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terça-feira, 7 de junho de 2011

QUO VADIS, MATER?

A minha mãe acerca-se do final.

Fazia calor, ontem à tarde, quando me ocupei dela para que fosse composta, de férias, para casa do meu irmão. Mal se aguentava em pé, a respiração arfante, a incapacidade de concentração nas coisas da casa, as suas coisas, em que ela foi sempre exímia. A visão já quase se foi toda, também, as mãos torpes, o agora incompetente coração, triste mas sereno.
Ela sabe. Que a hora se aproxima e que tem de se despegar. De cada vez que lhe digo adeus, aperta-me muito contra si murmurando coisas como, “Minha filha querida, só tu, só tu me fazes isto” e sinto o seu cheiro e a aflição inconfessada de que esta possa ser a última vez.

A minha mãe vai morrer. Vai chegar em breve esse dia em que já não a teremos fisicamente entre nós, mesmo assim velhinha, eco da parede de força e afecto que sempre representou na nossa vida. Tenho medo desse dia, tenho medo que ela tenha medo desse dia. “Não tenho nenhuma pressa de ir para a viagem, está muito frio na terra...” diz, às vezes, quando está mais estimulada.
A viagem…de regresso, supõe-se, a algo mais completo e inteiro, embora sem corpo físico. Esse serviu apenas o momento fugidio da encarnação.
Acredito nisto. Estou quase certa que acredito nisto. Deveras.
E ela? Em que é que acredita a minha mãe, agora que já não tem nem força, nem juventude, agora que o coração lhe prega a partida, o rosto é uma ruga pregada e não pode ver os olhos azuis dos bisnetos?
Será a fé no seu Divino Mestre (que sempre achei ser nela uma figura de estilo para simbolizar a sua grande força interior e capacidade de realização), será esse pilar suficiente para abafar o medo atávico que todos acabamos por sentir ao pressentir que se aproxima o cruzar do portal a que chamamos Morte?


Tantas questões sem resposta. Como olhar o céu em noite estrelada e gritar alto: Quem está aí?

Observo-a, já tão alheada do mundo, a minha mãe. Já tão pouco da minha mãe nela, pois o vento forte de uma longa e difícil vida levou quase tudo. Menos o espírito que persiste em mantê-la independente na sua casa, quando hoje tão pouco pode por si mesma.

Vou-te perder de vista, minha mãe. Por uns instantes, entre a Terra e o Céu, o tempo de um soluço, de uma discreta lágrima, desaparecida a preciosa figura da matriz, do começo, do útero original.
Mas, mesmo nessa hora breve, viverás ainda na memória esplêndida do que em mim deixaste.

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