dias e da emocionante dedicação que a maioria deles sente pelos seus donos (cuidadores), estando dispostos a dar a vida por eles.
Seguiu-se a tertúlia, troca de experiências pessoais, gente comovida pela partida recente ou distante de um animal de estimação. Num país onde as audiências são em geral apáticas, fiz e ouvi testemunhos diversos, perguntas, o ênfase sempre posto no respeito e amor com que os animais devem ser tratados e a nossa grande ignorância e falta de reconhecimento ainda pelo papel que estes nossos companheiros de rota desempenham durante a residência conjunta na Terra.

É certo que já vão surgindo, entre os humanos terrestres, núcleos de consciência mais elevada em relação aos animais, mas sinto que ainda nos falta muito colectivamente para um padrão comportamental aceitável nesta área. Ele há-de, contudo, surgir e ganhar força em definitivo com a energia dos novos paradigmas de um Mundo Novo assente nos valores do feminino da alma.

Os factos relatados passaram-se,,como disse, num pequeno centro educativo duma cidade do interior. O produto da venda do livro destina-se integralmente a financiar cuidados com os animais.

A bem de uma Consciência Maior.

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Memória de Einstein (em jeito de poema)
Para os meus netos e todas as crianças do mundo

o meu  cão chamava-se Einstein  
era um animal belo e imponente  
longo pelo louro focinho pontiagudo 
olhos de mel naturalmente maquilhados

o meu cão destilava amor   
o meu cão era a canificação do amor 
até quando ladrava  
amava as crianças e amava-nos a todos 
não largava a Vovó
que o apaparicava às escondidas 
comida sempre fresquinha nada de latas

um dia o meu cão fugiu  
pedia-lhe o corpo o instinto 
andou milhas nas praias próximas 
sabe-se lá em que andanças se meteu 

gritei por ele nas ruas da vila 
ecoava o seu nome de sábio
na minha voz inquieta 
pelas ruas  vielas  à entrada dos prédios 
pelos terrenos baldios  postos de gasolina

nada

um dia voltou pela manhã 
montinho de areia sobre o nariz afilado 
corpo exausto  olhar culpado  
dormiu dois dias a fio  
e nunca mais fugiu

viveu muitos anos  rei do nosso jardim 
até que doente e velhinho 
a uivar de dor noites sem fim 
decidimos que partisse

despediu-se de todos 
arrastado o corpo enfermo
até cada um
o focinho longo e quente
encostado às nossas lágrimas
pela última vez

a memória do meu cão
eleva-me a consciência  

Einstein sumptuosa dádiva  
companheiro incomparável 
não te soubemos reconhecer
devidamente
no teu dia próprio)e instein os reconhecer devidamente no dia prmo atm  decidimos que partissecinho pontiagudo  olhos de mel naturalmente maquilha





sábado, 13 de setembro de 2014

O FUTURO DAS NAÇÕES

Acredito cada vez mais que o futuro da humanidade terrestre, para ser sustentável e representar verdadeiro progresso para a mesma, deverá construir-se sobre as pequenas comunidades, que tenham, no máximo, algumas dezenas de milhares de habitantes.
Aglomerados de pessoas que se cumprimentam quando se encontram na rua ou no elevador, que têm brio e empenho no trabalho e no esforço comum de evolução, que cuidam do seu espaço e possuem por conseguinte um sentido de comunidade.

Lugares onde a existência decorre ainda a uma escala humana e o ser não se sente constantemente acossado e a ter de correr para não perder sabe-se lá o quê.


Acabo de ler na revista “New Scientist” um artigo que, de algum modo, creio estar ligado a esta percepção, pois adianta que as nações, tal como as conhecemos, podem estar a chegar ao seu fim e que estaremos possivelmente, num futuro próximo, a braços com um post-nacionalismo de acordo com o qual o poder estará porventura mais localizado em certas cidades ou centros, tal como na Idade Média. Neste tipo de solução, há obviamente o perigo do ressurgimento de nacionalismos locais exacerbados, o que é conducente a situações de belicosidade indesejável.

Tornou-se porém claro e incontornável que a política, tal como é praticada na actualidade, se despiu de conteúdos válidos e os grandes poderes mundiais, como a América e a União Europeia, não dispoem de uma estratégia coerente e de longo prazo, indicativa para os cidadãos de um caminho futuro com sentido e causa.

