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segunda-feira, 10 de dezembro de 2012


RECORDANDO ANITA

Para a Anita, minha Mãe já partida
e para a Ana Cortiñas Payeras, para cuja dor o meu coração  de mulher-irmã se abre


Correspondias ao de leve com os lábios finos pregados, apenas entreabertos no centro por onde passava o fino sopro da vida que te restava. Correspondias assim aos meus beijos, aos carinhos desvelados das minha mãos feitas mãos de mãe para a Mãe que se apagava, serena e dorida, espasmos de olvido a ensombrarem as últimas horas, como se nada daquilo fizesse sentido, algo atraiçoava o que sempre souberas, como podia ser?

Tudo eram susurros à volta do quarto imaculadamente conservado, as tuas flores, as fragrâncias que tu amavas, os olhos mortiços seguiam-me lentamente e aos meus sorrisos – todos para ti porque insistia ainda  em injectar algo desta minha vitalidade no que de ti restava –não me querias decepcionar  mas sabias tão bem a inutilidade do esforço, sabias mas esquecias-te também – a abóboda alentejana apresentava-se alheia às tuas lembranças, onde estavas, que quadros eram aqueles, como tinhas ido ali parar, quando regressarias ao lar amado.
E eras outro ser, ninguém já saberia quem tu eras, quem tu foras, e enquanto o choro interno rasgava sulcos de dor dentro de mim, mudava-te a fralda entre beijos, bebia as lágrimas da tua vergonha  e aconchegava-te, dizia meu amor, minha querida, descansa agora, estou contigo, estou por aqui, não temas nada.
Não sei dizer como era, o que me assaltava quando te limpava cuidadosamente a vagina donde o meu corpo havia emergido um dia. Sentia-me de joelhos dentro de mim, eras de novo por momentos a rapariga de pernas bem feitas que me carregara no seu ventre com orgulho desusado e me cuidara amorosamente pela vida fora. Eras também a mulher velha, sapiente, a aceitar com dignidade e muita dor as voltas velhacas da vida, as  mãos enrugadas artríticas que os meus beijos acarinhavam mais que nunca.

Depois, seguiu-se a rápida curva  descendente. Diziam os boletins medicos que já nada valia a pena, que estava iminente. Oxigénio, morfina, e dentro cá dentro ainda passeavas comigo pelos cafés, ainda eras a cúmplice da minha vida, cuidávamos das crianças, faziamos bolos, as festas, as viagens, tratávamos das plantas, ajudávamo-nos uma à outra, sem censuras nem recriminações, amparo mútuo nas curvas apertadas. Vi a respiração encurtar-se até que estancou para sempre, as mãos já roxas ainda nas minhas, o momento sem sentido das frias condolências do medico a dizer que sim, que era verdade, que a Anita já não estava, já tinha partido, que o papel do hospital tinha findado  e que agora era tudo com a funerária.

Dentro de mim ergueram-se coros enlouquecidos a cantar a Mãe, deram voz à minha dor pela dor que ela sofrera, não tanto por ter partido.
Com o passar dos meses renovam-se as lágrimas, tenho tido que lidar com o que a Anita deixou, acima de tudo com a implacável deterioração física que o tempo imprime à invencibilidade interna de uma Mãe.
Nesse processo, cada um está dolorosamente só.

domingo, 9 de dezembro de 2012

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MIM EM MIM
(ao encontro das profundezas)


Como seria se nada disto - deveres, trabalho compras  falta de horas para dormir, gente pesada a arrastar insonscientemente o peso do mundo nos ombros arqueados sugando alívio à passagem – me entravasse o passo e eu pudesse movimentar-me solitária e sem interrupções pela costa fina da noite misteriosa, livre de amarras, ao encontro das vozes que me habitam e de um inquietante imaginário que, de tanto aguardar, ameaça sublevação?


Não dá sequer para fantasiar já que me falta o tempo para tal, mas neste momento clandestino arrancado à punitiva obrigatoriedade dos dias é-me permitido espraiar-me por segundos  na espuma cintilante de um passageiro  alívio e escapar-me para fora da gaiola segura da vida oficial. Ao teu encontro, sigo, mulher da alma vibrante e dos tenros núcleos, mulher-criança acocorada por detrás das máscaras da persona, todas elas necessárias, parece-me, todas tão dispensáveis, talvez. Sinto-a uma alma antiga, recorrente no esforço de se fazer ouvir, de tornar credível um canto deslembrado oriundo de um porto inexistente para os detectores tecnológicos. A fortaleza desconhecida, aplicável sem esforço noutras frequências, sofre aqui os testes da dualidade, reprime-se, empurrada sem dó para o depósito da reserva pessoal a utilizar quando sine qua non.
Quando te entrevejo. Mulher, não te quero mais largar. È como se fora de ti não existisse mais ar, nem luz ou sentido para a vida. De ti depende a pulsão saudável do tempo a que alguns chamam a verdade, em ti se prendem todos os meus encantamentos e a única grande esperança de eternidade.
Seduz-me, agarra-me, preenche os espaços intersticiais do meu corpo cansado com o mel dos teus olhos e esse sussurro que cheira a plantas frescas, a terra revolta, mar salgado, aves nocturnas, beleza feita tudo, sem fim, sem fim…

Cheguei à hora final.
De ti, e só de ti, dependerá o amanhã.
Fiat voluntas mea, sed maxime fiat voluntas tua.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012



BOND – INSTRUMENTO DA ESCRAVIDÃO

Se é difícil falar de certas coisas a um determinado nível, mais problemático se torna ainda tocar pontos de consciência que muitos ainda não alcançaram.

