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domingo, 31 de agosto de 2014

A ÉTICA É UMA COISA A FINGIR ou COMO NOS TORNÁMOS COBRADORES DE BORLA AO SERVIÇO DO ESTADO

De repente é como se tivesse mudado de câmara. De ares, de tempo. Deixaram as coisas habituais de fazer sentido e quase nem me lembro de quem fui.
Parece que tudo deixou de obedecer a planos, o peso do aleatório cresce sem cessar e a incerteza inerente à vida, avivada e generalizada, propaga-se como doença contagiosa pelos meus dias. Os meus e os de toda a gente com quem partilho esta estada na Terra. Parece que tudo pode acontecer e que tudo, mesmo o aviltante, tem direito a ser legitimado.

A partir da última parte do século passado, as religiões e as ideologias começaram a desabar e, em seu lugar, tem-se vindo a instalar uma subterrânea incredulidade (e passividade) face à degeneração política, aos desequilíbrios económicos e sociais e aquele fundo cinzento e triste, resultado do desaparecimento gradual dos benefícios do estado social que tanto sangue, suor e lágrimas custou a muitos de nós e sobretudo aos que nos precederam.
A ética é uma coisa a fingir, um simulacro-engana-tolos, e a todas as prioridades se impõe a estatística e o cifrão.

Há dias recebi uma notificação registada informando-me de que uma renda que a minha empresa paga ao senhorio estava penhorada, que a empresa passava  a ser fiel depositária dos dinheiros a partir daí, tinha x dias para responder ou era considerada consentânea da situação contractual invocada e que tinha por conseguinte a obrigação de, no portal das finanças, procurar  a forma de liquidar o pagamento a favor da autoridade estatal. Decorria esta situação do facto de o meu senhorio não ter ainda pago as custas de um processo que contra si decorre.


Perturbada com tal mensagem, pus-me a pensar no total absurdo e imoralidade da mesma.
Em primeiro lugar, eu não sou nem desejo ser cobradora do estado (de algum modo, isto traz-me à memória outros tempos politicos, em que não se confiava  nem na própria sombra).
Em segundo lugar, não quero entrar, ainda por cima à força, na vida privada do meu senhorio, ficar a saber das suas dívidas pessoais, pois isso só a ele lhe diz respeito e faz parte da sua privacidade.
Depois, não tenho que ocupar a minha sobrecarregada cabeça nem gastar o meu precioso tempo a executar tarefas que cabem ao estado e pelas quais não sou paga. Pior ainda, posso vir a ser penalizada se não cumprir à letra e atempadamente com as instruções recebidas.

Desloquei-me, por consequência, a uma repartição de finanças a fim de apresentar o meu protesto. A funcionária que me atendeu deu duas vezes a volta à notificação e, com um olhar meio perdido, aconselhou-me a entregar ao meu contabilista para que resolvesse. Disse-lhe que era eu a responsável maxima da empresa e que queria compreender  o porquê de uma mensagem tão desconexa. Levou-me à chefe, amável e um pouco mais bem informada. Convidou-me a sentar e, virando o écran na minha direcção, localizou o assunto. Fiquei a saber que o meu senhorio não pagou o IMI das suas propriedades e que, como tal, está a decorrer um processo contra ele. Que este montante se refere às custas (o processo iniciou-se em Julho e estamos em Agosto!!) e que a empresa tem de tirar da renda o que ele não pagou e entregá-lo ao estado.
Reiterei o meu protesto, não me compete saber o que o meu senhorio paga ou deixa de pagar, muito menos ser cobradora à borla das suas dívidas. Olhar condescendente: “É a lei, minha senhora!”

Não, minha senhora, não é a lei, é a interpretação abusiva da mesma, é o aproveitamento da ignorância das pessoas, da passividade instalada, da nossa falta de tempo e de meios para nos queixarmos a instâncias mais altas, de lutarmos nos tribunais pelos nossos direitos, de exigirmos tribunais isentos e imparciais.

Como todos os outros cidadãos, e não obstante todos os meus protestos, também eu vou “cumprir”, porque estou tão metida na teia como todos os outros e não disponho de mais tempo e energia para lutar por uma alteração que jamais viria com a rapidez  desejada.

Mas deixo aqui o testemunho de que me sinto em traição aos meus princípios fundamentais e que sou cúmplice consciente  de comportamentos que abomino.
Contribuição frouxa, bem sei, para um problema magno e que alastra todos os dias. Tristemente, não me sinto capaz de fazer mais nada, de momento.













sexta-feira, 8 de agosto de 2014

PELO VALE DAS SOMBRAS


 Atravessamos o vale das sombras, eu e ele, de joelhos percorremos as veredas onde a vida já não corre e por onde chegaremos ao unico possível caminho enlutado do futuro.
Sei agora que já não há mais nada para salvar, a vida e a morte movem-se abraçadas e as trevas adensam-se.

Vão-se apagando todas as luzes  no teu cérebro de circuitos queimados, uma a uma esfumam-se, reminiscentes de poema moribundo, como campo de flores que tristemente chega ao fim.
A vida já não corre, o compasso de espera é um insuportável monumento ao absurdo, eu e tu ancorados na agonia do sem sentido.

