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domingo, 19 de outubro de 2014

O MEU PAI




Foto: Miguel Medalha
Desolada, busco alívio na palavra. Dentro de mim ressoam ecos de Mahler, como se uma fria correnteza de lágrimas silenciosas deslizasse, enfim, por uma rota paralela à dos chakras e redimisse a dor neles alojada.

Ante o conflito e o desencontro de almas obviamente próximas, quisera viajar com eficácia até aos confins dos tempos e compreender as razões do desalinhamento actual. Mas o que está oculto não se quer mostrar, é essa ainda a natureza da manifestação, a imagem aparece refractada nas vastas águas, repositório eterno das experiências da alma.



Álguém, na minha família, se ressentiu que eu tivesse mencionado numa das minhas crónicas que o meu pai escolheu partir desta vida, eufemismo para se ter suicidado, que foi a expressão que  então usei. Quedei atónita ante tal facto!

O meu pai não foi um ladrão, um assassino, um politico vigarista. E se o tivesse sido, continuaria a ser o meu pai e assumi-lo-ia como tal, pois não tive outro. O meu pai foi, na verdade, um homem bom e trabalhador, mas triste e atormentado pelas invisíveis sombras que sobre ele adejavam como abutres e lhe secavam a alegria, o viço e a força de viver. Escolheu partir quando tudo se lhe estilhaçava por dentro e a ignorância geral, oficial e implementada, não lhe pôde valer a não ser com uma etiqueta de esquizofrénico e fármacos que lhe adormeciam os sintomas, o que de nada lhe valeu.


Não compreendo por que eu teria de esconder isto.  O meu pai fez com a sua vida o que conseguiu fazer, faltaram-lhe as forças para a preservar. Isso não me envergonha. Doeu-me muito quando ocorreu há mais de quatro décadas e, durante muito tempo, ao caminhar pelas ruas, dava por mim a esperar encontrá-lo na próxima esquina. Mas sempre respeitei a sua decisão que me ensinou mais do que se possa pensar. Uma compaixão infinita pelas suas secretas dores inundou a minha alma e reforçou o meu apoio à Mãe-coragem que lhe sobreviveu.


Era belo o meu pai, ainda que sombrio e ausente. Complexado pelo que não havia conseguido alcançar na sua difícil vida num estado fascista, atormentado por uma sensibilidade exacerbada e ausência de orientação em como gerir a mesma. Não tinha paz interior, apesar da muralha de força que a sua mulher representava e dos quatro filhos saudáveis e inteligentes. Não sabia como, nem ninguém o conseguiu ajudar a dissipar as trevas que sobre ele se abateram.



Todos escolhemos, no fundo, o que fazer com as nossas vidas. O meu pai pôs fim à sua, na flor da idade, Eu, que herdei dele a fronte abaulada e o coração mole, opto por exorcisar pela palavra o que me vai dentro e tentar disciplinar o coração tenro para que a minha soberania pessoal seja respeitada, O meu parente prefere ostracizar-me, fazer-me desfeitas imperdoáveis, em jeito de “castigo”. Assumo a dor que isso me causa mas rejeito o “efeito castigo”. Nutri sempre por ele o mais profundo afecto mas, antes dele estou eu. Eu, mulher em busca da mulher integral dentro de mim, eu e a minha verdade possível, eu e a minha busca de clarificação, eu e a consciência de que somos o que vamos conseguindo ser, que ninguém é mais importante do que nós e que só ao nosso auto-cumprimento devemos explicações.

Apesar das lágrimas, apesar da vida que é breve e se escoa sem as manifestações de amor que seriam naturais e legítimas,  esse é o meu caminho e a minha opção.



Muito grata, pai, meu bom e partido pai, por tudo o que me ensinaste, aparentemente pela negativa.


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