Fui ver o Skyfall. Grande êxito de bilheteira, aguardado com expectativa pelo mundo dos adoradores do 007, facturou logo no primeiro fim de semana de exibição 70 milhões de libras. Isto só no Reino Unido. Espera-se que ultrapasse rapidamente o mais bem sucedido filme da série até hoje, Casino Royale.
Sam Mendes, o realizador, assegurou-se da utilização de todos os ingredients que vendem um produto desta ordem: o talento de grandes actores, acção, fantasia, efeitos especiais espectaculares, armas, morte, violência, machismo, aparatosas perseguições de carros, dureza, agressividade, velocidade, mulheres que correspondem aos estereótipos actuais – magrinhas como um alfinete – todas mais ou menos submetidas ao absurdo herói Bond. Nem M, a patroa do MI6 escapa à regra pois, sob a mascara da dureza, encobre um fraquinho pelo agente secreto.
E Sam Mendes dispôs, é claro, de um orçamento ultra-generoso para a sua mediatica obra (200 milhões de dólares Americanos). Apesar de cortado, imagine-se.

Vi o filme como, hoje em dia, tento fazer tudo na vida.
Em estado de observação das mensagens passadas e da repercussão que as mesmas possam ter nas audiências, em especial nas camadas mais jovens e moldáveis.
As conclusões são inquietantes.
Para aqueles que disso ainda não tenham consciência, sera bom lembrar que tudo o que nos é oferecido pelos media (imprensa, cinema, televisão, internet) constitui em essência um arsenal de instrumentos de (de)formação do carácter pois nele imprimem poderosos padrões comportamentais e exemplos facilmente integráveis pelos menos avisados. Ora Skyfall, tal como o nome indica, é um exercício de abatimento. Abatem-se criaturas humanas, abatem-se carros, casas, abatem-se a ordem e a segurança públicas. Tudo a uma velocidade ultra-sónica, num guião pouco transcendente e focado na dualidade – o mundo divide-se entre os bons e os maus – por onde gravitam o herói Bond e o indispensável vilão, sob o olhar penetrante e inquieto de M. Rudeza, traição, secretismo e ódio a rodos, indiferença pelo valor da vida humana e ocasionais pinceladas de cariz sexual acompanham a rota de um Bond de cabelo à escovinha - mais com ar de agente do KGB do que do MI6 – sempre a escapar miraculosamente e sem ninguém perceber como das situações-limite em que se vai envolvendo. Final brutal e sangrento, com M a deixar-nos para sempre e um Bond a emergir ileso para a promessa de que voltará.
 
Nenhuma criação deve ser vista como separada do seu criador. Ian Fleming, o escritor que deu vida ao famoso James Bond, foi um homem sofrido, com uma juventude conturbada e muito álcool e cigarros. Morreu cedo, aos 56 anos, de um ataque de coração. Durante a Guerra, serviu no Intelligent Service da Marinha Britânica e essa experiência, à mistura com a sua formação de jornalista foram as plataformas donde projectou uma espécie de alter ego idealizado e invencível, James Bond - 007, Ordem para Matar! Fleming pintou Bond com as cores que secretamente desejaria ter possuído, ou seja, foi da Sombra deste autor que surgiu o agente secreto, enquanto sofria cada vez mais na sua casa da Jamaica ao tentar dar vida a cada novo livro. O que se  apresenta como traço paradoxal – ao criar dolorosamente o inabatível Bond o autor auto-destrói-se – é apenas o resultado de gerar sucesso radicado em padrões de morte e  destruição.

Preocupam-me muitas coisas no mundo de hoje. Acima de tudo, a incapacidade da grande maioria dos humanos terrestres para terem a percepção crítica do que lhes é impingido e o questionamento dos efeitos de produtos como este na continuidade da escravidão humana.  

terça-feira, 30 de outubro de 2012

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REFLEXÃO NO DIA QUE PASSA

Hesito por vezes em dizer certas coisas e abrir-me com sinceridade, pois esta é frequentemente interpretada como soberba ou sentido de superioridade sobre os outros.

Nada disso, o que digo é o que vejo, o que me fere a vista, os sentidos e está directamente conectado com este  impulso que sempre experimentei para nivelar por cima e buscar a excelência em todas as coisas na vida.
A humanidade terrestre está a braços com um dos maiores desafios de sempre, pelas mudanças radicais e aceleradas que se verificam a todos os níveis. A impermanência das conclusões a que se vai chegando nos diferentes domínios, o carácter passageiro e a óbvia transitoriedade de tudo, desde a casa aos afectos, da profissão aos sonhos, originam uma espécie de inquietude, por vezes indiferença, uma falta de compromisso consequente com os processos vitais para o nosso cumprimento pessoal.
Então, que fazer? Aqui estou sentada ao meu Mac donde sai um esplêndido Wagner e o incomparável Prelúdio a Tristão e Isolda, aqui me encontro rodeada de smartphones, ipad e uma pilha de trabalho infindável. O corpo pede-me descanso mas estou em Londres, a cidade amada, e os Pré-Rafaelitas esperam-me no Tate Britain. Tenho de ir, quero ir, a beleza extraordinária daquelas obras faz-me subir a energia uma oitava e é nessa plataforma que mais desfruto da vida. A minha escolha apresenta-se  a um tempo sábia e errada, pois sirvo a alma em detrimento do corpo, mas como os alívios e as dores da alma se reflectem sempre nele, arrisco. É este actualmente o paradoxo das nossas opções – não há permissão para parar e gozar de um descanso prolongado ou fixação seja no que for. À excepção da escuta interna que nos vai obrigando a fazer caminho ao andar, e nos impulsiona nas direcções mais inesperadas, tudo o resto nos vai escapando debaixo dos olhos, dos pés e de uma certa ideia de vida que não mais é. O Universo está com pressa e quem não estiver aberto aos seus desafios actuais, vai perder o comboio.
Aos desistentes, aos apáticos, aos entorpecidos pelas distracções (leia-se televisão e facebook sem critério, sexo sem amor, álcool e outras drogas, etc) espera-os a não-vida, ou seja, a morte em vida que é o pior dos destinos. Aos que se propõem seguir com verdade o fluir da vida, nada está garantido. Mas, um certo frémito da alma,  uma emoção nova e comovida ante os desafios e a tentativa de resposta do ser ao que a vida parece indicar como caminho, chegam-me por ora para me sustentar no processo.

