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terça-feira, 28 de junho de 2011

A HISTÓRIA DE BLANCA DESISTENTE

Sentia vontade de chorar e chorou mesmo, mas não ficou aliviada.

Buscava a palavra essencial, aquela que emergisse depois de tudo se aquietar, após limpar o lixo, calar a estereofonia, sentir-se só, em casa, finalmente nos braços do Silêncio. A palavra capaz de sobreviver à dor finíssima e imperceptível que lhe atravessava o coração como uma lâmina estreita e longa, fria como um iceberg.
Lá fora, nos jardins, cães ladravam furiosamente, numa reclamação magna e sem sentido. Sem sentido parecia aliás tudo, hoje em dia, pois em vez da aguardada palavra de ouro, aflorava apenas um gosto a desolação, muito pouco que lhe restasse em que acreditar.
Ser-lhe-ia fácil contar-se uma outra história se fosse menos rigorosa, mais dada ao auto-engano. Mas se Blanca sentia assim as coisas, as historietas de outrora – as boas, as que têm final feliz, aquelas em que as coisas se resolvem e tudo acaba em luz e em elevação – tinham deixado de fazer  sentido. Só podia ajuizar pela sua própria vida, pela limpida intenção que lhe crivara a ponto cruz  a alma de sonhos e esboços de voos e o contraste dos desfechos, uns após outros. Os dos sonhos mais íntimos e preciosos, o desaparecimento da crença nos outros que era (quase) o fim da confiança na vida.
Quase, tudo tinha sido sempre quase, mas... não, finalmente. E era isso o que mais lhe custava, pois a dimensão da sua interioridade extravasava-a, num auto-sufoco assassino da vida que lhe restava.

Pensava Blanca em desistir. Podia ficar ou partir, mas o cheiro a desistência empestava-lhe os dias e tisnava de lonjura e vazio os seus grandes olhos que, tudo vendo, já nada viam como antes. Ela sabia que o encanto se perdera, já não acreditava mais que alguém sentisse por ela alguma coisa do que realmente conta, pois também ela deixara de sentir fosse o que fosse. Achava agora que não passara de um ser utilitário para os outros, às vezes uma espécie de milagreira, e que muita ficção tinha corrido à conta disso. Mas mais nada.
Quando chorava – e fazia-o muitas vezes – não chorava por ninguém nem por nada. Descomprimia um pouco e ficava-se depois no eco de alguma coisa que tinha estado para ser mas não fora, alguma coisa já sem rosto, que dela havia descolado num voo sem retorno.
Até Mahler, cuja música sempre a havia inspirado, lhe parecia excessivo agora.
Não faz sentido tanta dor, não é preciso viver se o que nos rodeia é a anti-vida - ecos, ecos e só ecos das mentiras que tomei como sagradas verdades.

Decidiu ir-se. De uma forma muito feminina. Tomou-os muito rapidamente e esgueirou-se como uma nota final, em fuga.
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Eu soube da história de Blanca porque acompanhei amigos comuns ao funeral. E o que neles e na família detectei parece desmentir em absoluto o que levou aquela doce mulher a antecipar o fim da sua residência na Terra. Ou talvez seja a minha imaginação  criadora a tentar dourar a pílula.

O facto é que se pudesse, mesmo sem a conhecer, teria a tempo abraçado Blanca com toda a minha alma e amado com todas as minhas forças, para que os seus grandes olhos rasos de água voltassem a sorrir.
Sendo as coisas como são, deixo aqui o meu testemunho para que nele se pondere.  

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