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quarta-feira, 29 de junho de 2011

NO CORPO DO SOPRO

Com quem se relaciona o outro, em mim? Com a minha aparência física, com as palavras que digo?
Com as construções que vou deixando pelo caminho, com a minha conta bancária?
Com o que sou ou com o que pareço ser? Com o meu passado, com o meu futuro?
Em que precários e transitórios pilares assenta a dança entre os seres, que fantasiosas invenções assistem os grandes envolvimentos, uniões, amores, acordos, amizades e o seus opostos, toda a trama a que chamamos vida?
Em que é que devo acreditar? No abraço ou na rejeição, os papéis confundem-se, há com frequência trágicas nuances de ilusão naquilo em que acreditamos, prosseguimos, no empenho que colocamos no que nos parece acima, para além de, mais importante que tudo.
Chega depois a interrogação fulcral, num crescendo, por vezes ardente ferro em brasa, latejante e febril lá nos fundos da gente. Quem sou eu? O que sou eu? Para quê, eu? Por quê, eu? Eu não sou o medo e eu não sou a cólera, não sou nem a filha de, nem a mãe de, não sou a esposa, nem a chefe, não o ser que entra e sai de cena, não a ganhadora, não aquela que perde...
O nível da minha verdadeira existência alinha-se com o corpo de um sopro, uma ampla liberdade inexpressável, doçura antiquíssima, infinita como um golpe de asa branca. Algo que vive no alinhamento cósmico, alguma coisa eterna, inquebrável, um canto sem voz mas gloriosamente escutado no dentro de todas as coisas vivas.
Quanto mais me posso aproximar, no verbo, daquilo que sinto que sou? E se o sou, a que nível é que esse ser acontece, como e quando se expressa, quem ou o que é que despoleta a sua manifestação?
Ponho e tiro máscaras. As máscaras funcionam para o consenso, não desafiam em demasiado a norma. Escudos, barreiras, diques protectores daquilo que eu não sei dizer, aquilo que respira e pulsa como um coração de cristal, insustentável na aparência porém sobreposto ao espaço e ao tempo, eu sinto. As máscaras cobrem, abafam o coração cristalino, aquele que se não pode e se não sabe expôr.
Eu queria, eu queria ser só o que sou para não mais aparentar ser o que não sou. Mas  os sóis e as luas do infinito cosmos continuam a cruzar-se nas suas danças elípticas, avançam hipóteses, contrariam planos. Tudo com certeza pleno de significado e de intento. Eu, contudo, sou apenas uma consciência em expansão, pequena glosa de um todo que não abarco, inábil transportadora de indelével memória, força, registo.
Desço agora ao roseiral para ver se me sinto, se me agarro, antes que a noite baixe e já não possa mirar as rosas...

terça-feira, 28 de junho de 2011

CARPE DIEM

Nada acontece por acaso e é a nossa reacção a tudo o que se passa na vida que determina o curso da mesma e a saúde do nosso corpo físico, entre outras coisas.
Assim me falou Leonor, uma amiga e colega dos tempos da universidade que eu já não via há anos e com quem me encontrei, ontem à tardinha, num velho restaurante do Chiado. Continuava bem de aparência mas via-se que necessitava de falar. Durante e sobretudo após o almoço contou-me como uma série de factos inesperados na sua vida haviam desencadeado, no seu plano emocional, sentimentos de profunda dor, logo seguidos de zanga, cólera, rejeição e até aversão. Autênticos venenos para o seu ser, admitiu. Adoecera mesmo.

Felizmente, tomei rapidamente consciência disso e logrei transmutá-los. Para o quê?
Para a aceitação em mim de que não posso mudar os outros, não sou responsável pelos seus actos, não posso dirigir a sua rota nem colori-la dos meus sonhos e expectativas, ainda que os outros tenham a sua quota responsabilidade  na construção dos mesmos.
Mas posso, num acto de profundo amor por mim e pela vida, deixar de alimentar com sentimentos reactivos formas-pensamento que só poderão empestar os meus dias e arrastar-me para uma vibração baixa. Não sou responsável pelo comportamento dos outros – desamor, egoísmo, arrogância, (auto)traição, volatilidade, inconstância, deslealdade, ingratidão, o que quer que seja. Nem sequer me cabe julgá-los. Constato, apenas, pois não sou cega. E sigo o meu caminho.

