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sábado, 6 de janeiro de 2018

O QUE VEJO DEPENDE DO MEU OLHAR


“---a consciência termina bem lá no alto,
na estratosfera das experiências multissensoriais
complexas e integradas,
às quais se aplica a subjectividade.”
ANTÓNIO DAMÁSIO, in “A Estranha Ordem das Coisas”


O que vejo depende da qualidade do meu olhar. E este está intrinsecamente ligado com aquilo que fiz comigo e com a minha vida até hoje, dentro do perímetro circunstancial que me coube.
Assaltam-me em cada momento múltiplas imagens, ligadas com frequência a pensamentos mais ou menos erráticos e é apenas num esforço de concentração que consigo que o foco se estreite e se fixe em determinada questão, assunto, tema, problema e gere uma percepção mais ou menos coerente e continuada do mesmo. Ora, nessa percepção intervêm de forma incontornável a memória, as recordações e a minha forma única de sentir. Vejo-me então a braços com aquilo a que chamo a minha perspectiva da vida,  da minha e da dos outros. O certo e o errado, o bem e o mal, o positivo e o negativo, o luminoso e o obscuro dançam então a sua dança dual dentro de mim.
Alegro-me e sofro – sobretudo sofro – ao esquecer-me de questionar os fundamentos da minha percepção e desgasto a minha preciosa energia, sem conseguir seguir em frente, como sempre desejo. Como pano de fundo e eternamente presente, existe uma sensação de “ser”, um ser como ninguém mais, de forma única e original, um forte sentimento de pertença a mim mesma, sendo “eu mesma” algo que transcende a minha compreensão intelectual.
Este eu que me habita de forma ininterrupta e me garante a continuidade, apresenta-se-me imune ao tempo, espaço e circunstâncias – fui, sou, de certeza serei até ao último sopro nesta dimensão, a mesma – imutável e sem idade.


Intriga-me a constância e uma certa pureza desse eu, apetecia-me questionar-lhe a origem, mas trata-se de um exercício falhado à partida, pois véus infinitos impedem o acesso a tal mistério.

O que me resta? Prosseguir o meu caminho de forma humilde, com a força que a eliminação de verdades últimas me confere. Perceber que há tantos mundos como seres encarnados, que a minha forma de percepcionar a vida é única mas não aplicável aos outros e às suas opções e que, em consequência, não me compensa sofrer por aquilo que vejo como a sua falta de princípios, moral, pensamento elevado, et cetera.  Que tudo tem sempre de ser colocado num quadro mais vasto que a minha consciência infelizmente não abrange e que o sentimento de posse é a maior das ilusões.
Melhor e mais produtivo será que me ocupe com o ordenamento possível do que me habita e com a tentativa de integrar as minhas experiências, esforço do qual surge inevitavelmente o processo criativo.

Mariana Inverno


segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

PASSAGEM DE ANO



Cansei-me de dizer sempre o mesmo, como se morássemos todos numa avenida ajardinada, com casinhas de bonecas de ambos os lados e dentro delas se confundissem o louro brilho do champanhe com o das pratas, a música adequada à “passagem de ano”, os vestidos de lamé e os abraços e os beijos, perfumados de vapores etílicos, que é costume trocar à meia-noite.

Cansei-me porque me cansa tudo o que é repetitivo, inquestionado, convencional, mentiroso, decidi seguir a inspiração do Don Juan de Castaneda e desistir dos caminhos que não têm coração. Vai adiantada a hora na minha vida,  há cada vez menos lugar nela para os embustes, mesmo os que me foram inculcados desde a meninice.

Perdoem-me por isso se vos não deixo palavras grandiloquentes, plenas de bênçãos e votos de euromilhões para todos. Seria uma farsa, pois o mundo ruge de dor e desvarios, a insanidade está instalada ao mais alto nível e a Vida pede-nos a gritos que subamos uma oitava na consciência para melhor compreender o que se está a passar e, assim, possamos elevar-nos acima das distracções que nos controlam.

Cansei-me, não de celebrar a Vida, mas de celebrar a morte em vida, que é o que a alienação dos finais de ano, por exemplo, representa. Trata-se de uma mera convenção, desconvencionável a qualquer momento, sobretudo transformável por forma a gerar mais lucro.

