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quinta-feira, 16 de junho de 2016

OS UTÓPICOS


                                   "À evidência do que deve ser há sobrepor-se sempre, e em última análise, aquilo que é."
                                                                                                                                                                                               MI

“Certos medos deixam-nos inertes e cegos para a realidade.
Tudo nos parece inevitável. E a realidade é bem diferente: temos
o poder de encontrar estratégias, não só de sobrevivência
mas de sucesso.”
ANA ZANATTI


Acabei “O Sexo Inútil” de Ana Zanatti. A leitura deste longo e corajoso texto leva-me a reflectir sobre a complexa temática da verdade absoluta e das verdades relativas, correspondentes às diferentes interpretações da chamada realidade. Mais do que um livro sobre os direitos dos homossexuais, esta obra representa para mim uma chamada de atenção para a necessidade do mergulho na nossa interioridade e do correspondente assumir das conclusões a que se chegar.
Neste imenso palco que é o mundo e onde muito do que é importante para nós se passa nos bastidores, ocorrem farsas e tragicomédias, quando não dramas pungentes, interpretados pelas personagens de superfície que nos habitam, com branqueamento, no mínimo parcial, das pulsões e dos sentimentos que, de forma subterrânea por vezes subversiva, percorrem a nossa interioridade, sem que o reconheçamos.

Zanatti lembra que, na história, foram sempre os utópicos que promoveram a transformação das ideias. Os utópicos, os sonhadores, os alucinados, os que ousam sonhar o que “ainda não é” e confrontam o meio com a diferença à norma. Os utópicos não se conformam com a sua impotência, nem se resignam aos horizontes da desesperança. Expõem, pelo contrário, por palavras e pelo comportamento, uma projecção idealizada e positiva de um mundo transformado de acordo com o seu sentir profundo. Uma espécie de supra-norma que criam à revelia da ordem de valores vigente e por cuja implementação lutam do modo possível.
Fundamental compreender o que ocorre no estádio de consciência actual da humanidade. O pilar da educação e da estrutura social é o conhecimento  (percepção da realidade tangível) oficialmente aceite e estabelecido e que é transmitido como verdade absoluta e final. Deste modo, ele converte-se em instrumento de domínio de uns poucos sobre a maioria. Os poucos são os controladores desta última, facto que serve muitos privilégios e interesses.
O carácter dogmático desta compreensão da realidade cria no ser humano uma  monstruosa obstrução à descoberta do verdadeiro eu pois corta, à partida, as asas ao passarinho antes que ele aprenda a voar.  
O questionamento do que nos é passado como código de valores não é permitido, pelo que esses valores se tornam estáticos e paralisam a acção interior, sempre precursora da comportamental.  Não há transformação sem que seja possível identificar as contradições históricas objectivas  e subjectivas de leis, preceitos, princípios, dogmas, crenças. À evidência do que deve ser há sobrepor-se sempre e em última análise aquilo que é. Resistir a este processo transformativo, subjacente ao próprio fluir da vida e da evolução, continuará a ser fonte contínua de sofrimento e dramático atraso na marcha da humanidade terrestre.

Só na elevação da consciência acima de mesquinhos ódios e preconceitos, passo que não ocorre sem um profundo e empenhado trabalho pessoal na aceitação do igual e do diferente, poderemos, creio, avançar para uma sociedade sem exploração e sem domínios, aonde todas as percepções ou verdades individuais se poderão fundir na bola rolante e em constante mudança que é a nossa percepção da chamada realidade.

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