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segunda-feira, 28 de novembro de 2011

RIO ACIMA



O que está a acontecer agora?

Multiplicaram-se as coisas para fazer, as solicitações, as dificuldades, o trabalho e os deveres a crescerem brutalmente nos dias da minha vida e este cansaço imenso  dentro do meu corpo, a mente a querer soltar-se, a alma tão desejosa de promover as pontes para uma outra coisa, vibração mais alta, diferente…
 
Se estou entre o Céu e a Terra, o facto é que me sinto a caminhar quase sem descanso por uma estrada aparentemente impeditiva do meu passo, escolhos e esboços de ligações precárias por todos os lados, as coisas a partirem-se, a ajustarem-se, tudo quase, ao milímetro, o sufoco de quem sabe que tem de aguentar, tem de conseguir passar pela porta estreita, que há no profundo da Vida um Oriente para onde os corpos se querem voltar…


Tudo tão relativo, o caminho fez-se para agora ser reconhecido como ilusão, assim que foi importante tudo quanto empreendi, quanto me trouxe até aqui, a este ponto do entrecruzar de forças que me puxam em todas as direcções, mil tentáculos agentes da minha prova-límite, nesta etapa.

Há que escrever tudo de novo, a palavra purificada pelo ouro solar, o encantamento a querer ressurgir numa inocência agora sábia (haverá outra?).

Não fica pedra sobre pedra, pó sobre pó, embora tudo continue lá, na vida de superfície. Sei que busco o Grande Horizonte, os Grandes Mistérios, a Divindade dentro de mim. Não obstante as grades, abismos, tabiques, densidade sufocante, espessos véus encobridores da luz, abro-me sem dúvidas a um Gigante no profundo do Ser.
Já nada é facilmente adjectivável, talvez que a própria qualificação pela palavra já tenha vivido o seu próprio tempo de ilusão e agora tenhamos de a depurar de artificialismos românticos e vãos. Aos poucos, pequenos mas definitivos os passos na auto-escuta.

Prossigo. Titubeante ainda mas tão segura de que por detrás de mim vivo Eu e só a voz desse Eu me saberá guiar rio acima.


