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domingo, 11 de janeiro de 2015

JE SUIS CHARLIE - a minha liberdade acaba onde começa a tua




Acompanhei com o horror que é de esperar os acontecimentos em França, com a carnificina na redacção do Charlie Hebdo, os reféns do supermercado da Porte de Vincennes e o saldo de uma vintena de mortos após os assaltos finais das forças especiais num esforço levado a cabo por cerca de noventa mil homens e meios extraordinários para controlar/abater três indivíduos assassinos.
É com emoção  que vejo as multidões francesas e do resto do mundo  manifestarem-se com sinceridade e respeito pelos mortos e pela liberdade de expressão.
JE SUIS CHARLIE, tão reminiscente desse grito de alma, ICH BIN EIN BERLINER, propagado por John Kennedy em Berlim, há décadas, sintetiza completamente o NÃO ao medo e a determinação das pessoas em continuarem as suas vidas com normalidade, preservando aquela que é considerada uma das maiores conquistas das sociedades democráticas: a possibilidade de cada indivíduo se expressar livremente e de forma diferenciada relativamente à norma.
Je suis Charlie mostra a inequívoca possibilidade de as pessoas se unirem estreitamente  e falarem a uma só voz  em torno daquilo em que acreditam. Pena é que sejam necessários acontecimentos desta ordem para que tal ocorra.

Muitos analistas defendem que estas trágicas ocorrências se prendem com um problema de fundo - a inegável intolerância do Islão e a falta de liberdade reinante no seu seio; o vazio de ideais da juventude, muçulmana ou não, a qual acaba em certos casos por ser captada por estas sociedades tribais que lhes prometem o ilusório acesso à glória eterna através da luta por uma causa  radical.

A complexidade dos problemas é grande e a sua análise não cabe, numa simples crónica como esta. Mas gostaria de aflorar um aspecto menos tratado, nestes dias de forte carga emocional.
O Charlie Hebdo é um jornal semanal satírico de esquerda, com uma tiragem de 30.000 cópias, que sobrevive desde os anos 60 – descendente que é do Hara-kiri Hebdo - e que, com os seus cartoons irreverentes e desafiantes, tem disparado em todas as direcções – judeus, cristãos, muçulmanos e politicos mundiais e causado reacções de grande indignação, em especial entre os muçulmanos, com incidentes de gravidade vária que agora cuminaram com o fatídico assalto à mesa da redacção do Charlie Hebdo.
A sátira, que vem em geral imbuída de ironia e de sarcasmo, é a linha forte das caricaturas pelas quais o jornal se tornou famoso no mundo inteiro. Não o costumo ler, até porque não aprecio esta forma de combate nem o recurso ao sarcasmo para criticar abusos e deficiências dos indivíduos e dos sistemas, mas reconheço a grande inteligência subjacente à feitura dos cartoons. Acho, no entanto, que essa mesma inteligência deveria servir para impôr limites à ridicularização abusiva de, por exemplo, figuras como as do Profeta Mohammed, um ser sagrado para os muçulmanos.
Não tenho qualquer dúvida que actos e excessos de certas minorias muçulmanas, radicalizadas e ligadas ao passado, fortemente influentes, devem ser combatidas com determinação, mas tenho as maiores dúvidas que seja pela via que o CH elege que bons resultados serão alcançados.
A hora que se vive é emotiva e de união entre os povos do ocidente. Paris tornou-se no dia de hoje, nas palavras de Hollande, a capital do mundo, com a mega manifestação que aí se realiza nesta tarde de domingo. A liberdade de expressão está garantida ao que parece, mas tem de ser exercida com responsabilidade e bom senso. E é bom que estejamos atentos aos aproveitamentos politicos da situação.
Afinal, o que nos importa é avançar como humanidade, não ferir as sensibilidades alheias, em especial quando estão em jogo mentalidades limitadas  e redutoras, rascunhos grotescos de seres humanos obcecados com  dogmas e tacanhas noções do que é sagrado.
Pois sagrada, sagrada é a vida e todo o seu incrível potencial, e a vida acaba num décimo de segundo, sem possível apelo nem retorno, debaixo do fogo assassino dos provocados pelos cartonistas do Charlie Hebdo.

Quer se goste ou não, todas as liberdade são para ser exercidas com limites. A minha acaba onde começa a tua.





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