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quinta-feira, 1 de março de 2012

VIAGEM ÀS ORIGENS


“A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes.
O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos.”
FERNANDO PESSOA

A caminho da cidade berço corre a paisagem, estalam castanholas repetitivas nos carris às vezes um ronco, segue o matraquear lá fora tudo a correr ao contrário, as vistas a oferecerem-se  até que a curva ou o olhar cansado virem a página.
Quem sabe do que seríamos capazes se não houvesse limites, o tal perímetro dentro do qual nos debatemos mais ou menos adormecidos ou despertos – copo meio cheio copo meio vazio – interrogo-me sem certezas, ensonada e ainda em fraca ligação com aquele centro donde jorra a cristalina vibração da palavra poética.
Haverá um sentido nos limites do perímetro. Não se apreciaria talvez da mesma forma a viagem à antiga vila do Condado Portucalense, nem me sentiria grata por ter conseguido esticar o orçamento na celebração do dia especial desta outra alma. Destinos mais glamorosos, despreocupação e compras ilimitadas se o dinheiro fluisse a rodos, a comprar pagar a consumir o melhor, sem apreensões. Assim, absorvemos atentos os detalhes do momento que passa arrancado com despudor às limitações do tempo agora pois não devia ser - com a troika a crise o desemprego a falta de negócios – todos esses atavios dos media, insistentes diários, aspirantes a estátuas  de praça central filhos de um aborto chamado zona euro.
A caminho da cidade antiga, palco das origens morte ressurgimento, burgo a ostentar os orgulhos de se ver reconhecido, interrogo-me inquieta – o que sou quem sou ao que venho - coisas que pareço saber bem, coisas que me têm sido repetidas vividas lembradas mas em que às vezes é difícil acreditar. Pudor imenso perante a fantasia própria e alheia, abusiva apropriação dos mitos que nos entretêm como se de revelação íntima se tratasse.
Cansaço do faz de conta, dos deveres virtudes bom comportamento, exaustão que vem com a idade e a experiência, acho. Apagam-se por fim as luzes da ribalta e começa a ser a sério. A espectadora sou eu e vejo-me por fim sem as cosméticas do que de mim é esperado.  Abre-se um portal iniciático para um outro mundo misterioso até hoje quase silenciado pelas tarefas de superfície e tudo aquilo que vai acontecendo numa vida.
Na antiga praça feira de gado em tempos de outrora descubro o arquitecto do ferro. Acasos não-acaso apontam na direcção de se fazer o que mais se gosta para irradiar luz assim, borbulhante na fala, quase fractal nos filhos que me aporta, um ser humano a mostrar com desvelos os frutos da sua arte e do seu engenho, enciclopédico e renascentista num tempo moribundo de saber e empenho.
Mas o peso da Idade das Trevas permanence nestas bandas, sombras encavalitadas pedras graníticas, sufoco de pouco espaço. Tudo pincelado  da imaginação histórico-turística, certa patine de nobreza antiga nos edifícios do centro, o triste quarto de Catarina de Bragança no Paço Ducal, impecavelmente restaurado mas sem alma. Nota baixissima para a sem sentido absurda feia exposição de José Guimarães a desfear duas salas do palácio. Filho da terra sobretudo filho do tempo, revoltante promoção do feio grotesco, ah vida como reverter a insensata ordem de valores instalada  no mundo da arte?!
Guimarães sofre de “minimalitis”.  Cortou jardins – o Toural é já só uma enorme placa de cimento por onde a terra não respira - redecorou locais antiquíssimos com cadeiras plásticas e mesas de fórmica e vende paninhos bordados 15x15 a quarenta euros. Desolée, não posso! Não posso, não quero, o despropósito desta exploração tem de acabar.
Afáveis as gentes minhotas, orgulho de um sentir colectivo, dizem, melhores que os outros, acham-se, daqueles que não nasceram no berço da portugalidade.
Comida a mais.

Razão tem o poeta, as viagens são os viajantes.

Quadro: Arcanes de ANNE BACHELIER

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