domingo, 14 de outubro de 2012




REGRESSO AO CENTRO

Torna-te naquilo que és.
PINDARO

Oiço as vozes, as que atacam e as que se defendem, as que clamam que tudo é Bem e positivo e luminoso e as que apontam dedos acusatórios entre si, as que pedem justiça para as suas causas e ideais que a sociedade atira indiferentemente para segundo plano, para o esquecimento mesmo…
Vejo, como sombras vagas, outras mulheres debatendo-se, no seio do sofrimento, pela legitimidade da sua voz que há-de ser a certa, a melhor, a mais credível…
Sinto as marcas de milénios de dor e descentramento desse poder intrínseco e mágico que o patriarcado abafou, castigou, reprimiu, usurpou e a subreptícia e encoberta caminhada da fêmea, sobrevivente a qualquer custo, alheada, confundida, jogada hábilmente contra a outra fêmea, vítima de si mesma antes de qualquer outra coisa.
Como é que isto se passou, mulheres da Terra? Como é possível que continuemos a degladiarnos, a trocar palavras frouxas de conteúdo e sentido duvidoso, iradas umas contra as outras, ressentidas, dominadas por um falso sentido de superioridade, desleais em relação  ao que mais importa, o regresso a si mesmas?
Sou uma mulher como todas vós. Em mim uiva a loba, Lillith reclama soberania, a Mãe divina abre os meus braços amorosos para todas as crianças do mundo e o corpo sensível e maduro acusa estremecente o registo do passo do tempo. Tentei mimetizar Eva sem grande sucesso e gosto de me sentir bruxa (sem nada entender de bruxarias). Espero ter aprendido com as minhas quedas e dores que o importante é respeitar o espírito de quem, debaixo dos nossos olhos, desafia a nossa paciência com a traição de si mesma…

Busco quase em desespero tornar-me naquilo que verdadeiramente sou, a única coisa que importa afinal. Talvez tenha de morrer para o que tenho sido, desfazer-me de todos os simulacros, de todas as manipulações até que a rosa da essência se revele, como um amanhecer glorioso.
Por ora, a caminhada ainda é incerta. Quero tanto amar-vos, Mulheres da Terra, como a este centro tenro dentro de mim, manter-vos em mim num abraço eterno de solidariedade, justiça e bem querer, queria tanto que abandonassem os caminhos turvos e duvidosos de um passado obscuro para o nosso género e para a humanidade em geral, não mais permeáveis à intriga fácil, ao julgamento gratuito e à deslealdade. Nada disso é característico do ser feminino completo, de consciência expandida, o coração compadecido e generoso ante o sofrimento alheio.

Tenho dito, irmãs.

Quadro: "As Xamãs", Lena Gal

sábado, 6 de outubro de 2012


SAUDADE

A saudade é um ente feminino.

Vestida de impossíveis e de faltas,  aninhada no coração do desejo profundo  desloca-se no sentido inverso à linha e desafia Cronos com a exuberância de uma mulher sábia, intimamente ligada à sua proto-natureza. Inefável e experienciada com solenidade pela alma, permanence solitaria e viva no verbo pela mão de um único idioma, o lusitano.
De onde veio e por quê só Portugal lhe dá voz? Cruzam-se nela memórias do povo navegador  que lhe deu nome quando, de terras longínquas, juntou numa só palavra saudação, falta, amor e bons votos de saúde. Mas Saudade é mais do que isso, ela espraia-se como aguarela derretida e entranhada nas células do corpo lusitano,  Saudade é partida e é chegada, morte e parto iminente que teima em não acontecer de um elo perdido, experiência indelével que sem se mostrar não nos larga.

Contudo, de um modo ou de outro, mais ou menos distanciados, toca-nos a todos. Não só os oriundos desta patria antiga, mas todos os povos do mundo sentem em qualquer grau esse impulso de recuperação de algo que lhes foge e a que anseiam regressar.
De olhos ao alto e na interioridade, buscamos aquilo para que a Saudade nos remete mas cujo rosto desconhecemos.