A União Europeia, por exemplo, tem tentado por todos os meios transcender a cultura, as tradições e a opinião pública dos seus países-membro e impor, de fora para dentro, uma ordem europeia global que a maioria dos europeus desaprova.

Sucedem-se conflitos por toda a parte. Os catalães e os escoceses procuram, cada um por seu lado e momento próprios, separar-se da respectiva nação-mãe, os jihadistas fundaram o Estado Islâmico e a Rússia, aproveitando-se da onda, actua na Ucrânia sob o falso pretexto de proteger um grupo: o dos russos residentes naquele país.

Será bom lembrar que antes do século XVIII não havia propriamente nações. O passaporte ainda não havia sido inventado e as fronteiras, tal como hoje as conhecemos, não existiam. As referências para os raros viajantes, na sua maioria mercadores ou membros das classes nobres, eram os grandes centros nucleares como Florença, Veneza ou Hamburgo. A era das nações e a ligação emocional a um estado nação começou com a Revolução Francesa.

Dada a incapacidade das grandes nações atenderem hoje de forma satisfatória os problemas dos seus povos, põe-se a questão, cada vez mais acesa de um “retorno a casa”, em que as comunidades sejam formadas por pessoas que se reconheçam entre si pela via étnica e cultural e por propósitos espirituais comuns.

A história está pejada de experimentalismos, é essa a natureza da nossa passagem pelo planeta. Avançamos e retrocedemos através de experiências e provas várias e estamos muito provavelmente sujeitos a impulsos cósmicos que a nossa consciência não abarca.

Mas estou em crer que, para que um novo mapa mundi funcionasse de forma aceitável à luz deste novo conceito de agrupamento, seria necessário que a consciência colectiva  subisse uma oitava, deixando definitivamente para trás os factores de corrupção e ganância que estão na origem de tanta miséria e infelicidade para a grande maioria dos humanos terrestres.

O fim das nações será por agora um conceito utópico mas provavelmente de inevitável concretização, uma vez esgotado o modelo politico-económico vigente e…a paciência das gentes.
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NOTA: Mapas acima e por ordem de apresentação.
Mapa Europa 3.500AC, Mapa Europa ano 1000, Mapa Europa Século XXI

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

REGRESSO À INTERIORIDADE


A interioridade é um vasto campo povoado de flores húmidas e desconhecidas e que em si mesma contem o pressuposto daquilo a que chamamos verdade.
Habita-nos, como repositório silencioso de um leque infinito de caminhos em direcção a nós mesmos

As chagas da ignorância e do descuido, as máscaras sociais e o continuado e desconexo ruído exterior impedem-nos a vera entrada no mundo gerador do movimento ascensional.

Não posso julgar a interioridade a partir do que é exterior, impossível proceder à releitura da vida à luz do olhar que se move de fora para dentro.

Assim, ser que me escutas, contempla de novo e outra vez a árvore, a água corrente na ribeirinha, o olhar da criança perplexa. Não penses nada, não queiras coisa alguma, senão percepcionar com os sentidos de dentro a latência da vibração. Confia no que te é interior pois assim serás capaz de transpor os limites da ilusão e reinteriorizar as dimensões da alma.
Segue com fervor os impulsos que daí nasçam pois é fácil que se esvaiam na inércia.

Sente o sopro que passa, os sinuosos contornos do que aparentas desconhecer, empenha-te - corpo, alma, coração, tudo – na educação da subjectividade. Conduz, portanto, para fora aquilo que está dentro,  alheia ao julgamento alheio. Deste modo se nutre a consciência holística que volta a juntar o que o mundo dito real separou.

Regressa à casa que te é própria, rega num gesto amoroso os secretos jardins que alindam as tuas múltiplas caminhadas, permite-te a misteriosa claridade das estrelas,

Tudo isso é o que mais te desejo
Com amor.


domingo, 31 de agosto de 2014

A ÉTICA É UMA COISA A FINGIR ou COMO NOS TORNÁMOS COBRADORES DE BORLA AO SERVIÇO DO ESTADO

De repente é como se tivesse mudado de câmara. De ares, de tempo. Deixaram as coisas habituais de fazer sentido e quase nem me lembro de quem fui.
Parece que tudo deixou de obedecer a planos, o peso do aleatório cresce sem cessar e a incerteza inerente à vida, avivada e generalizada, propaga-se como doença contagiosa pelos meus dias. Os meus e os de toda a gente com quem partilho esta estada na Terra. Parece que tudo pode acontecer e que tudo, mesmo o aviltante, tem direito a ser legitimado.