Perdoem-me se vos estrago a festa, perdoem-me a falta de glamour, a impertinência e a austeridade. É por vos desejar todos os dias da minha vida, Paz, Saúde  e uma Consciência mais apurada. Tal como o faço hoje, com o calendário a marcar 1 de Janeiro de 2018!



quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

EMIGRANTE, POR FORÇA MAIOR

REMEDIOS VARO, Born again
No ar flutuam cinzas dispersas, não cabem no presente as já remotas memórias do sonho e do êxtase, a marca da magia que dantes irradiava do seu ser como pulsão uterina  e aspergia os contornos da vida com oiro intenso.
Pensa tantas coisas...
Tudo nela fora quase sempre desproporcionado aos objectos da sua atenção ou do seu querer. Habitavam-na veios de paixão pela vida  e pelos seres que tocaram a sua alma e foi a manifestação desses sentires o que a perdeu de si mesma, o que continua a levar-lhe os que ama.
Pertence talvez a um reino ígneo, eternamente nutrido por utopias e abraços  apaixonados à beleza do sonho criativo, dos afectos intermináveis e sem limites, ao mel que escorre, perfumado e doce, das almas nobres. Um estado demasiado iluminado e ardente para que a traição e o malquerer nele tenham lugar. Mas esse reino não é deste mundo, teve finalmente de aceitar...

Talvez já não lhe reste ninguém de verdade, a não ser uma amiga distante. Habituara-se à ilusão dos afectos, mas a hora da verdade chega para todos os que não escondem a cabeça na areia ante as sombras. Aprendeu a olhá-las de frente, por entre caudais de lágrimas e uma dor tão grande pelas ilusões sofridas.  
Começou a emigrar de si mesma, tal como se conhecia.  Alguma coisa derrotou o que sempre lhe parecera invencível. Pelo menos no aqui e no agora.

Chopin e os seus nocturnos fazem-lhe agora companhia noite fora. Mais o altar que ergueu à memória da sua amada Mãe, aonde luze um anjo esguio, creme e dourado, flores frescas, a luz de uma vela e múltiplas imagens da forma desaparecida.
Ó Mãe da minha alma, o meu coração está cheio de amor e, contudo, acho que nunca mais poderei amar mais ninguém...penso que não haverá maior desistência da vida do que essa, mas é assim que sinto no presente.

Armara os cenários, organizara a festa, os presentes, fornecera as deixas, lançara os foguetes, cuidara, tratara, dera tudo o que a animava, enfim entregara as rosas do seu jardim secreto a quem as não sabia cuidar.

Insensata, crédula, ingénua, culpada.
Emigrante. Por força maior. Sem expectativas exteriores a si mesma.


Mariana Inverno, “NOTAS À SOMBRA DOS TEMPOS”

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

FESTUM OMNIUM SANCTORUM - 1 de Novembro



Veio-me a calhar este dia de todos os santos e mártires, cansada como ando.
Um dia cujo significado anda perdido para a maioria, pois também ele se perdeu das suas origens e memórias, como quase tudo actualmente.  Encorpado e assente no Samhaim* dos celtas, utilizado estrategicamente pela igreja para tentar adquirir simbolismo universal ligado à santidade, acabou por abrir os braços aos nossos mortos, santos ou não,  habitantes silenciosos das memórias de cada um.
Foi este também o dia em que a Terra escolheu tremer em 1755 aqui para as bandas da Mátria e em que o fogo devastador e o mar, a galgar o nosso jardim à beira-mar plantado, fizeram o resto.

