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quarta-feira, 7 de novembro de 2012



BOND – INSTRUMENTO DA ESCRAVIDÃO

Se é difícil falar de certas coisas a um determinado nível, mais problemático se torna ainda tocar pontos de consciência que muitos ainda não alcançaram.

Fui ver o Skyfall. Grande êxito de bilheteira, aguardado com expectativa pelo mundo dos adoradores do 007, facturou logo no primeiro fim de semana de exibição 70 milhões de libras. Isto só no Reino Unido. Espera-se que ultrapasse rapidamente o mais bem sucedido filme da série até hoje, Casino Royale.
Sam Mendes, o realizador, assegurou-se da utilização de todos os ingredients que vendem um produto desta ordem: o talento de grandes actores, acção, fantasia, efeitos especiais espectaculares, armas, morte, violência, machismo, aparatosas perseguições de carros, dureza, agressividade, velocidade, mulheres que correspondem aos estereótipos actuais – magrinhas como um alfinete – todas mais ou menos submetidas ao absurdo herói Bond. Nem M, a patroa do MI6 escapa à regra pois, sob a mascara da dureza, encobre um fraquinho pelo agente secreto.
E Sam Mendes dispôs, é claro, de um orçamento ultra-generoso para a sua mediatica obra (200 milhões de dólares Americanos). Apesar de cortado, imagine-se.

Vi o filme como, hoje em dia, tento fazer tudo na vida.
Em estado de observação das mensagens passadas e da repercussão que as mesmas possam ter nas audiências, em especial nas camadas mais jovens e moldáveis.
As conclusões são inquietantes.
Para aqueles que disso ainda não tenham consciência, sera bom lembrar que tudo o que nos é oferecido pelos media (imprensa, cinema, televisão, internet) constitui em essência um arsenal de instrumentos de (de)formação do carácter pois nele imprimem poderosos padrões comportamentais e exemplos facilmente integráveis pelos menos avisados. Ora Skyfall, tal como o nome indica, é um exercício de abatimento. Abatem-se criaturas humanas, abatem-se carros, casas, abatem-se a ordem e a segurança públicas. Tudo a uma velocidade ultra-sónica, num guião pouco transcendente e focado na dualidade – o mundo divide-se entre os bons e os maus – por onde gravitam o herói Bond e o indispensável vilão, sob o olhar penetrante e inquieto de M. Rudeza, traição, secretismo e ódio a rodos, indiferença pelo valor da vida humana e ocasionais pinceladas de cariz sexual acompanham a rota de um Bond de cabelo à escovinha - mais com ar de agente do KGB do que do MI6 – sempre a escapar miraculosamente e sem ninguém perceber como das situações-limite em que se vai envolvendo. Final brutal e sangrento, com M a deixar-nos para sempre e um Bond a emergir ileso para a promessa de que voltará.
 
Nenhuma criação deve ser vista como separada do seu criador. Ian Fleming, o escritor que deu vida ao famoso James Bond, foi um homem sofrido, com uma juventude conturbada e muito álcool e cigarros. Morreu cedo, aos 56 anos, de um ataque de coração. Durante a Guerra, serviu no Intelligent Service da Marinha Britânica e essa experiência, à mistura com a sua formação de jornalista foram as plataformas donde projectou uma espécie de alter ego idealizado e invencível, James Bond - 007, Ordem para Matar! Fleming pintou Bond com as cores que secretamente desejaria ter possuído, ou seja, foi da Sombra deste autor que surgiu o agente secreto, enquanto sofria cada vez mais na sua casa da Jamaica ao tentar dar vida a cada novo livro. O que se  apresenta como traço paradoxal – ao criar dolorosamente o inabatível Bond o autor auto-destrói-se – é apenas o resultado de gerar sucesso radicado em padrões de morte e  destruição.

Preocupam-me muitas coisas no mundo de hoje. Acima de tudo, a incapacidade da grande maioria dos humanos terrestres para terem a percepção crítica do que lhes é impingido e o questionamento dos efeitos de produtos como este na continuidade da escravidão humana.