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quarta-feira, 7 de março de 2012

DIVIDIR PARA REINAR


Ando para aqui a pensar, com a moderação que me é própria, que mesmo os homens mais iluminados e avançados do nosso tempo acabam invariavelmente por aceitar o estatuto de "sacerdotisa" na mulher desde que ela esteja sob o olhar (controle) do homem (do masculino). Extraordinário, para não dizer...absurdo! Reportando-me ao Inefável e à sua expressão primeira reconhecida, onde e como se pode determinar essa "superioridade" de uma das partes sobre a outra? Se desse original “faça-se” resultaram dois polos complementares, guardadores diferenciados, mas a par, de um processo que resulta nos homens e mulheres que somos, como é que à mulher continua a ser atribuído uma espécie de cargo de “assistente de produção”,  de rainha sim, por vezes,  mas “consorte”, jamais por direito próprio?
Só a História - infelizmente tão mal contada - nos pode fornecer pistas para esta deturpação do valor dos papéis que acabam quase hierarquizados na percepção dos homens e das mulheres actuais. Englobo estas últimas porque a mulher do nosso tempo é um eco distorcido e confuso da mulher integral sonhada por Sofia, é um ser manco, dramaticamente cindido, cujo caminhar reflecte uma dolorosa ferida encarnacional. Ela não se consegue assumir na sua completude e, conquanto lute por direitos que sente serem seus e pareça avançar a esse nível,  a sua acção/percepção resulta contaminada porque uma parte fundamental de si ficou  aprisionada algures durante o processo de experimentação a que chamamos História.
Não me vou alargar sobre aquilo que de mais próximo conhecemos e que a tal questão deu origem: as invasões indo-europeias  há cinco mil anos e o domínio que o masculino bélico passou a exercer, em todos os sectores, nas sociedades. Existem fontes apropriadas para tal informação das quais eu destacaria o excelente “O Cálice e a Espada” de Riane Eisler. O que me parece relevante enfatizar aqui é que, se um dos polos brandiu a espada e rachou o cálice é porque este representava uma fonte de poder que lhe fazia, no mínimo, sombra. Dividir para reinar é uma máxima que chegou até hoje e se continua a reflectir não só na cisão da mulher mas em quase todas as práticas sociais, políticas, económicas e financeiras.
Faz-se caminho ao andar, adiantou o poeta sabiamente. Se, a bem da evolução,  a mulher de hoje quer avançar e ser percepcionada como o ser completo e poderoso que originalmente é, ela tem de se “apanhar” a si mesma na auto-percepção danosa que inconscientemente gera, percepção essa que continua a ser exercida pela humanidade em geral. A metade de mim não pode produzir o mesmo que as duas metades juntas. Uma só metade de mim permite ainda que a minha soberania total não se realize mas que, na ânsia de libertação, eu continui a “nadar em seco”. Nadar é seco é lutar por mais direitos  mas aceitar implicitamente que a mulher tem papéis e características que lhe são atribuídas pelo homem e, de forma inconsciente,  tentar emulá-lo. Muita da explicação pode ser encontrada nos arquétipos de Eva e Lillith, o primeiro como projecção da mulher submissa ao homem porque culpada dos males do mundo e o segundo dramaticamente adulterado para o estatuto de demónio. No modo como estes mitos fram passados, a consciência da mulher vê-se purgada da sua capacidade mágica de transformação que é a fonte do seu maior poder.
Não conhecemos o caminho de retorno a essa mulher integral, mas sabemos hoje que ele passa pelo resgate da metade perdida que o patriarcado guardou a sete chaves na sua sala de armas. Sem que esse processo se realize, a consciência da humanidade não se poderá elevar acima dos jogos nos quais ainda nos debatemos.
Compreender a natureza lúdica e experimental da marcha histórica, elevarmo-nos acima dos conceitos de vencedores e vencidos, algozes e vítimas , dos bons e dos maus é essencial, a meu ver, para que passos definitivos possam ser dados. Saber identificar o momento e desmontá-lo nas suas fraudes sem perder de vista o quadro maior requer sabedoria. Sobretudo a de compreender as características sempre temporárias do processo evolutivo para o qual decisões consentâneas entre as partes intervenientes são seguramente tomadas a níveis que nos escapam nesta pesada dimensão.

2 comentários:

  1. Sempre muito bom te ler Mariana!
    beijos
    Astrid Annabelle

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  2. Grata, Astrid, pela tua atenção amiga aos meus escritos.
    Um grande abraço
    Mariana

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