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sábado, 28 de janeiro de 2012

QUASE

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além
Para atingir, faltou-me um golpe de asa ...
Se ao menos eu permanecesse aquém ...”
MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

Dormida ainda, acordo num abraço.

Nem consigo ver se já é dia, a névoa onírica enrola línguas de mel e vaguidão em volta do meu ser ido, quase vindo, a consciência é somente este amplexo firme, tingido de alegria, beijos enrolados uns nos outros viajam dos meus lábios para o coração, centro cantante, espuma amorosa, a magnificência de si…
Tudo, tudo ele abarca, o abraço mais abraço que alguma vez vivi. Pássaros meigos corroboram este passageiro estado que quisera eterno, correm imagens dos dias de antes, nem sempre me vejo já tão certa aqui ou pura ali, abraço-me, abraço-me porém, tudo cabe dentro do mesmo amor e só isso importa.


Dormida ainda, mas já a acordar. Para um sono outro, o da realidade. Do despertador e das coisas inadiáveis, da representação, papéis, do põe-máscara-tira-máscara, ora agora ganho eu ora agora ganhas tu (?!), enganosas notícias que querem dizer outra coisa distinta do que dizem, futuro incerto, fim do euro, desastres, miséria, presságio de calamidades a poluir os éteres como veneno - pó fino exposto à nortada…

Desperta já, agarro quanto posso a memória escorregadia desse abraço de amor total, todo envolvente, por via dele a manhã tornou-se de um azul anilado, iridiscente, a palavra tem novos poderes, sou o doce gigante dentro de mim a soltar os passáros da dor de sombrias gaiolas,

evaporam-se as tramas de superfície, nada ficará como parecia ser…


Desperta já, a um passo de mim mesma, coisa minima, suavíssimo golpe de asa, quase, quase…

sábado, 21 de janeiro de 2012

CORAÇÃO FLAMEJANTE versus ESTADOS FEBRIS


Há que estabelecer uma diferenciação entre o fogo do coração flamejante que promove o avanço do ser em direcção ao seu centro e os estados mentais febris experienciados por muita gente e os quais são facilmente confundidos com o primeiro.

O coração animado pelo Fogo assenta, em geral, em estruturas anímica e da persona equilibradas e não é motivado nem responde a estímulos de tipo sensacionalista, promissores de milagres imediatos ou de radical transformação das personas, de um momento para o outro. Cantar mantras, frequentar workshops de desenvolvimento pessoal, submeter-se a um sem número de terapias – o catálogo das disponíveis actualmente é impressionante! -, adorar e seguir cegamente um guru ou simplesmente trajar de monge tibetano ou com vestes alvas, só por si não produzem qualquer modificação qualitativa no ser humano. Contudo, é frequente depararmo-nos com pessoas inflamadas por uma “febre de espiritualidade” ligada a um ou mais dos factores anteriormente apontados.

Fundei há anos uma livraria especializada nestas matérias ditas do espírito e, no contacto com o público, fui-me dando conta da frenética apetência de grande parte dos frequentadores para entrar em estados de lamentável excitabilidade, os quais derivavam facilmente para um sentimento de superioridade em relação aos outros comuns mortais por “não serem nada espirituais”.

A atracção do atalho para encurtar a rota funciona neste caso da forma ilusória que lhe é própria e por demais conhecida dos seres que trabalham seriamente na sua evolução. Não há como não percorrer o caminho inteiro, com todos os seus obstáculos e testes, não há como não lidar com a sombra, só o posicionamento humilde e persistente no trabalho da consciência nos permite passar os estreitos portais para o Conhecimento e para a Luz.

Na dita livraria, vi-me a braços muitas vezes com a embaraçosa situação de ser questionada sobre as minhas “habilidades paranormais”. O meu protesto no sentido de ser uma pessoa completamente normal, não detentora de capacidades mágicas de cura ou do “abre-chakra, fecha-chakra”, muito em voga, era quase sempre rejeitado por parte dos interlocutores com um olhar misterioso de entendimento cúmplice e secreto a que se seguia num múrmurio, “Compreendo, não pode falar…”.