Soa a fácil, mas não é.
Antes de mais, torna-se necessário desenvolver uma profunda confiança na vida, nos seus misteriosos caminhos e na forma, por vezes brutal, que ela tem de nos acordar da ilusão.
Depois, é preciso humildade para ser capaz de olhar de frente os factos que o ego busca sempre embelezar, pois a verdade morde por vezes fundo e dói na devida correspondência.
E, finalmente, torna-se imperativo alcançar um estado interno de serenidade para que a aceitação ocorra sem distorções nem embelezamentos enganosos e retire, desse modo, ao outro o poder de nos atingir.

O problema, em última análise, é sempre nosso: alimentamos a ilusão, projectamos nos outros a nossa expectativa e carecemos de lucidez e de coragem para detectar a mentira e a fraude, quando estas ocorrem.
Leonor olhou-me, como se me não visse, os olhos grandes e pensativos focados para além de mim, numa serenidade quase contemplativa. Sorri-lhe e soube que para ela aquele era já um dia novo. Não diria de sol brilhante, mas um dia tranquilo, provavelmente pleno de muitas pequenas coisas valiosas que os estádios de dor e de estupefacta revolta não nos deixam ver.
Agarra com todas as tuas forças esse dia novo, amiga, e inscreve na sua memória este teu passo em frente!

A VOZ

 Como uma voz de fonte que cessasse,(...)
a voz que do meu tédio nasce”
Fernando Pessoa

Desde sempre que a voz humana constituiu para mim uma referência valiosa sobre o outro. Não que pensasse nisso ou decidisse à partida que tinha de a avaliar para saber quem estava à minha frente. Aconteceu sempre, de forma expontânea.


Sem que o espere, a voz do outro abre-me o coração, irrita-me, devassa-me ou reverencia-me, conquista-me, indispõe-me, cansa-me, tranquiliza-me, arranha-me o ouvido, acaricia-me ou agride-me. Num segundo, apresenta-se-me no outro, através da voz, o aliado, o inimigo, o cúmplice, o ser doente ou mal amado,o agressor, o fraco, o perdido, o invejoso, o falso. Como me pode tocar a inconfundível  chispa do amor, da criatividade, da força, do estímulo, da autoridade e da ternura em disponibilidade. Por mais que, por vezes, as palavras emitidas pareçam dizer algo de diferente.


Ao tomar consciência destes factos, passei a reflectir sobre a voz, esse primordial instrumento de comunicação, sine qua non, resultado a nível físico de um trabalho conjunto dos sistemas respiratório, digestivo e nervoso, dos músculos e até da arquitectura do esqueleto. A voz é som, vibra no ar, de uns para os outros,  montada na sua intensidade, inflexão e altura. Na forma como as palavras são articuladas.
Sinto, porém, que há muito mais por revelar. Como em tantas outras áreas, acho que também no caso da voz, misteriosos véus de olvido barram a nossa memória no que se refere ao seu grande poder - íntimamente associado ao que cada um é, em essência – e à sua capacidade interpretativa e de comunicar o estádio em que, momento a momento, nos encontramos na manifestação.

Cada voz desdobra-se em mil vozes, múltiplas e opcionais, que aguardam ser redescobertas e reintegradas na nossa consciência, como valiosos indicadores acerca de quem nos rodeia.
De forma paradoxal, destaca-se de entre todas a voz do silêncio, uma das mais poderosas, pela sua capacidade de por vezes curar o próprio, punir o outro, consentir na injustiça por omissão e sobrepôr-se à compadecida e cálida voz do coração.
Assim, amigos, nem sempre o silêncio é de oiro!

A HISTÓRIA DE BLANCA DESISTENTE

Sentia vontade de chorar e chorou mesmo, mas não ficou aliviada.

Buscava a palavra essencial, aquela que emergisse depois de tudo se aquietar, após limpar o lixo, calar a estereofonia, sentir-se só, em casa, finalmente nos braços do Silêncio. A palavra capaz de sobreviver à dor finíssima e imperceptível que lhe atravessava o coração como uma lâmina estreita e longa, fria como um iceberg.
Lá fora, nos jardins, cães ladravam furiosamente, numa reclamação magna e sem sentido. Sem sentido parecia aliás tudo, hoje em dia, pois em vez da aguardada palavra de ouro, aflorava apenas um gosto a desolação, muito pouco que lhe restasse em que acreditar.
Ser-lhe-ia fácil contar-se uma outra história se fosse menos rigorosa, mais dada ao auto-engano. Mas se Blanca sentia assim as coisas, as historietas de outrora – as boas, as que têm final feliz, aquelas em que as coisas se resolvem e tudo acaba em luz e em elevação – tinham deixado de fazer  sentido. Só podia ajuizar pela sua própria vida, pela limpida intenção que lhe crivara a ponto cruz  a alma de sonhos e esboços de voos e o contraste dos desfechos, uns após outros. Os dos sonhos mais íntimos e preciosos, o desaparecimento da crença nos outros que era (quase) o fim da confiança na vida.
Quase, tudo tinha sido sempre quase, mas... não, finalmente. E era isso o que mais lhe custava, pois a dimensão da sua interioridade extravasava-a, num auto-sufoco assassino da vida que lhe restava.

