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domingo, 7 de maio de 2017

A SOCIEDADE DA DESRESPONSABILIZAÇÃO (Disclaimer Society)

Depois de alguma reflexão, muito poucos duvidariam que vivemos numa sociedade em que vigora a desresponsabilização (disclaimer society). Há uma conotação implícita na expressão, que aponta para a negação de algo, em particular da responsabilidade.
Uma visão rápida da actividade quotidiana da sociedade revela como se expandiu a negação (da responsabilidade) em todos os tipos de contratos (software, e-mails corporativos, seguros de saúde e vida, intervenção médica, alojamento em hotéis, contratos de representação, documentos legais de todos os tipos e muitos outros). A síndrome da desresponsabilização tornou-se viral e espalha-se agora por todas as áreas da sociedade, projectando a responsabilidade final da uma dada actuação para uma entidade imaginária que reside algures entre os limites da nossa zona de conforto e o limiar da imaginação de alguém desconhecido. Às vezes, é encontrado um bode expiatório (usualmente inocente), mas em geral as consequências da falta de responsabilidade pelos membros e instituições de uma sociedade recaem sobre o reclamador original, sem recurso. Vale a pena pensar nas razões por detrás desta reviravolta na mentalidade global e prática. Nas últimas décadas, e à medida que a tecnologia se tem implementado cada vez mais, percebe-se como desapareceram os valores éticos mais básicos para dar origem a uma sociedade exclusivamente mercantilista, na qual os sentimentos e devoção ao outro, sem motivos ulteriores, e a introspecção e veneração pela natureza sagrada da vida, têm pouco espaço, se algum lhe resta. Este fenómeno liga-se com o abafar da consciência, colocada de propósito, por uma ordem cada vez mais materialista, em estado dormente. No contexto do actual paradigma central, supremamente regulado por valores mercantis, não é muito fácil ou conveniente permitir que a consciência se expanda e possa, eventualmente, levar as pessoas a comportar-se de modo a colocar em risco o seu potencial para serem controladas, gerarem dinheiro e, se tiverem sucesso,  a evadirem-se à norma. Consciência é consciência, não só de factos tangíveis, mas acima de tudo, percepção da natureza fictícia da maioria das percepções e actos humanos. Fictícios porque não estão enraizados numa imprescindível autoconsciência, não correspondem a escolhas conscientes e responsáveis, e os sujeitos apenas flutuam, na superfície da vida, convencidos de que estão ao leme do seu destino.











O desenvolvimento da ciência e da tecnologia inundou o nosso mundo com novos conceitos e ideias. Fazem-nos saber que quanto mais e melhor o ser humano criar, mais longe irá na vida (compensação material). No entanto, a noção de desenvolvimento espiritual sustentável como essencial para qualquer progresso real foi removida do nosso léxico e confinada à terminologia dos defensores da Nova Era que, sou forçada a admitir, têm em geral pouca noção daquilo que apregoam. O resultado final é uma sociedade disfuncional, onde reina o lado sombrio das escolhas humanas, de forma absolutista.


O conjunto de valores que governam a nossa cultura tem de estar ligado ao sentido de responsabilidade. Sem ele, somos apenas indivíduos robotizados, liderados e controlados por predadores de um tipo ou de outro, e não teremos voz no nosso próprio destino. Para alcançar um estado aceitável de fluir com a vida em que uma autoconsciência profunda seja possível, é indispensável estar disponível para a atenção guiada e para o processo cognitivo. Vigilância quanto ao que realmente está ocorrendo dentro e à nossa volta, nutrição do processo criativo genuíno e o ser responsável pelo nosso comportamento devem, a todo o custo, ser integrados e fomentados pela educação desde a mais tenra idade.

Esta integração representa um forte pilar a partir do qual podemos fortalecer a nossa capacidade de responder adequadamente aos desafios da vida, independentemente da sua dimensão.