Pois falar, escrever, é aquilo que posso realmente fazer. Assim, sem pretensões a ser quem não sou, o que não sou.

Ando por aqui, às apalpadelas como os outros, agarrada às palavras a ver se me descubro mais, se me oriento no caminho para o centro, se me não distraio de mim e daquilo a que vim.

A ver se o Fogo se acende de forma permanente e o Coração Flamejante abre as asas ígneas e me permite o Voo!

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

LUXO


Sempre escolhi o luxo e tenciono continuar a fazê-lo!



Eis uma frase politicamente incorrecta e que pode atrair todo um chorrilho de críticas e até ofensas por parte de quem a ouve num mundo como aquele em que vivemos, ensombrado por vastas áreas de miséria e sofrimento e em que a esmagadora maioria vive abaixo de níveis suportáveis de pobreza.

Será por isso importante que eu aclare algo que muitos já esqueceram e que está na raiz da minha afirmação.



No coração da palavra “luxo” vive o seu étimo latino, Lux, o qual como é sabido, significa Luz. Assim, escolher o luxo é, para mim, trazer luz a todas as áreas da vida, tingir de luminosidade aquilo que, de outro modo, se apresentaria neutro ou mesmo ensombrado.

Luxo é escolher a beleza em todos os cenários em que me movimento. A beleza está à nossa disposição por toda a parte pois vivemos num planeta essencialmente belo. A escritora açoriana Aldegice Machado da Rosa escreveu um dia que nunca compreendeu por que é que a chita tem de ter padrões feios, se custa exactamente o mesmo fazê-los bonitos.

Luxo é buscar o conhecimento por todos os meios ao meu alcance, ser capaz de escolher as  melhores fontes, utilizar as novas tecnologias de forma maximizada para esse fim, comprar os livros desejados, ter tempo para escrever o que a minha alma me pede.

           Luxo é sentir o amor dos que me cercam, dispor de tempo para fazer programas com os meus netos, sentar-me na biblioteca com o mais velho e passar-lhe versões adaptadas à sua idade  do pouco que vou sabendo.

Luxo foi a opção quando, ainda muito jovem, não abdiquei de ter flores e velas no meu pequeno apartamento em detrimento de refeições completas, a certa altura do mês.

Luxo é poder receber  hoje na minha casa a minha mãe velhinha e impotente perante a doença e a idade avançada e proporcionar-lhe afecto, conforto, cuidados de saúde, uma antecâmara luminosa para a partida desta dimensão.

Luxo é ter alguns poucos amigos de espírito afim e com eles partilhar a jornada, luxo é conseguir dividir os meios próprios com quem mais precisa e não me sentir defraudada ou diminuída de recursos.

Luxo é não reter, é optar por utilizar as melhores porcelanas no dia a dia, encher a casa de flores, é ter um jardim, uma horta e cuidá-los com amor.

Luxo é ser mãe de filhos que me amam verdadeiramente e me respeitam, ser avó de netos com quem se esboça uma relação gratificante e fundada na alegria e celebração da vida.

Luxo é colocar no meu corpo os trajes que ele pede, independentemente de modas ou da opinião alheia, para assim melhor me poder manifestar.

Luxo é considerar que uma determinada obra de arte  que me toca particularmente e que está nas minhas mãos há-de atrair a casa certa para eu morar e isso acontecer.

Luxo é buscar-me a mim mesma e viajar na barca da determinação e da humildade para o meu centro, não obstante as distracções.



Luxo é luz para o meu ser e para o que me rodeia e não tem para mim a conotação de sumptuosidade excessiva, culto do supérfluo caro e símbolo de “status” com que o comércio e a sociedade tingiram a palavra.  A humanidade actual tende a esquecer a origem das coisas, fixa-se no que lhe é hoje apresentado como facto consumado e tal processo não pode servir a evolução pois esta só ocorre de forma sustentável se correctamente informada.



Luxo é também poder escrever sobre este tema e ter-te aí do outro lado como receptor e, espero, critico construtivo.



Quadro: CATRIN WELZ-STEIN


quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

SER RICO


“When I was young I thought that money was the most important thing in life;
now that I am old I know that it is.”
OSCAR WILDE

Ser rico é, antes de mais, sentir-se rico!