Pensava Blanca em desistir. Podia ficar ou partir, mas o cheiro a desistência empestava-lhe os dias e tisnava de lonjura e vazio os seus grandes olhos que, tudo vendo, já nada viam como antes. Ela sabia que o encanto se perdera, já não acreditava mais que alguém sentisse por ela alguma coisa do que realmente conta, pois também ela deixara de sentir fosse o que fosse. Achava agora que não passara de um ser utilitário para os outros, às vezes uma espécie de milagreira, e que muita ficção tinha corrido à conta disso. Mas mais nada.
Quando chorava – e fazia-o muitas vezes – não chorava por ninguém nem por nada. Descomprimia um pouco e ficava-se depois no eco de alguma coisa que tinha estado para ser mas não fora, alguma coisa já sem rosto, que dela havia descolado num voo sem retorno.
Até Mahler, cuja música sempre a havia inspirado, lhe parecia excessivo agora.
Não faz sentido tanta dor, não é preciso viver se o que nos rodeia é a anti-vida - ecos, ecos e só ecos das mentiras que tomei como sagradas verdades.

Decidiu ir-se. De uma forma muito feminina. Tomou-os muito rapidamente e esgueirou-se como uma nota final, em fuga.
                                                                 //////

Eu soube da história de Blanca porque acompanhei amigos comuns ao funeral. E o que neles e na família detectei parece desmentir em absoluto o que levou aquela doce mulher a antecipar o fim da sua residência na Terra. Ou talvez seja a minha imaginação  criadora a tentar dourar a pílula.

O facto é que se pudesse, mesmo sem a conhecer, teria a tempo abraçado Blanca com toda a minha alma e amado com todas as minhas forças, para que os seus grandes olhos rasos de água voltassem a sorrir.
Sendo as coisas como são, deixo aqui o meu testemunho para que nele se pondere.  

sexta-feira, 24 de junho de 2011

EM NOME DO AMOR

A capacidade individual de imaginação leva-nos frequentemente a  todo o tipo de transferências, ao criarmos e alimentarmos laços fantasiados de fusão, seja com essa primeira e insubstituível figura que é a mãe, seja com os objectos de amor que vamos identificando pela vida fora. A  privação  afectiva conduz, de facto,  a todo o tipo de projecções e  identificações enganosas. Estas últimas ocorrem mais frequentemente no ser propenso ao auto-engano, em geral aquele que, por ser incapaz de se enfrentar verdadeiramente nos seus aspectos mais sombrios, encontra evasão, alívio e uma passageira auto-confirmação de bem-estar e de felicidade, na eternamente renovada (e actualizada) versão do que lhe "acontece” ou “vai acontecendo”no processo a que me habituei a chamar turismo emocional .

A palavra amor tem vindo a perder o sentido, pela banalização do seu uso. Chama-se amor a toda e qualquer excitação, por mais passageira e fútil que ela seja, ou meramente baseada numa atracção física. São também erroneamente identificadas como amor as projecções que não passam de meros processos de gratificação de um ego descompensado,  eternamente em busca de “contrapesos” para as suas frustrações ou para justificar o script que a persona alienada inventa e acarinha para a sua própria sobrevivência.

Num tempo em que tanto se fala de amor mas em que os exemplos de vivências de amor genuino e amadurecido são raros, parece-me que estamos de volta à estaca zero em termos de evolução nesta matéria.  Somos em geral seres descompensados, pouco ou nada conscientes do que em nós transportamos e, como tal, ao prosseguirmos as histórias imediatas (as que estão ao alcance da mão),  deixamos com frequência escapar a Verdadeira Vida.  Seja por ignorarmos ou relegarmos para lugar secundário os nossos mais importantes e já encontrados parceiros de rota na Terra, seja pela nossa incapacidade de nos preservarmos para esse encontro.
Tudo isto advém da falta de amor-próprio e da não integração do que é essa energia que permite, com o outro, tocar a transcendência. A experiência de amar, para ser verdadeira, não exige formatos ou compromissos.
Ela É em si mesma o compromisso e adapta-se naturalmente às circunstâncias da vida. Com a inocente alegria da dádiva e sem a ultrajante contabilidade hoje em dia demasiado presente nas “histórias de amor”.