A partir da última parte do século passado, as religiões e as ideologias começaram a desabar e, em seu lugar, tem-se vindo a instalar uma subterrânea incredulidade (e passividade) face à degeneração política, aos desequilíbrios económicos e sociais e aquele fundo cinzento e triste, resultado do desaparecimento gradual dos benefícios do estado social que tanto sangue, suor e lágrimas custou a muitos de nós e sobretudo aos que nos precederam.
A ética é uma coisa a fingir, um simulacro-engana-tolos, e a todas as prioridades se impõe a estatística e o cifrão.

Há dias recebi uma notificação registada informando-me de que uma renda que a minha empresa paga ao senhorio estava penhorada, que a empresa passava  a ser fiel depositária dos dinheiros a partir daí, tinha x dias para responder ou era considerada consentânea da situação contractual invocada e que tinha por conseguinte a obrigação de, no portal das finanças, procurar  a forma de liquidar o pagamento a favor da autoridade estatal. Decorria esta situação do facto de o meu senhorio não ter ainda pago as custas de um processo que contra si decorre.


Perturbada com tal mensagem, pus-me a pensar no total absurdo e imoralidade da mesma.
Em primeiro lugar, eu não sou nem desejo ser cobradora do estado (de algum modo, isto traz-me à memória outros tempos politicos, em que não se confiava  nem na própria sombra).
Em segundo lugar, não quero entrar, ainda por cima à força, na vida privada do meu senhorio, ficar a saber das suas dívidas pessoais, pois isso só a ele lhe diz respeito e faz parte da sua privacidade.
Depois, não tenho que ocupar a minha sobrecarregada cabeça nem gastar o meu precioso tempo a executar tarefas que cabem ao estado e pelas quais não sou paga. Pior ainda, posso vir a ser penalizada se não cumprir à letra e atempadamente com as instruções recebidas.

Desloquei-me, por consequência, a uma repartição de finanças a fim de apresentar o meu protesto. A funcionária que me atendeu deu duas vezes a volta à notificação e, com um olhar meio perdido, aconselhou-me a entregar ao meu contabilista para que resolvesse. Disse-lhe que era eu a responsável maxima da empresa e que queria compreender  o porquê de uma mensagem tão desconexa. Levou-me à chefe, amável e um pouco mais bem informada. Convidou-me a sentar e, virando o écran na minha direcção, localizou o assunto. Fiquei a saber que o meu senhorio não pagou o IMI das suas propriedades e que, como tal, está a decorrer um processo contra ele. Que este montante se refere às custas (o processo iniciou-se em Julho e estamos em Agosto!!) e que a empresa tem de tirar da renda o que ele não pagou e entregá-lo ao estado.
Reiterei o meu protesto, não me compete saber o que o meu senhorio paga ou deixa de pagar, muito menos ser cobradora à borla das suas dívidas. Olhar condescendente: “É a lei, minha senhora!”

Não, minha senhora, não é a lei, é a interpretação abusiva da mesma, é o aproveitamento da ignorância das pessoas, da passividade instalada, da nossa falta de tempo e de meios para nos queixarmos a instâncias mais altas, de lutarmos nos tribunais pelos nossos direitos, de exigirmos tribunais isentos e imparciais.

Como todos os outros cidadãos, e não obstante todos os meus protestos, também eu vou “cumprir”, porque estou tão metida na teia como todos os outros e não disponho de mais tempo e energia para lutar por uma alteração que jamais viria com a rapidez  desejada.

Mas deixo aqui o testemunho de que me sinto em traição aos meus princípios fundamentais e que sou cúmplice consciente  de comportamentos que abomino.
Contribuição frouxa, bem sei, para um problema magno e que alastra todos os dias. Tristemente, não me sinto capaz de fazer mais nada, de momento.













sexta-feira, 8 de agosto de 2014

PELO VALE DAS SOMBRAS


 Atravessamos o vale das sombras, eu e ele, de joelhos percorremos as veredas onde a vida já não corre e por onde chegaremos ao unico possível caminho enlutado do futuro.
Sei agora que já não há mais nada para salvar, a vida e a morte movem-se abraçadas e as trevas adensam-se.

