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domingo, 25 de maio de 2014

A DOR DEBAIXO DO CHAPÉU


 Lá teve de ir.
Ao médico, (aonde nunca vai), dada a incontornável pressão das circunstâncias e dos familiares.

Foi de tarde, neste Maio de tempo inseguro, chuvas extemporâneas e até mesmo granizo, numa incongruência pegada, cachos de flores a brotarem por todo o lado.
Maria de São José chegou um pouco antes da hora, estavam ainda só dois ou três pacientes na sala de espera neutra e minimalista cuja única decoração era um girassol solitário colocado meio de esguelha numa jarra demasiado larga.
Sentou-se na poltrona mais próxima da porta, como se isso pudesse acelerar a sua saída do local, e viu de novo os emails no iPhone.
Era apenas uma consulta de rotina, tudo estaria certamente em ordem. A remissão acontecera quatro anos antes, de forma inexplicável para a medicina – sem quimio, radio, sem operações.
Às vezes abre-se dentro de nós um riso amplo e rasgado, uma janela de luz intensa e gloriosa na manhã clara do nosso contentamento, em claro desafio  às normas que nos passaram e à lógica e, como por encanto apresenta-se o inesperado, o místico cenário do milagre.
Assim acontecera com ela, alguns anos atrás, quando lhe fora diagnosticada a doença. Talvez que a São José nunca tenha acreditado que a tinha, nunca lhe tenha dado força, digamos que cantou sempre em vez de chorar e seguiu em frente. Pensava nisso agora, naquela sala de espera, sorria para dentro de qualquer coisa em si ao pensar que no próximo ano seria o ultimo check up. Livre, depois.

Entraram mais duas pessoas, um homem magro precocemente envelhecido que se afundou, solitário, num sofá junto à janela do outro lado da sala e a rapariga, jovem  e sorridente, que se sentou com uma postura elegante mas desafectada muito perto dela. Os olhos, de um verde claro e luminoso, sorriam-lhe.
Não deveria ter mais de vinte e tal anos. Alta e esbelta, vestia uns blue jeans muito apertadinhos, como agora se usa, e um casaquinho de linho rosa pálido com top a condizer. Sobre os cabelos alourados, presos atrás num mono, exibia um chapéuzinho delicioso, daqueles  que vemos nas lojas da moda e que nunca compramos pois, hoje em dia, chapéu parece só ser moda na passerelle.
A São José não conseguia tirar os olhos dele, do chapelinho. Ficava tão bem à jovem que, se ela se alheasse da indumentária, podia integrar aquele rosto e o respectivo chapéu num quadro do princípio do séculoXX, com laivos impressionistas.
A pequena sorria, dando-se certamente conta do fascínio da outra.
“Fica-lhe muito bem, tão bem que, se fosse a si, não o tirava nem para dormir” atreveu-se.
A jovem continuou a sorrir mas algo  indizível parecia ter estancado nela por momentos. A Maria de São José receou, por segundos, ter sido demasiado directa mas sentia-se à vontade, dada a dua idade, para fazer  comentários desta ordem. Além disso, desprendia-se da rapariga uma auréola de energia suave e amigável, muito cativante.
Contudo, mal sabia ela a implicação do que acabara de dizer.
“Olhe, seria realmente bom não ter de o tirar nunca…” disse, numa voz pausada e, de forma inesperada, com aquele jeito elegantemente simples que a seduzira logo, levou a mão ao chapéu,  retirou-o e virou-se lentamente de costas. Na parte superior da cabeça, uma área extensa e descoberta, onde apenas despontavam cabelos de tamanho mínimo, apresentava uma longa cicatriz.
Foram só uns segundos de silêncio, mas à São José pareceu-lhe uma eternidade até que a outra começasse a dizer alguma coisa.. Chamava-se Leonor e tinha sido operada recentemente a um tumor na cabeça. Maligno, veio a saber-se depois.

