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sexta-feira, 26 de agosto de 2011

ESTAR SÓ e SOLIDÃO


Tenho reflectido muito sobre a questão de “estar só” versus “solidão” e acho que, salvo raras excepções e como tudo na vida, é preciso experimentar para não mitificar. Aqueles que nesta encarnação ainda não viveram em plenitude, de forma assumida e durante um período considerável de tempo, uma relação sentimental a dois é natural que busquem e sonhem e sintam nostalgia de algo que lhes pareceu sempre escapar e que, ilusoriamente, parece conter a resposta para o vazio que a algum nível sempre experimentam.

É  verdade que as relações íntimas são necessárias pois nenhum ser é uma ilha isolada. Mas o nosso frequente erro é não ter consciência de que uma valiosa e compensadora relação íntima não tem de passar necessariamente pela sexualidade. Nem pode representar dependência de outrem.

A atracção entre as almas, a coincidência de gostos e a afinidade espiritual são pilares adequados à construção de laços duradouros, estáveis, qualificados na sua prática diária pela alegria, confiança mútua, grande respeito e estímulo recíproco. São ligações reconfortantes e quem as sabe construir e nutrir dificilmente experimentará sentimentos de profunda solidão.

Por outro lado, os elos que implicam sexualidade, exactamente porque tocam no ponto nevrálgico do ser humano (não é o sexo um grande portal para o estabelecimento do mistério de quem somos, se tem como espinha dorsal a subida da kundalini?) acarretam desde logo outras implicações.  Envolvidos numa prática que toca como nenhuma outra as secretas profundezas (ou alturas) do ser, os corpos emocionais “descarrilam” facilmente, sob a tensão  de precário equilíbrio do jogo amoroso. A alguns momentos de êxtase seguem-se regra geral complicações relacionais geradas pela interacção de personalidades a maior parte das vezes enfermas de problemas graves e, mais cedo ou mais tarde, o “sonho de amor” torna-se pesadelo.

Não pretendo com esta argumentação negar a importância do amor sentimental entre as almas.  Parece-me contudo e por experiência própria que a humanidade padece ainda de males gravosos, primos da imaturidade emocional, da ignorância sobre o funcionamento do seu mecanismo energético e do seu psiquismo e, finalmente, de uma patética percepção romântica da vida que atrasa consideravelmente o seu passo evolutivo.

Não é possível partilhar com sucesso a  existência com quem não esteja na mesma frequência vibratória, não seja íntimo da nossa alma, não partilhe pelo menos alguns dos nossos sonhos e cujas células do corpo não falem às nossas e vice-versa. Este último aspecto – o mais misterioso de todos – é a chave para a sexualidade.
Há hoje em dia demasiada pressão social no sentido de dar propósito à vida através de relacionamentos amorosos, muitas vezes quanto mais melhor.  Nunca deixa de me surpreender a extraordinária mobilidade dos partners amorosos, em especial na área homossexual. Dificilmente haverá verdadeira mobilidade, pois não considero possível uma verdadeira entrega de corpo e alma a um outro ser com tão espantosa frequência. No meu entender, esta transferência constante representa um “tapa-buracos” ou um “penso rápido” para ir aguentando a vida e dar-lhe um falso sentido.

Por outro lado, a “obra” de cada um pede um espaço próprio, interior e exterior e, não raras vezes, ela é afectada, quando não mesmo obstaculizada,  pela ruidosa turbulência das ligações amorosas. Estas são, mais vulgarmente do que se possa pensar, danças de egos, jogos de interesses, padrões kármicos incompreendidos e que se repetem por consequência ad nauseam. Representam em suma a indesejável distracção do trabalho interior a que nenhum ser se pode evadir se quiser avançar.

Em conclusão, parece-me que antes de haver uma real disponibilidade para um relacionamento íntimo do tipo amoroso, os seres precisam de se encontrar a si mesmos, curar feridas encarnacionais e perceber que é dentro deles que se encontram todos os recursos necessários ao cumprimento pessoal.
O outro, se encontrado e vivido em circunstâncias saudáveis do ponto de vista emocional, espiritual e físico, o outro é a doce luz acompanhante da nossa rota, é do nosso jardim interior o manifestado perfume.


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