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domingo, 29 de setembro de 2013

A EXPECTATIVA



A expectativa é irmã chegada da esperança.

A expectativa baseia-se em supostas possibilidades, desenvolvimentos futuros, em pressupostos que apontam em direcções imaginárias. Observamos os seres, as situações, às vezes um pequeno detalhe e…esperamos.
O que esperamos é sempre fruto do que somos. E do que nos falta.

Possuidora de uma imaginação fértil, fui sempre sensível ao que nos outros me toca e criei, assim,  na vida variadíssimas expectativas enquanto achava que estava só a viver o momento e a corresponder-lhe.
Não é assim. Aprendi, contudo, a controlar as minhas projecções imaginativas quando algo ou alguém me chama a atenção, quando sinto identidade de alma ou qualquer tipo de sintonia.
A expectativa tem, em geral, pouca sustentabilidade e, frequentemente, tem mais a ver connosco do que com o outro.  Resulta amiúde de algum vazio interior, de partes do nosso ser que sentimos incompreendidas ou não realizadas. O facto de determinada corda em nós se sentir tocada, abre em nós irracionalmente, uma ogiva para o sol que pode ser ilusória. Em geral, é assim.

Alguém comentou que o desejo é o outro irmão da expectativa.



O desejo está intimamente ligado com aquilo que se espera, por nos faltar. A expectativa, se alimentada febrilmente (como é muitas vezes o caso), dá origem ao desejo de que algo específico ocorra. E aí se apresenta a grande armadilha, pois que o desejo é interior à pessoa, aquilo que ele propõe não faz parte da chamada realidade antes é resultado de uma carência pessoal, portanto, das fabricações de cada um. Poder-se-á argumentar que por vezes o desejo  viaja de forma recíproca, ou seja, de quem deseja para o desejado e vice-versa. Assim é, mas muita dor e decepção se evitariam se, em vez de nos fixarmos no objecto desejado, a nossa atenção fosse investida de modo estóico no fluir da própria vida, numa attitude de aceitação e de confiança em que “o que está escrito nas estrelas” buscará a sua descida à matéria, independentemente dos nossos desejos pessoais.

Mas, então, que fazer, quando um timbre mais fino capta a nossa atenção ou a beleza de um gesto, de uma inteligência, enfim de um canto pessoal, nos causa uma alegria inesperada?
A minha já longa vida ensinou-me a viver com a tranquilidade possível cada momento, desconstruindo como posso a inevitável expectativa que sempre se vai formando. As suposições centradas no futuro carecem em geral de realismo e são o trampolim mais certo para a decepção. Assentam nas nossas previsões do comportamento dos demais, muitas vezes das suas características que apenas mal vislumbrámos.
A fim de combater a sinistra tendência para criar expectativas, sinto que o ser humano tem de habitar a serenidade e resumir-se à única expectativa legítima: a de si mesmo.
Respeitar o espaço de manobra do outro, o seu canto e o seu ritmo, sem julgamentos.
Aguardar o timing certo para cada coisa na vida.
Não esperar nada de ninguém.
Preservar a fluidez da interioridade para que os mortíferos e sufocantes véus da inquietação e da angústia não baixem a sua dança de morte em vida.

Não há nada a esperar fora de nós.
Mas admitamos que, se acaso uma luz afim ilumina, ainda que brevemente, um troço do nosso caminho, a alegria e o consolo são incomensuráveis!

4 comentários:

  1. Uma breve mas admirável reflexão sobre um tema deveras pertinente e mais do que nunca tão actual. Gostei imenso desta leitura nocturna. Uma tranquila noite, em despojamento .
    Abraço
    Vi Cardoso Lopes

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  2. Muito grata, Vi, pela ressonância que a minha reflexão encontrou em si.
    Também para si, uma noite em paz e serenidade.
    Um abraço
    Mariana

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  3. Preservar a fluidez da interioridade para que os mortíferos e sufocantes véus da inquietação e da angústia não baixem a sua dança de morte em vida.

    Esta é a nossa maior vitória, preservar a fluidez, e a nossa derrota, sermos sufocados pelos nossos próprios véus.
    Este foi o parágrafo que me tocou profundamente, pq esta luta interna ao nível de consciência é a nossa maior batalha, travada todo dia, até aprendermos a fluir como uma chama ao sabor do vento.

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    Respostas
    1. Estou de acordo, Anna.
      Uma aprendizagem muito difícil, sempre com novos aspectos...
      Muito obrigado por este comentário profundo que tiveste a gentileza de aqui deixar. É muito importante para quem escreve receber este feedback.

      Um abraço, amiga
      Mariana

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