A espera pelas consultas foi longa, deu tempo para que os corações se abrissem um ao outro. Pequenas chispas de cumplicidade imperiosa cruzaram os ares, a São José sentia-se perplexa e maravilhada pela alegria de viver da Leonor, a sua aceitação serena do que lhe acontecera. Pois com a jovem não tinha havido nenhuma remissão espectacular e inexplicável, a vida não abrira  nenhuma janela transcendente para o milagre, como no seu caso. Mas fornecera-lhe um chapéu. Um chapéu elegante, rosa pálido, que lhe ficava a matar e sob o qual ela guardava o horrendo testemunho da sua dolorosa prova.
Leonor falou dos seus projectos, do noivo que se afastara por não conseguir lidar com a doença, da tese de doutoramento ainda inacabada sobre a emergência dos direitos das mulheres nos países em desenvolvimento. Ia visitar na semana seguinte a avó velhinha e levar-lhe de surpresa uma torta de ameixas em calda que aprendera a fazer com ela.

Estupefacta ante este amor à vida e aos outros, tendo tal espada de Dámocles sobre a cabeça, São José acarinhou Leonor dentro de si com o abraço mais cálido e penetrante de que se sentia capaz. Trocaram telefones, emails e combinaram encontrar-se em breve.

Tudo devido a uma dor maior, escondida debaixo de um chapéu francês, rosa pálido e coquette.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

A MENINA MAFALDA



Morreu hoje a Menina Mafalda.
Só nos vimos um par de vezes, e em ocasiões sociais, pois ela era irmã de uma alma muito próxima da minha. Talvez isso nada tivesse a ver com o facto de eu simpatizar tanto com a Mafalda. Tinha um ar gaiato, lembro-me que a boca dela me fazia pensar num coelhinho e rodeava-a uma auréola amigável e carinhosa.



Pois foi, morreu hoje a meio da manhã, uma enfermeira a seu lado num hospital grande cujo nome me escapa.

Branco, branco e sereno se me apresenta tudo, quando penso na morte da Menina Mafalda. Chamo-lhe menina pois, conquanto fosse já sexagenária, transportava em si qualquer coisa meio indizível, talvez da meninice, de quando se é jovem e se tem curiosidade por tudo.



A serenidade, uma quietude imensa que percepciono quando penso nela e na sua partida desta dimensão, terão a ver com os méritos da Menina  Mafalda. Já teria cumprido o seu tempo, o labor e as questões que aqui veio tratar. Nunca foi mãe, mas abriu as suas asas maternais sobre muitas crianças, ao acarinhá-las a descobrir o mundo, na primeira infância. Gostava muito delas e elas da Menina Mafalda. Suspeito que albergasse em si um repositório de amor sem fim a que não conseguiu dar todo o uso que o seu coração pedia. Também aí se pode ver quão complicada e tortuosa pode ser a encarnação, os difíceis testes a que vimos nesta breve residência na Terra.



Sentia-a meiga por dentro, ansiosa por acarinhar e ser acarinhada, em retorno. Apesar da educação espartana, da moderação aprendida, irradiava essa luminoisidade cativante.

São assim as coisas. Meio inexplicáveis, à luz do raciocínio lógico.



Já se foi a Menina Mafalda, como a conhecemos aqui. Começa agora a ser só memória. Para o marido, os irmãos, para o resto da família. Para mim, que mal a conheci mas que fui tocada por ela. Até que chegue a nossa hora e passemos todos a ser também já só memória para os que ainda por cá continuam.

Nunca acreditamos verdadeiramente nisto, até que acontece. A princípio, irreal para quem cá fica, depois definitivo e muito tangível na ausência física daqueles que amamos.



Aplausos para a Menina Mafalda, pelo ser carinhoso, pelos cuidados com os outros, pelo rastro de paz e serenidade que deixou na passagem.

Boa viagem para o Esplendor!
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Desenho de LENA GAL