quarta-feira, 16 de novembro de 2011

MENTES FOSSILIZADAS

Se há área que me seduza e alimente em mim a esperança num futuro mais equilibrado e justo, essa é a da educação. Pelo muito trabalho a fazer, pela perspectiva que urge mudar, por ser a educação aquilo que deixa no ser humano marcas e referências incontornáveis e determina, pela vida fora, a qualidade da sua caminhada na Terra.
É por demais óbvio que os programas educacionais implementados pela ordem vigente e a vida que levamos contribuem para fossilizar as mentes pois ênfase profundo é colocado numa formatação densa e normótica desde os primeiros anos da vida, em completa obliteração da liberdade e leveza originais com que a encarnação começa por se manifestar no planeta.
A agilidade mental necessária ao questionamento da vida e das situações bem como ao brotar de respostas criativas fica comprometida desde cedo através de programas que não deixam qualquer margem de manobra para aquela. A função central da educação deveria ser o despertar o ser humano para o seu propósito maior na Terra, para a especificidade da sua essência nele dormentes. Cada ser humano traz consigo um imenso potencial criativo – idealmente a explorar de forma única – e caberia aos educadores e à sociedade em geral estimular a descoberta desse vasto e diversificado repositório de talentos e qualidades particulares de cada ser, o qual representa afinal o grande legado da espécie humana terrestre.
Ora, nas sociedades actuais, em que por um lado programas educacionais medíocres, cada vez mais debelados de profundidade, são impostos aos educandos como metas-padrão para que lhes sejam passados atestados  de qualificação profissional e por outro a vida social se passa entre o shopping centre, a aberrrante televisão e os jogos de computador, não se podem esperar resultados por aí além. A grande maioria dos jovens torna-se  flor murcha à partida, fossilizados pela educação num comportamento robótico, incapazes de articular o pensamento para além de um modesto léxico de 3.500 palavras que, por vezes, nem soletrar de forma correcta conseguem. Como se o espírito, silenciado por essa castrante formatação, se tivesse distanciado do seu portador, não possibilitando assim uma mais genuina manifestação.
Dói-me, dói-me muito. Vejo a miséria da submissão, o adormecimento da luz interior, a estupidificação, a vulgaridade. O planeta está povoado de seres manipuláveis, os escravos modernos, exactamente as peças necessárias ao enfraquecimento do único factor que pode salvar a humanidade: o poder criativo. Aquele que cria dispõe de estruturas internas arejadas, sabe escutar, olhar. Prescruta, investiga, canta, põe em causa, abre-se a novas perspectivas, aponta  sempre para mais alto, como o solitário pássaro de San Juan de la Cruz. O criativo sabe estabelecer de forma intuitiva novas conexões com os elementos conhecidos e, sobretudo, com os apenas pressentidos. À mente afloram-lhe com naturalidade combinações únicas, frequentemente geradoras de novos caminhos, mais justos e promissores. A criação verdadeira é sempre bela e comovente! Combustível da Esperança, ela é no fundo a única verdadeira riqueza que podemos deixar aos nossos descendentes.
Toda esta problemática levanta complexas questões relacionadas com a educação das nossas crianças e os padrões da vida que levamos e lhes impomos como referência. Parece-me urgente que resgatemos dentro de nós os valores dos afectos, da ligação à mãe natureza e aos animais, nossos companheiros na Terra, os nobres valores da consciência social e do empreendorismo responsável nas diferentes áreas da existência humana. Que reencontremos a coragem de questionar a qualidade da vida que nos foi sendo imposta e que, quase inconscientemente, deixámos que fosse minando todas as horas dos nossos dias.
Grandes mudanças são necessárias, mas não nos podemos amedrontar pela gigantesca tarefa que se vislumbra. Há que começar por algum lado e, no fundo, pode ser mais simples do que parece.
Paro. Escuto. Olho.
Quem sou? Este ser de superfície, moldado por forças alienadas, que se debate por manter o pescoço fora de água, ou algo que nas profundezas de mim mesmo espera a hora da sua expressão? Ao que venho? O que é que me faz feliz?
O que é que permanece em mim, quando o ruído esmorece e as luzes se apagam?
Diante de quê é que o meu coração canta?
Por onde anda a luz dos meus sonhos, o que é que dorme latente, esquecido em mim, como posso purificar-me ao ponto de expressar em mim o máximo de energia do que realmente sou?

A optimização do ser terá de constituir  o fulcro central da educação. Passa pelo amor, pelo respeito e pela dádiva contínua, passa por uma inequívoca ambição espiritual e por muito trabalho realizado incansavelmente na Alegria maior da consciência em expansão.

domingo, 13 de novembro de 2011

A HORA DA DISSIDÊNCIA

Ando pelas artes, a escrita, essas coisas ditas da cultura contra as quais sopram hoje em dia ventos contrários. Nunca foi fácil, mas agora ergue-se com inesperado vigor o negro e barrento muro da situação económica como pretexto para todos os cortes.
Ser culto qualquer dia é capaz de passar a condição subversiva (lembram-se de “Fahrenheit 451” de Ray Bradbury?), a ficção anuncia frequentemente o que há-de vir, uma forma “soft” de nos preparar para o inesperado. Percorre-me um calafrio quando imagino uma sociedade ainda mais ignorante e normótica do que a actual, onde artigos como este poriam de imediato fim à minha vida.
O que é que nós aprendemos, companheiros, neste grão de poeira suspenso no cosmos que é a Terra? Como é que continuamos a consentir que meia dúzia de seres alienados ditem o nosso caminho e a qualidade da nossa vida na Terra?
Não avalizo guerras de nenhum tipo, mas falo de um levantamento interior, determinado e lúcido, em prol do alargamento de horizontes e da expansão da consciência. Um assumir de que albergamos dentro de nós uma soberania esquecida, a luminosa capacidade de recriar a partir dos escombros e das cinzas.
O Espírito nunca se rende. E só com ele podemos em verdade contar para escapar ao destino da fénix que, embora sempre renascida, parece nada aprender pois continua a fazer os mesmos erros que levam à sua destruição cíclica.
As respostas não estão com certeza nos lugares habituais. Historicamente falando, claro. Há que redescobrir a coragem e a tenacidade e subir uma oitava no canto interior. Há que relembrar os conselhos dos poetas, que pelo sonho é que vamos e que se faz caminho ao andar. Se nos queimarem todos os livros, ainda teremos a nossa memória para guardar as palavras. Somos muitos e, como no romance de Bradbury, se cada um de nós memorizar um livro, o conhecimento não se perderá pois resta-nos a partilha que a todos enriquece.
Chegou a hora de pormos fim às guerras e aos conflitos, à separatividade. É a hora da verdadeira Dissidência, o começo do fim das ilusórias diferenças que nos conduziram à insanidade dos dias actuais.
Temos de reaprender a chamar as coisas pelo seu nome pois este é um tempo revelador o qual, malgré nous, tudo traz à superfície. Nem nada nem ninguém podem impedir o cair dos véus pois há um tempo certo para tudo. Este é o de abrir o coração e deixar o Espírito impulsionar os actos, por mais absurdos que eles nos pareçam.
Amén.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

