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sábado, 28 de maio de 2011

A PALAVRA E OS CENÁRIOS DE PAPEL


Vejo ter aumentado consideravelmente nos nossos tempos a onda de gente que crê (ou pretende fazer crer aos outros) que, através de visualizações e frases afirmativas do “lado positivo da vida” e de um febril optimismo a raiar o desequilíbrio, tudo andará pelo melhor e os problemas desaparecerão, como por encanto. Trata-se, provavelmente de impulsos compensatórios, máscaras de optimismo e de acção criativa às quais faltam naturalmente sustentáculo nas profundezas do ser. Daí a inconstância de objectivos, a mobilidade dos interesses e afectos e as súbitas mudanças de rota a que, oportunamente, se chama “viver o momento”. Santa inocência! 
A palavra que não está assente na vivência pessoal ou que representa uma forçada interpretação da mesma, esboroa-se e não atinge verdadeiramente o coração do outro. Fica ao nível do cenário e todos os cenários acabam por cair.
Vivemos num tempo de depuração máxima e a palavra é um instrumento de alto poder. Por esse motivo, ela deve ter neste tempo excepcional um papel único de chamamento à realidade (holística) de cada um e de todos. Em vez de cenários róseos e do papaguear das conclusões de alegados grandes mestres, a palavra deve servir para o incitamento à coragem da auto-revelação, para a expressão da alma que frequentemente, a gritos, procura ser ouvida.
Os sinais de tal apelo são, como sempre foram, reconhecíveis nas inexplicáveis angústias que nos assaltam, nas sincronicidades da vida, nos padrões circunstanciais que “aterram” na nossa existência, na nossa saúde e portanto nas enfermidades do corpo, nos sonhos – plataforma interpretativa e complementar da experiência consciente -, nos passos atrás e nos difíceis e muitas vezes repetitivos bloqueios ao caminho planeado. São as chaves para o descobrimento pessoal, para os mistérios selados na nossa interioridade e para o enfrentamento dos quais não fomos devidamente preparados.  
Acredito que partilhar, na medida possível, esta viagem, pressupõe humildade e entrega. Passar para palavras, sem efeitos especiais, o encontro consigo mesmo, poderá representar uma contribuição infinitamente mais duradoura para o avanço comum, do que mil frases, perfeitas e visionárias, que não saíram de nós. 
Levantar os véus que se interpõem entre nós e o que verdadeiramente somos, é um grande desafio. Passar para palavras essa nossa experiência constitui um repto de proporções gigantescas, pois apenas em linha directa com a alma o podemos fazer. 
Só a palavra que vem de dentro, funda e ressonante, exercício da Verdade, ecoa pelos espaços recônditos da Consciência.

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