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segunda-feira, 24 de agosto de 2015

G A B R I E L A


 

Fixo-me nuns olhos negros, directos, sérios, quase agrestes.

Agradam-me. Bem como a ligeiríssima curva, ascendente e irónica , nos cantos da boca. Rosto sério, austero.

Inteireza e dissidência palpáveis.

Neste mundo ficcionado, à boleia de uma infantilização crescente, sabe bem encontrar, ainda que seja num livro, um par de olhos assim, de alcance laseriano, olhos que abdicaram obviamente de parâmetros fixos e se distanciaram da norma e dos códigos convencionais de pensamento. Os olhos de Gabriela Llansol.

A sua escrita, largamente desconhecida do público português,

aí ficou a comprovar o que digo.

Intuo que ela experimentou, como eu, a necessidade imperiosa de viver fora e à margem desse maralhal de seres indiferenciados, em movimentação robótica sobre a superfície terrestre, pululantes de lugares comuns e vontade incerta.

Preciso de romper com a paisagem baça que me rodeia, estilhaçar os contornos previsíveis da vida de onde o canto da alma se ausentou, esgueirar-me para além dos papéis e das responsabilidades atribuidas, preciso de uma cintilação nova que alumie a minha sempre mutante relação com o imaginário.

Entrelaço-me no fulgor estonteante da tua escrita, Gabriela. Entra-me no sangue, numa espiral ascendente de fogo e desejo de transcendência, de mais além daquilo que me trava o passo.

Grave a degradação que por aqui grassa.

Graves a inverdade, a incultura, a desistência…

Gravíssimo deixar que as coisas nos aconteçam, sermos matraqueados com limites rigidos de pensamento e cairmos, pouco a pouco, no esquecimento de quem somos.

Mas tu sabias, Gabriela, sabias que por detrás do canto, há outro canto por descobrir, que a cor verdadeira não é a que a visão física  percepciona, que ela se oculta, subtil e rara, na luz que a ilumina por dentro, a cor que só olhos treinados pela alma podem captar …
Montada no verbo  viajaste ao encontro dessa outra vida, no encalce de uma “outra ocupação da Terra”.

Irmanada, ofereço-te estas poucas palavras pois, hoje, o teu canto dissidente e fulgurante arrancou-me do abismo.

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