CHAVES

Fora, como muitos outros, (a)traída pelo amor romântico um par de vezes na sua vida.
Um par de vezes sentira-se amada até à loucura, rainha do mundo, a mais bela, a sine qua non, a musa e a número um, a maior, a melhor, a mulher da vida do outro, insubstituível, enviada dos deuses. Um par de vezes achara que ali estava enfim a alma-gémea, um pedaço da mesma coisa e que a impossível fusão aconteceria mesmo a qualquer momento.
Foram sonhos e mais sonhos, sobressaltos e desgostos, a projecção do entendimento total a dar lugar à realidade mais palpável dos equívocos e do distanciamento. Traições camufladas, competições (entre os dois géneros), lutas de poder e o sonho sempre adiado de tocar de verdade o infinito através do outro. Um dia percebeu o engano, a fraude, a imitação de Vida que estes relacionamentos amorosos quase todos são, mesmo os mais pacíficos.
Ela sabia o que lhe cantava no coração, conhecia a memória do corpo, a saudade da alma. A imagem de um outro passo tingia-lhe ainda o olhar de uma prata azulada, reminiscente de luares antiquíssimos, afins de uma bravia interioridade que só a doçura extrema e a pureza poderiam emular.
Tivera, alcançara...a ilusão desse ponto. Tudo hipérboles, exercícios divergentes da rotina, fantasias com efe minúsculo a demorá-la escusadamente.
Com o passar do tempo, sobrava ela, agora. A memória do corpo, o canto da alma. Grandes chaves para a longa estrada de regresso a si mesma.

Quadro: "Amore" de Andrew Gonzalez

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

EM NOME DO AMOR

A capacidade individual de imaginação leva-nos frequentemente a  todo o tipo de transferências, ao criarmos e alimentarmos laços fantasiados de fusão, seja com essa primeira e insubstituível figura que é a mãe, seja com os objectos de amor que vamos identificando pela vida fora. A  privação  afectiva conduz, de facto,  a todo o tipo de projecções e  identificações enganosas. Estas últimas ocorrem mais frequentemente no ser propenso ao auto-engano, em geral aquele que, por ser incapaz de se enfrentar verdadeiramente nos seus aspectos mais sombrios, encontra evasão, alívio e uma passageira auto-confirmação de bem-estar e de felicidade, na eternamente renovada (e actualizada) versão do que lhe "acontece” ou “vai acontecendo”no processo a que me habituei a chamar turismo emocional .

A palavra amor tem vindo a perder o sentido, pela banalização do seu uso. Chama-se amor a toda e qualquer excitação, por mais passageira e fútil que ela seja, ou meramente baseada numa atracção física. São também erroneamente identificadas como amor as projecções que não passam de meros processos de gratificação de um ego descompensado,  eternamente em busca de “contrapesos” para as suas frustrações ou para justificar o script que a persona alienada inventa e acarinha para a sua própria sobrevivência.

Num tempo em que tanto se fala de amor mas em que os exemplos de vivências de amor genuino e amadurecido são raros, parece-me que estamos de volta à estaca zero em termos de evolução nesta matéria.  Somos em geral seres descompensados, pouco ou nada conscientes do que em nós transportamos e, como tal, ao prosseguirmos as histórias imediatas (as que estão ao alcance da mão),  deixamos com frequência escapar a Verdadeira Vida.  Seja por ignorarmos ou relegarmos para lugar secundário os nossos mais importantes e já encontrados parceiros de rota na Terra, seja pela nossa incapacidade de nos preservarmos para esse encontro.
Tudo isto advém da falta de amor-próprio e da não integração do que é essa energia que permite, com o outro, tocar a transcendência. A experiência de amar, para ser verdadeira, não exige formatos ou compromissos.
Ela É em si mesma o compromisso e adapta-se naturalmente às circunstâncias da vida. Com a inocente alegria da dádiva e sem a ultrajante contabilidade hoje em dia demasiado presente nas “histórias de amor”.

sábado, 5 de novembro de 2011

O SER DE AQUÁRIO E O CANTO DE ANDRÉ

Após o canto, que lhe escoava da alma como luminoso nutriente da hora passante, falou e as palavras encontraram as suas irmãs esquecidas dentro de mim. As palavras dançaram o regozijo da identidade e senti o bafo inconfundível da Alegria.