O A B R A Ç O

Hoje precisei de um abraço.

Um abraço longo, apertado, íntimo, um abraço que me confirmasse que estou viva, que alguém ainda consegue vislumbrar esse núcleo de cristal fechado a sete chaves que receio perder, quebrar, adulterar se o expuser mais...

Precisei de um abraço vindo de outra alma, daqueles que se estendem para além dos limites do físico, e alongam etéricos dedos luminosos de amor e compaixão sobre a nossa miséria. Um abraço sem palavras, sem compromissos, sem desculpas, despido de intenções, perfumado do sentir magno que cabe num soluço.  

Pedi, roguei, chorei por esse abraço mas ele não chegava. Passavam gentes, vozes, telefonemas, mas ele não chegava. Falei com a terra, chorei outra vez. No céu rimbombava a trovoada e escurecia tudo ao meu redor.
Pensei na minha vida, nos passos que ficaram para trás e naqueles que hoje consigo dar. No que valeu ou não valeu a pena, o que soube e o que não soube fazer. A vida, a morte, a dor de nos encontrarmos um dia com estranhos no lugar dos seres em quem confiámos.

O abraço chegou, por fim. De forma virtual, mas sincero e cálido, reconfortante como os braços da Mãe.
Grata, partilho isto convosco, pois foi este o retorno que me coube.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

O SER E O TER

O mercado anda inundado de citações, conferências e mesmo livros sobre o binómio Ser e Ter. Qualquer representante do “Novo Tempo” que se preze inclui referências a esta questão no seu discurso, em geral alegando a imperativa necessidade de se ser em detrimento do ter. De forma geral, estas pessoas vivem com dificuldades, não “singraram” na vida e, se fossem realmente testadas com um inesperado afluxo de dinheiro às suas vidas, dariam muito provavelmente prova contrária do que apregoam.
Urge contudo uma reflexão séria sobre este assunto o qual, a meu ver, está na base da mudança de paradigmas que o mundo parece pedir com urgência.

Depois da segunda guerra mundial, as populações europeia e americana começaram a seguir uma via de dinâmica de mercados, numa linha de ampliação cada vez maior do ciclo mundial de consumo. No sistema vigente, o “ser” começou a ceder lugar ao “ter”, até que este último passou a ser tudo. Tu és o que tens, as pessoas valem o que valem pelo dinheiro que representam, pelo que podem comprar, ostentar, transaccionar.Assim, será de prever o que já se vem constatando, ou seja, os chamados mercado emergentes com os níveis de consumismo dos seus povos a aumentar a galope e a gerar desse modo os novos heróis do ter. A liderança económica do mundo está a deslocar-se para leste, onde os povos até agora com níveis de vida material muito inferiores aos dos do oeste, começam a poder experimentar as “delícias do consumismo”.
No entretanto, o mundo ocidental experimenta uma situação económica crítica, de fundo recessivo, com os instrumentos habituais a não conseguirem o efeito desejado de recuperação e de compensação das crises que se vão sucedendo e se continuam a anunciar. Roubini, o célebre professor da Universidade de Nova Iorque que previu a crise financeira dos Estados Unidos, acaba de anunciar a forte possibilidade de uma nova crise global para 2013
"Já existem elementos de fragilidade. Todos os países estão a adiar a questão da elevada dívida pública e privada, e todos estes problemas poderão emergir o mais tardar em 2013", o que se ficaria a dever ao estalar de “problemas orçamentais nos Estados Unidos, abrandamento do crescimento da economia chinesa, reestruturação da dívida europeia e estagnação económica no Japão”.
Num mundo cujo crescimento global se verá muito possívelmente travado, o ser humano vai ter de reformular os seus padrões de vida e aceitar um nível de consumismo muito inferior àquele a que se habituou nos últimos cinquenta anos.
Como sempre, a questão tem a ver com a consciência e a lição ficará mais ou menos aprendida na medida em que a primeira a consiga verdadeiramente integrar. A lição é exactamente a do “ser e do ter”.
No dia em que a consciência atinja que ninguém possui seja o que for e que o máximo que a esse nível nos acontece é sermos administradores temporários do que pelas nossas mãos passa (o que nos confere enormes responsabilidades em relação a nós mesmos e aos outros), que a matéria resultante da nossa criatividade no sentido construtivo é uma expressão do Ser e não o contrário, então poderemos talvez chegar à abundância natural para todos sem as cancerosas presenças da ganância e da competição.
Nesse Dia Novo, acredito que o Ser encontrará a sua plenitude de forma natural sendo capaz de gerar tudo aquilo de que necessita, sem recurso a estratagemas maquiavélicos para subtrair seja o que for ao outro, sem o querer explorar, enganar ou sobre ele exercer qualquer forma de domínio.
Infelizmente, penso que estamos ainda muito longe disso. Os modelos sociais que se pretendem continuar a seguir estão estafados e as vulnerabilidades da pessoa individual e dos países ocidentais fortemente acentuadas. O trabalho de consciência não foi feito, pelo que a força continua ilusoriamente a residir no “ter”, digam o que disserem os tais arautos do Novo Tempo.

