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terça-feira, 12 de janeiro de 2016

O AMOR É UMA RARIDADE

A vida não é um passeio na avenida.
Mas é que não é mesmo, embora haja muita gente que disso parece não ter qualquer consciência.



Escrever sobre o amor, tal como o conhecemos na Terra, não é tarefa fácil e, os mais corajosos e lúcidos de entre nós, capazes de ir fundo na desconstrução, habilitam-se a qualquer coisa aparentada de uma desértica insanidade.

Desde que nascemos que somos formatados para o amor. A língua, espelho infalível das nossas ideias e crenças, está recheada de termos que reflectem esse facto. “Quando cresceres e te casares”, “quando encontrares a tua cara metade”, “a tua alma gémea”, “o grande amor da tua vida”,
“quando arrumares a tua vida”, “a ver se não ficas só”, “apressa-te ou ficas para tia“, “boa escolha, ele é bom partido=ganha bem e a família tem posses”,  “um homem só não se aguenta “, "a ver se arranjas quem te aqueça a cama e te ajude nas despesas”, “o melhor é juntarem os trapinhos”, etc. Para já não falar dos chamados livros sagrados, arautos de infalíveis princípios doutrinários: “Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idónea.” (Gênesis 1:18).

Deve haver um sentido oculto neste impulso para a necessidade de acasalamento. O argumento da procriação e da sexualidade não chegam, por temporários, e mesmo que se lhe juntem os do interesse económico, das conveniências várias e do grande medo da solidão, a explicação fica, ainda assim, curta. O amor, tal como o idealizamos é, de facto, uma raridade.
Há algo que se sabe a níveis profundos, algo que pulsa nos genes, nas células, nos átomos do nosso inteligente corpo  e nos recomenda a busca do outro, do espelho. Lembrava-me alguém há dias a sabedoria indiana, segundo a qual nascemos com dois olhos mas não nos podemos ver a nós mesmos.
Precisamos, por conseguinte, do outro para esse indispensável espelhamento, espécie de identificador dos nossos passos, sem o qual não sabenos com algum rigor o que manifestamos.  O problema parece contudo complicar-se com as folclóricas crenças que rodeiam os nossos relacionamentos, crenças que radicam essencialmente na moldagem recebida desde que abrimos o olho, os estímulos e restrições transmitidos, os mitos inculcados sobre a identidade própria e os quase sempre inconscientes sistemas de defesa que levantámos em nós ao longo da vida. O problema complica-se porque esse estado algo patológico não é só nosso, é o do outro também e, assim, o resultado óbvio do exercício é uma monumental ilusão que termina quase sempre em dor, sentimento de perda, estilhaçar do nosso tenro interior, decréscimo da auto-estima ou, alternativamente, na indiferença e afastamento progressivos.

Enquanto a humanidade terrestre escolher estes ilusórios caminhos, enquanto ela não tiver a coragem e a sabedoria de mergulhar fundo nos sombrios enredos que manipulam as suas motivações e comportamento – e para tal muito trabalho pessoal de fundo é necessário -  não saltaremos colectivamente fora desta roda alienatória nem ganharemos acesso a quem somos e ao que vimos.

“Nosce te ipsum!”

Mas sem batota…

sábado, 9 de janeiro de 2016

A MULHER QUE EU NÃO QUERO PARA PRESIDENTE



Não costumo escrever sobre temas declaradamente políticos nem pronunciar-me  sobre personalidades activas nesse mundo estranho e enganador que é hoje o da política.
Mas como mulher minimamente consciente e atenta ao que se passa em meu redor, não posso deixar de deitar cá para fora o meu desgosto perante o debate de ontem, entre Maria de Belém Roseira e Marcelo Rebelo de Sousa.

Tendo o panorama dos debates presidenciais, salpicado de alguns personagens folclóricos, sido até hoje um deserto de ideias e de inspiração para os eleitores – muito por culpa dos entrevistadores que não se debruçam sobre os pontos essenciais - o de ontem caracterizou-se, lamentavelmente, por uma queda abrupta de respeito mútuo e de verdadeiro conteúdo.
Uma vergonha, uma exposição da miséria humana, ainda por cima, para minha perplexidade, com uma mulher a começar o debate ao ataque pessoal, na base de detalhes que não interessam ao público, alguém que tem, para mim, o detestável hábito de ir remexer nos baús bafientos do passado a ver se encontra algo com que atacar o outro e traz consigo o mal intencionado apontamentozinho.
Baixeza, falta de elegância pessoal, inveja, revanchismo, chispas a saltarem entre os oponentes, tudo cada vez mais "lavatorial" como dizem os ingleses, et cetera, et cetera.

Não estou a defender Marcelo que, com alguma justificação, se deixou levar na onda. Ele, que tem tido até agora uma postura de estadista, contra-atacou duramente e quase ao mesmo nível. Se me visse naquela embrulhada, eu teria possivelmente feito o mesmo, pois é essa a armadilha da política, das sondagens e da percepção superficial da vida que nos caracteriza cada vez mais.

