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domingo, 30 de outubro de 2011

ASPIRINA PARA A FELICIDADE?

Pedias isso nesse jeito que a gente te conhece, pensamento que ocorre por vezes à maioria, quando a luz escasseia, o corpo pesa e a esperança parece um mito distante e inalcançável, tudo insuficiente, baço, tão pouco à altura...
E houve logo abraços e beijos, confortos, companhia (ainda que virtual), receita de aspirina para uma catrefada de coisas (como aqueles sampoos dois em um que estragam o cabelo, dizem) e tu ficaste confortada, agradecida, na mesma.
Se estivesse ao pé de ti, teria possivelmente dito as mesmas coisas e abraços e beijos com aquela afectividade que bem conheces. Mas se olhasses no fundo dos meus olhos, terias encontrado lagos imensos de solidão, uivos de um vento agreste, o desespero dos trilhos desconhecidos, a vibração incongruente do que nos fere sem ter nada a ver com este som único, pessoal que a alma emite. A pergunta persistente, o véu que se não levanta, aquele golpe de asa que o poeta cantou e que nos continua a faltar para atingir, sabe-se lá o quê...Mas sabemos que está lá, algures, impensavelmente encoberto, um princípio de resposta, trampolim para outras etapas.
No fundo dos meus olhos encontrarias, também, a doce luz da gratidão por estares aqui na Terra a par de mim, tu que podes entender o que te escrevo. E é só isto que verdadeiramente te posso dar, em jeito de aspirina para algum alívio.

3 comentários:

  1. Lendo essa receita de aspirina, fico ciente que a Língua portuguesa é verdadeiramente preciosa e conseguida. Contém mais Universo que as incessantes viagens cosmopolitas que por aí andamos a fazer.

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  2. Pois é, a sensação de que avançamos pelo tempo sem ter um bocado para o perceber é também um conforto para os nossos lagos sombrios pois tudo é transitório e esse tempo trará também o sol para o lago. Mas se nos distanciamos desta "paisagem" aceitando a aspirina veremos e seremos a intemporalidade. Abraço luminoso...

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  3. "...Eram extremamente apelativos; estavam ali à minha disposição; em cima da mesinha de cabeceira. Era uma caixinha escura que ela usava para ter à mão os comprimidos que a faziam dormir. Nunca liguei qualquer importância ao valor daquela caixinha e, no entanto, ela continha o passaporte para uma viagem, uma sem retorno. Nunca houvera pensado nisso, excepto naquela noite; uma noite em que ela não estava ali deitada comigo (nunca mais estaria); uma noite em que acabara de chegar de mais um bar e depois de ter ingerido um bom pedaço de álcool para me aquecer a alma tão fria e tão dormente que já nem a sentia. Também, para que queria eu uma alma? Que é que ela me dá ou me faz? A caixinha preta continuava ali. Quantos comprimidos teria ela deixado desde a última vez que a encheu depois de os tirar da embalagem de marca do medicamento? A minha mão direita estendeu-se para aquela caixinha preta tão apelativa como tão consoladora pelo imaginário que já me estava a provocar. Não custaria nada e dormiria para sempre; tão bom. Era disso que eu estava a precisar ou seria de mais um pouco de gin? Mas para tomar os comprimidos eu precisava de beber alguma coisa e essa coisa estava também ali à mão; debaixo da cama, talvez também deitada no chão por cima do tapete; teria ainda algum líquido? O suficiente para engolir os comprimidos? Já não tinha forças para me levantar e ir buscar outra garrafa. A caixinha preta continuava ali e a minha mão já estava em cima dela. Senti aquela textura (penso que era marfim) sob os meus trémulos dedos mas senti-a fria e um arrepio percorreu-me a coluna; ou teria sido outro tipo de arrepio? Não sei quanto tempo estive com aquela caixinha na mão. Não sei quanto tempo demorei a tomar uma decisão. Não sei quanto tempo a olhei com um turvo olhar. Não sei porque razão não a segurei. Dei por mim a olhar para ela sem saber para que é que ela servia e naquele momento apenas me apeteceu dormir; tão perto do derradeiro sono; tão desejado; ali tão à mão... Reparei então que estava deitado sobre o lugar dela com o braço direito estendido para a mesinha de cabeceira segurando a caixinha preta que continha o passaporte para a derradeira viagem; tantas vezes assim estivemos; tantas vezes senti o seu calor, o seu respirar, o seu arfar; tantas vezes assim ficamos depois de fazermos amor. E, neste estúpido momento, repetia aquela posição estendendo a minha mão para uma viagem. Não consegui conter o choro; não consegui aguentar as lágrimas; não consegui segurar a caixinha preta. Não consegui partir. Restou-me a certeza que no dia seguinte teria mais uma noite de frio..."

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