Vão-se apagando todas as luzes  no teu cérebro de circuitos queimados, uma a uma esfumam-se, reminiscentes de poema moribundo, como campo de flores que tristemente chega ao fim.
A vida já não corre, o compasso de espera é um insuportável monumento ao absurdo, eu e tu ancorados na agonia do sem sentido.

Contudo, há que prosseguir. As horas soam num cântico mudo porque tudo é tão triste, sabias tantas coisas, alcançavas num ápice um sentido oculto da vida  e agoras perdes-te desnorteado, entre a patetice e a insanidade, viajante involuntário de um labirinto cuja existência determinaste com as tuas opções.
Os meus olhos seguem o rastro dos passos que não deste em prol da tua essência, os meus olhos-espelho de um gigantesco lago lacrimal, requiem de sonhos derrubados pela conspiração da vida que se não cumpriu.

Estou aqui, sou contigo, por opção. Poderia entregar-te a cuidados alheios, mas quem seria capaz de entender a súplica estrangulada, ambivalente, que o teu ser emite, a pedir vida e a pedir morte, numa agonia prolongada, onde conseguir o afecto das entranhas que o teu ser requer para uma pequena acalmia? Quem passaria a mão calorosa pela tua fronte transpirada, os olhos baços a recuarem para dentro de uma coisa que não sei definir mas que me amedronta?
Perante a desintegração, quisera ser muito mais mulher alquímica, atrair magicamente a vibração dos céus para o teu coração prostrado de inquietudes, restablecer a ordem nessa mente à beira do abismo, embarcar em mais uma das mil viagens que juntos fizemos durante a vida, mas desta vez  ao núcleo do teu ser essencial.  Suspeito, contudo, que esses são impulsos românticos, ancorados numa crença ultrapassada de varinhas mágicas e anjos salvadores.

Tudo quanto posso é acompanhar-te humildemente, aprendiza à força da minha própria imperfeição, da patética insuficiência do que consigo ser ante o terror dos precipícios que te assaltam. E sigo-te e amparo-te a sentir-me na perigosa linha da exaustão profunda, sem saber qual a cor da minha coragem e se é coragem, no final das contas.
Até que tudo se apague e te tranformes em cinza, húmus, depois em ramo, outra vez em flor efémera…

Quadro: Monserrat Gudiol 

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

O CONFLITO


Evitar conflitos tornou-se uma das minhas prioridades comportamentais.

Tenho uma personalidade forte e propensa a reacções emotivas, por isso foi necessário alcançar uma certa maturidade antes de integrar essa lição fundamental.

O potencial para o conflito parece ser, infelizmente, consubstancial à própria vida, pois em todos os caminhos se apresentam continuadamente escolhas entre situações antagónicas ou mesmo incompatíveis.  As mesmas podem ser exteriores aos indivíduos ou habitarem o seu interior de forma conflituosa, representando nesse caso a ocorrência de impulsos vários dentro do ser, numa oposição de forças cuja intensidade se equivale. Estes processos geram uma poderosa energia que é, frequentemente mal usada.
Sendo em princípio inevitável, torna-se urgente que aprendamos a gerir o conflito, enfrentando-o. Do sucesso ou do fracasso que obtenhamos nesse processo dependerá o futuro.  Dado que estamos a lidar com forças em tensão, olhar de frente um conflito implica a capacidade de compreender que as crenças pessoais são o cenário de fundo do mundo de cada um e que representam para o mesmo a verdade. E se exigimos que isso seja aceite no que nos diz respeito, é de esperar que o mesmo se aplique ao ser ou seres do outro lado da história.


Parece-me, pois, que a estratégia para a solução passa por um distanciamento inicial do turbilhão emotivo inerente aos processos conflituosos  e que deverá passar da nossa parte por uma tentativa honesta de identificação das emoções dos outros.

