Número total de visualizações de página

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

NOVA PALAVRA


Preciso de inventar uma palavra. Uma palavra nova, fresca, arejada. Perpassada de música e calor humano. Uma palavra táctil como uma pele quente, amistosa e envolvente. Um abraço.

Tem cor, sons alegres como o dos sinos das igrejas antigas, de campanários altos e o cheiro cimentado do incenso. Impõe-se a todas as outras, espécie de cântico dos cânticos, coroa majestosa de um léxico desconhecido, ainda à espera de ser inventado. Vela colorida, beijo amante, hino dos poetas, casa comunal, gáudio das crianças, há-de arder pela noite dentro, dançante e mística, fogueira nas trevas, marca de alianças.

Preciso dessa palavra vindoura, despida de mercantilismos, austera e ousada, portadora de afectos e consolos, corajosa e gorda como as deusas primitivas. Uma palavra rubra, que cheire a canela e a cravinho, saiba a mãos dadas e possa escancarar o coração da gente. Nova, bem cheirosa, intocada. Uma palavra que soe como a voz do sol e me transmita o reflexo prateado das estrelas, que cheire aos madeiros na praça pública mas me possa conduzir, como amante calorosa, à maior interioridade.

Vem a mim, palavra de ouro, mensagem espacial, palavra-chave das almas, verbo sentido, salvação de um mundo descompensado e disfuncional. Vem e traz contigo a tua descida à matéria. Ágil e espiritualizada, emblemática, sagrada, redentora, balsâmica, mãe da conciliação e da paz, berço da harmonia, semente de esperança, barca para um amanhã na Luz.

Vem, apresenta-te com urgência. Emerge desta farsa sem sentido onde nos perdemos cada ano, sem sabermos o porquê, o para quê. Substitui-te de uma vez à patética, esvaziada, alienante e impostora palavra Natal.

domingo, 8 de dezembro de 2013

DE BOAS INTENÇÕES ESTÁ O INFERNO CHEIO


Só chegamos a aprender muito do que é importante sobre nós mesmos e a vida em geral com a passagem dos anos, a dureza de certas experiências e uma aguda e imparcial auto-observação.
Refiro-me às boas intenções que, uma vez passadas a actos que supostamente beneficiarão aqueles a quem se destinam, acabam frequentemente em desastre.

Através da minha existência, tenho-me visto vezes sem conta confrontada com os maus resultados da minha bondade, vontade de ajudar o próximo, aliviar-lhe o sofrimento, partilhar com os outros a maior ou menor prosperidade que me vai chegando, tornar minhas também as dores e aflições alheias para que mais suportáveis se tornem para os directamente atingidos.



Com o passar dos anos, muitos desenganos e, esperemos, a chegada de alguma maturidade fui tomando consciência do seguinte.



·      As dores e limitações dos outros não me pertencem e não sou por elas responsável.

·      Os meus impulsos de desenfreada bondade e partilha emergem provavelmente de um sentido inconsciente de culpabilidade por eu estar melhor que o outro, o que é totalmente irracional e injusto para mim própria. Cada vida alberga insondáveis mistérios e cada um colhe o que semeou ao longo das provavelmente múltiplas existências no universo (não só na Terra) e em consequência da pessoa humana que ora consegue ser.

·      As minhas boas intenções, por mais sinceras que sejam, uma vez materializadas em actos interferem amiúde com o caminho evolutivo do outro, retiram-lhe a capacidade de luta e criam-lhe a ilusão de uma força que afinal não possui. O resultado é um inflacionamento do ego com as consequências previsíveis.

·      Estranhamente, a dádiva acaba muitas vezes por provocar ressentimento, em vez da natural gratidão – a velha síndrome do “cão que morde a mão que lhe dá de comer”. Assim, o receptor vira-se internamente contra o dador em quem acaba por encontrar mil defeitos e, não poucas vezes, a obrigatoriedade de dar sempre.



Estas conclusões, integradas após uma vida de difíceis experiências, não me tornaram amarga. Continuo a acreditar na importância da dádiva, da solidariedade e compaixão, na justa redistribuição de meios. Mas essas práticas devem ocorrer com discernimento, ponderadas com honestidade as razões para a nossa actuação, analisados com isenção os contornos da situação que se pretende aliviar e, sobretudo, tida em conta a não interferência na evolução espiritual do outro.

