Número total de visualizações de página

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

VAGUEANTE




Sinto-me tenra hoje, como o dia. Tenra e vacilante, sem palavras ousadas, nem grandes causas…
Estive com Florbela, apetecem-me poemas antigos, tudo a cor pastel como nos sonhos, penso em tanta coisa mas estou sem ânimo…


Trouxeram-me umas rosas salmão, laivos de qualquer coisa recordada, o ar está fresco ainda bem, não tenho que falar com ninguém depois das oito…
Por onde andarei que não me encontro, não sinto nada apenas a vaga melancolia do dia, da vida que se apaga, o silêncio cada vez maior, os espaços em branco que aguardaram sempre a chegada da palavra por inventor…



Preciso de um ombro e não preciso, os ombros têm preço, noto que o amor entre os seres é pó a esfarelar-se por entre os dedos sempre abertos de quem busca dividendos…



Quem partilha este gosto pelo cheiro do ar e nota o oiro à solta nas coisas secretas pouco vistas, nos cenários apenas esboçados, oníricos e sem definição concreta?



Ainda me busco, não sei quem sou. Às vezes sei, quando o canto das cigarras atravessa o perfume da noite enluarada e a relva cheira ao útero da Terra, agridoce e cálida, prenha de juras de fertilidade e de oferenda… Nessas alturas, levanto-me de um salto, arrimo-me ao postigo e sorvo tudo atordoada, porque quase lá chego, eu quase entendo…



Gosto deste dia, apesar de tudo. A cor esbatida de todas as coisas, as ausências e omissões, tudo pastel, sem contornos claros, tudo indefinido como a vida e o destino…



Apoio-me nos poetas mortos, prevejo os que hão-de vir montados num tempo novo, sem pergaminhos, sem poetas laureados. Apoio-me numa elegância vaga que irradia de um fundo qualquer em mim e me é preciosa. Porquê, não sei. Parece uma écharpe de musselina verde-musgo claro, desfraldada na brisa de um impulso inconfessado, as palavras que nunca escreverei…



Diminuiu a luz, reacendeu-se o ânimo. Ponho velas interiores a uma santa que acabei de fabricar, peço-lhe a benção. Talvez seja a minha madre, talvez ela, quem mais me poderia bendizer assim, a mim que não sei quem sou, a mim que me escondo atrás de poemas e de flores e trabalho, e trabalho, e trabalho…



No rio do meu sentir correm agora ecos de algo suspenso em mim, porventura adiado, irrealizável talvez…



Saudade de uma coisa fugidia…
______
Quadro: Monserrat Gudiol

domingo, 29 de setembro de 2013

A EXPECTATIVA



A expectativa é irmã chegada da esperança.

A expectativa baseia-se em supostas possibilidades, desenvolvimentos futuros, em pressupostos que apontam em direcções imaginárias. Observamos os seres, as situações, às vezes um pequeno detalhe e…esperamos.
O que esperamos é sempre fruto do que somos. E do que nos falta.

Possuidora de uma imaginação fértil, fui sempre sensível ao que nos outros me toca e criei, assim,  na vida variadíssimas expectativas enquanto achava que estava só a viver o momento e a corresponder-lhe.
Não é assim. Aprendi, contudo, a controlar as minhas projecções imaginativas quando algo ou alguém me chama a atenção, quando sinto identidade de alma ou qualquer tipo de sintonia.
A expectativa tem, em geral, pouca sustentabilidade e, frequentemente, tem mais a ver connosco do que com o outro.  Resulta amiúde de algum vazio interior, de partes do nosso ser que sentimos incompreendidas ou não realizadas. O facto de determinada corda em nós se sentir tocada, abre em nós irracionalmente, uma ogiva para o sol que pode ser ilusória. Em geral, é assim.

Alguém comentou que o desejo é o outro irmão da expectativa.



O desejo está intimamente ligado com aquilo que se espera, por nos faltar. A expectativa, se alimentada febrilmente (como é muitas vezes o caso), dá origem ao desejo de que algo específico ocorra. E aí se apresenta a grande armadilha, pois que o desejo é interior à pessoa, aquilo que ele propõe não faz parte da chamada realidade antes é resultado de uma carência pessoal, portanto, das fabricações de cada um. Poder-se-á argumentar que por vezes o desejo  viaja de forma recíproca, ou seja, de quem deseja para o desejado e vice-versa. Assim é, mas muita dor e decepção se evitariam se, em vez de nos fixarmos no objecto desejado, a nossa atenção fosse investida de modo estóico no fluir da própria vida, numa attitude de aceitação e de confiança em que “o que está escrito nas estrelas” buscará a sua descida à matéria, independentemente dos nossos desejos pessoais.

Mas, então, que fazer, quando um timbre mais fino capta a nossa atenção ou a beleza de um gesto, de uma inteligência, enfim de um canto pessoal, nos causa uma alegria inesperada?
A minha já longa vida ensinou-me a viver com a tranquilidade possível cada momento, desconstruindo como posso a inevitável expectativa que sempre se vai formando. As suposições centradas no futuro carecem em geral de realismo e são o trampolim mais certo para a decepção. Assentam nas nossas previsões do comportamento dos demais, muitas vezes das suas características que apenas mal vislumbrámos.
A fim de combater a sinistra tendência para criar expectativas, sinto que o ser humano tem de habitar a serenidade e resumir-se à única expectativa legítima: a de si mesmo.
Respeitar o espaço de manobra do outro, o seu canto e o seu ritmo, sem julgamentos.
Aguardar o timing certo para cada coisa na vida.
Não esperar nada de ninguém.
Preservar a fluidez da interioridade para que os mortíferos e sufocantes véus da inquietação e da angústia não baixem a sua dança de morte em vida.