Contudo, acredito que só se tem o que se é e essa é uma riqueza não transferível mas que irradia incessantemente e de forma inesgotável as produções que lhe são próprias.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

FICÇÃO DE SI MESMO


Escrevo sobre a ficção. Não a dos livros, mas  a das pessoas,  aquilo que leva cada um de nós a viver histórias arredadas do seu ser central e muito alienantes,  se considerarmos  os contornos fulcrais de cada um e do caminho que a alma lhe propõe.
Observava há dias o PM cessante, transpirado e de olhar febril (angústia, mágoa, ressentimento, nervosismo), a falar, ao ser conhecido o resultado das eleições, de tudo o que de bom tinha feito pelo país e como não queria como companheiros a tristeza, a frustração e o sentido de derrota nos “dias felizes que o aguardavam no futuro”.  Enquanto isso, a sua linguagem corporal denotava o oposto e havia no olhar laivos de alucinação.
Este caso é mais notório por se passar na praça pública mas não anda assim tão longe do que é observável nas vidas das pessoas.
A vida que conseguimos gerar não é com certeza fácil nem sempre interessante e, para a aguentar, há quem tenha desenvolvido o complicado hábito de ignorar a chamada realidade e viva de sonhos convenientes, que permitem aliviar as tensões, distraiem porque trazem elementos novos e não obrigam o ser a escarafunchar-se em busca de respostas para o sentido da sua existência. Modernamente, chama-se a isto coisas como “viver centrado no presente”,”responder ao chamamento do karma”, “estar ao serviço da vida” e outros grandes princípios do género. A realidade ficcional tem os seus atractivos imediatos pois permite aparentemente multiplicar as possibilidades de experiência, de mudança de cenários e que a nossa imaginação invente o fabuloso onde, pelo contrário, habita o seu inverso.
Um dia, porém, a vida obriga a acordar da ficção e cai tudo.Caiem as máscaras, as historietas mal contadas, os sentimentos inventados, os sonhos-de-fazer-de-conta. O ser central, à deriva, destituído das falsas referências que erroneamente acarinhou através das suas partes ficcionadas, perde o chão. Ainda não o sabe, mas este é o primeiro sinal de que falseou algo de muito importante na sua vida:  a sua auto-percepção e os actos e opções que daí decorrem.
Em termos do que realmente conta, ou seja, do conhecimento de si mesmo e dos aspectos a trabalhar na existência, não auguro grande futuro ao PM cessante nem a quem, como ele, sacode sistematicamente a água do capote, se desresponsabiliza das suas acções e segue em frente, cantando e rindo, aliviado do peso de ter como companheiros a tristeza, a frustração e o sentido de derrota. O ser que se ficciona sente a liberdade de tratar o universo à “sua maneira” de acordo com os “seus desejos/caprichos”. A questão a colocar com pertinência é, porém, a da autenticidade desse método, mesmo a da sua legítima existência.
Ficção por ficção, antes a dos livros.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

TURISMO EMOCIONAL

A necessidade de abandonar padrões tradicionais de sociedade, família e de relacionamentos, e abraçar novos códigos de valores comportamentais, tem-se feito sentir há décadas. Se por um lado tem levado a uma maior abertura das mentalidades e, por consequência, ao alargamento de horizontes pessoais e colectivos, tem por outro contribuído para um dramático crescimento daquilo a que chamaria o turismo emocional.

O que quero dizer com isto é que, seguramente influenciadas pelas chamadas “ideias novas” ou do “Novo Tempo” que com frequência difundem de forma obsessiva conceitos de poder pessoal, as pessoas desenvolveram um falso sentido de invencibilidade e creem-se capazes de se concentrarem de forma bem sucedida num numero interminável de outros seres.

