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quarta-feira, 14 de maio de 2014

A MENINA MAFALDA



Morreu hoje a Menina Mafalda.
Só nos vimos um par de vezes, e em ocasiões sociais, pois ela era irmã de uma alma muito próxima da minha. Talvez isso nada tivesse a ver com o facto de eu simpatizar tanto com a Mafalda. Tinha um ar gaiato, lembro-me que a boca dela me fazia pensar num coelhinho e rodeava-a uma auréola amigável e carinhosa.



Pois foi, morreu hoje a meio da manhã, uma enfermeira a seu lado num hospital grande cujo nome me escapa.

Branco, branco e sereno se me apresenta tudo, quando penso na morte da Menina Mafalda. Chamo-lhe menina pois, conquanto fosse já sexagenária, transportava em si qualquer coisa meio indizível, talvez da meninice, de quando se é jovem e se tem curiosidade por tudo.



A serenidade, uma quietude imensa que percepciono quando penso nela e na sua partida desta dimensão, terão a ver com os méritos da Menina  Mafalda. Já teria cumprido o seu tempo, o labor e as questões que aqui veio tratar. Nunca foi mãe, mas abriu as suas asas maternais sobre muitas crianças, ao acarinhá-las a descobrir o mundo, na primeira infância. Gostava muito delas e elas da Menina Mafalda. Suspeito que albergasse em si um repositório de amor sem fim a que não conseguiu dar todo o uso que o seu coração pedia. Também aí se pode ver quão complicada e tortuosa pode ser a encarnação, os difíceis testes a que vimos nesta breve residência na Terra.



Sentia-a meiga por dentro, ansiosa por acarinhar e ser acarinhada, em retorno. Apesar da educação espartana, da moderação aprendida, irradiava essa luminoisidade cativante.

São assim as coisas. Meio inexplicáveis, à luz do raciocínio lógico.



Já se foi a Menina Mafalda, como a conhecemos aqui. Começa agora a ser só memória. Para o marido, os irmãos, para o resto da família. Para mim, que mal a conheci mas que fui tocada por ela. Até que chegue a nossa hora e passemos todos a ser também já só memória para os que ainda por cá continuam.

Nunca acreditamos verdadeiramente nisto, até que acontece. A princípio, irreal para quem cá fica, depois definitivo e muito tangível na ausência física daqueles que amamos.



Aplausos para a Menina Mafalda, pelo ser carinhoso, pelos cuidados com os outros, pelo rastro de paz e serenidade que deixou na passagem.

Boa viagem para o Esplendor!
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Desenho de LENA GAL

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