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segunda-feira, 14 de agosto de 2017

EGO – AS FRONTEIRAS DA SOBREVIVÊNCIA NO COLECTIVO

Como reflexo a uma conversa recente com um amigo sobre o ego, decidi fazer uma pequena reflexão escrita sobre o que este significa para mim e tentar assim esclarecer o meu amigo sobre a minha própria convicção.

Creio haver, hoje em dia, uma enorme confusão sobre o conceito de ego, palavra que em muitos léxicos obteve uma conotação totalmente negativa, pela associação com uma autoestima exacerbada.
Para mim, o ego não sou eu, o meu centro. O ego é um mecanismo que se constrói na criança, a partir do momento em que entra neste mundo e é estimulada/ensinada/amada/rejeitada pela mãe e pela sociedade em que está inserida. A criança é premiada/castigada pelos seus actos e produções e, dessa forma, vai aprendendo como se deve comportar para ser aceite socialmente e poder funcionar sem grandes inconvenientes para si mesma. O ego torna-se assim uma espécie de órgão mediador entre os impulsos profundos do ser e a chamada realidade. Ele gere os limites das nossas reacções e da própria acção, pois foi formatado pela educação e pelo meio social para compreender os riscos e as vantagens inerentes às mesmas para o Eu. O ego dança, deste modo, na corda bamba de uma angústia constante, entalado que se encontra entre as grandes pulsões do ser que ele tem de editar e a acção permitida para o bom funcionamento do ser na chamada realidade. Esta não é individual, mas colectiva e o ego de cada um reflecte tão somente o que lhe foi inculcado, os limites que aprendeu, o curso de gestão pessoal adquirido para a sobrevivência no colectivo.

Fundamental é compreender que o meu ego não sou eu, mas que sem o seu funcionamento bem regulado, uma de duas coisas  podem acontecer:
-      Não conseguir sobreviver em moldes minimamente aceitáveis, por disfunção social;
-      Exacerbar de tal forma a sua importância e confundi-lo com a própria essência pessoal, o que conduz inevitavelmente a patologias várias.

A quem já alcançou esta auto-percepção é possível optar, em relativa segurança, pela passagem à fase seguinte, ou seja: manter o ego dentro dos limites da sobrevivência pessoal sem males de maior, mas estar verdadeiramente atento aos grandes impulsos interiores, às áreas internas há muito abandonadas pela sua inconveniência, e tentar escutá-las, buscar a sua origem, razão de ser, desígnios e dar-lhes a voz possível.
O grande Amor, a exaltação, a criatividade e os saltos quânticos interiores não podem ter lugar dentro dos limites do ego. Mas sem ele, o caos instala-se nas nossas vidas, perde-se o equilíbrio entre as partes.

E afinal o que vem primeiro: o ovo ou a galinha?

A ver se o ego do meu amigo, num esforço sobre- humano, aceita aquilo que o meu ego, com igual empenho, lhe tenta comunicar.

Ilustração: Gary Samunjan

domingo, 13 de agosto de 2017

MARIA DAS JÓIAS

Para Ana,
in memoriam

Remedios Varo, "Autoretrato"























Não sabemos quem somos, ao que vimos, nem a verdade mais recôndita daqueles que a nosso lado caminham.

São os nossos olhos que adjectivam o olhar do outro e o encaixam algures nos conceitos de bem e de mal e, a partir de aí, tudo passa a estar ordenado outra vez e a fazer sentido.


Conheci uma Maria das Jóias, possivelmente uma jóia ela mesma, uma jóia que passou não detectada pelos meandros da vida. Talvez só umas poucas almas, de coração aberto, se tenham detido uma vez ou outra, a escutar-lhe as palavras, ora vindas puramente de outras dimensões ora tingidas das patologias da persona.
Conheci-a por escrito e mostrou-me a face da doçura e do respeito. A ânsia de quem buscava ajuda para sofrimentos vários, incluindo a degeneração física. Buscava-a mas já não a conseguia tomar. Tudo nela galgara pontes sem retrocesso, no canal entrecruzavam-se muitas vozes e propósitos e a alma optou pela libertação.

Mulher sem rosto, Maria das Jóias, escrevo para ti hoje esta minha missiva epitafiana, reverencio-te o talento que passou quase despercebido, agradeço-te a passagem que me ensinou algo mais. 