O autor e terapeuta Wayne Muller chama a nossa atenção para o facto do ser humano, durante a sua curta residência ma Terra, dispôr de uma energia pessoal limitada e não poder amar bem, de forma responsável e estruturada e com continuidade (portanto construtivamente) no tempo mais do que uma meia dúzia de pessoas, mais coisa menos coisa. “Quantos ovos cabem numa mão? Se insistirmos em colocar mais do que o espaço disponível, os ovos começarão a cair e a partir” diz-nos Muller no contexto do seu célebre princípio Enough is enough.



Ninguém pode construir nada de sólido com as almas mais importantes da sua vida, se adoptar a perigosa atitude de se tentar concentrar em demasiados seres, pois alguém vai sobrar, ser descuidado, esquecido, mal amado, relegado (ainda que temporariamente) para um lugar secundário que lhe não pertence. Isto não significa que não devas cultivar uma disponibilidade interior para ouvir e atender os outros, dar de ti o que for possível em cada situação. Mas “entregares-te” de corpo e alma a cada novo caso que se te apresenta, em detrimento da atenção e dos cuidados que os principais “contratos de alma”, com os quais a este planeta chegaste, te devem merecer, conduzir-te-á, irremediavelmente, a uma destruturação emocional, à perda de relacionamentos-chave na tua vida e ao vazio.



Este turismo emocional é hoje muito praticado, principalmente por aqueles que, aliciados pelos frequentemente mal passados “novos conceitos”de postura na vida, saltitam de ser para ser, “em busca da última moda”, como diria o Bocage. Notória esta prática no campo sentimental, onde actualmente a experimentação é fértil e muito reveladora da pouca maturidade dos que a seguem. Em especial neste aspecto, o sagrado espaço interior reservado à prática do Amor, deve ser preservado a todo o custo para o que de valioso (e necessariamente raro) encontrares na tua vida.”

AS EMOÇÕES E O POLITICAMENTE CORRECTO



Calar as emoções e seguir a nossa vida da forma habitual sem as expressar é, com frequência, considerado politicamente correcto. Próprio dos educados, dos evoluídos mesmo.

Considera-se correcto não levantar a voz, não agitar os ares, não causar alterações abruptas numa ordem que se quer sem grandes ondas ou inconveniências para merecer o epíteto de civilizada!

Assim, as emoções e as dores, fechadas à chave nos recônditos do ser, fermentam perigosamente no veneno da sua não expressão e transformam-se em indetectáveis corpos de anti-vida os quais, cedo ou tarde, nos hão-de consumir em silêncio, de dentro para fora, e levar o mais precisoso dos nossos bens: a saúde e mesmo a Vida.

Não sou politicamente correcta e sinto a Vida em mim com uma intensidade pouco habitual. Acima de tudo, preciso de a expressar, como indispensável me é o ar que respiro.

Ao contrário do que muito boa e “qualificada” gente proclama, acredito ser de toda a vantagem para o ser verbalizar a panóplia de emoções que o assaltam, desde a alegria à dor, do desapontamento ao medo e mesmo a própria zanga. Isto porque é importante tentar reconhecer o que nos habita, sem coloridos hiperbólicos ou a odiosa máscara de “se ser bom e estar acima do lixo emocional próprio dos fracos”, encará-lo e dar-lhe voz no momento adequado. Desde que não nos descontrolemos ou descarreguemos as nossas emoções de forma inadvertida sobre inocentes terceiros que possam estar no nosso caminho. Desde que cuidemos a linguagem que utilizamos, sem recurso a asneiras ou termos de mau gosto, os quais podem rapidamente acarretar o descontrole.

Dar expressão ao que nos vai dentro é próprio do ser humano e liberta-nos. Como, de dentro de um quarto abafado, abrir uma janela de par em par para o ar fresco da manhã.

A verdade é sempre algo relativo, pois cada um detem a sua. A mim cabe-me buscar e dar expressão à minha, apresentando-a em toda a sua inteireza perante o outro.
Ser assim leva-nos muitos “amigos”. Elimina os politicamente correctos, para começar, os dissimulados, os falsos, os oportunistas, os teatreiros e os que se relacionaram com uma projecção mas nunca com o nosso verdadeiro ser. Cabe-nos muitas vezes a culpa de isso ter acontecido, pois o tango, em especial o da vida, é sempre dançado a dois.




terça-feira, 7 de junho de 2011

QUO VADIS, MATER?

A minha mãe acerca-se do final.