Receio que este último seja o ponto em que mais falhei até hoje.

sábado, 9 de novembro de 2013

LUXO



Sempre escolhi o luxo e tenciono continuar a fazê-lo!

Eis uma frase politicamente incorrecta e que pode atrair todo um chorrilho de críticas e até ofensas por parte de quem a ouve num mundo como aquele em que vivemos, ensombrado por vastas áreas de miséria e sofrimento e em que a esmagadora maioria vive abaixo de níveis suportáveis de pobreza.
Será por isso importante que eu aclare algo que muitos já esqueceram e que está na raiz da minha afirmação.

No coração da palavra “luxo” vive o seu étimo latino, Lux, o qual como é sabido, significa Luz. Assim, escolher o luxo é, para mim, trazer luz a todas as áreas da vida, tingir de luminosidade aquilo que, de outro modo, se apresentaria neutro ou mesmo ensombrado.
Luxo é escolher a beleza em todos os cenários em que me movimento. A beleza está à nossa disposição por toda a parte pois vivemos num planeta essencialmente belo. A escritora açoriana Aldegice Machado da Rosa escreveu um dia que nunca compreendeu por que é que a chita tem de ter padrões feios, se custa exactamente o mesmo fazê-los bonitos.
Luxo é buscar o conhecimento por todos os meios ao meu alcance, ser capaz de escolher as  melhores fontes, utilizar as novas tecnologias de forma maximizada para esse fim, comprar os livros desejados, ter tempo para escrever o que a minha alma me pede.

                   Luxo é sentir o amor dos que me cercam, dispor de tempo para fazer programas com os meus netos, sentar-me na biblioteca com o mais velho e passar-lhe versões adaptadas à sua idade  do pouco que vou sabendo.
Luxo foi a opção quando, ainda muito jovem, não abdiquei de ter flores e velas no meu pequeno apartamento em detrimento de refeições completas, a certa altura do mês.
Luxo é poder receber  hoje na minha casa a minha mãe velhinha e impotente perante a doença e a idade avançada e proporcionar-lhe afecto, conforto, cuidados de saúde, uma antecâmara luminosa para a partida desta dimensão.
Luxo é ter alguns poucos amigos de espírito afim e com eles partilhar a jornada, luxo é conseguir dividir os meios próprios com quem mais precisa e não me sentir defraudada ou diminuída de recursos.
Luxo é não reter, é optar por utilizar as melhores porcelanas no dia a dia, encher a casa de flores, é ter um jardim, uma horta e cuidá-los com amor.
Luxo é ser mãe de filhos que me amam verdadeiramente e me respeitam, ser avó de netos com quem se esboça uma relação gratificante e fundada na alegria e celebração da vida.
Luxo é colocar no meu corpo os trajes que ele pede, independentemente de modas ou da opinião alheia, para assim melhor me poder manifestar.
Luxo é considerar que uma determinada obra de arte  que me toca particularmente e que está nas minhas mãos há-de atrair a casa certa para eu morar e isso acontecer.
Luxo é buscar-me a mim mesma e viajar na barca da determinação e da humildade para o meu centro, não obstante as distracções.

Luxo é luz para o meu ser e para o que me rodeia e não tem para mim a conotação de sumptuosidade excessiva, culto do supérfluo caro e símbolo de “status” com que o comércio e a sociedade tingiram a palavra.  A humanidade actual tende a esquecer a origem das coisas, fixa-se no que lhe é hoje apresentado como facto consumado e tal processo não pode servir a evolução pois esta só ocorre de forma sustentável se correctamente informada.

Luxo é também poder escrever sobre este tema e ter-te aí do outro lado como receptor e, espero, critico construtivo.

