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sábado, 28 de maio de 2011

À REVELIA DA SIMPLICIDADE

 


"O nosso verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar inteligente sobre nós próprios."                              MARGUERITE YOURCENAR

Tenho estado todo o dia a pensar no que a Marguerite Yourcenar escreveu sobre o momento em que verdadeiramente nascemos. Corresponde, creio,  a um corajoso estádio de lucidez sobre nós mesmos, a tal capacidade de olhar a miséria própria, sem disfarces, desculpas ou artificiosas explicações. Muito difícil, pois nada nos prepara para tal.
As pessoas, em geral, nada sabem sobre si mesmas, atrevo-me a dizer. Construíram um guião ao longo da vida, nutrido pelo que o meio ambiente lhes foi fornecendo como estímulo ou freio, e na dança e contradança da construção de um “Eu” viável, passando pela sobrevivência e por toda a mentira social, lá vai o ego saltitando de história em história, de causa em causa, em total ignorância do que realmente se passa nos bastidores (os próprios e os do entorno).
Confrange-me sempre o mau uso da palavra “simplicidade”. Eu sou um rapaz simples, eu gosto de frases simples, a mim chega-me uma vida simples, quero em toda a simplicidade ajudar os outros, representam em geral mecanismos de defesa face à própria auto-ignorância e dos caminhos do mundo em geral. Se formos simples, nada demais nos será exigido, podemos escudar-nos na nossa “simplicidade”. Mas a grande prova chega quando em vez da simplificação que apenas ilude, conseguimos encontrar a coragem e a pontinha de sabedoria indispensáveis para olhar de frente e a fundo o que reside por detrás dessa parede amarelinha e clara que é a fachada que mostramos ao mundo. À revelia dela vivem traumas, inseguranças, obsessões, carências, medos, sonhos desfeitos, dores de toda a ordem que nos habituámos a guardar num armário secreto longe da vista alheia, sobretudo longe da nossa.
Assim, tal como diz a Yourcenar, não me parece que tenhamos realmente aportado à verdadeira existência antes de sermos capazes de lançar sobre nós mesmos um olhar informado, prescrutante, laseriano, objectivo e tanto quanto possível isento na sua análise do que nos move lá das profundezas, que lixo deixámos para trás, que negações ou falsas verdades nos auto-impusemos para ir cumprindo o guião.
Ninguém é inocente! Estamos todos envolvidos numa trama mais ou menos complexa e as ”pessoas simples” e as “vidas simples” são parte da fábula que nos contamos. Para distrair da verdadeira problemática:o trabalho não feito. Esse facto é por sobremaneira evidente em quem se arvora em condutor/curador/reformador da humanidade, uma espécie em franco desenvolvimento na actualidade. A pessoa relativamente estruturada empresta equilíbrio aos outros, sem nada ter de apregoar ou defender. É que a sua própria vida reflecte indiscutivelmente esse facto, tenha ela o formato que tiver.
Ninguém é inocente, eu também o não sou. Passei muitas dores e atropeços para chegar a este ponto e, ao escrever estas palavras, mil imagens de falseamentos e ilusões me assaltam a mente e me doem no coração.
Escrevo à revelia do que não quero parecer que sou sem o ser. Apenas alguém que trabalha para tentar dar nascimento apropriado a si mesma.

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