Fazia calor, ontem à tarde, quando me ocupei dela para que fosse composta, de férias, para casa do meu irmão. Mal se aguentava em pé, a respiração arfante, a incapacidade de concentração nas coisas da casa, as suas coisas, em que ela foi sempre exímia. A visão já quase se foi toda, também, as mãos torpes, o agora incompetente coração, triste mas sereno.
Ela sabe. Que a hora se aproxima e que tem de se despegar. De cada vez que lhe digo adeus, aperta-me muito contra si murmurando coisas como, “Minha filha querida, só tu, só tu me fazes isto” e sinto o seu cheiro e a aflição inconfessada de que esta possa ser a última vez.

A minha mãe vai morrer. Vai chegar em breve esse dia em que já não a teremos fisicamente entre nós, mesmo assim velhinha, eco da parede de força e afecto que sempre representou na nossa vida. Tenho medo desse dia, tenho medo que ela tenha medo desse dia. “Não tenho nenhuma pressa de ir para a viagem, está muito frio na terra...” diz, às vezes, quando está mais estimulada.
A viagem…de regresso, supõe-se, a algo mais completo e inteiro, embora sem corpo físico. Esse serviu apenas o momento fugidio da encarnação.
Acredito nisto. Estou quase certa que acredito nisto. Deveras.
E ela? Em que é que acredita a minha mãe, agora que já não tem nem força, nem juventude, agora que o coração lhe prega a partida, o rosto é uma ruga pregada e não pode ver os olhos azuis dos bisnetos?
Será a fé no seu Divino Mestre (que sempre achei ser nela uma figura de estilo para simbolizar a sua grande força interior e capacidade de realização), será esse pilar suficiente para abafar o medo atávico que todos acabamos por sentir ao pressentir que se aproxima o cruzar do portal a que chamamos Morte?


Tantas questões sem resposta. Como olhar o céu em noite estrelada e gritar alto: Quem está aí?

Observo-a, já tão alheada do mundo, a minha mãe. Já tão pouco da minha mãe nela, pois o vento forte de uma longa e difícil vida levou quase tudo. Menos o espírito que persiste em mantê-la independente na sua casa, quando hoje tão pouco pode por si mesma.

Vou-te perder de vista, minha mãe. Por uns instantes, entre a Terra e o Céu, o tempo de um soluço, de uma discreta lágrima, desaparecida a preciosa figura da matriz, do começo, do útero original.
Mas, mesmo nessa hora breve, viverás ainda na memória esplêndida do que em mim deixaste.

MOSTRA-ME A TUA FACE


MOSTRA-ME A TUA FACE
- aos amigos facebookianos

Mostra-me a tua face. Mostra-me a tua fronte, o jeito de entornares a cabeça para um lado, o teu sorriso, magnífico como só os sorrisos podem ser. Os olhos graves, belos, grandes, pequenos, semicerrados, alegres, tristes, inquiridores, fogosos, dulcíssimos, como só os olhos sabem falar. Revela-me como és, um breve apontamento do que és, representação, imagem.
Dispenso as extensas reportagens, as mil poses carregadas de narcisismo, a sobrecarga do teu privado.

Mas não te escondas. Não és quadro, objecto, cartaz, bichinho, tolice.
Preciso de olhar o desenho do teu rosto, juntá-lo às palavras que aqui deixas, recriar-te para mim.
É feio não dar a cara, ensinou-me a velha ama, revoltada com disfarces.
Os olhos são a janela da alma, repetia a velha ama, beijando os meus.

Mostra-te pois claramente. Este é o Livro da Face.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