A civilização anda à deriva, há muitos políticos mas não existem verdadeiros chefes de estado, as uniões são falsas, a prosperidade é falsa, as promessas foram vãs e as grandes conquistas que a humanidade alcançou desde o séc XIX, sob a forma de direitos e benefícios sociais, assentam afinal numa frágil e ilusória bolha que maquiavélicos alfinetes furam metodica e diariamente.

Vastas franjas da humanidade terrestre, na ordem dos biliões, nem sequer suspeitam que são ignorantes. Vegetam à sombra de uma inquestionada normose,  autómatos programados, seguros dos seus passos na inconsciência total da sua condição de marionetas, habilmente manipuladas por mãos ocultas e preversas.É a Cãmara das Trevas Exteriores.

Quando o ser humano transita para a consciência dessa ignorância, ele dá um verdadeiro salto quântico pois alarma-se, porque sabe agora nada saber. Entrou na Câmara da Ignorância.

É a partir deste ponto que se abrem as infinitas avenidas de acesso ao conhecimento. O ser humano, que sabe nada saber, busca conhecer, ir mais além ou mais adentro e despontam assim portais  nos horizontes da sua caminhada.  Câmara do Conhecimento.

Só a sabedoria nos permite realmente amar, o fulcral verbo tão levianamente conjugado...Câmara da Sabedoria.

E quem AMA pode. Quem alcança este ponto, quem ama de verdade encontra um sentido  de continuidade sagrada na existência, perde o medo e tem a coragem de nutrir os impulsos do seu ser essencial numa aparente indiferença aos espasmos globais, ao inculcar da desconfiança e da distância entre os seres em que as forças involutivas estão apostadas. Câmara do Poder.


Só neste percurso de coragem com a nossa interioridade será possível recuperar a soberania perdida e alcançar a vida mais abundante que o Ser de Aquário e o límpido canto de André nos prometem.


Quadro: Victor Vasarely.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

ALMA ANTIGA

Alma antiga, pedes-me que te escute recostada assim no momento da árvore alta que da minha cama vejo há décadas perder as folhas, nesta altura do ano, para logo as renovar quando a luz voltar a subir...
Passa o tempo e passo eu ou o que em mim se vê e dizes-me que não passe por mim sem que por mim eu passe, enquanto as folhas vão e vêm e a luz oculta busca em vão brechas para a liberdade.

Basta às vezes o sopro inesperado da palavra encorajadora. Há dias um amigo desejou-me que a par das belas rosas do meu jardim eu continuasse a produzir rosas metafísicas e aquilo foi de repente a luz inesperada a incendiar a esperança numa aurora húmida, abençoada, um recomeço harmonioso, postigo entreaberto para a vastidão do que transporto, sem nada poder. Sem acesso continuado, livre, em delírio, num parto íntimo e alargado ao tempo que me resta.

  Viver na simplicidade, soltar-me do obrigatório, ficar aqui eternamente na tecelagem da palavra de ouro, sonhar-me por inteiro, livre de este ser de superfície tão sacrificado, mandala lacrimejante nos dias baços do faz de conta.
Eu sou talvez apenas o que perdura dos instantes fugitivos da minha vida, essa é a memória activa e só aí posso colher as flores duradouras da criação. Percorrer esse caminho, mirar-lhe a face persistente... ser tudo e nada ser, no encalce do que me escapa e vai e vem pelas estrias da vida, saturado de luz e de sombras, a um tempo asfixiante e fugidio como as estrelas cadentes.

Dar à luz vezes sem conta, no incontornável vale dos soluços e da incerteza, dar à luz uma vez e outra, em pulsões intensas e reveladoras, a feliz agonia  do que se solta, doce crisálida em expansão, metamorfose.  

Possa eu nascer, por fim.