Quadro: CATRIN WELZ-STEIN

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

FLOR VIVA DA IDENTIDADE



Falo busco o teu sorriso, sinal mínimo que seja de aprovação ou alento, persiste aparente desinteresse , na rua tudo igual carros motas-chiadeiras  campainha da porta telefone que não atendo, maçada de desarrumação e tenho fome.  Poder continuar a erguer desconstrução das falácias mas…e se tu fores uma delas?
Ninguém pode alhear-se do todo para sempre, precisa-se que nos digam qualquer coisa – bom mau assim-assim odioso repelente sublime – a identidade é uma flor viva a pedir rega.
Consolo o teu lamento como posso, alegas desvantagens princípios tortuosos ADN e outras paredes altas intransponíveis para a realização. Se renascidos a cada etapa escapamos à auto-ilusão de transferir responsabilidades, pois, como foi que não nos reformulámos e adaptámos às experiências vividas, ego escondido ausente de férias encapotado dissimulações várias. O ego actor central na interacção com o meio esgueira-se – ágil destreza atrás dos muitos papéis inventados a patinar sempre  sobre a culpa dos outros – cuidado com ele amante de teatro que nos aparta do essencial. Cuidado com ele – a fazer sempre falta fornecedor de referências valiosas para a compreensão do mundo.
Ah, estamos feitos!  Em geral, sim. Compulsão fantasiosa auto-percepção da nossa incomparabilidade, narcisísmo individual ou comunal, irresistível elistismo sempre a bater à porta ante a mediocridade geral. Raro mesmo é o sentido integrado da nossa identidade, ego estável relacionamento descomplicado com os outros, toalha da confiança básica estendida com brio sob os altos e baixos da passagem.
Uns da acção outros da contemplação mas há que nutrir q.b. a fonte da iniciativa, cada ser com a sua, está-se no ponto quando a pacificação interior se instala de vez, alegria não dependente da aprovação alheia, mas a fazer falta o feedback algo mais que os likes do facebook, visita à interioridade do outro no amor possível.

Serei eu…a falácia? Apropriadas as palavras conceitos livros palestras, donde vem tudo isto se aqui dentro dorme ainda a crisálida, tudo incerto titubeante em rascunho,  esboço de sopro a querer ganhar asas, o medo colado às comportas do ser aguarda a sua hora sempre adiada.
Necessidade mútua, verdade precisa-se, genuina antiga como a luz do princípio dos tempos que o físico protuguês diz ter viajado mais velozmente que nos dias actuais.
Na rua tudo igual, sol do meio dia sol do dia todo agora que há seca, dizem que é bom olhar para o espelho contar as bençãos fazer listas planear a vida. Dizem tantas coisas, vá-se lá saber…
Consolo o teu lamento como posso, sem frete. Trazes marca distintiva, olho antigo alma de poeta fogo circunscrito contudo, seria bom revermos a matéria, arrumar as mágoas, assumir o enquinado. Seguir em frente que a hora é breve, não-lugar não-tempo para escolhos ilusórios conversa fiada hipérboles do nosso contentamento pequenino auto-contido miseravelmente explicado.
Precisamos da rega para que a flor viva se revele num esplendor maior.

Quadro: Armen Kasparian

domingo, 27 de outubro de 2013

CAMINHAR QUANDO TODA A GENTE DORME



Caminhar quando toda a gente dorme foi sempre a grande tentação. O usual, o aprovado, o estabelecido, o esperado ou o previsível, nunca me alumiaram por dentro ou atearam o meu fogo vital. Repetir o velho fado, alegre ou triste, acaba por levar ao tédio e desmotivar, não obstante todos os aspectos de conveniência que possa apresentar, pois conduz ou a inexplicáveis angústias e mal-estar recorrentes e aprisionantes ou à paz podre.

Busco a outra face da vida, aquela que ainda se não apresentou, a que não figura em nenhum catálogo, aquela cujo reconhecimento e integração me hão-de permitir ver-me livre do Bem e do Mal, como conceitos separados e opostos. Por mais historietas que nos contemos, o pulsar energético aí está, cada vez mais óbvio na bipolaridade da sua composição: dia e noite, escuro e claro, vida e morte, bem e mal. A simultaneidade destas presenças opostas entra-nos hoje pela consciência dentro, de forma quase forçada, pois o anjo que nos alivia a tensão e adeja sobre a nossa alma com o sopro do alívio pode incorporar na hora seguinte os cruéis demónios da violência e da separatividade.

Assim, eu gosto de caminhar quando toda a gente dorme. De me aventurar no breu, de abrir o troço, a roça por onde ninguém antes passou e buscar os secretos recantos donde originam as germinações secretas, os velados começos que contêm a chave de manifestações futuras. Penetrar os espaços que me ensinaram a nem sequer imaginar e neles assistir ao convívio das forças ancestrais aliadas das trevas com as que, translúcidas e leitosas, ascendem como fachos dançantes aos céus que quase todos sonhamos. Diversas, opostas, aparentemente contraditórias mas complementares, elas proporcionam-me através da tensão existente uma mais segura plataforma de posicionamento em relação a tudo, em especial a mim mesma.

