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sábado, 26 de março de 2016

JASMIM



Partiu, há um par de dias, essa alma amiga da minha. 
Uma alma com fragrância de jasmim.
Partiu de noite, sob a luz feiticeira de uma generosa lua cheia, de olhos postos nos olhos que a amavam e que a encheram de desvelos e de alívios até ao último suspiro.
Abriu-se a porta para o jardim enluarado e a fragrância fecundou livremente os ares com a sua beleza balsâmica, liberta por fim do sofrimento atroz.

Acorri a abraçar com a minha alma aquele cujos olhos amavam o jasmim. A minha alma que chorou a partida prematura dessa flor perfumada que muito amava a vida que não pôde prosseguir, mas que também derrama lágrimas muito sentidas pelo doloroso vazio que sentiu no coração daquele que tanto amava o jasmim.

Jazia ela na  longa veste turquesa, como misteriosa fada celta, coroada de flores, adormecida sobre o ataúde, o rosto sereno, a alma já em voo livre para o Esplendor.
Recordei como, há muitos anos, aquele que amava o jasmim, enamorado e feliz com a companheira, me confidenciou a apreensão de não saber se o  Universo lhe retiraria aquele ser algum dia...
A última vez que a vi foi na casa idílica que o amor de ambos construiu. E era tal a vitalidade, o olhar encantatório sobre o mundo em redor que se desprendia da alma com fragrância de jasmim que, apesar de a saber muito doente, me interroguei sobre se não conseguiria vencer a onda maligna que a invadira. 

A manifestação tem, contudo, desígnios algo indecifráveis para nós. 
A alma com perfume de jasmim acabou por partir, mas deixou na daquele que a amava a marca indelével da sua alegria de viver, do seu amor por ele e pelos mistérios do natural e do maravilhoso. Viveram ambos o toque de um mundo ainda inacessível para a maioria.


Amor é perfume inextinguível, o único  verdadeiro perfume da Vida.
Amor tem toque de jasmim.

terça-feira, 22 de março de 2016

REINVENTAR A VIDA

Faz-se o que se pode. Faz-se o pouco que se sabe para ganhar a vida e justificar a existência. Dão-nos um título, uma designação e encostamo-nos ao espaldar de um estatuto, aproveitam-se ou não as oportunidades, nasce-se com uma estrela na testa ou desafortunado ou nem uma coisa nem outra. E o epitáfio, a existir, diz sempre eterna saudade, sentida homenagem. A seguir, os poucos que nos lembram, vão-se também. Sem memória, não existimos. Fim.

À medida que os anos passam, a reflexão acima toma mais e mais conta de nós e os contos de outrora deixam de fazer sentido. O ser, em processo de envelhecimento físico, precisa de novos mitos para se aguentar sem que o bafo da depressão o contamine.  Os mitos da continuidade para além de, da permanência apesar de, da eternidade sob outra forma, vibração. Ou simplesmente os do aqui e agora, do eterno presente como únicas verdades absolutas e válidas.
Habituámo-nos à vida neste patamar de manifestação, por muito difícil e desregulada que ela se apresente, e ninguém regra geral quer partir. O que está mal há de melhorar, o que foi bom há de voltar. Esperança, esperança, sempre esperança no dia vindouro, na produção que ainda  acontecerá, na felicidade que escapou por um triz, não foi culpa de ninguém, quando muito do próprio.



Encontramos forma de prosseguir. Sem se perceber como, muito menos porquê, lá continuamos inseridos no filme da nossa vida de umas dezenas de anos, quando muito, a vida que havíamos sentido, inconscientemente durante tanto tempo, como inacabável. Foi esta última a crença responsável por decisões desastrosas, pelo grande pecado, talvez o único, de não nos termos aplicado a escutar com maior empenho a voz daquilo a que chamamos alma, interioridade. Começaram aí todos os desvios e embrenhámo-nos em papéis vários, redundantes da nossa cegueira, insuficiência, engano dos sentidos, ilusão.

Há saída para este estado de coisas? Penso que sim, sinto que sim. Mas não como a nossa consciência limitada nos indica.

Vamos ter de nos resignar à transitoriedade da existência, mas não sem antes termos  interiorizado a importância relativa de cada um dos nossos sonhos e passos, paradoxalmente fundamentais na contribuição que aportam à construção colectiva, à transformação do obsoleto e do caduco. E, humildemente, tornarmo-nos conscientes do  muito pouco que sabemos, da forma distorcida, mil vezes reformulada como o vamos sabendo, dos mitos que inventamos para nos aguentarmos, do tempo sem tempo em que fluímos, passantes incautos.

quinta-feira, 10 de março de 2016

O FENÓMENO MARCELO

Não consegui resistir à tentação de escrever sobre o novo Presidente da República. Ainda agora foi empossado e já fez correr muita tinta. Vou, assim, repetir muitas coisas já ditas anteriormente.