Não há nada a esperar fora de nós.
Mas admitamos que, se acaso uma luz afim ilumina, ainda que brevemente, um troço do nosso caminho, a alegria e o consolo são incomensuráveis!

A VOZ



Como uma voz de fonte que cessasse,(...)
a voz que do meu tédio nasce”
Fernando Pessoa


Desde sempre que a voz humana constituiu para mim uma referência valiosa sobre o outro. Não que pensasse nisso ou decidisse à partida que tinha de a avaliar para saber quem estava à minha frente. Aconteceu sempre, de forma espontânea.

 Sem que o espere, a voz do outro abre-me o coração, irrita-me, devassa-me ou reverencia-me, conquista-me, indispõe-me, cansa-me, tranquiliza-me, arranha-me o ouvido, acaricia-me ou agride-me.
Num segundo, apresenta-se-me no outro, através da voz, o aliado, o inimigo, o cúmplice, o ser doente ou mal amado, o agressor, o fraco, o perdido, o invejoso, o falso. Como me pode, pela voz, tocar a inconfundível chispa do amor, da criatividade, da força, do estímulo, da autoridade e da ternura em disponibilidade. Por mais que, por vezes, as palavras emitidas pareçam dizer algo de diferente.

Ao tomar consciência destes factos, passei a reflectir sobre a voz, esse primordial instrumento de comunicação, sine qua non, resultado a nível físico de um trabalho conjunto dos sistemas respiratório, digestivo e nervoso, dos músculos e até da arquitectura do esqueleto. A voz é som, vibra no ar, de uns para os outros,  montada na sua intensidade, inflexão e altura. Na forma como as palavras são articuladas.



Sinto, porém, que há muito mais por revelar. Como em tantas outras áreas, acredito que também no caso da voz, misteriosos véus de olvido barram a nossa memória no que se refere ao seu grande poder - íntimamente associado ao que cada um é, em essência – e à sua capacidade interpretativa e de comunicar o estádio em que, momento a momento, nos encontramos na manifestação.

Cada voz desdobra-se em mil vozes, múltiplas e opcionais, que aguardam ser redescobertas e reintegradas na nossa consciência, como valiosos indicadores acerca de quem nos rodeia.

De forma paradoxal, destaca-se de entre todas a voz do silêncio, uma das mais poderosas, pela sua capacidade de por vezes curar o próprio, punir o outro, consentir na injustiça por omissão e sobrepôr-se à compadecida e cálida voz do coração.


Assim, amigos, nem sempre o silêncio é de oiro...

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

REMINISCÊNCIA

“A sabedoria não é dada pela vivência mas pela reminiscencia.”

NATÁLIA CORREIA



Ando sempre no encalce de uma certa reminiscência. Dei-me conta disso há algum tempo, ao tentar compreender percursos passados e um certo padrão comportamental recorrente através da minha vida.

Este algo de reminiscente que detectamos nos outros ou em determinadas situações liga-se por vezes de forma mágica ao que lhe é contraparte em nós e estimula-nos – se conseguirmos alhearmo-nos da força do racional – a acções imprevisíveis e até aparentemente absurdas.

A reminiscência, neste sentido, é comparável a uma recordação muito vaga, quase apagada, um resíduo qualquer que, contudo, toca misteriosamente botões-chave em nós. Essa lembrança indecisa é como que retomada pela consciência e por vezes, de forma incontrolável, alcança alturas de verdade transcendente. Transporta-nos irremediávelmente para algo mais acercado do que nos é interior e precioso e desse fenómeno irradia uma espécie de sabedoria que nos conduz por trilhos inesperados.

É como se a fortaleza do sensível nos impedisse de termos acesso, na densidade, ao que deveria ser naturalmente inteligível. Pois aquilo que os sentidos interiores detectam dá-nos forças, nutre o nosso voo interior que chega a fazer-se exterior e revelado, com tudo o que isso implica.

Não me refiro, como acho ser óbvio, ao sentido mais imediato da palavra “reminiscência”, como memória mais ou menos exacta de factos, pessoas, situações já vivenciadas nesta existência. Aponto aqui para algo mais subtil mas infinitamente mais poderoso que nos catapulta com frequência para uma espécie de auto-transcendência naquilo que sempre fomos (ou aparentámos ser até então).

Trata-se de uma identidade, sintonia, dejà vu, reconhecimento (por vezes brutal) de algo ou de alguém, de um horizonte ou circunstância, que faz tocar as sinetas ocultas das nossas células e nos impele numa direcção nova. Frequentemente, o reconhecido nunca chega a ser completamente lembrado, muito se perde aqui na densidade, pois creio ser provável que esses poderosos auxiliares de memória provenham do reino do Absoluto onde tudo está registado e ao qual não temos acesso directo.



O que é certo é que, para mim, detectar essa reminiscência no que me é exterior, constitui sempre estímulo e é fonte de uma certa alegria. Pelo menos de início, quando o milagre se dá.

Depois tudo tem a ver com a continua decisão da alma de buscar o genuino, não obstante as dificuldades e as inconveniências do processo.



Mas vale com certeza o empenho pois, como diz Natália Correia, o sentido sábio das coisas só nos pode ser dado afinal pela reminiscência.