Avançar por etapas no caminho da solução é um aspecto fundamental.    Em primeiro lugar, considero da maior importância separar as pessoas do conflito,  e estabelecer o grau de prioridade dos diferentes aspectos do problema. Tentar compreender o que move o outro, que crenças estão subjacentes ao seu comportamento. Aquilo que nos parece a nós natural e inofensivo pode ser, para o outro, o botão que acciona o maior dos cataclismos internos. Por muito difícil que isso se apresente ante as nossas próprias emoções e as defesas que o ego inevitavelmente constrói, impõe-se que respeitemos o sentir do outro. Isso não significa estar de acordo, deve representar simplesmente a meia-ponte que cada um de nós tem o dever moral de lançar na busca da solução. Essa atitude de aceitação da diferença no outro, nutre a sua auto-estima o que, por sua vez, contribui para aplanar o caminho.

Esperar para ver e dar tempo ao tempo são etapas  a observar no conflito, em especial nas situações mais delicadas.

É que o conflito gera uma poderosa energia, a qual nos pode ser muito útil se não perdermos o auto-controle e procurarmos encontrar soluções criativas, saídas novas para um problema que em dado momento nos pareceu inultrapassável.

Em resumo, perante a ameaçadora energia do conflito, há que parar, deixar arrefecer a lava do desentendimento, saber escutar mais do que argumentar em defesa própria, evitar terminologia agressiva e, sobretudo, acreditar na capacidade própria para ajudar a construir o túnel de saída para a luz do reequilíbrio energético.



terça-feira, 17 de junho de 2014

DESCIDA AO ROSEIRAL



 Amparou-se trémulo no meu braço, um passinho curto atrás do outro, na tarde cansada dos calores do dia. Dissera que sim, que queria descer ao roseiral comigo, um quase sorriso a aflorar-lhe o rosto murcho, quando o convidei.
Cachos e cachos de belas rosas, semiqueimadas pelos altas temperaturas dos últimos dias, muita poda a realizar.

Ficou parado logo ao princípio da álea do jardim, estático e mudo, o olhar entre feroz e longínquo, aparentemente à escuta, à espera…

Fui falando, disse-lhe da história de cada roseira, as florações continuadas quase todo o ano, o entre grená e roxo daquela tão fragrante que mandei vir de Inglaterra.

E ele à escuta de alguma coisa, o corpo enfraquecido e magro a mal suster-se em pé, o meu cesto de verga com as rosas colhidas, a seus pés.

“Escuta este som…a paz…” disse, num murmúrio.



Escutei com ele, entre curiosa e inquieta, na tarde perfumada. Era o  zum zum das muitas abelhas, numa dança incessante sobre  um mar de lantanas brancas.

Aquele zunido de fundo reteve-o por muito tempo na mesma posição, como que desperto subitamente para qualquer coisa de fundamental, um som repetido que lhe resultava mântrico, estou certa.

Em cada ser vive um mistério único, potencilaidades e sonhos, forças e anti-forças que pouco sabemos manejar.

A memória esboroa-se-lhe, pouco retem já dos dias que passam, o processamento de dados é mínimo.

Mas a minha voz e o amor subjacente ao que lhe vou dizendo, lembram-lhe, sem que o saiba. o que parece ter esquecido. Tudo do domínio do sentir, sem raciocínios.

Aquele som…a paz…motivações  inesperadas para o ser que se apaga.
Insistiu em levar a minha cesta de rosas,  tão próprio dele esse gesto, e regressámos devagarinho.

Ainda estivemos parados frente ao salgueiro que os  filhos lhe ofereceram  num aniversário, meia dúzia de anos atrás.

Admirámos os longos braços da árvore chorona a beijar a terra, a sombra frondosa, o verde.
E o dia, que se apagava.

Quadro: Monserrat Gudiol


domingo, 25 de maio de 2014

A DOR DEBAIXO DO CHAPÉU


 Lá teve de ir.
Ao médico, (aonde nunca vai), dada a incontornável pressão das circunstâncias e dos familiares.

Foi de tarde, neste Maio de tempo inseguro, chuvas extemporâneas e até mesmo granizo, numa incongruência pegada, cachos de flores a brotarem por todo o lado.
Maria de São José chegou um pouco antes da hora, estavam ainda só dois ou três pacientes na sala de espera neutra e minimalista cuja única decoração era um girassol solitário colocado meio de esguelha numa jarra demasiado larga.
Sentou-se na poltrona mais próxima da porta, como se isso pudesse acelerar a sua saída do local, e viu de novo os emails no iPhone.
Era apenas uma consulta de rotina, tudo estaria certamente em ordem. A remissão acontecera quatro anos antes, de forma inexplicável para a medicina – sem quimio, radio, sem operações.
Às vezes abre-se dentro de nós um riso amplo e rasgado, uma janela de luz intensa e gloriosa na manhã clara do nosso contentamento, em claro desafio  às normas que nos passaram e à lógica e, como por encanto apresenta-se o inesperado, o místico cenário do milagre.
Assim acontecera com ela, alguns anos atrás, quando lhe fora diagnosticada a doença. Talvez que a São José nunca tenha acreditado que a tinha, nunca lhe tenha dado força, digamos que cantou sempre em vez de chorar e seguiu em frente. Pensava nisso agora, naquela sala de espera, sorria para dentro de qualquer coisa em si ao pensar que no próximo ano seria o ultimo check up. Livre, depois.