Saudade é melancolia, talvez sonho do regresso nostálgico de um passado que não sabemos descrever, um dia completo  e absoluto cuja não-memória mas profunda marca nos causa uma dor quase prazenteira.  Canto, choro, lamento das profundezas,  mulher das brumas a um tempo inacessível e presente, mítica deusa portadora de um futuro antigo, a Saudade respira como uma segunda natureza e esconde-se na latência do ser, mágica e recordatória do que sabemos sem o saber. Propaga vazios, ausência, sofridos desejos de retorno, faz experimentações pela voz do Poeta, plasma-se nas telas dos pintores, irrompe em dor criativa da pedra esculpida, canta sentida na “Voz de Portugal de seu nome Amália”, como disse Fernando Dacosta.
Saudade é não saber da Mãe que nos deu vida mas senti-la vibrar em cada momento, magna e transcendente , no infinitamente pequeno do corpo do que somos.

Branca, ausente e ubíqua, sarça ardente, promessa de dias rarefeitos,  resquício velado da Glória, sustentas-me Saudade no meu regresso a Casa.

domingo, 30 de setembro de 2012


A SOMBRA E O SÍMBOLO

“…cada coisa neste mundo não é porventura senão a sombra e o símbolo de uma coisa.”
FERNANDO PESSOA


O simbolismo de factos, objectos, padrões repetitivos, oportunidades e desventuras na vida das pessoas pode ser um dos melhores indicadores de quem se é e para onde se vai. Para tal, é preciso, claro, saber ler o caracter simbólico de tudo, essa “sombra de uma coisa” a que Pessoa alude.
Olho em meu redor e sinto-me  (umas vezes mais outras menos) naquilo que criei, nos laços desenvolvidos, nos sonhos ainda sustentados malgré tout.

Ah, as invisíveis paredes  dos impedimentos a imprimir desvios obrigatórios no caminho que se idealizara outro, ah os inesperados milagres, os abra cadabra para o maravilhoso que só acontecem, diz-se, aos que “nascem com uma estrela na testa”, ah as forças de dentro e as de fora mescladas num todo inextricável a que não estamos suficientemente  atentos e que acaba por nos sufocar diariamente em angústias e adiamentos da nossa desejável auto-revelação.
Aqui estou, sentada face ao meu potencial, algo consciente de recursos desconhecidos  e não utilizados, a remoer esta angustiazinha a que quero dar nome, sem o conseguir. Onde começa e acaba o meu poder de decidir? O que foi que não fiz que me cabia fazer no momento que não detectei e que era a chave para outras vias mais próximas do centro tenro onde dança a essência do que me foi destinado?

Que forças são estas que me deixam entrever o rosto do sonho, mas logo erguem tabiques cerrados ao meu passo, que espalham luas azuis num céu inalcançado, no gesto que se não completa, na palavra fecunda, escoante de seivas e interioridades várias mas fugidia, esvoaçante nos éteres sem que me deixem assentá-la no papel?
Sem que me deixem…O que é que me não deixa,, afinal,? O que é que cerra cruelmente as janelas para o sol que a minha alma busca, persistente entre convulsões e ventos desacertados? Quem me envia os símbolos da minha inépcia ou planta flores de esperança nos meus dias pendulares entre o passo atrás e o avanço encorajante?

Habituo-me cada vez mais a olhar outra e outra vez as sombras dançantes  na minha jornada, torna-se crucial  tentar extrair da sombra que passa o símbolo do que ela me quer apontar. E às vezes parece quase lá chego, revelação iminente, véu que se levanta enfim. Mas o jogo vai ainda na infância, tem que crescer a expensas minhas.

Que a sombra não passe sem ser vista, que o jogo não seja em vão, que a roda gire  e o padrão actuante entre vívido na minha consciência.  Tudo a quanto aspiro.


domingo, 9 de setembro de 2012


ANNA KARENINA
- a actualidade do romance de Tosltoi

Ter mergulhado de novo no romance de Tolstoi pela mão de Joe Wright, para além de me ter dado acesso a uma acabadíssima obra de arte, levou-me de novo à habitual reflexão sobre o desastre brutal que mudanças radicais de cariz sentimental na vida já estrututrada das pessoas vem a causar em geral. Se a resposta adequada (sob a forma da mudança necessária) ao sentimento avassalador do Amor se apresenta completamente legítima, já a sua realização efectiva se reveste de complicações inesperadas que, ao afectarem  entre outros aspectos o corpo emocional dos seres envolvidos, pode levar a grandes desastres pessoais.
Sendo os impulsos do Amor genuino incontornáveis, para além do corajoso mas desastrado caminho escolhido por Anna Karenina,  resta a quem os experimenta optar por uma das vias seguintes: ou bem que se decide a abafar no fundo de si mesmo o sentimento em questão (com consequências imprevisíveis, desde doenças inexplicáveis a “terapias de substituição” em geral desviantes do caminho próprio) ou opta por assumir para si mesmo esse sentimento e tenta encaixar na sua realidade a manifestação possível do mesmo.
Qualquer das opções implica sofrimento e desastre, em maior ou menor grau, pelo estado em que a humanidade ainda se encontra. Corpos emocionais altamente vulneráveis e o poderoso portal a que a vida sexual dá acesso, resultam em geral num turbilhão algo violento que acaba por afectar sériamente, de um modo ou doutro, as partes envolvidas.
As mulheres em especial, pela maternidade e ainda fraca autonomia económica (quando existe) são muito vulneráveis a estas mudanças e as primeiras vítimas dos seus actos. Por outro lado, a forma como até hoje estruturámos a vida social e familiar, levanta frequentemente questões do foro moral difíceis de resolver.