Gostaria muito de ter uma mulher como presidente, mas não esta. Não me representa, não tem altura  (não me refiro à física, que aliás parece não lhe causar qualquer trauma pois ”sempre tive muitos pretendentes”, afirmação que me dá outro sinal negativo) nem a grandeza de postura e de trato requeridos para primeira figura da nação.
Marisa Matias talvez pudesse, com o tempo, a idade e menos esquerdismo, lá chegar. Por ora, é muito jovem ainda, carece da imprescindível experiência que tudo perspectiva de forma mais equilibrada e está demasiado colada a posições radicais.

Quer se queira, quer não, Marcelo é neste momento o único verdadeiramente presidenciável, aquele que dispõe da experiência, inteligência e elegância pessoal, capaz de representar condignamente este país num tempo tão agitado e incerto como aquele que vivemos. Sabe-se quem é Marcelo, conhece-se Marcelo, se dorme pouco ou muito isso só a ele diz respeito, se por vezes muda de ponto de vista ao longo do tempo, isso é natural, quem o não faz está parado no tempo e não é, por conseguinte, presidenciável.  Marcelo é um homem de consensos, profundamente amado pelos seus alunos, afectivamente percepcionado por milhões de portugueses ao longo de muitos anos. Este último facto, mérito seu, é utilizado descaradamente contra ele, por praticamente todos os outros candidatos, como se de oportunismo se tratasse! Parafraseando o grande Mandela, não há que pedir desculpa aos nossos irmãos menos dotados pela bela cor dos nossos olhos.

Espero sinceramente que os eleitores portugueses, na conhecida baixa auto-estima que os caracteriza, não cometam o erro de não o eleger a 24 de Janeiro. Seria mais um desperdício irreparável, a juntar aos muitos da nossa história…


Ah, meu país de água e dos horizontes  inexplorados, nação de alma mística e dos poetas lamentavelmente esquecidos, como te atraiçoamos cada vez mais, todos os dias...

domingo, 3 de janeiro de 2016

SOU EU A CONTADORA DA MINHA HISTÓRIA


"The victor still writes the history of the vanquished.
The slayer disfigures the face of the slain.
The weaker leaves the world, and what remains is the lie."
BERTOLT BRECHT


Penso que este cansaço, por vezes a raiar o desânimo, que me assalta quase todos os dias, advem em parte de uma consciência cada vez mais aguda do que se passa no mundo, lá longe na distância e aqui debaixo do meu nariz.
Prego, farto-me de pregar – à minha maneira, já se sabe - com textos, poesia e em tentativas sucessivas de depurar o mais possível a minha conduta e, com isso, dar força a determinados padrões comportamentais.
Mas o adormecimento do mundo, o sonambulismo da maioria, não pára de ganhar terreno, pois o grande demónio do medo estende a sua quase infalível rede de caça sobre os habitantes do Planeta Azul, causando-lhes uma espécie de paralisia mental e um estranho arrefecimento do sentir.
Torna-se difícil analisar numa crónica  o que está subjacente a este epifenómeno e não me vou aqui alargar nesse sentido. O que quero destacar é que, apesar desta fatiga sem fim, há algo dentro de mim que se reergue sempre, brande a bandeirinha da soberania pessoal e diz NÃO!
Não me conformo, não aceito que a minha mente seja tomada de assalto por uma percepção da vida que não saiu de mim, da minha mente criadora e do meu coração de ouro, não acho natural caminhar por entre mortos-vivos e cadáveres adiados, cada um correspondendo a uma programação insidosa que os torna débeis e dependentes, extremamente vulneráveis ao sistema em vigor e lhes rouba a centelha única da vida livre e em celebração.
O que se passa, irmãos? Como é que na era registada de maior acesso à informação e ao conhecimento, optamos ainda pelo adormecimento causado pelo futebol e pelas telenovelas, como é que a chama da indignação ou da solidariedade originadas pelo sofrimento alheio não dura mais que escassos instantes e, inconsequente, dá lugar a outra excitação qualquer, igualmente passageira?
Como é possível assitir aos maiores escândalos, a uma indescritível sem vergonhice de governos, instituições financeiras, organizações religiosas e outras que dominam as engrenagens culturais e da educação – que nos aprisiona os filhos desde tenra idade – e não abrir a boca?
Como é que nos quedamos passivos e complacentes ante as versões oficiais do muito que se passa entre o Céu e a Terra e nos resignamos, quando o Comboio para a Verdade tem estação personalizada à porta de cada um? O dispendioso bilhete compra-se com a determinação pessoal, a vontade própria, o despertar de um longo sono enganador e a consciência da invencibilidade do Espírito.
Não paramos para observar que os delirios da fama, do protagonismo e do poder são instrumentos anestesiantes, repetidamente propagados pelos media e que não passam de cenouras manipulatórias ante os coelhos esvaziados em que a humanidade se está a tornar.
São as classes dominantes, percentagem ínfima dos habitantes da Terra, quem escreve a nossa historiografia e determina o que nos cabe ou deixa de caber na passagem, cada vez mais armadilhada, por estas paragens. E nós não damos por nada. Não questionamos o contexto das nossas vidas, nem a nossa incapacidade para abrir o portal da criatividade, através do qual podem operar a mente crítica e a força indomável do coração.

O meu cansaço é um facto, mas ainda me lembro de quem sou e sei, cada vez melhor, ao que vim.
Sou eu a contadora oficial da minha história.