Como gosto de caminhar quando toda a gente dorme. Sentir o firme pousar dos meus pés feitos heróis, como os antepassados que ao desconhecido mar se lançaram, na hipnótica visão da descoberta. Esse é o legado que me interessa, o único que aceito e que integro na noção de Mátria.
Minha Terra Portucalis do sentir, meu Espaço-Espírito-Santo ancorado algures na dimensão que ainda não baixou ou a que eu e os outros – os que forem para ser – ainda não subimos! Mátria nossa, doce porto de elevação e de assombros, o mero pressentir-te me emociona. Pois em ti residem, desde os primórdios dos tempos, a essência de se ser, o potencial de tudo o que de abarcante, visionário, mundividente e cósmico eleva o canto dos poetas e o retém nos éteres para nosso benefício.

Gosto de caminhar quando toda a gente dorme mas...onde estarei eu quando já ninguém dormir?
Quadro: Remedios Varo, "A Caçadora de Astros"


quarta-feira, 23 de outubro de 2013

TOCHA NO FEMININO




Alguém colocou recentemente no facebook um post sobre Camille Claudel.

Alguém a mencionou e…lembrei-me. Abateu-se sobre mim outra vez o peso imenso, a dor sem limites, inerentes à passagem pela Terra dessa mulher talentosa e bela, pela segunda metade do século XIX e a primeira do XX.



Livre, selvagem, infinitamente aberta à vida, Camille revelou desde muito cedo um talento extraordinário para a escultura. Criou obras fabulosas, palpitantes de interioridade, reflectoras do feminino, inovadoras na concepção e no movimento. Num mundo ainda intrínsecamente patriarcal, Camille luzia com intensidade pouco comum – uma tocha no feminino que urgia abater.



Discípula e amante de Rodin, levou à vida deste o manancial das suas múltiplas ideias, o perfume e a natureza lírica de um talento raro.

Apesar da tumultuosa paixão entre os dois, o escultor nunca deixou a mulher e, após um aborto indesejado, Camille recolheu-se só e chocada, apenas na companhia dos gatos e da sua obra. As dificuldades conómicas, a má alimentação e o isolamento afectaram a sua delicada sensibilidade e começou a sofrer surtos psicóticos. Nesse contexto, destruiu dezenas de obras suas.



Apesar de ter tido o apoio do pai que morreu cedo, a família de origem, preconceituosa e burguesa, jamais a entendeu,.  Perante o percurso errático e pouco ortodoxo e a instabilidade mental que se ia revelando, o irmão mais novo – o muito admirado poeta e ensaísta Paul Claudel – e a  mãe internaram-na num hospício onde sobreviveu, em condições terríveis, por mais trinta anos. Apesar do próprio hospital ter tentado várias vezes que a família reintegrasse Camille por considerar desnecessário o seu internamento, a família nunca mais a quis de volta e a escultora permaneceu encerrada até ao último suspiro.

 

Torna-se impossível imaginar o sofrimento atroz desta mulher, completamente consciente do que lhe estava a acontecer como demonstra a sua correspndência. Esmagada por um mundo masculino, brutalmente castrador da força lillitiana do feminino, Camille pagou duramente o ser diferente, livre e assumida e pereceu, após uma longa vida, aos rigores da existência que a família lhe impôs.

De delirio em delirio, de crise em crise, murchou a flor magoada, apagou-se o brilhante fogo daquela alma tão à frente do seu tempo. Deixou enfim o seu tormento na cama do hospício, aos setenta e nove anos, após trinta de clausura forçada.



Camille, mulher excepcional, a tua dor viaja no tempo até mim, sinto-a nas minhas células.
Corre um canto estremecido por dentro das minhas lágrimas, pois eles estilhaçaram a tua grandeza e ficaram impunes.



À posteridade, passaram Rodin e o teu irmãozinho, Paul Claudel.
Mas estamos sempre a tempo de reescrever a história .

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

O PROGRAMA DE RÁDIO


Passei há pouco tempo por uma experiência que me leva a reflectir sobre o andar dos tempos.



Fui convidada por uma pequena rádio regional para ser entrevistada sobre a poesia, o amor, o estado do mundo para um programa de domingo.