Por mais paradoxal que isso se apresente, lucidez e discernimento são imprescindíveis num processo abrasador como é o do Amor sentimental inesperado, irresistível e compensador em si mesmo como nada mais, muitas vezes surgido numa esquina da nossa vida quando compromissos profundos já haviam sido assumidos. Pois não será absurdo que a glória do Amor experimentado pelos personagens centrais de Tolstoi (em especial quando abrilhantada pela corajosa opção de Anna Karenina) se veja coroada de derrota e trevas pela decadência  e suicídio da heroína e consequente abandono involuntário dos seus dois filhos, pelo sofrimento e solidão do marido, um homem bom e justo que continua a amá-la para além da morte?

Sabe-se pouco, sofre-se muito. É tempo ainda de  aprendizagem…

A resposta para uma via alternativa às apresentadas, parece só poder vir do poder desconhecido do Espírito, numa entrega confiante ao fluir da Vida.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

CONTRA-CORRENTE

A obra e pensamento de Robert Skidelsky, Emeritus Professor de Economia Política na Universidade de Warwick, em Inglaterra, reveste-se hoje em dia de uma feição de urgência perante a continuada (e aparentemente insolucionável) crise sistémica que o mundo ocidental atravessa. Acaba de publicar, juntamente com seu filho Edward, a obra “How much is Enough”, a qual, a partir das teses desenvolvidas por Keynes nos anos trinta do século passado, põe com pertinência questões relacionadas com a insustentabilidade do sistema económico-financeiro mundial e a necessidade urgente de rever o formato das nossas vidas, trabalho, lazer e necessidades pessoais, numa tentativa de recapturar a “boa essência da vida” que povos drogados pelo consumismo inevitavelmente perderam.
O problema de maior dimensão parece ter origem no caminho que as coisas levaram desde a Revolução Industrial, em que começaram as grandes poupanças e investimento em equipamento, fase à qual se seguiu a era do consumismo e que, segundo as previsões de Keynes, deveria ter desembocado num período em que o lazer ocuparia grande parte das nossas vidas e o tempo médio de trabalho semanal seria de 15 horas. Keynes esteve certíssimo, excepto em relação a este último ponto. Faltou-lhe levar em conta a insaciabilidade colectiva do ser humano em relação ao material, se o seu esforço de progresso neste ultimo não for acompanhado do correspondente desenvolvimento espiritual. A maturidade a este nível pôe na devida perspectiva o ter e o ser, e impõe limites naturais a essa sede desenfreada de mais e mais que o ser humano ocidental desenvolveu como propósito último da vida no planeta.
Assim, no mundo desenvolvido confrontamo-nos nos dias de hoje com a pessoa algo neurótica, frequentemente estimulada e controlada por químicos ou sessões de terapia pagas a peso de ouro, facilmente irritável e com tendência para se aborrecer depressa das sucessivas aquisições materiais. O problema da material é que, se não for criado e acompanhado ao nível da nossa consciência pelo seu significado simbólico e apreciado como tal no espaço e no tempo, uma vez passada a novidade o glamour esmorece e entra no reino do conhecido e do hábito. Substituir, deitar fora, consumir, consumir sem freios, apenas pelo efémero prazer de nos vermos confirmados no nosso poder aquisitivo – o qual se tornou sem dúvida e erradamente um dos maiores símbolos de poder pessoal – consumir mais do que o outro, ter mais coisas e mais caras adquiriram  o ilusório significado de avanço na vida e de superioridade sobre o próximo.
Afortunadamente, o sistema não é sustentável, pois a economia ocidental só pôde continuar a crescer (o que significou consumir) com base nos empréstimos que nos levaram à situação actual. Os grandes dividendos que se obtiveram com a revolução industrial, o avanço tecnológico e a expansão do sector financeiro foram na sua maior parte arrebanhados pelos muito ricos e o rendimento das populações em geral, após um eufórico periodo de crescimento, acabou por estagnar ou decrescer consideravelmente.
Vive-se hoje na grande sombra da incerteza. Sucedem-se os escândalos, parece que já nada é nem autêntico nem seguro. Creio assim que não resta ao ser humano senão o caminho do questionamento do que é que temos feito com as nossas vidas e a quem é que temos dado poder para as controlar.  Torna-se pertinente virarmo-nos de novo para a interioridade onde habita o poder pessoal de cada um e lançar um olhar renovado sobre ideias, princípios, valores. Chegou a hora da contra-corrente!

Nota:
Recomendo a leitura de
-   “How much is Enough? The Love of Money and the Case for the Good Life” de Robert e Edward Skidelsky
-   Artigo no FT de 05/07/12 “Enough is Enough of the West’s Age of Consumption"

