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quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

EMIGRANTE, POR FORÇA MAIOR

REMEDIOS VARO, Born again
No ar flutuam cinzas dispersas, não cabem no presente as já remotas memórias do sonho e do êxtase, a marca da magia que dantes irradiava do seu ser como pulsão uterina  e aspergia os contornos da vida com oiro intenso.
Pensa tantas coisas...
Tudo nela fora quase sempre desproporcionado aos objectos da sua atenção ou do seu querer. Habitavam-na veios de paixão pela vida  e pelos seres que tocaram a sua alma e foi a manifestação desses sentires o que a perdeu de si mesma, o que continua a levar-lhe os que ama.
Pertence talvez a um reino ígneo, eternamente nutrido por utopias e abraços  apaixonados à beleza do sonho criativo, dos afectos intermináveis e sem limites, ao mel que escorre, perfumado e doce, das almas nobres. Um estado demasiado iluminado e ardente para que a traição e o malquerer nele tenham lugar. Mas esse reino não é deste mundo, teve finalmente de aceitar...

Talvez já não lhe reste ninguém de verdade, a não ser uma amiga distante. Habituara-se à ilusão dos afectos, mas a hora da verdade chega para todos os que não escondem a cabeça na areia ante as sombras. Aprendeu a olhá-las de frente, por entre caudais de lágrimas e uma dor tão grande pelas ilusões sofridas.  
Começou a emigrar de si mesma, tal como se conhecia.  Alguma coisa derrotou o que sempre lhe parecera invencível. Pelo menos no aqui e no agora.

Chopin e os seus nocturnos fazem-lhe agora companhia noite fora. Mais o altar que ergueu à memória da sua amada Mãe, aonde luze um anjo esguio, creme e dourado, flores frescas, a luz de uma vela e múltiplas imagens da forma desaparecida.
Ó Mãe da minha alma, o meu coração está cheio de amor e, contudo, acho que nunca mais poderei amar mais ninguém...penso que não haverá maior desistência da vida do que essa, mas é assim que sinto no presente.

Armara os cenários, organizara a festa, os presentes, fornecera as deixas, lançara os foguetes, cuidara, tratara, dera tudo o que a animava, enfim entregara as rosas do seu jardim secreto a quem as não sabia cuidar.

Insensata, crédula, ingénua, culpada.
Emigrante. Por força maior. Sem expectativas exteriores a si mesma.


Mariana Inverno, “NOTAS À SOMBRA DOS TEMPOS”

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