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domingo, 24 de maio de 2015

IMPULSO CULTURAL FASCISTA




There is a fascist cultural impulse that’s voracious.

SUSAN SONTAG



O mundo está a mudar tornou-se talvez, nos nossos dias, a mais banal das afirmações. Ninguém parece duvidar de tal facto e são óbvios a incerteza e o pessimismo subjacentes à expressão.

Ainda assim, convem tentar compreender os meandros da vida que levamos e como as transformações que ocorrem, dentro e fora de nós, parecem orquestradas por mão invisível  e fugir quase por completo ao nosso controle.

A questão prende-se, a meu ver, com a falta de consciência das grandes massas relativamente a tudo o que não tenha a ver com os problemas de sobrevivência imediata e de satisfação superficial das necessidades básicas a par do aproveitamento que daí decorre pelas forças subterrâneas activas no processo de manipulação e controle das pessoas.

Ocupados como andamos com a luta pela sobrevivência, iludidos pelos avanços tecnológicos, temos ido relegando para segundo plano dois aspectos fundamentais para o exercício da nossa soberania: a urgência numa educação de qualidade através da qual o lado criativo do ser humano possa revelar-se em plenitude; e o desenvolvimento espiritual, sustentáculo seguro da verdadeira expansão da consciência.

Sem que déssemos por isso, instalou-se no mundo aquilo que Susan Sontag apelida de impulso cultural fascista, ao qual corresponde um esvaziamento de ideais, causas, princípios e sobretudo dos aspectos transcendentes da nossa breve residência na Terra. A vida colectiva passou a reger-se pela sobrevalorização das aparências, do dinheiro e do falso poder  que este confere a quem o detem.

Destituídas dos valores que nutrem a expansão da consciência, assaltadas todos os dias por uma cultura televisiva comandada pela publicidade – com óbvios motivos ulteriores  - “servidas” pela crescente inovação tecnológica, esgotadas pela incapacidade de se concentrarem nas questões essenciais do ser profundo, as pessoas estrebucham à superfície de uma vida sem sentido, manietadas como se encontram no único factor que as poderia salvar: a criatividade ao serviço do Espírito.

A situação colectiva tem assim evoluído de modo ideal para que normas de vida arbritrárias, restritivas da liberdade individual e altamente punitivas para os dissidentes se implementem com sucesso no seio das sociedades. Sem consciência e sem capacidade e coragem para questionar o que lhe é imposto de fora para dentro, o ser humano legitima a coerção e torna-se, desse modo, patética marioneta, cadaver adiado, vago e triste simulacro de vida que o campo de forças de comando activo no planeta gere a seu belo prazer. As pessoas mais bem sucedidas guiam-se por estereotipos e clichés com os quais  povoam os palcos da vida, ao som do lamentável ruído do seu delirio.

Processo patético, inconsciente, no fundo um estertor de morte em vida, já que a voz da alma não se faz ouvir e a sua missão, por conseguinte, não se cumpre.


Este estado de coisas tem de ser objecto cuidado da nossa reflexão e da nossa vigilância e acção diárias, se é que ainda ambicionamos conhecer o Novo Dia.

4 comentários:

  1. A meu ver o texto não se coaduna, não justifica e nem desenvolve o título, limitando-se quase e tão somente a mencionar o “fascismo”. O fascismo nasce e pode nascer antes como reação ante esta situação de vazio e manipulação capitalista. A síndrome burguesa da expansão econômica, sub-justificada pela teologia prosperidade protestante, e movendo a revolução tecnológica continuada, já era assinalada por Marx no “Manifesto Comunista”.

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    1. Manifesto quê? Onde de onde? de que planeta é isso? Do Blá...blá histórico e filosófico mental ou diarreico humanóide? Marx - que melhor burguês a história teve??? A tabuada dos "pobres de espírito" que não ousam pensar por si mesmos e o mundo real em que vivemos? Prefiro "deus" - é mais composto...e talvez menos fanático do que os comunistas...ou os fascistas e as suas tretas ideológica...

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  2. O fascismo não é reacção, o que a sua ideologia pode é tirar partido de uma situação, como a actual, trabalhando com outras forças no esvaziamento do ser a nível espiritual, mental, cultural, e formatando-o do modo que for mais conveniente para as forças que serve.
    A expressão utilizada e que parece ter trilhado várias sensibilidades foi "impulso cultural fascista" (da autoria da muito esclarecida Susan Sontag e que subscrevo em absoluto), não se pretendendo aqui atacar nenhum movimento histórico, antes utilizar um adjectivo (fascista) que me pareceu muito adequado ao que se passa crescentemente no mundo "democrático" em que vivemos. Adequado porque conotado com repressão, imposição de limites à liberdade individual e reprogramação das pessoas através do que é mencionado no texto.
    Esclareço que não se pretendeu aqui falar contra ou pró quaçquer pensamento político (que pouco me interessa).

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