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sábado, 1 de outubro de 2016

A NOITE ESCURA DA ALMA


Na escura noite da larga travessia
brotai, ó flores!
Nascei, amadas,
místicas produções do meu sentir…


Esvaziada de mim, acossada por obscuros seres e a vibratória energia de um vórtex de proporções desconhecidas, recomeço em mim e é na noite que conspira o sonho dos meus futuros, a voluptuosa imagem da libertação.
No breu, rasgo silenciosa o desenho orgânico e fluido pelo qual acedo às purificadoras brechas de um azul imaterial – repositório de todos os vazios, o azul onde nem forma, nem jeito nem sonido algum persistem.
Partem de mim as fórmulas conhecidas. Solene e doce, aguardo entre tormentas a revelação que esgrime, plasmática, as formas e entre formas  desta rota.
Ó noite, ó obscura noite da minha alma, em ti confronto o temido rosto do Medo maior enquanto caminho, infinitesimal, pelo gigantesco cenário.
Esperavas-me, afinal, ó noite adormecida, inconsciente em mim. Uma a uma, foram-se extinguido todas as luzes de fora e, no vasto mar de trevas, introduzi os meus passos.
Das texturas, dos secretos e nocturnos  movimentos resultam inesperados corolários.
Deslizo, erecta, num mar sem fundo e sem apelo. É o tempo de uma misteriosa gestação onde se misturam e diluem, num acto alquímico, noções, imagens, desejos, planos.
Cavernosa e cósmica, cobre-me a noite dos seus véus sombrios. Um coração infinito bate o ritmo dos meus passos, soam remotos ecos indistintos, mantras da alma, piedosos acompanhantes da solitária viajante.

Oh noche que guiaste!
Oh noche amable más que el alborada!*

No sono e nos sonhos sou o fervor sagrado da peregrina em busca de si mesma. Solitária e vaga, acossam-me os monstros que outrora ignorei. Mas a noite abriu em mim amplos olhos com que acedo à minha única e imutável verdade: o sopro criador, aquele que não se aprende em parte alguma e que hoje, por entre escolhos, me guia pelo interior de mim mesma.


É pelas estrias da coragem que atravesso o longo túnel, aterradora via iniciática, pois sei que na morte do que fui habita o meu renascimento, num promissor vislumbre da luz reveladora.
Noite escura da alma, dolorosa travessia, marcha para o centro, busca derradeira de horizontes sem ilusão: acolhe-me e assiste-me até ao fim, pois para além dos amargos sabores e das lágrimas, respira um determinado e inescapável processo na marcha dos meus passos.
Sacudida pelos tempos do meu tempo na vasta inescrutabilidade de um Tempo Maior, ouso pelas sombras o traço novo, o exploratório risco, na ânsia da luz anunciada.
É a hora de todas as incertezas e nela se abrem em esplendor sagrado novos portais. A possibilidade de acesso à auto-transcendência gera padrões desconhecidos e alimenta a luz fina e fria  de um anunciado amanhecer. Nos olhos felinos que das trevas me seguem, Bastit vela, protectora e justa, pelo equilíbrio dos meus passos.
Já algo se alçou em mim, num jorro majestoso de força inovadora, promitente das coisas do porvir. Esboça a grande Mão línguas de fogo nos contornos assombrosos de um horizonte que se abre pouco a pouco, ascensional e celeste, como um sopro de vida imortal. Sou a breve mas antiga peregrina entre o Céu e a Terra e em mim caminham os que foram e os que hão-de ser no sopro eterno da vida a revelar-se.
Olhados os terrores, transpostos os umbrais, escutado o silvo penetrante da mais devastadora solidão, aporto enfim. Saúdam-me à chegada os mil olhos do Céu e o Coração da Vida.

Oh noche que juntaste
amado con amada
amada en el amado transformada!*

Completa-se a larga travessia. Renovada como firme pilar cósmico, soa agora em mim, despontante e mágico como um lírio de seis pétalas, o canto novo.



* in San Juan de la Cruz , Noche Oscura del Alma


 https://www.youtube.com/watch?v=snIo2FrBGXY

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