Um pouco às cegas – e porque tinha assumido o compromisso uns meses antes - lá fui, numa manhã ensolarada de fim de verão e sem saber o que me esperava, ao encontro das pessoas que amavelmente me haviam convidado. Durante três horas, vivi com a responsável pelo programa e dois colaboradores a  extraordinária aventura de falar livremente na rádio sobre temas que são próximos ao meu coração – a emergência do feminino no mundo, a mudança de paradigmas a instalar-se em todas as áreas da existência humana, arte, criatividade, o regresso ao natural. Tudo entremeado com chamadas de ouvintes que também declamavam a sua poesia e mostravam apreço pelo que se estava ali a discutir. Sem censuras, nem edições. Em directo.



Gosto muito de rádio, um meio que não nos monopoliza e nos permite continuar com as nossas tarefas, enquanto escutamos o que a telefonia nos oferece. Mas em nenhuma das estações de rádio a nível nacional ouvi alguma vez um programa com as características deste, muito menos com três horas de duração.

São a política, o futebol, as coscuvilhices e a música da moda – tudo distracções ao que deveria ser o foco principal da nossa vida – que ocupam as transmissões radiofónicas.



Então o que é que este episódio me diz sobre o caminho do mundo? Muito simples: o esperado não é o que vai acontecer.

As histórias que nos contaram, desde as revoluções industriais, passando actualmente pela tecnológica, não vão encontrar correspondência na alteração dos paradigmas. Os ventos de verdadeira mudança virão dos lugares e das pessoas mais improváveis, porque não demasiado comprometidos com os credos de um sistema assente na separatividade dos seres, na competição e no lucro a qualquer preço.

Precisamos de novas histórias, novos mitos que nos permitam recuperar a inocência perdida e em simultâneo trabalhar na construção do conhecimento, processo para o qual não há atalhos e que é indispensável à saudável residência no planeta.



Ocorrências como o programa de rádio regional que se debruça sobre coisas essenciais à vida e dá espaço para que falemos longamente sobre elas, gestos solidários que vejo irromperem espontâneamente por todos os lados em especial nestas alturas de crise, o foco renovado sobre o que tinhamos por garantido e a que nunca prestámos a devida atenção, as implicações da crise ecológica actual e que nos desperta à força para o respeito devido a tudo quanto vive à face da Terra, em suma, a nossa humanidade que temos de resgatar da longa noite de um ilusório progresso são o mote para a tentativa de começar de novo, de forma mais autêntica e conectada com o todo.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

VAGUEANTE




Sinto-me tenra hoje, como o dia. Tenra e vacilante, sem palavras ousadas, nem grandes causas…
Estive com Florbela, apetecem-me poemas antigos, tudo a cor pastel como nos sonhos, penso em tanta coisa mas estou sem ânimo…


Trouxeram-me umas rosas salmão, laivos de qualquer coisa recordada, o ar está fresco ainda bem, não tenho que falar com ninguém depois das oito…
Por onde andarei que não me encontro, não sinto nada apenas a vaga melancolia do dia, da vida que se apaga, o silêncio cada vez maior, os espaços em branco que aguardaram sempre a chegada da palavra por inventor…



Preciso de um ombro e não preciso, os ombros têm preço, noto que o amor entre os seres é pó a esfarelar-se por entre os dedos sempre abertos de quem busca dividendos…



Quem partilha este gosto pelo cheiro do ar e nota o oiro à solta nas coisas secretas pouco vistas, nos cenários apenas esboçados, oníricos e sem definição concreta?



Ainda me busco, não sei quem sou. Às vezes sei, quando o canto das cigarras atravessa o perfume da noite enluarada e a relva cheira ao útero da Terra, agridoce e cálida, prenha de juras de fertilidade e de oferenda… Nessas alturas, levanto-me de um salto, arrimo-me ao postigo e sorvo tudo atordoada, porque quase lá chego, eu quase entendo…



Gosto deste dia, apesar de tudo. A cor esbatida de todas as coisas, as ausências e omissões, tudo pastel, sem contornos claros, tudo indefinido como a vida e o destino…



Apoio-me nos poetas mortos, prevejo os que hão-de vir montados num tempo novo, sem pergaminhos, sem poetas laureados. Apoio-me numa elegância vaga que irradia de um fundo qualquer em mim e me é preciosa. Porquê, não sei. Parece uma écharpe de musselina verde-musgo claro, desfraldada na brisa de um impulso inconfessado, as palavras que nunca escreverei…



Diminuiu a luz, reacendeu-se o ânimo. Ponho velas interiores a uma santa que acabei de fabricar, peço-lhe a benção. Talvez seja a minha madre, talvez ela, quem mais me poderia bendizer assim, a mim que não sei quem sou, a mim que me escondo atrás de poemas e de flores e trabalho, e trabalho, e trabalho…



No rio do meu sentir correm agora ecos de algo suspenso em mim, porventura adiado, irrealizável talvez…



Saudade de uma coisa fugidia…
______
Quadro: Monserrat Gudiol

domingo, 29 de setembro de 2013

A EXPECTATIVA



A expectativa é irmã chegada da esperança.