Para que nos sintamos ricos não chega ter uma conta bancária choruda, ser proprietário, herdeiro afortunado ou ganhar o euromilhões. O dinheiro e os bens materiais são apenas uma das possíveis manifestações de riqueza e aqueles podem ou não estar alicerçados na consciência da riqueza. No mundo em que vivemos, muita da riqueza material assim identificada advem da exploração do ser humano por outro ser humano, portanto resulta de se ir no encalço do ganho e do lucro a qualquer custo o que a torna, a meu ver, a sombra da riqueza legítima.

Ser rico começa sempre por uma atitude interior face à vida. Ou bem que já se nasce assim ou é indispensável passar por uma depuração interior de enormes proporções para que o ser se livre da turbulência do diálogo interior entre preocupações com dinheiro, medos do desconhecido, fantasiosos cenários apocalípticos e toda uma panóplia de etiquetas, definições, análies e julgamentos que afastam o ser de si mesmo, do seu centro, enfraquecem o seu vigor existencial o qual irradia, por definição, desse bloco puro de potencial e diversidade que cada um de nós representa em última instância.
Sentir-se rico é, antes de mais, viver num estado de friendliness – nunca consegui encontrar noutra língua uma palavra que traduzisse esta de forma adequada – em relação a tudo e a todos. Isto nada tem a ver com certas atitudes fabricadas de “amor incondicional”, muito em voga hoje em dia pela sua conotação espiritual. É um estado de serena graça, de tranquila aceitação da vida tal como ela se apresenta.

Sentir-se rico radica, antes de mais, numa atitude interior expontânea, não pensada, na qual figura um sorriso da alma ante a vida que nos cerca, a beleza do universo, o calor do pouco ou muito afecto de que somos alvo, as oportunidades que se nos apresentam, o pão nosso de cada dia, as experiências difíceis que nos ensinam caminhos mais correctos e a compaixão infinita pelo sofrimento alheio.

Muito está implícito nesta percepção da vida, acima de tudo a Gratidão, uma das forças mais poderosas do universo criativo pois amplia de forma significativa as dádivas que aquele que a experimenta já recebeu. A pessoa que alcançou este estado não permite que a sua força e empenho se debilitem com lixos energéticos. Não consome o seu tempo com observações obsessivas ou pensamentos sombrios. Aprendeu a “passar adiante” dos espectros da desgraça e do falhanço. Sabe que o seu  ser é parte de um todo interactivo e que a qualidade dos seus pensamentos determina as características das produções e dos acontecimentos que se vão apresentando no caminho.
Isto já não tem de ser uma mera questão de fé. O avanço nas teorias dos campos quânticos permitem-nos compreender de forma mais racional como somos deuses criadores do nosso próprio destino. Sabe-se hoje, por exemplo, que as mais ínfimas partículas constituintes da matéria representam flutuações de energia e informação no vácuo quântico onde parece nada haver mas que contem afinal campos electromagnéticos e gravitacionais e partículas de força interagindo entre si. Isto aponta para que a matéria-prima do universo seja imaterial, isto é, uma “não-substância” inteligente e pensante que responde aos impulsos que lhe imprimimos.
Há, por conseguinte, por detrás do cenário tangível da chamada realidade, um vácuo criativo que orquestra a nossa vida através do nosso próprio, e quase sempre inconsciente, comando.
O caminho para a verdadeira Riqueza está inexoravelmente ligado à nossa capacidade de nos ligarmos à inteligência do Universo. Essa rota estabelece-se a partir do puro estado de friendliness acima referido, na aceitação do fluir da vida, na dádiva aos outros e regozijo pelo seu bem e fortuna, na gratidão e comunicação clara, na redistribuição dos meios, na busca empenhada de conhecimento, na integração dos opostos a qual anula o julgamento, nos mistérios do silêncio e na transcendência ao ousar interiormente ser/estar para além de qualquer limite.  Faz-se no caminho para o centro do ser onde reside o poder conducente aos horizontes sonhados e àqueles que nem sequer sonhamos que podemos sonhar.