E olha, não estavas só, sei de uma rosa que por ti chora...

sábado, 5 de agosto de 2017

UPDATE


Mudou tudo, não sei em que momento indecifrável, mas tudo mudou e a vida continua a rolar aparentemente sem script, possessa de um impulso viral que esvazia planos, sonhos e desafia a lógica de qualquer projecto.
Ninguém pode já saber o que se vai passar no momento seguinte e, no éter, esvoaçam mensagens cifradas que, em síntese, nos procuram advertir a todo o custo de que não contemos com nada de previsível. O nosso grande capital é aquilo que somos e aí começa a questão fulcral.
Quem sabe afinal o que é, quem é, para onde, conscientemente ou não, se dirige?

Se as fundações das sociedades estremecem e  frequentemente se afundam sem apelo possível, se os ideais desapareceram e a prática do bem e da solidariedade são actualmente “commodities” de um marketing perverso ao serviço de políticos e de grandes grupos económicos, se a mentira, o crime e a fraude possuem faces camaleónicas cujo manuseamento depende apenas da qualificação de peritos amorais, se a temperatura sobe de forma implacável em todo o planeta e cada ser, solitário e faminto de amor e conexão, tem como recurso mais provável as redes sociais e a interacção virtual a que elas dão acesso, se o dinheiro e o poder material a tudo presidem do alto de um trono abjecto, cada dia mais consolidado pelos falsos tesouros temporais, o que nos resta? Para onde virar a nossa fé e crença em algo, nem que seja apenas na sobrevivência?

Sem querer fazer-me passar por arauta da New Age que nunca fui, digo-me:  só te tens a ti, mulher. Aguenta cada dia como ele se vai apresentando, aquieta-te porque nenhum controle te pertence, a não ser aquele que se vai gerando através do que tu és de forma genuína. E tu és tudo o que sabes e sobretudo o que não sabes. Vigia o momento que passa, encontra-lhe as mensagens ocultas, o simbolismo. Aceita com honestidade e auto-compaixão o que ele te diz sobre ti mesma, as dicas que contem sobre a rota que entabulaste. É bom que saibas e aceites, com humildade, que o visível é largamente dependente do que tu não vês, não sabes, nalguma medida pressentes mas não consegues decifrar de forma satisfatória.

És o que és e o seu contrário, porque ninguém é completo em si mesmo se não integrar todas as faces da vida. Enquanto não conseguires penetrar este mistério, pela dor ou pela fé, serás ainda e sempre  planta quebradiça ao vento.


domingo, 7 de maio de 2017

A SOCIEDADE DA DESRESPONSABILIZAÇÃO (Disclaimer Society)

Depois de alguma reflexão, muito poucos duvidariam que vivemos numa sociedade em que vigora a desresponsabilização (disclaimer society). Há uma conotação implícita na expressão, que aponta para a negação de algo, em particular da responsabilidade.
Uma visão rápida da actividade quotidiana da sociedade revela como se expandiu a negação (da responsabilidade) em todos os tipos de contratos (software, e-mails corporativos, seguros de saúde e vida, intervenção médica, alojamento em hotéis, contratos de representação, documentos legais de todos os tipos e muitos outros). A síndrome da desresponsabilização tornou-se viral e espalha-se agora por todas as áreas da sociedade, projectando a responsabilidade final da uma dada actuação para uma entidade imaginária que reside algures entre os limites da nossa zona de conforto e o limiar da imaginação de alguém desconhecido. Às vezes, é encontrado um bode expiatório (usualmente inocente), mas em geral as consequências da falta de responsabilidade pelos membros e instituições de uma sociedade recaem sobre o reclamador original, sem recurso. Vale a pena pensar nas razões por detrás desta reviravolta na mentalidade global e prática. Nas últimas décadas, e à medida que a tecnologia se tem implementado cada vez mais, percebe-se como desapareceram os valores éticos mais básicos para dar origem a uma sociedade exclusivamente mercantilista, na qual os sentimentos e devoção ao outro, sem motivos ulteriores, e a introspecção e veneração pela natureza sagrada da vida, têm pouco espaço, se algum lhe resta. Este fenómeno liga-se com o abafar da consciência, colocada de propósito, por uma ordem cada vez mais materialista, em estado dormente. No contexto do actual paradigma central, supremamente regulado por valores mercantis, não é muito fácil ou conveniente permitir que a consciência se expanda e possa, eventualmente, levar as pessoas a comportar-se de modo a colocar em risco o seu potencial para serem controladas, gerarem dinheiro e, se tiverem sucesso,  a evadirem-se à norma. Consciência é consciência, não só de factos tangíveis, mas acima de tudo, percepção da natureza fictícia da maioria das percepções e actos humanos. Fictícios porque não estão enraizados numa imprescindível autoconsciência, não correspondem a escolhas conscientes e responsáveis, e os sujeitos apenas flutuam, na superfície da vida, convencidos de que estão ao leme do seu destino.











