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sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

SOARES (1924-2017)





Começou por me surpreender o impacto que a sua morte causou em mim. 
Embora tenha tido contacto com Soares a nível profissional, nunca houve propriamente uma relação de amizade pessoal. Tinha noventa e dois anos, estava doente há bastante tempo e, depois da encefalite, há três, nunca mais foi o mesmo. Tratou-se de uma morte anunciada, a qual pacientemente  esperou que a quadra festiva terminasse para se revelar em toda a sua irreversibilidade.

Senti-me de luto, correram-me as lágrimas várias vezes e, absurdamente, algo parecia perguntar em mim: “E agora?”  Qualquer coisa no ar, um vago sopro triste, reminiscente de orfandade.

O impacto foi inesperado mas a surpresa aponta para o muito pouco atentos que estamos ao que realmente toca pontos-chave em nós, a identidade, os impulsos da alma e coisas tais.

Nasci e respirei durante mais de vinte anos num país pequeno, periférico e isolado,  onde os tentáculos autoritários do sistema instalado se faziam sentir por toda a parte e penetravam os nossos sonhos e gritos de alma com a fria e cortante lâmina da censura. Um país agarrado de forma extemporânea a um império que o já não era, uma terra onde tudo soava a acanhado e os poetas guardavam os versos mais importantes no coração dorido.  Quando o não faziam, conheciam as agruras da prisão e do isolamento.

Pela  Revolução dos Cravos - feita por militares e não pelo povo - surgiram várias figuras novas na cena pública, entre as quais a de Mário Soares, combatente anti-fascista de toda a vida, sofredor de múltiplas prisões e deportado para São Tomé e
exilado em Paris por alturas do 25 de Abril.
Nos conturbados anos que se seguiram a 1974, este homem controverso, polémico, determinado e amante da vida, lutou incessantemente pela construção do processo democrático e, mostrando uma coragem invulgar, salvou Portugal no 25 de Novembro das garras do comunismo soviético.
Amado por muitos e odiado por outros tantos - em especial por aqueles que lhe atribuíram a culpa de uma descolonização feita fora de tempo, após uma sangrenta guerra de treze anos – Mário Soares veio a ocupar legitimamente os mais altos cargos da nação e trabalhou incessantemente até ao final da sua longa vida. O seu prestígio internacional é bem testemunho deste facto.

Quando me detive por momentos junto do seu caixão em câmara ardente nos Jerónimos, no meu ecrã interior cruzaram-se, como rastros de estrelas, as palavras: liberdade, ousadia, coragem, tolerância, sinceridade, res portuguesa, alma, verdade, força interior, ponte entre mundos, espontaneidade, irreverência, arte, amor à vida...
Corriam-me as lágrimas e percebi finalmente porquê. Não importa quantas imperfeições e defeitos lhe possam apontar a nível da persona. A razão nunca poderá explicar a identidade a este nível subterrâneo, identidade que invariavelmente a tudo se sobrepõe, nas contas finais.

Gratidão, Mário Soares! Que o teu legado possa sobreviver aos dias áridos e destituídos de espiritualidade que hoje vivemos, pois não vejo no panorama mundial líderes equiparáveis ao ser extraordinário que foste, na amada Lusitânia e no mundo.


Temo que demorará muito a nascer, se é que nasce, um ser igual...

2 comentários:

  1. Magnífico!

    Obrigado, aproveito para completar, em grande e em em sentida eloquência, aquilo que também senti... e sinto (Y)

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