A expectativa baseia-se em supostas possibilidades, desenvolvimentos futuros, em pressupostos que apontam em direcções imaginárias. Observamos os seres, as situações, às vezes um pequeno detalhe e…esperamos.
O que esperamos é sempre fruto do que somos. E do que nos falta.

Possuidora de uma imaginação fértil, fui sempre sensível ao que nos outros me toca e criei, assim,  na vida variadíssimas expectativas enquanto achava que estava só a viver o momento e a corresponder-lhe.
Não é assim. Aprendi, contudo, a controlar as minhas projecções imaginativas quando algo ou alguém me chama a atenção, quando sinto identidade de alma ou qualquer tipo de sintonia.
A expectativa tem, em geral, pouca sustentabilidade e, frequentemente, tem mais a ver connosco do que com o outro.  Resulta amiúde de algum vazio interior, de partes do nosso ser que sentimos incompreendidas ou não realizadas. O facto de determinada corda em nós se sentir tocada, abre em nós irracionalmente, uma ogiva para o sol que pode ser ilusória. Em geral, é assim.

Alguém comentou que o desejo é o outro irmão da expectativa.



O desejo está intimamente ligado com aquilo que se espera, por nos faltar. A expectativa, se alimentada febrilmente (como é muitas vezes o caso), dá origem ao desejo de que algo específico ocorra. E aí se apresenta a grande armadilha, pois que o desejo é interior à pessoa, aquilo que ele propõe não faz parte da chamada realidade antes é resultado de uma carência pessoal, portanto, das fabricações de cada um. Poder-se-á argumentar que por vezes o desejo  viaja de forma recíproca, ou seja, de quem deseja para o desejado e vice-versa. Assim é, mas muita dor e decepção se evitariam se, em vez de nos fixarmos no objecto desejado, a nossa atenção fosse investida de modo estóico no fluir da própria vida, numa attitude de aceitação e de confiança em que “o que está escrito nas estrelas” buscará a sua descida à matéria, independentemente dos nossos desejos pessoais.

Mas, então, que fazer, quando um timbre mais fino capta a nossa atenção ou a beleza de um gesto, de uma inteligência, enfim de um canto pessoal, nos causa uma alegria inesperada?
A minha já longa vida ensinou-me a viver com a tranquilidade possível cada momento, desconstruindo como posso a inevitável expectativa que sempre se vai formando. As suposições centradas no futuro carecem em geral de realismo e são o trampolim mais certo para a decepção. Assentam nas nossas previsões do comportamento dos demais, muitas vezes das suas características que apenas mal vislumbrámos.
A fim de combater a sinistra tendência para criar expectativas, sinto que o ser humano tem de habitar a serenidade e resumir-se à única expectativa legítima: a de si mesmo.
Respeitar o espaço de manobra do outro, o seu canto e o seu ritmo, sem julgamentos.
Aguardar o timing certo para cada coisa na vida.
Não esperar nada de ninguém.
Preservar a fluidez da interioridade para que os mortíferos e sufocantes véus da inquietação e da angústia não baixem a sua dança de morte em vida.

Não há nada a esperar fora de nós.
Mas admitamos que, se acaso uma luz afim ilumina, ainda que brevemente, um troço do nosso caminho, a alegria e o consolo são incomensuráveis!

A VOZ



Como uma voz de fonte que cessasse,(...)
a voz que do meu tédio nasce”
Fernando Pessoa


Desde sempre que a voz humana constituiu para mim uma referência valiosa sobre o outro. Não que pensasse nisso ou decidisse à partida que tinha de a avaliar para saber quem estava à minha frente. Aconteceu sempre, de forma espontânea.