DA ARROGÂNCIA INTELECTUAL E DOS SEUS ENGANOS



Há moléstias da alma que se manifestam mascaradas no comportamento do ser de superfície por forma a iludir os outros e, acima de tudo, o próprio. Um desses males é a arrogância intelectual.
Há dias, alguém do meu círculo de afectos, mencionou uma atitude que se insere nesse âmbito  e que lhe fora dirigida. De forma aparentemente correcta e através de frases bem construídas, alguém lhe lançara em cara um chorrilho de sabedoria académica desdenhando do saber alcançado através de uma vida dedicada à busca do conhecimento em determinada área específica, sem a rede, a segurança e o aval dum curso universitário. Depreciando o seu maravilhamento perante as manifestações ancestrais da humanidade face ao tema abordado – “atitude própria dos ignorantes, dos inseguros” - a autora da avaliação embrulhava as palavras em troça e sarcasmo leves e terminava de forma paternalista com conselhos e obras a estudar, a fim de evitar certos excessos.
Fico sempre inquieta perante este tipo de comportamento, há algo em mim que se levanta como onda em mar picado pronta a limpar a costa impura de tão grande ilusão. Nos meios académicos subsiste a ideia de que só o intelecto nutrido segundo as regras do sistema é capaz de  discursar sobre as matérias, emitir pareceres, passar conhecimento adequadamente, enfim ser o veículo privilegiado (e único validável) do vasto repositório de conhecimento que os livros representam.
Ora acontece serem minha crença e meu sentir profundos que uma afirmação que exclua, como menor, qualquer das infinitas possibilidades do ser humano alcançar conhecimento e o comunicar, é uma afirmação assente em falsas premissas e, sobretudo, na imensa insegurança que em última análise a arrogância intelectual representa. Note-se que sou uma eterna estudante, uma leitora entusiasta e apaixonada, que busca com avidez o conhecimento sob todas as suas formas e muito respeita quem o faz  também, dentro ou fora do sistema. Nos meios universitários ou no laboratório empírico da vida, nos livros e na aventura incomparável da manifestação, na actividade onírica ou na tangibilidade do chamado real.
Mas soube desde há muito - e a vida prova-me isso todos os dias - que o verdadeiro saber não tem de ser avalizado por diplomas nem ser reconhecido pelos sacerdotes das instituições e que não são uma vasta biblioteca nem os diplomas obtidos que necessariamente credibilizam alguém. A alma sabe e a mente reconhece quando se está perante o conhecimento integrado, mesmo que o formato da comunicação não encaixe no politicamente correcto. Mas para isso é necessária humildade, abertura à pluralidade da vida e dos meios com que ela dotou o ser humano. É preciso saber caminhar off the beaten track e reconhecer o grande mérito de quem consegue abrir a rota, por meios pouco ortodoxos, no ponto mais espesso da floresta, como os cavaleiros da Távola Redonda. Uma via que, embora possa estar apoiada na inteligência concreta e no conhecimento adquirido, só a alma pode dirigir.
Não sabe quem quer ou pretende saber, mas quem pode. E só pode, pelo menos potencialmente, aquele que sabe olhar com respeito e atenção os indícios e os sinais  pulsantes na vastidão da vida. Aquele que olha o outro com reverência e começa por si mesmo no exercício da profunda compaixão ante o muito relativo de tudo quanto se sabe.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

A VOZ

 Como uma voz de fonte que cessasse,(...)
a voz que do meu tédio nasce”
Fernando Pessoa

Desde sempre que a voz humana constituiu para mim uma referência valiosa sobre o outro. Não que pensasse nisso ou decidisse à partida que tinha de a avaliar para saber quem estava à minha frente. Aconteceu sempre, de forma expontânea.

Sem que o espere, a voz do outro abre-me o coração, irrita-me, devassa-me ou reverencia-me, conquista-me, indispõe-me, cansa-me, tranquiliza-me, arranha-me o ouvido, acaricia-me ou agride-me. Num segundo, apresenta-se-me no outro, através da voz, o aliado, o inimigo, o cúmplice, o ser doente ou mal amado,o agressor, o fraco, o perdido, o invejoso, o falso. Como me pode tocar a inconfundível  chispa do amor, da criatividade, da força, do estímulo, da autoridade e da ternura em disponibilidade. Por mais que, por vezes, as palavras emitidas pareçam dizer algo de diferente.


Ao tomar consciência destes factos, passei a reflectir sobre a voz, esse primordial instrumento de comunicação, sine qua non, resultado a nível físico de um trabalho conjunto dos sistemas respiratório, digestivo e nervoso, dos músculos e até da arquitectura do esqueleto. A voz é som, vibra no ar, de uns para os outros,  montada na sua intensidade, inflexão e altura. Na forma como as palavras são articuladas.
Sinto, porém, que há muito mais por revelar. Como em tantas outras áreas, acho que também no caso da voz, misteriosos véus de olvido barram a nossa memória no que se refere ao seu grande poder - íntimamente associado ao que cada um é, em essência – e à sua capacidade interpretativa e de comunicar o estádio em que, momento a momento, nos encontramos na manifestação.

Cada voz desdobra-se em mil vozes, múltiplas e opcionais, que aguardam ser redescobertas e reintegradas na nossa consciência, como valiosos indicadores acerca de quem nos rodeia.
De forma paradoxal, destaca-se de entre todas a voz do silêncio, uma das mais poderosas, pela sua capacidade de por vezes curar o próprio, punir o outro, consentir na injustiça por omissão e sobrepôr-se à compadecida e cálida voz do coração. 

Assim, amigos, nem sempre o silêncio é de oiro!