Entraram mais duas pessoas, um homem magro precocemente envelhecido que se afundou, solitário, num sofá junto à janela do outro lado da sala e a rapariga, jovem  e sorridente, que se sentou com uma postura elegante mas desafectada muito perto dela. Os olhos, de um verde claro e luminoso, sorriam-lhe.
Não deveria ter mais de vinte e tal anos. Alta e esbelta, vestia uns blue jeans muito apertadinhos, como agora se usa, e um casaquinho de linho rosa pálido com top a condizer. Sobre os cabelos alourados, presos atrás num mono, exibia um chapéuzinho delicioso, daqueles  que vemos nas lojas da moda e que nunca compramos pois, hoje em dia, chapéu parece só ser moda na passerelle.
A São José não conseguia tirar os olhos dele, do chapelinho. Ficava tão bem à jovem que, se ela se alheasse da indumentária, podia integrar aquele rosto e o respectivo chapéu num quadro do princípio do séculoXX, com laivos impressionistas.
A pequena sorria, dando-se certamente conta do fascínio da outra.
“Fica-lhe muito bem, tão bem que, se fosse a si, não o tirava nem para dormir” atreveu-se.
A jovem continuou a sorrir mas algo  indizível parecia ter estancado nela por momentos. A Maria de São José receou, por segundos, ter sido demasiado directa mas sentia-se à vontade, dada a dua idade, para fazer  comentários desta ordem. Além disso, desprendia-se da rapariga uma auréola de energia suave e amigável, muito cativante.
Contudo, mal sabia ela a implicação do que acabara de dizer.
“Olhe, seria realmente bom não ter de o tirar nunca…” disse, numa voz pausada e, de forma inesperada, com aquele jeito elegantemente simples que a seduzira logo, levou a mão ao chapéu,  retirou-o e virou-se lentamente de costas. Na parte superior da cabeça, uma área extensa e descoberta, onde apenas despontavam cabelos de tamanho mínimo, apresentava uma longa cicatriz.
Foram só uns segundos de silêncio, mas à São José pareceu-lhe uma eternidade até que a outra começasse a dizer alguma coisa.. Chamava-se Leonor e tinha sido operada recentemente a um tumor na cabeça. Maligno, veio a saber-se depois.

A espera pelas consultas foi longa, deu tempo para que os corações se abrissem um ao outro. Pequenas chispas de cumplicidade imperiosa cruzaram os ares, a São José sentia-se perplexa e maravilhada pela alegria de viver da Leonor, a sua aceitação serena do que lhe acontecera. Pois com a jovem não tinha havido nenhuma remissão espectacular e inexplicável, a vida não abrira  nenhuma janela transcendente para o milagre, como no seu caso. Mas fornecera-lhe um chapéu. Um chapéu elegante, rosa pálido, que lhe ficava a matar e sob o qual ela guardava o horrendo testemunho da sua dolorosa prova.
Leonor falou dos seus projectos, do noivo que se afastara por não conseguir lidar com a doença, da tese de doutoramento ainda inacabada sobre a emergência dos direitos das mulheres nos países em desenvolvimento. Ia visitar na semana seguinte a avó velhinha e levar-lhe de surpresa uma torta de ameixas em calda que aprendera a fazer com ela.

Estupefacta ante este amor à vida e aos outros, tendo tal espada de Dámocles sobre a cabeça, São José acarinhou Leonor dentro de si com o abraço mais cálido e penetrante de que se sentia capaz. Trocaram telefones, emails e combinaram encontrar-se em breve.

Tudo devido a uma dor maior, escondida debaixo de um chapéu francês, rosa pálido e coquette.