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terça-feira, 27 de janeiro de 2015

BOA NOITE, SENHORA MERKEL!


O cartaz com a saudação algo irónica que os milhares de gregos reunidos no centro de Atenas, para celebrar a vitória do Syriza nas eleições do passado domigo, ostentavam com entusiasmo, trouxe-me um sorriso à face e uma espécie de consolo ao coração.



Tenho alma subversiva, assim que o desafio ao estabelecido – em especial quando acarreta tão grande sofrimento para os seres humanos – encontra sempre eco em mim.

Isto não me põe de forma alguma no estado febril de acreditar que tudo mudou, que a Grécia e os países da periferia europeia, incluindo a Lusitânia Pátria, estão enfim salvos da tirania Merkel e que tudo se vai resolver de forma inesperada e milagrosa.

Foi sem dúvida um feito histórico, uma grande vitória democrática, que um país endividado até aos ossos e sujeito às pressões de programas de austeridade, cada vez mais questionáveis na sua eficácia, e às ameaças intimidatórias vindas lá do norte, tenha ousado levantar-se em peso e dizer: Basta! Queremos outro caminho, queremos uma alternativa!
 
Emocionei-me ao ver os rostos radiosos e intensos dos gregos na televisão, animados de esperança e determinação, com uma bela música de fundo. Alexis Tsipras, o jovem primeiro ministro grego, poderá ser uma figura marcante na mudança paradigmática, se os gregos souberam jogar bem a sua cartada.


Há contudo que atentar em aspectos bem reais e tangíveis desta situação e gerir as expectativas. Creio que, apesar de todas as promessas eleitorais feitas e de todas as ameaças merkelianas e outras, é pouco provável que se entre em situações de ruptura aberta ou que decisões de irreversibilidade, como não pagar a dívida ou sair do euro, venham a ocorrer.

O paradigma central, europeu e mundial, está cada dia mais periclitante na sua estrutura, mas não se deve minimizar a acção eficaz dos seus defensores e promotores. Até porque ainda não sabemos o que substituirá esta ordem de valores e, consequentemente, há que ser cuidadoso e preventivo nos caminhos de uma solução. Não se sabendo para onde se vai, há que evitar no entanto mais sofrimento para os povos. Oxalá que todos os players em causa tenham isto como uma máxima!

Já existem, aliás, sinais de moderação no discurso do novo ministro das finanças, Yanis Varifakis, um reputado economista. Parece que a sua grande frente de batalha será a renegociação da dívida externa e que ficar no euro lhe agrada. Não há que esquecer as reformas estruturais necessárias à competitividade da economia e que potenciarão os mecanismos de mercado. A Europa também já veio dizer que respeita a decisão do povo grego e quer cooperar na solução. Veremos em que termos...



Tudo isto, claro, enquanto tiver de ser, pois nada é certo em relação ao que aí vem. O que é óbvio é que o teste ocorre agora nas duas vertentes: a externa (comando europeu) e interna (gestão das políticas económica, social e cultural no país helénico).



Seja como for, já valeu!

A história (bem contada) olhará no futuro talvez com carinho esse cartaz manuscrito, a um tempo correcto e sarcástico, erguido bem alto a partir da dignidade de um povo ancestral, que se deseja recuperada. 
Um cartaz que, na noite do domingo passado, emitia do coração de Atenas e do dos gregos em geral, a saudação que me tocou e a muita gente que, como eu, sonha a preservação da soberania do povo a que pertence.

Boa noite, Senhora Merkel!

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