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quarta-feira, 1 de junho de 2011

A VOZ

 Como uma voz de fonte que cessasse,(...)
a voz que do meu tédio nasce”
Fernando Pessoa

Desde sempre que a voz humana constituiu para mim uma referência valiosa sobre o outro. Não que pensasse nisso ou decidisse à partida que tinha de a avaliar para saber quem estava à minha frente. Aconteceu sempre, de forma expontânea.

Sem que o espere, a voz do outro abre-me o coração, irrita-me, devassa-me ou reverencia-me, conquista-me, indispõe-me, cansa-me, tranquiliza-me, arranha-me o ouvido, acaricia-me ou agride-me. Num segundo, apresenta-se-me no outro, através da voz, o aliado, o inimigo, o cúmplice, o ser doente ou mal amado,o agressor, o fraco, o perdido, o invejoso, o falso. Como me pode tocar a inconfundível  chispa do amor, da criatividade, da força, do estímulo, da autoridade e da ternura em disponibilidade. Por mais que, por vezes, as palavras emitidas pareçam dizer algo de diferente.


Ao tomar consciência destes factos, passei a reflectir sobre a voz, esse primordial instrumento de comunicação, sine qua non, resultado a nível físico de um trabalho conjunto dos sistemas respiratório, digestivo e nervoso, dos músculos e até da arquitectura do esqueleto. A voz é som, vibra no ar, de uns para os outros,  montada na sua intensidade, inflexão e altura. Na forma como as palavras são articuladas.
Sinto, porém, que há muito mais por revelar. Como em tantas outras áreas, acho que também no caso da voz, misteriosos véus de olvido barram a nossa memória no que se refere ao seu grande poder - íntimamente associado ao que cada um é, em essência – e à sua capacidade interpretativa e de comunicar o estádio em que, momento a momento, nos encontramos na manifestação.

Cada voz desdobra-se em mil vozes, múltiplas e opcionais, que aguardam ser redescobertas e reintegradas na nossa consciência, como valiosos indicadores acerca de quem nos rodeia.
De forma paradoxal, destaca-se de entre todas a voz do silêncio, uma das mais poderosas, pela sua capacidade de por vezes curar o próprio, punir o outro, consentir na injustiça por omissão e sobrepôr-se à compadecida e cálida voz do coração. 

Assim, amigos, nem sempre o silêncio é de oiro!

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