Contudo, há que prosseguir. As horas soam num cântico mudo porque tudo é tão triste, sabias tantas coisas, alcançavas num ápice um sentido oculto da vida  e agoras perdes-te desnorteado, entre a patetice e a insanidade, viajante involuntário de um labirinto cuja existência determinaste com as tuas opções.
Os meus olhos seguem o rastro dos passos que não deste em prol da tua essência, os meus olhos-espelho de um gigantesco lago lacrimal, requiem de sonhos derrubados pela conspiração da vida que se não cumpriu.

Estou aqui, sou contigo, por opção. Poderia entregar-te a cuidados alheios, mas quem seria capaz de entender a súplica estrangulada, ambivalente, que o teu ser emite, a pedir vida e a pedir morte, numa agonia prolongada, onde conseguir o afecto das entranhas que o teu ser requer para uma pequena acalmia? Quem passaria a mão calorosa pela tua fronte transpirada, os olhos baços a recuarem para dentro de uma coisa que não sei definir mas que me amedronta?
Perante a desintegração, quisera ser muito mais mulher alquímica, atrair magicamente a vibração dos céus para o teu coração prostrado de inquietudes, restablecer a ordem nessa mente à beira do abismo, embarcar em mais uma das mil viagens que juntos fizemos durante a vida, mas desta vez  ao núcleo do teu ser essencial.  Suspeito, contudo, que esses são impulsos românticos, ancorados numa crença ultrapassada de varinhas mágicas e anjos salvadores.

Tudo quanto posso é acompanhar-te humildemente, aprendiza à força da minha própria imperfeição, da patética insuficiência do que consigo ser ante o terror dos precipícios que te assaltam. E sigo-te e amparo-te a sentir-me na perigosa linha da exaustão profunda, sem saber qual a cor da minha coragem e se é coragem, no final das contas.
Até que tudo se apague e te tranformes em cinza, húmus, depois em ramo, outra vez em flor efémera…

Quadro: Monserrat Gudiol 

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

O CONFLITO


Evitar conflitos tornou-se uma das minhas prioridades comportamentais.

Tenho uma personalidade forte e propensa a reacções emotivas, por isso foi necessário alcançar uma certa maturidade antes de integrar essa lição fundamental.

O potencial para o conflito parece ser, infelizmente, consubstancial à própria vida, pois em todos os caminhos se apresentam continuadamente escolhas entre situações antagónicas ou mesmo incompatíveis.  As mesmas podem ser exteriores aos indivíduos ou habitarem o seu interior de forma conflituosa, representando nesse caso a ocorrência de impulsos vários dentro do ser, numa oposição de forças cuja intensidade se equivale. Estes processos geram uma poderosa energia que é, frequentemente mal usada.
Sendo em princípio inevitável, torna-se urgente que aprendamos a gerir o conflito, enfrentando-o. Do sucesso ou do fracasso que obtenhamos nesse processo dependerá o futuro.  Dado que estamos a lidar com forças em tensão, olhar de frente um conflito implica a capacidade de compreender que as crenças pessoais são o cenário de fundo do mundo de cada um e que representam para o mesmo a verdade. E se exigimos que isso seja aceite no que nos diz respeito, é de esperar que o mesmo se aplique ao ser ou seres do outro lado da história.


Parece-me, pois, que a estratégia para a solução passa por um distanciamento inicial do turbilhão emotivo inerente aos processos conflituosos  e que deverá passar da nossa parte por uma tentativa honesta de identificação das emoções dos outros.

Avançar por etapas no caminho da solução é um aspecto fundamental.    Em primeiro lugar, considero da maior importância separar as pessoas do conflito,  e estabelecer o grau de prioridade dos diferentes aspectos do problema. Tentar compreender o que move o outro, que crenças estão subjacentes ao seu comportamento. Aquilo que nos parece a nós natural e inofensivo pode ser, para o outro, o botão que acciona o maior dos cataclismos internos. Por muito difícil que isso se apresente ante as nossas próprias emoções e as defesas que o ego inevitavelmente constrói, impõe-se que respeitemos o sentir do outro. Isso não significa estar de acordo, deve representar simplesmente a meia-ponte que cada um de nós tem o dever moral de lançar na busca da solução. Essa atitude de aceitação da diferença no outro, nutre a sua auto-estima o que, por sua vez, contribui para aplanar o caminho.

Esperar para ver e dar tempo ao tempo são etapas  a observar no conflito, em especial nas situações mais delicadas.

É que o conflito gera uma poderosa energia, a qual nos pode ser muito útil se não perdermos o auto-controle e procurarmos encontrar soluções criativas, saídas novas para um problema que em dado momento nos pareceu inultrapassável.

Em resumo, perante a ameaçadora energia do conflito, há que parar, deixar arrefecer a lava do desentendimento, saber escutar mais do que argumentar em defesa própria, evitar terminologia agressiva e, sobretudo, acreditar na capacidade própria para ajudar a construir o túnel de saída para a luz do reequilíbrio energético.