Marcelo é brilhante, inteligente, simpático, bem parecido, de uma informalidade elegante e que nos cativa. Marcelo é trabalhador, estudioso,  pragmático, culto e bem falante, responsável, delicado, atencioso, cheio de afecto. A Marcelo não são conhecidos desvios nem falhas de conduta no que se refere às finanças, nunca esteve envolvido nos escândalos que hoje são, infelizmente, a ordem do dia. O mais importante será, porém, o facto de Marcelo quebrar com o que tem sido até agora a norma comportamental dos Presidentes da República Portuguesa.

Marcelo é, em suma, excepcional e a sua ascensão ao importantíssimo cargo que passou a ocupar apresenta-se até inesperada num país como o nosso, ainda tão emperrado por afectações e preconceitos.

Após este primeiro dia, o da investidura, o país está rendido ao personagem e, perigosamente, espera-se dele o impossível: que salve a Pátria, a cultura, as tradições tão castigadas pela globalização; que sare as feridas todas, que una as pessoas, os partidos e que passemos a ser uma democracia exemplar. Que nos salve do odioso AO90, reabrindo o debate, que ponha o país a trabalhar a sério e com gosto, mas também a cantar, ao dar prioridade ao político sobre o económico. Que realize, nem que seja só no nosso belo rectângulo à beira-mar plantado, o seu sonho ecuménico de juntar todas as religiões – e começou no tom certo com o encontro inter-religioso na Mesquita de Lisboa, ocasião em que representantes de dezassete religiões rezaram em conjunto, algo inédito e sem precedentes.



Marcelo é o “homem certo no lugar certo no momento certo”.
Pois, isso já eu sabia, razão porque votei nele. Mas ser a pessoa desejável para o mais alto cargo da Nação num dos momentos mais incertos da sua história, não faz dele um deus. Por mais diferenciado que Marcelo se nos apresente e maior seja a sua capacidade para, entre outras coisas, ajudar a restaurar a autoestima dos portugueses, tão abalada pela evolução histórica nas últimas décadas, ele continua a ser apenas uma pessoa muito empenhada na missão que se propôs e ao serviço da qual vai utilizar toda a sua capacidade e experiência política, mas com as problemáticas inerentes à sua condição de ser humano.
Prevejo que, a falhar em algo, falhará pouco e raramente. Mas como sempre desconfiei da adoração humana, adianto que esperar tanto  dele é embarcar  na habitual projecção mítica que só pode conduzir à desilusão. A vida é muito complexa, na nossa percepção abarcamos apenas a dimensão tangível e convém manter a postura humilde de que há mais coisas entre o Céu e a Terra do que aquilo que os nossos olhos vêm.

O mundo está em aceleradíssima mudança e, como disse o Poeta na hora derradeira, I know not what tomorrow will bring.

Marcelo chegou e que os céus abençoem a sua caminhada, nos próximos dez anos, pois não tenho dúvida que será reeleito. Marcelo é solar e plurifacetado, abrangente e sedutor e poderá reacender a luz da esperança na recuperação da nossa identidade. Mas deixemos espaço à sua humanidade e não o sobrecarreguemos com o egregor das nossas expectativas, naturalmente inflacionadas pelo desencanto em que temos vivido.

Por último, Marcelo diz (e diz bem) que  a nossa é uma república e não uma monarquia e que, por tal motivo, vai separar completamente a sua vida pessoal da profissional.

Confesso que me surpreendeu nele esta separação ultra-rígida. Se eu fosse filha, irmã, neta  ou companheira de Marcelo, teria querido estar e ser vista ao lado dele naqueles gloriosos momentos da sua vida. Mais importante, se eu fosse Marcelo, teria querido os meus entes queridos a meu lado, para que o mundo os visse comigo, nessa ocasião e pudesse sentir o seu caloroso abraço na minha aura. Chocou-me ver os filhos e a nora atrás da barreira, em frente do palácio de Belém, a tentar captar em filme o pai, que passava a guarda em revista. Há coisas na vida, a meu ver, em que se não deve ir longe demais…


Marcelo tem perfil de rei, muito mais do que o têm  a maioria dos monarcas que ainda sobrevivem no mundo. Por mais que o não queira, o povo irá sempre colher nele e na sua vida referências  comportamentais.  E por muito activo que seja, por poucas horas que durma,  ao novo Presidente não vai restar muito tempo para partilhar a vida com os seus. Será, aos olhos do povo, um presidente afectuoso e gostável, mas só.
Se é essa a sua escolha consciente, tudo bem. Mas lembre-se, Senhor Presidente, que a água não corre duas vezes igual debaixo da ponte, que as crianças crescem, os afectos precisam de ser regados e que é na partilha com os amados que a vida exsuda o seu perfume maior. Não vem nenhum mal ao mundo que este o possa testemunhar.

Bem haja!