sexta-feira, 23 de março de 2012

DOS BURRONORMÓTICOS


Vejo-o todos os dias. Mas, nos dois últimos, apareceu-me repetidamente, esse rosto cinzento e inflexível da Norma, a interpor-se insolente entre mim e a dor fininha e angustiante que é companheira certa da minha alma nestes dias de assistência  à minha Mãe idosa e doente.
Ela está a terminar o periodo da totalmente gorada reabilitação  motora a que tem sido submetida num centro privado a que a sua Caixa lhe dá direito. Mês e meio de dias penosos, em que nós os filhos a visitámos diariamente e a vimos fenecer cada vez mais, a memória desaparecida, tremuras a instalarem-se, olhos apagados, as pálpebras inflamadas do choro frequente que a abala, uma exaustão maior que a vida. Oro para que domingo chegue depressa pois vamos levá-la para minha casa no campo, onde tudo está preparado com desvelo para a receber e tentar emprestar suavidade e paz combinadas com o maior amor do mundo e cuidados infinitos àquilo que serão pela certa os últimos tempos da sua residência na Terra.
Antes de partir, houve que levá-la de ambulância (os especialistas médicos não se deslocam a lado nenhum hoje em dia) à consulta de cardiologia e a exames da especialidade. Logo no primeiro dos dias, tive de me pegar com a enfermeira do Centro que insistia que a minha frágil Mãe tinha de ir sentada na cadeira de rodas (a “amarrar” à trepidante ambulância) e se opunha às minhas instruções de que ela fosse deitada na maca para maior conforto. Isto deu lugar a uma troca azeda de palavras, em que ela brandiu a sua “superioridade de profissional de saúde” e eu a minha por “ser alguém pensante, que questiona a norma e que muito ama a Mãe”. Venci eu mas deixei o fedor do ressentimento atrás de mim. Ontem foi a vez dos electro e ecocardiogramas, arrancados à pesada agenda do médico pela sua boa vontade e profissionalismo, dada a urgência da situação. Final do dia para melhor se poder concentrar, disse ele, já sem outros doentes à espera.
Nova ambulância, em que a filha mais nova acompanha sempre a Mãe, seguindo eu atrás no meu carro.  Espera, a Mãe a torcer-se incomodada, carinhos para a distrair, o medico atento tão contente porque a Mãe saiu por momentos do estado apático e esboçou ao de leve um sorriso para ele, “Como está o senhor?”.
Terminámos tarde, confirmada a sentença de que “com esta patologia a senhora pode falecer a qualquer momento, é preciso estarem preparados”.
A ambulância com a Mãe e a mana  regressou logo ao Centro, enquanto eu aguardava que me dactilografassem o relatório final para em seguida ir procurar o meu carro mal estacionado numa das travessas empinadas sobre o Tejo nas imediações do Hospital da Cuf. Acelerei de volta ao Centro, erguido num descampado ali para Chelas, lugar sem alma, repositório de todas as fealdades suburbanas.
Gelou-se-me a alma quando vi a figurinha da minha irmã, apenas recortada na noite mal iluminada, encostada ao lado de fora do portão do Centro, todas as barras baixadas, fechado, cerrado a sete chaves. “Puseram-me fora às 20h 55, porque já eram praticamente 21h 00 e o Centro fecha a essa hora.”
Protestou, protestou, uma mulher não podia ficar na rua, a irmã estava quase a chegar, só mais uns minutos. Nada demoveu a eficientemente normótica auxiliar de limpeza, naquele instante glorioso de poder total. Decisão confirmada pela recepcionista, sempre de rosto azedo e impróprio para quem atende num Centro de idosos. Fora, fora do Centro, fora do recinto, dos portôes, têm de ser fechadas todas as grades, a norma dita, a norma exige que às 21h00, nem mais um segundo e haja o que houver, são fechadas todas as entradas e saídas e ninguém mais entra ou sai. A mana deixou-se expulsar, esgotada do dia angustiante, assustada por estar sózinha a um portão naquele descampado, em tempos turbulentos como os que vivemos.
Pergunto-me: se os exames tivessem demorado um pouco mais e a ambulância tivesse regressado apenas às 21h01, a Mãe não teria podido entrar? Teria pernoitado na ambulância, sem a sua imprescindível medicação ? Teria falecido em consequência do mesmo? Dentro da ambulância?
Ah, já me esquecia! E se as normas da ambulância obrigassem a “despejar” a nossa Mãe ali mesmo, pois ninguém pode ficar dentro do veículo após a chegada ao seu destino anunciado?

Burros! Burronormóticos que nada sabem de si mesmos, muito menos dos outros, produtos aberrantes de uma sociedade decadente, a destruturar-se, enrolada no criminoso olvido de que é formada por pessoas feitas para sentir e pensar, para questionar e interpretar leis, normas, princípios e os instrumentos vários reguladores do folclore humano à face do planeta.
Assim vai a vida…

segunda-feira, 19 de março de 2012

PERSONALIDADE REDONDA


Dizia o amigo outro dia que as personalidades deveriam ser redondas e não enquinadas, como acontece na maioria dos casos. Só por essa superfície curvilinea e facilitadora do deslizar da energia,  pode  a pessoa humana  servir-se a si mesma e aos que a rodeiam de modo saudável e eficaz.
Ter uma personalidade redonda não significa ser “rodilha” dos outros. Muito pelo contrário: este é um sujeito com alta auto-estima, sem “macaquinhos no sótão” e que, por conseguinte, não tem quaisquer escrúpulos em deitar a mão ao trabalho que o contexto em que se insere lhe pede. Toda a tarefa é nobre se justificada pela necessidade  e realizada com empenho e brio. O segredo é o auto-apreço combinado com a dose certa de humildade pessoal e aquela alegria raramente presente na acção humana, alegria resultante de se estar a contribuir para a construção de uma conjuntura mais harmoniosa e justa.
Ando tão farta de poderzinhos pessoais, exercidos com prepotência, em que qualquer ser por maior que seja a sua ignorância e limitação de raio de acção efectiva, aproveita qualquer pretexto para subjugar o outro. Essa atitude barra os horizontes da expansão pessoal e cria ao outro dificuldades totalmente evitáveis .
Não se sujeitar a, não fazer determinada tarefa por não ter a ver com o “job description” ou, por outro lado,  realizar os trabalhos que nos cabem com enfado ou má-vontade ou utilizar o pequeno poder que a função que desempenha lhe confere para dificultar o caminho do outro, representa um débito na contabilidade pessoal da nossa auto-estima e da contribuição que damos à comunidade a que pertencemos. Aponta para uma falta de agilidade no carácter, cujas esquinas pontiagudas -correspondentes ao preconceito, às homofobias e xenofobias – todas elas radicadas no medo e por consequência na insegurança pessoal não nos permitem evoluir.
Eis um trabalho sobre a psique a que urge dar toda a prioridade.