Cabe a cada um “fazer caminho ao andar” e nada é tão simples como pode parecer pelo texto acima.  O que posso garantir é que apesar dos meus altos e baixos e  passos erráticos, acabo sempre por me ver surpreendida pelos milagres da vida. Indícios da minha riqueza, atrevo-me a sugerir…

sábado, 14 de janeiro de 2012

ORA PRO NOBIS



Sair do óbvio, da repetição conhecida. Cortar as amarras, seguir com fé o estremecimento que me faz abrir os olhos para outra coisa dentro de mim, escalar a montanha interna segura apenas no levíssimo alento de uma esperança de ser, sair, sair da história antiga e previsível, entregar-me aos braços amantes de uma vindoura Eu, que sou Eu sem o ser mais…

Atravessar a ponte levadiça na hora última, que a vida é breve e o sonho elusivo, desfazer a crusta das ilusões hirtas dentro de mim, sair, sair para os inexplorados espaços interiores onde habita o canto desconhecido, sair para a entrada, para o acesso ao centro.

Largar os compassos de espera do amanhã pois o amanhã é hoje, aqui, no momento em que respiro pausadamente na rota da evolução. Sair, sair da Estrada conhecida, calcorreada há tantas vidas de desgaste e dor. Sair do sufoco, do sofrimento, gerar sem dor essa flor vibrante e fresca que é o meu caminho.

Abrir espaço para o Fogo dinâmico do avanço, o Pensamento claro e organizado, a Inteligência do Corpo e a inefável capacidade de Sonhar.

Integrar os opostos na sua metamorfose ao centro pois passou o tempo de alimentarmos o que nos desintegra.

Querer, querer esculpir a Vida a partir da Alma, vislumbrar as jóias do Divino,  cultivar a Beleza, deixar um luminoso rastro à passagem…



Assim eu oro. Por mim, por ti, pelo “nós” que quer saltar da roda antiga, que nos sabe para além do que aparentemente somos e da nota que o mundo nos atribui.

Ora pro nobis!

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

PORTUGUÊS DE PORTUGAL, DO MUNDO



Ah, a língua! A língua, o poderoso fluxo que dá voz à  minha alma,  matéria-prima dos poetas,  voz do amor e da saudade derramada no papel, espírito vivo de séculos de marcha e experiências de um povo banhado pelo mar salgado…

Querem-te à força uniformizar, dar-te contornos incoerentes, desligados, cortar-te as asas poéticas – por obsoletas, dizem – querem que eu seja “espetadora” do mais degradante espectáculo (passe o pleonasmo, que o não chega a ser pois falta o “c” no sujeito), querem-te igual aos que te escrevem sem te saberem originalmente, só porque são muitos, muitos mais que nós e se expressam lá tão longe do teu solo pátrio…

Querem-te simplificada, sem adornos de acentos, igual em todo o lado, ininteligível para quem te estudou e absorveu com o amor ao sangue próprio, querem-te feia e minimalista, os meses a perderem a sua maiúscula e eu sem saber se ato ou desato?!

Mas quem, quem avalizou este crime? Quem assinou aquilo que coage artificialmente a voz escrita de um povo a tornar-se de um momento para o outro aquilo que não é e que não quer ser, quem são os que me ignoram e a ti e ao outro, indiferentes aos nossos gritos de angústia e protesto? Quem lhes deu poder, encomendou o sermão, por que é que eles avançam apesar dos movimentos contrários, petições, luto na alma?

Não passarão, prometo-te, Língua-mãe, Pátria de Pessoa, Camões, Natália, Pátria  minha, Shambala da nossa transcendência, colo dos meus sonhos, Voz inigualável de uma missão por cumprir!

Bela e ancestral, mulher e ventre, fértil seiva que as almas trabalham há tantos séculos, prometo-te respeito e obediência ao teu fluir natural que é feito de tantas coisas subestimadas pelos interesses  políticos e comerciais…

Mar e terra, voz do vento, pássaros do dia e da noite, dor e poesia, o indizível que baila nos olhos do navegador e do camponês, cheiros, fome, sede e luar aceso sobre os montes do sul em noites de lua cheia, cantos desgarrados, vozes antigas, deslembradas, a memória e o sonho de quem quer ser…

Ninguém me arrancará de ti, escutarei atenta o bater do teu coração sobressaltado e nele hei-de verter sempre, com amor e devoção, as produções da minha alma.

sábado, 7 de janeiro de 2012

DA BANALIZAÇÃO DA DEUSA


Estou farta da Deusa! Desculpem-me pelo desabafo, Mulheres & Deusas, mas o meu compromisso com a minha escrita é o de um esforço de verdade e tenho de a expressar em conivência com a minha alma,  como puder e o melhor que eu saiba.

