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sexta-feira, 5 de julho de 2013

CANSAÇO


Nem  a palavra mais pesada poderá significar o que sinto.
De qualquer modo, não a alcanço.  As palavras, todas as palavras parecem ter ficado entaladas no gargalo estreito da minha desesperança.
Lembro-me do poeta morto, reinventado em si mil vezes, a arrastar em palavras mornas o extremo cansaço (Um supremíssimo cansaço,/Íssimo, /íssimo,/ íssimo,/Cansaço…).
Talvez devesse querer qualquer coisa mas o estranho é que eu, a mulher da vontade férrea e das mil invenções, não quero nada. Não anseio por nada e tenho dificuldade em sonhar.
Minto, ainda quero alguma coisa: que me deixem em paz, neste quarto refrigerado onde me alheio da fornalha lá fora. Claro que não me deixam em paz e lá me forço uma, duas, mil vezes ao dia, a cumprir os papéis que de mim são esperados.
Há um vazio, mas é um vazio pesado, aterrador, parece que não há por onde se furar a espessa névoa…
Se ao menos viesses ver-me, falar comigo, podia ser que a vibração da voz ou a tua escrita me arrancassem deste estado que é nada mas que me abafa  os sentimentos.
Mas, porquê te chamo? Para quê se chama alguém se sabemos que isso é só adiamento do que temos de enfrentar dentro de nós, e a solo.

Horror à voracidade de qualquer tipo, ao ruído, ao destrambelhamento, confusões, aos estados febris, ao inglório equívoco de nos etiquetarmos…

Como o Poeta, cansada, infinitamente exausta de tudo, do nada, da impenetrabilidade dessa névoa grossa que se cola a nós, ao ar que respiramos e nos retira o propósito.

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