quarta-feira, 7 de março de 2012

DIVIDIR PARA REINAR


Ando para aqui a pensar, com a moderação que me é própria, que mesmo os homens mais iluminados e avançados do nosso tempo acabam invariavelmente por aceitar o estatuto de "sacerdotisa" na mulher desde que ela esteja sob o olhar (controle) do homem (do masculino). Extraordinário, para não dizer...absurdo! Reportando-me ao Inefável e à sua expressão primeira reconhecida, onde e como se pode determinar essa "superioridade" de uma das partes sobre a outra? Se desse original “faça-se” resultaram dois polos complementares, guardadores diferenciados, mas a par, de um processo que resulta nos homens e mulheres que somos, como é que à mulher continua a ser atribuído uma espécie de cargo de “assistente de produção”,  de rainha sim, por vezes,  mas “consorte”, jamais por direito próprio?
Só a História - infelizmente tão mal contada - nos pode fornecer pistas para esta deturpação do valor dos papéis que acabam quase hierarquizados na percepção dos homens e das mulheres actuais. Englobo estas últimas porque a mulher do nosso tempo é um eco distorcido e confuso da mulher integral sonhada por Sofia, é um ser manco, dramaticamente cindido, cujo caminhar reflecte uma dolorosa ferida encarnacional. Ela não se consegue assumir na sua completude e, conquanto lute por direitos que sente serem seus e pareça avançar a esse nível,  a sua acção/percepção resulta contaminada porque uma parte fundamental de si ficou  aprisionada algures durante o processo de experimentação a que chamamos História.
Não me vou alargar sobre aquilo que de mais próximo conhecemos e que a tal questão deu origem: as invasões indo-europeias  há cinco mil anos e o domínio que o masculino bélico passou a exercer, em todos os sectores, nas sociedades. Existem fontes apropriadas para tal informação das quais eu destacaria o excelente “O Cálice e a Espada” de Riane Eisler. O que me parece relevante enfatizar aqui é que, se um dos polos brandiu a espada e rachou o cálice é porque este representava uma fonte de poder que lhe fazia, no mínimo, sombra. Dividir para reinar é uma máxima que chegou até hoje e se continua a reflectir não só na cisão da mulher mas em quase todas as práticas sociais, políticas, económicas e financeiras.
Faz-se caminho ao andar, adiantou o poeta sabiamente. Se, a bem da evolução,  a mulher de hoje quer avançar e ser percepcionada como o ser completo e poderoso que originalmente é, ela tem de se “apanhar” a si mesma na auto-percepção danosa que inconscientemente gera, percepção essa que continua a ser exercida pela humanidade em geral. A metade de mim não pode produzir o mesmo que as duas metades juntas. Uma só metade de mim permite ainda que a minha soberania total não se realize mas que, na ânsia de libertação, eu continui a “nadar em seco”. Nadar é seco é lutar por mais direitos  mas aceitar implicitamente que a mulher tem papéis e características que lhe são atribuídas pelo homem e, de forma inconsciente,  tentar emulá-lo. Muita da explicação pode ser encontrada nos arquétipos de Eva e Lillith, o primeiro como projecção da mulher submissa ao homem porque culpada dos males do mundo e o segundo dramaticamente adulterado para o estatuto de demónio. No modo como estes mitos fram passados, a consciência da mulher vê-se purgada da sua capacidade mágica de transformação que é a fonte do seu maior poder.
Não conhecemos o caminho de retorno a essa mulher integral, mas sabemos hoje que ele passa pelo resgate da metade perdida que o patriarcado guardou a sete chaves na sua sala de armas. Sem que esse processo se realize, a consciência da humanidade não se poderá elevar acima dos jogos nos quais ainda nos debatemos.
Compreender a natureza lúdica e experimental da marcha histórica, elevarmo-nos acima dos conceitos de vencedores e vencidos, algozes e vítimas , dos bons e dos maus é essencial, a meu ver, para que passos definitivos possam ser dados. Saber identificar o momento e desmontá-lo nas suas fraudes sem perder de vista o quadro maior requer sabedoria. Sobretudo a de compreender as características sempre temporárias do processo evolutivo para o qual decisões consentâneas entre as partes intervenientes são seguramente tomadas a níveis que nos escapam nesta pesada dimensão.