Estou aqui entre os meus mortos, os meus santos, e em honra deles escrevo linhas de perplexidade ante esta finíssima linha  a separar a Terra e o Além, tão ténue e diáfana que a maioria a não vê.
Mesmo que eu não queira, nos ares dança ao de leve um pendor saudoso. Vejo-lhes os rostos e toca-me o cheiro da sua ausência, desse seu bem querer sobre o qual me alicercei. Foram mártires todos eles, a seu modo, privados de um consciência mais esclarecedora, presos a carmas que lhes aspergiram as vidas com muitas outras faltas, tudo tão equivocado e preso ao sofrimento e à perda.
São os meus santos, pois conheci-os de perto e experimentámos aquilo a que se pode chamar amor.
Quisera acender uma fogueira gigantesca capaz de iluminar as suas almas, em estádios diferentes de aflição ou de serenidade e levar a cabo ritos sagrados, próprios para homenagear os desaparecidos.
Sou ainda habitante do dia que passa, o dia de todos os santos, incluindo os meus. Destes braços cansados, cheios de nada, sai o trémulo apelo ao cair do véu que nos separa.
Peço “pão-por-deus” e recito versos de amor e de saudade, como as crianças que, em bando, o  costumavam fazer em certos lugarejos.
 Levo-te no peito como rosa aberta/rosa de sangue e amor e vida/inextinguível
/quero crer
e, noutro encalço,
fixei-te hoje para o sempre 
com/lágrimas sangue novo dor esquecida/viverás no poema como um deus/
que emergiu de uma sombra preterida
Lembro anjos que passaram pela minha vida, hoje recolhidos aos grandes claustros do silêncio: a avó das violetas e a avó da palavra de oiro, a mágica Bia da libertação expansiva e outras e outros.
Fora de mim, o mundo prossegue, enlouquecido. Pela indiferença e pela crendice – sapos, bruxas más, espíritos errantes, halloweens importados. Tudo adormece o poder  que nos seria próprio, se respirássemos fundo e abríssemos os olhos de dentro.
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*Samhaim – festa dos celtas que marcava o fim da épocas das colheitas e o princípio do inverno. Novo ano celta.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

EGO – AS FRONTEIRAS DA SOBREVIVÊNCIA NO COLECTIVO

Como reflexo a uma conversa recente com um amigo sobre o ego, decidi fazer uma pequena reflexão escrita sobre o que este significa para mim e tentar assim esclarecer o meu amigo sobre a minha própria convicção.

Creio haver, hoje em dia, uma enorme confusão sobre o conceito de ego, palavra que em muitos léxicos obteve uma conotação totalmente negativa, pela associação com uma autoestima exacerbada.
Para mim, o ego não sou eu, o meu centro. O ego é um mecanismo que se constrói na criança, a partir do momento em que entra neste mundo e é estimulada/ensinada/amada/rejeitada pela mãe e pela sociedade em que está inserida. A criança é premiada/castigada pelos seus actos e produções e, dessa forma, vai aprendendo como se deve comportar para ser aceite socialmente e poder funcionar sem grandes inconvenientes para si mesma. O ego torna-se assim uma espécie de órgão mediador entre os impulsos profundos do ser e a chamada realidade. Ele gere os limites das nossas reacções e da própria acção, pois foi formatado pela educação e pelo meio social para compreender os riscos e as vantagens inerentes às mesmas para o Eu. O ego dança, deste modo, na corda bamba de uma angústia constante, entalado que se encontra entre as grandes pulsões do ser que ele tem de editar e a acção permitida para o bom funcionamento do ser na chamada realidade. Esta não é individual, mas colectiva e o ego de cada um reflecte tão somente o que lhe foi inculcado, os limites que aprendeu, o curso de gestão pessoal adquirido para a sobrevivência no colectivo.

Fundamental é compreender que o meu ego não sou eu, mas que sem o seu funcionamento bem regulado, uma de duas coisas  podem acontecer:
-      Não conseguir sobreviver em moldes minimamente aceitáveis, por disfunção social;
-      Exacerbar de tal forma a sua importância e confundi-lo com a própria essência pessoal, o que conduz inevitavelmente a patologias várias.

A quem já alcançou esta auto-percepção é possível optar, em relativa segurança, pela passagem à fase seguinte, ou seja: manter o ego dentro dos limites da sobrevivência pessoal sem males de maior, mas estar verdadeiramente atento aos grandes impulsos interiores, às áreas internas há muito abandonadas pela sua inconveniência, e tentar escutá-las, buscar a sua origem, razão de ser, desígnios e dar-lhes a voz possível.
O grande Amor, a exaltação, a criatividade e os saltos quânticos interiores não podem ter lugar dentro dos limites do ego. Mas sem ele, o caos instala-se nas nossas vidas, perde-se o equilíbrio entre as partes.

E afinal o que vem primeiro: o ovo ou a galinha?

A ver se o ego do meu amigo, num esforço sobre- humano, aceita aquilo que o meu ego, com igual empenho, lhe tenta comunicar.

Ilustração: Gary Samunjan