Estou farta de ouvir as mulheres se assumirem como deusas, embarcarem em folclóricas invocações, representarem a Mãe Primordial com longos cabelos, olhos azuis e vestes diáfanas, estou cansada de ver atribuir-lhe a responsabilidade de qualquer trivia com um arrogante “Foi a Deusa em mim, no meu coração!”
A este nível  aconteceu à Deusa o que há muito se passou com a palavra Amor: de tão utilizada, a propósito de tudo e de nada, caiu na vala da banalização.

Creio que seria de alguma utilidade tentar definir a palavra “Deusa”, de modo a que possamos acercar-nos mais à sua verdadeira energia.
Há um par de anos, uma amiga próxima contou-me que, num raro encontro com seres das Pleiades, havia sido informada de que ela, noutros universos, era/havia sido deusa. Contou-me a minha amiga que ficou perplexa e confundida com esta informação até que os Pleiadianos lhe explicaram que o ser deusa, nesses níveis vibratorios, se refere simplesmente a um nível de Consciência mais elevado, sem qualquer conotação com as mitologias e crenças da Terra e, sobretudo, sem conceito de hierarquia.
Tocou-me profundamente esta informação pois, no meu coração, eu sempre soube que devia andar por aí.

A deusa não é alguém exterior a nós, não está sentada num trono, não viaja pelos espaços siderais, não abençoa umas e condena outras. Sentir a Deusa em nós deverá corresponder a um estado vibratório cujo poder advenha de uma consciência mais expandida pelos infinitos mundos da Compaixão, Sabedoria, Intuição, Paz Interior e Auto-determinação. Estados que , infelizmente, ainda não são permanentes na maioria de todas nós. Mais a mais, muitas mulheres nem sequer iniciaram o inadiável trabalho com a sua consciência psicológica, base indispensável para a evolução pessoal.

Deusa é uma palavra de ouro!  Há que preservá-la como tal e dar-lhe utilização com a cautela necessária para que não dê origem a mais simulacros dos que já empestam os ares da nossa manifestação na Terra.
Embora eu, enquanto ser encarnado no planeta,  seja profundamente ritualística, aprecie sobremaneira a mitologia e o simbolismo, repugna-me contudo a confusão e falta de discernimento em que se cai. Vejo “deusas” que se degladiam e se traem umas às outras, “deusas” cuja mobilidade de afectos e de propósitos é no mínimo surpreendente, “deusas” que julgam com dureza a imperfeição alheia inconscientes da própria, “deusas” que esquecem rapidamente os seus votos de irmandade com as outras “deusas”, logo que um deus qualquer aparece no horizonte.
Vejo tantas coisas e tão tristes que, com frequência, me prefiro voltar para quem ainda não entrou conscientemente nestes domínios e concentrar-me nos actos despretensiosos do dia a dia. Como podar as roseiras, antecipando agradecida a beleza com que me hão-de presentear na Primavera ou embalar a minha Mãe velhinha nos meus braços feitos Amor e Desvelos.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

DEIXAR DESCER O ESPLENDOR



CARTA A UMA AMIGA QUE PARECE DOENTE



Tinha-me esquecido, minha querida, de como é luminosa a comunicação entre nós. Gostei tanto, mas tanto de te rever e de retomar sem qualquer dificuldade a nossa conversa de há décadas. Já temos cabelos brancos (eu mais do que tu) e, ontem, aquilo pareceu-me uma espécie de reencontro numa nova encarnação, pois sendo as mesmas, estamos ambas tão mais amadurecidas.