 Sem que o espere, a voz do outro abre-me o coração, irrita-me, devassa-me ou reverencia-me, conquista-me, indispõe-me, cansa-me, tranquiliza-me, arranha-me o ouvido, acaricia-me ou agride-me.
Num segundo, apresenta-se-me no outro, através da voz, o aliado, o inimigo, o cúmplice, o ser doente ou mal amado, o agressor, o fraco, o perdido, o invejoso, o falso. Como me pode, pela voz, tocar a inconfundível chispa do amor, da criatividade, da força, do estímulo, da autoridade e da ternura em disponibilidade. Por mais que, por vezes, as palavras emitidas pareçam dizer algo de diferente.

Ao tomar consciência destes factos, passei a reflectir sobre a voz, esse primordial instrumento de comunicação, sine qua non, resultado a nível físico de um trabalho conjunto dos sistemas respiratório, digestivo e nervoso, dos músculos e até da arquitectura do esqueleto. A voz é som, vibra no ar, de uns para os outros,  montada na sua intensidade, inflexão e altura. Na forma como as palavras são articuladas.



Sinto, porém, que há muito mais por revelar. Como em tantas outras áreas, acredito que também no caso da voz, misteriosos véus de olvido barram a nossa memória no que se refere ao seu grande poder - íntimamente associado ao que cada um é, em essência – e à sua capacidade interpretativa e de comunicar o estádio em que, momento a momento, nos encontramos na manifestação.

Cada voz desdobra-se em mil vozes, múltiplas e opcionais, que aguardam ser redescobertas e reintegradas na nossa consciência, como valiosos indicadores acerca de quem nos rodeia.

De forma paradoxal, destaca-se de entre todas a voz do silêncio, uma das mais poderosas, pela sua capacidade de por vezes curar o próprio, punir o outro, consentir na injustiça por omissão e sobrepôr-se à compadecida e cálida voz do coração.


Assim, amigos, nem sempre o silêncio é de oiro...

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

REMINISCÊNCIA

“A sabedoria não é dada pela vivência mas pela reminiscencia.”

NATÁLIA CORREIA



Ando sempre no encalce de uma certa reminiscência. Dei-me conta disso há algum tempo, ao tentar compreender percursos passados e um certo padrão comportamental recorrente através da minha vida.

Este algo de reminiscente que detectamos nos outros ou em determinadas situações liga-se por vezes de forma mágica ao que lhe é contraparte em nós e estimula-nos – se conseguirmos alhearmo-nos da força do racional – a acções imprevisíveis e até aparentemente absurdas.

A reminiscência, neste sentido, é comparável a uma recordação muito vaga, quase apagada, um resíduo qualquer que, contudo, toca misteriosamente botões-chave em nós. Essa lembrança indecisa é como que retomada pela consciência e por vezes, de forma incontrolável, alcança alturas de verdade transcendente. Transporta-nos irremediávelmente para algo mais acercado do que nos é interior e precioso e desse fenómeno irradia uma espécie de sabedoria que nos conduz por trilhos inesperados.

É como se a fortaleza do sensível nos impedisse de termos acesso, na densidade, ao que deveria ser naturalmente inteligível. Pois aquilo que os sentidos interiores detectam dá-nos forças, nutre o nosso voo interior que chega a fazer-se exterior e revelado, com tudo o que isso implica.

Não me refiro, como acho ser óbvio, ao sentido mais imediato da palavra “reminiscência”, como memória mais ou menos exacta de factos, pessoas, situações já vivenciadas nesta existência. Aponto aqui para algo mais subtil mas infinitamente mais poderoso que nos catapulta com frequência para uma espécie de auto-transcendência naquilo que sempre fomos (ou aparentámos ser até então).

Trata-se de uma identidade, sintonia, dejà vu, reconhecimento (por vezes brutal) de algo ou de alguém, de um horizonte ou circunstância, que faz tocar as sinetas ocultas das nossas células e nos impele numa direcção nova. Frequentemente, o reconhecido nunca chega a ser completamente lembrado, muito se perde aqui na densidade, pois creio ser provável que esses poderosos auxiliares de memória provenham do reino do Absoluto onde tudo está registado e ao qual não temos acesso directo.



O que é certo é que, para mim, detectar essa reminiscência no que me é exterior, constitui sempre estímulo e é fonte de uma certa alegria. Pelo menos de início, quando o milagre se dá.

Depois tudo tem a ver com a continua decisão da alma de buscar o genuino, não obstante as dificuldades e as inconveniências do processo.



Mas vale com certeza o empenho pois, como diz Natália Correia, o sentido sábio das coisas só nos pode ser dado afinal pela reminiscência.