O desenvolvimento da ciência e da tecnologia inundou o nosso mundo com novos conceitos e ideias. Fazem-nos saber que quanto mais e melhor o ser humano criar, mais longe irá na vida (compensação material). No entanto, a noção de desenvolvimento espiritual sustentável como essencial para qualquer progresso real foi removida do nosso léxico e confinada à terminologia dos defensores da Nova Era que, sou forçada a admitir, têm em geral pouca noção daquilo que apregoam. O resultado final é uma sociedade disfuncional, onde reina o lado sombrio das escolhas humanas, de forma absolutista.


O conjunto de valores que governam a nossa cultura tem de estar ligado ao sentido de responsabilidade. Sem ele, somos apenas indivíduos robotizados, liderados e controlados por predadores de um tipo ou de outro, e não teremos voz no nosso próprio destino. Para alcançar um estado aceitável de fluir com a vida em que uma autoconsciência profunda seja possível, é indispensável estar disponível para a atenção guiada e para o processo cognitivo. Vigilância quanto ao que realmente está ocorrendo dentro e à nossa volta, nutrição do processo criativo genuíno e o ser responsável pelo nosso comportamento devem, a todo o custo, ser integrados e fomentados pela educação desde a mais tenra idade.

Esta integração representa um forte pilar a partir do qual podemos fortalecer a nossa capacidade de responder adequadamente aos desafios da vida, independentemente da sua dimensão.








Nota: Adaptação do texto original inglês do meu site www.lettersfromthegarden.com

sábado, 22 de abril de 2017

INVESTIMENTO NA ROSA



A própria flor é bela porque floresce do modo como o sol floresce nela,
MARIA GABRIELA LLANSOL


O dia amanhecera na glória do canto dos pássaros lá fora.
Abriu o postigo para a dimensão libertadora e incompreensível dos seus trinados, fios de luz ofuscantes penetravam a copa das árvores, tornara-se a rainha deposta dos sonhos de antanho…
Rainha, ainda assim, e, na invisibilidade, rodeavam-na musas compadecidas, a alternar lágrimas com cânticos de inspiração rumo a novos horizontes.

Movia-se sem pressas, buscava o perdão do Tempo, a acção regeneradora do Fogo do Esquecimento, tentava elevar-se acima dos fantasmas da discórdia. Buscava a Ardência Purificadora que varresse de si as dores e os desencantos inadequados à sua essência…subsistia contudo um clarão esplendoroso, embora silenciado, em cada célula macerada.
Como contar-lhes da beleza das galáxias, do voo livre sem restrições, das contas sem cálculo que o Universo faz na perfeição? Nada lhes havia ensinado o trajecto do relâmpago, a alegria que esmorece ante a razão,  o uivo do coiote a destronar fanfarronadas,  os ecos fulminantes da morte e da ausência, a impensabilidade dos actos magnânimos, o retorno assombroso do investimento na rosa?
Na passagem entre mundos, deixara de fora um elo de ligação, férreo e tirânico, que atirara para trás dos dias de agora. Quisera planar mais alto, levantar com graça a neblina que encobria o Esplendor, adivinhado apenas por alguns, para que pássaros, flores, cantos, almas e corpos coincidissem irmanados no mesmo labor peregrino.

Não obstante a malha ensanguentada dos registos, decidiu não recuar. Olhou com firmeza o sol que entretanto se levantara e na iluminada cegueira que a atingiu, dançou como nunca, por entre destroços e estalactites, entrou mar dentro em passos flutuantes sobre as águas, lavou-se na sarça ardente - corpo intacto do outro lado das chamas. Preparada, sentiu-se, para atravessar a fluidez dos dias e validar o inverosímil.

Poetas valerosos acompanharam-na lealmente, mais além do fim.

PINTURA: PAULA NAVARRO