Evitavas falar de ti – sempre o fizeste toda a vida – e talvez isso nos forneça a pista principal para o que se passa contigo . Sempre te dividiste e subdividiste para atender às necessidades da tua tribo, de algum modo deixaste que o consenso familiar, tribal insisto, se sobrepusesse à oportunidade de SERES quem és aí dentro, mente ágil percepção aguda, a leveza de uma doçura profunda  e pouco assumida nesse austero auto-tratamento que te impões

Nada de que eu nalgum grau não tenha padecido também (ou padeça ainda),  daí ser fácil identificar a história.

Com alguma dificuldade, lá te arranquei a descrição dos sintomas, o incómodo torturante que te acompanha todos os dias e deixaste transparecer, da forma discreta que é a tua, a inquietude face ao desconhecido – os medicos não sabem o que é, têm de continuar a fazer exames, os medicos não prestam, fazem-te perder tempo, há que encontrar novos, etc, etc (onde é que eu já ouvi isto?) – um desconhecido que, pior que a morte, pode representar a incapacitação.

Quero dizer-te uma coisa, minha amiga antiga, sem qualquer presunção mas bem convicta do que digo porque o sinto na  alma: não estás doente! Ou por outra, pareces estar, mas é tão óbvia a ligação desses sintomas com as armadilhas em que caíste na vida que me parece que  se te fores libertando delas, na medida do possível, a tua condição regredirá. Sugiro que comeces por pequenos passos, balões de oxigénio para o teu ser exausto. Fala a fome com a vontade de comer, bem sei, mas eu já enveredei em parte por esse caminho e sinto-me cada vez mais centrada em mim mesma, portanto melhor.
Como te disse, o André Louro de Almeida lembrou, numa conferência recente, que a mais importante receita de cura para os males físicos e emocionais reside na capacidade de DEIXAR DESCER O ESPLENDOR em cada um de nós. A memória desse esplendor, embora encoberta pelos mil véus do olvido, habita no centro do nosso coração dourado e é aí que a devemos buscar.

És uma mulher excepcional e, por conseguinte, podes atrair para ti todas as excepções às regras normóticas.

Envolta no mais caloroso abraço, deixo-te aqui a minha crença em ti e na tua capacidade de tomares as rédeas do teu destino e desafiares o provável.

Pouco a pouco, quase subversivamente...tal como a vida acontece a todos nós, em geral.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

UMA QUESTÃO DE CONSCIÊNCIA


 “Como figura internacional tenho a mesma eleição que a revista TIME: o protesto, precisamente porque ele vem nos antípodas do que eu acho que está a passar-se em Portugal, que é a diminuição intelectual de todos nós. [...] Quando o ministro Relvas [...] toma decisões unilaterais sobre coisas tão importantes como o serviço público sem que haja um único protesto cívico [...] isto é o fim da democracia [...]. É a aceitação de tudo; “nós já tomamos a decisão por vocês”. Ora isto cheira-me a quê? Eu já vivi no sistema antigo em que as pessoas tomavam a decisão por mim e me diziam o que é que eu devia fazer; nisto sou mais liberal que o Governo. E portanto, o protesto é para mim muito importante: Occupy Wall Street, o protesto árabe, totalmente inesperado [...]. E como quem já leu história, quem continua a ler história, coisa que estes governantes não fizeram, sabem que o inesperado acontece. E mais: sabem que quem comanda a História, de um modo kitsch ou não, como dizia o Kundera, são as massas, e o mundo vai mudar.”

Clara Ferreira Alves no Eixo do Mal, SIC Notícias (25/12/2011)


Estou em muito de acordo com Clara Ferreira Alves.  Mas acho que há muitas coisas que comandam a história. Depende do local onde a história acontece. Depende do povo a quem ela acontece. Depende sempre e sobretudo do grau de desespero económico a que os povos chegam.

