
Assumimos diferentes “eus” perante diferentes pessoas. Todos, sem excepção, passamos em maior ou menor grau por essa experiência de falseamento e tentamos manter um laço saudável entre os diferentes eus, numa ilusão de coerência e sentido de propósito pessoal. Contudo, quando este laço eventualmente se rompe, o eu que habitualmente apresentamos ao mundo, acaba em geral por se apresentar como falso.

No cerne deste fenómeno dos múltiplos eus habita uma procura inconsciente da aprovação que o ser humano busca, de forma acentuada, junto dos grupos com que mais se identifica – aqueles que ama e aqueles que teme. A identificação com o agressor (psicológico, emocional ou físico) é uma ocorrência do foro inconsciente, em geral mascarada da aparência de amor, admiração ou até mesmo, para os mais intelectualizados, da necessidade de viver uma experiência diferente. Nos místicos, assiste-se por vezes, neste caso, à colagem ao conceito de karma que justifica interna e externamente a junção ao agressor.
Para um crescimento saudável – identificação e o assumir do eu mais genuino em nós – torna-se imperativo trazer este enredo à consciência e abdicar da necessidade de aprovação sempre que a mesma se faça à custa do sacrifício desse eu central. Este crescimento prende-se com uma renúncia profunda: a da dissociação, ou seja a da integração do bem e do mal.
Para isso há que desistir das simplificações – nada se escreve só a preto e branco – e aprender a viver com a ambivalência e as ambiguidades da vida real.
As percepções redutoras da vida remetem o ser humano para um perigoso infantilismo de mimetização camaleónica dos sinais exteriores com que julga identificar-se e levam-no a modelar o seu comportamento de acordo com os mesmos. Embora este eu possa apresentar-se muito convincente nos mais hábeis, numa leitura mais profunda ele apresenta a ausência de um estável amor próprio interno ao concentrar-se de forma egóica sobre si mesmo.
O sinal de que esse trabalho vem a ser feito pode ler-se na nossa renúncia progressiva à grandeza e na aceitação de um eu de dimensão humana.
(Abril 2005)
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