segunda-feira, 5 de março de 2012

“SELF” DE DIMENSÃO HUMANA




Tenho andado a pensar, de forma concentrada, nos diferentes “eus” que cada ser abriga. Aquilo a que os junguianos chamam o “self”.
Assumimos diferentes “eus” perante diferentes pessoas. Todos, sem excepção, passamos em maior ou menor grau por essa experiência de falseamento e tentamos manter um laço saudável entre os diferentes eus, numa ilusão de coerência e sentido de propósito pessoal. Contudo, quando este laço eventualmente se rompe, o eu que habitualmente apresentamos ao mundo, acaba em geral por se apresentar como falso.
Não se pode ser tudo, nem em tudo ser grandioso. Há que optar pelo nosso “self” mais verídico, mais forte e mais profundo, aquele que com maior acuidade possa corresponder na manifestação ao projecto da nossa alma. Só se lá chega com muito esforço e empenho, intenção sincera de humildade e uma certeira busca de verdade.
No cerne deste fenómeno dos múltiplos eus habita uma procura inconsciente da aprovação que o ser humano busca, de forma acentuada, junto dos grupos com que mais se identifica – aqueles que ama e aqueles que teme. A identificação com o agressor (psicológico, emocional ou físico) é uma ocorrência do foro inconsciente, em geral mascarada da aparência de amor, admiração ou até mesmo, para os mais intelectualizados, da necessidade de viver uma experiência diferente. Nos místicos, assiste-se por vezes, neste caso, à colagem ao conceito de karma que justifica interna e externamente a junção ao agressor.
Para um crescimento saudável – identificação e o assumir do eu mais genuino em nós – torna-se imperativo trazer este enredo à consciência e abdicar da necessidade de aprovação sempre que a mesma se faça à custa do sacrifício desse eu central. Este crescimento prende-se com uma renúncia profunda: a da dissociação, ou seja a da integração do bem e do mal.
Para isso há que desistir das simplificações – nada se escreve só a preto e branco – e aprender a viver com a ambivalência e as ambiguidades da vida real.
As percepções redutoras da vida remetem o ser humano para um perigoso infantilismo de mimetização camaleónica dos sinais exteriores com que julga identificar-se e levam-no a modelar o seu comportamento de acordo com os mesmos. Embora este eu possa apresentar-se muito convincente nos mais hábeis, numa leitura mais profunda ele apresenta a ausência de um estável amor próprio interno ao concentrar-se de forma egóica sobre si mesmo.

Em síntese: para um almejado equilíbrio, torna-se desejável ver mais fundo, compreender que secretos mecanismos, que carências, terrores e paixões nos manipulam a partir do inconsciente, o qual exerce um poder não controlado sobre os acontecimentos que atraímos para nós.
O sinal de que esse trabalho vem a ser feito pode ler-se na nossa renúncia progressiva à grandeza e na aceitação de um eu de dimensão humana.

(Abril 2005)


sábado, 3 de março de 2012

FLOR VIVA DA IDENTIDADE

Falo busco o teu sorriso, sinal mínimo que seja de aprovação ou alento, persiste aparente desinteresse , na rua tudo igual carros motas-chiadeiras   campainha da porta telefone que não atendo, maçada de desarrumação e tenho fome.  Poder continuar a erguer desconstrução das falácias mas… e se tu fores uma delas?
Ninguém pode alhear-se do todo para sempre, precisa-se que nos digam qualquer coisa – bom mau assim-assim odioso replelente sublime – a identidade é uma flor viva a pedir rega.
Consolo o teu lamento como posso, alegas desvantagens princípios tortuosos ADN e outras paredes altas intransponíveis para a realização. Se renascidos a cada etapa escapamos à auto-ilusão de transferir responsabilidades, pois , como foi que não nos reformulámos e adaptámos às experiências vividas, ego escondido ausente de férias encapotado dissimulações várias. O ego actor central na interacção com o meio esgueira-se – ágil destreza atrás dos muitos papéis inventados a patinar sempre  sobre a culpa dos outros – cuidado com ele amante de teatro que nos aparta do essencial. Cuidado com ele – a fazer sempre falta fornecedor de referências valiosas para a compreensão do mundo.
Ah, estamos feitos!  Em geral, sim. Compulsão fantasiosa auto-percepção da nossa incomparabilidade, narcisísmo individual ou comunal, irresistível elistismo sempre a bater à porta ante a mediocridade geral. Raro mesmo é o sentido integrado da nossa identidade, ego estável relacionamento descomplicado com os outros, toalha da confiança básica estendida com brio sob os altos e baixos da passagem.

Uns da acção outros da contemplação mas há que nutrir q.b. a fonte da iniciativa, cada ser com a sua, está-se no ponto quando a pacificação interior se instala de vez, alegria não dependente da aprovação alheia, mas a fazer falta o feedback algo mais que os likes do facebook, visita à interioridade do outro no amor possível.

Serei eu… a falácia? Apropriadas as palavras conceitos livros palestras, donde vem tudo isto se aqui dentro dorme ainda a crisálida, tudo incerto titubeante em rascunho,  esboço de sopro a querer ganhar asas, o medo colado às comportas do ser aguarda a sua hora sempre adiada. Somos para além do que somos, seremos também o que fingimos ser para atingir...
Necessidade mútua, verdade precisa-se, genuina antiga como a luz do princípio dos tempos que o físico protuguês diz ter viajado mais velozmente que nos dias actuais.

Na rua tudo igual, sol do meio dia sol do dia todo agora que há seca, dizem que é bom olhar para o espelho contar as bençãos fazer listas planear a vida. Dizem tantas coisas, vá-se lá saber…
Consolo o teu lamento como posso, sem frete. Trazes marca distintiva, olho antigo alma de poeta fogo circunscrito contudo, seria bom revermos a matéria, arrumar as mágoas, assumir o enquinado. Seguir em frente que a hora é breve, não-lugar não-tempo para escolhos ilusórios conversa fiada hipérboles do nosso contentamento pequenino auto-contido miseravelmente explicado.
Precisamos da rega para que a flor viva se revele no esplendor seguinte.