De facto,  este governo tem uma escassa margem de manobra. Pequena economia satélite, há muito gerida pela histórica incompetência dos seus governantes e a inércia dos governados, a Lusitana Pátria perdeu tudo quanto possa cheirar a soberania, intervencionada por gigantes que não estão aqui a fazer caridade e que dão as ordens mais conducentes à boa saúde dos seus empréstimos. A Lusitana Pátria parece destinada a um futuro sem esperança, sobretudo, atrevo-me a dizer, pela falta de consciência e de coragem do seu povo. Refiro-me é claro à consciência de quem se é, donde se vem e do potencial de transformação da realidade quando nos atrevemos a lançar um olhar renovado e objectivo sobre o que nos acontece, as razões porque acontece e a forma como estamos ou não equipados para reconduzir Portugal ao trilho do seu verdadeiro destino.
Isto pressupõe que as pessoas conheçam a sua história passada, tenham mergulhado nos seus mitos e tradições, saibam identificar e  reconhecer correctamente as falhas do passado e trabalhem todos os dias  no reconhecimento da alma secreta do seu berço, a entidade a que chamamos o nosso país. 

As raízes espirituais de um povo e o seu imaginário fornecem pistas valiosas para a salvação. Tal como em épocas intensas  de  dor e dificuldades, a pessoa humana tende a refugiar-se na família, se amorosa e compassiva e de genes afins, também um povo em crise deve buscar nas suas fundações, nos sinais indicadores do seu destino espiritual, a orientação necessária para recuperar o equilíbrio e a harmonia.
Portugal tem vivido desde há muito claramente apartado do seu espírito maior. Esquecido de que é essencialmente místico e rural, navegador e poeta, o país tem tentado ser antes estrangeiro, quem diz americano diz europeu, depende das épocas, Portugal fixou-se no Ter (ter casa, ter carro, ter férias em Havana ou Londres, ter mais e melhor) quando Portugal é um Ente do SER.

Não sei o que vai acontecer, porque não tenho bola de cristal e mais a mais o futuro é um plasma em constante movimentação. É previsível que haja mais greves, revoltas, mais violência e dor. Tudo em vão, nada valerá a pena pois passou o tempo histórico (e cósmico) em que isso podia levar à melhoria das condições de vida dos povos.
O tempo é outro, pede-nos medidas que surjam da nossa interioridade, que façam sentido à luz de quem somos intrinsecamente. Pede-nos recolhimento e readaptação à terra e ao mar e a consciência de que a estatura de um povo mede-se pelo seu canto, nunca pela capacidade de ter.

As vozes de Camões, Natália, Pessoa, Sophia, Jorge de Sena, Florbela e Alegre entre tantos outros, ecoam na minha alma e chamam-me à obra.
A minha, sobretudo pela palavra.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

MUNDOS PARALELOS


Diz-se que outras eu vivem, em mundos paralelos,  desenvolvimentos diferentes da minha história.
Outras eu sofrem na pele o que me foi poupado, conhecem alegrias que eu não toco, derramam no papel as palavras para que não tenho tempo, comem o pão que o diabo amassou, amam são amadas corpo alma tudo.
Simultâneas, concomitantes, complementares, alheias, partes de um todo, vivemos  em paralelo e à revelia umas das outras, misteriosos pedaços de um só ente plasmado no coração do universo.
Talvez que as outras eu sejam só a fantasia de mim mesma, como eu delas o sou, todas apostadas num esclarecimento que não chega e na libertação.
Se nos encontrássemos todas, cada uma acorrentada ao seu rosário de chagas e imperfeições, cada uma prisioneira do seu choro soberana do seu canto, se essa convergência de mundos ocorresse talvez pudessemos por fim vislumbrar a verdadeira face da Deusa e relembrar quem em verdade somos e ao que vimos, nesta parte do todo por onde hoje navegamos.

Diz-se que ninguém vive sózinho. Coexistimos  uns com os outros aqui, com as almas afins e com as outras, mas sobretudo com as alternativas partes de nós mesmos, que noutros mundos vivem o nosso inviável de hoje, exploram os caminhos que se nos fecharam aqui ou registam pela dor os contornos da sombra que escolhemos ignorar.
Coexistimos na saudade do ser inteiro para o qual as personas são só máscaras,  efémeros instrumentos de afirmação de um ego em geral doente, preso da absurda ilusão da superioridade.
Relembrar, trazer de volta os acessos, reconstruir as pontes com o invisível, saber, mas saber deveras, que  percepcionar a vida apenas pelos cinco sentidos nos arredou há milhares de anos de quem verdadeiramente somos.