Nota: Adaptação do texto original inglês do meu site www.lettersfromthegarden.com

sábado, 22 de abril de 2017

INVESTIMENTO NA ROSA



A própria flor é bela porque floresce do modo como o sol floresce nela,
MARIA GABRIELA LLANSOL


O dia amanhecera na glória do canto dos pássaros lá fora.
Abriu o postigo para a dimensão libertadora e incompreensível dos seus trinados, fios de luz ofuscantes penetravam a copa das árvores, tornara-se a rainha deposta dos sonhos de antanho…
Rainha, ainda assim, e, na invisibilidade, rodeavam-na musas compadecidas, a alternar lágrimas com cânticos de inspiração rumo a novos horizontes.

Movia-se sem pressas, buscava o perdão do Tempo, a acção regeneradora do Fogo do Esquecimento, tentava elevar-se acima dos fantasmas da discórdia. Buscava a Ardência Purificadora que varresse de si as dores e os desencantos inadequados à sua essência…subsistia contudo um clarão esplendoroso, embora silenciado, em cada célula macerada.
Como contar-lhes da beleza das galáxias, do voo livre sem restrições, das contas sem cálculo que o Universo faz na perfeição? Nada lhes havia ensinado o trajecto do relâmpago, a alegria que esmorece ante a razão,  o uivo do coiote a destronar fanfarronadas,  os ecos fulminantes da morte e da ausência, a impensabilidade dos actos magnânimos, o retorno assombroso do investimento na rosa?
Na passagem entre mundos, deixara de fora um elo de ligação, férreo e tirânico, que atirara para trás dos dias de agora. Quisera planar mais alto, levantar com graça a neblina que encobria o Esplendor, adivinhado apenas por alguns, para que pássaros, flores, cantos, almas e corpos coincidissem irmanados no mesmo labor peregrino.

Não obstante a malha ensanguentada dos registos, decidiu não recuar. Olhou com firmeza o sol que entretanto se levantara e na iluminada cegueira que a atingiu, dançou como nunca, por entre destroços e estalactites, entrou mar dentro em passos flutuantes sobre as águas, lavou-se na sarça ardente - corpo intacto do outro lado das chamas. Preparada, sentiu-se, para atravessar a fluidez dos dias e validar o inverosímil.

Poetas valerosos acompanharam-na lealmente, mais além do fim.

PINTURA: PAULA NAVARRO

quinta-feira, 9 de março de 2017

ELA E O OUTRO DOENTE

“Let us consider that we are all insane. It will explain us to each other. It will unriddle many riddles."Mark Twain

“Be kind, for everyone you meet is fighting a harder battle.” 

― Plato
Quadro: ANdrea Kowch















Ponto de rotura. Na contenção do rosário dos dias desde há muito, soltaram-se os pássaros negros dos limites passados pela virtude. Sairam fogos-fátuos de morteiros escondidos nas pregas do desespero instalado, a pele pariu ouriços mortíferos e ela quedou-se, estática e surda, ante horizontes sem luz. Black out, secura, não sentir.
Choveu desolação das abóbadas belas que ela olhava sem compreender, o ar corrompido por estalidos e estilhaços, o ar rebentado por todos os lados como ela, exausta, fatigada de mistérios e de crenças.
Meditou. E o milagre não se operou...
Falou com outrem. E a mudança não aconteceu...

Em mudez, enfiou o velho casaco de pele e levou o outro doente a lanchar fora, numa pastelaria escondida nalguma rua lateral da cidade provinciana.
Não sei qual é o teu segredo, mas estás mais bela do que nunca. E o doente mirava-a com olhos húmidos, suplicantes de que regressasse ali, aonde o ar saturado do cheiro do café e de croissants acabados de sair do forno, os cercava como única solução possível. Detrás do balcão, uma jovem prematuramente obesa, diligente e de avental às riscas, olhava-os por detrás dos óculos pesados, com uma expressão de carinho e assumida cumplicidade, alheada por momentos da sua própria miséria.

Cedeu. Acariciou por momentos a mão trémula do outro doente, ajudou-o a comer o croissant que se esfarelava de tão tenro. Começou a falar de trivialidades, Trump e o louco da Coreia do Norte, o outro doente a procurar seguir o raciocínio e a concordar com tudo. Deixou-o por minutos com a jovem gordinha e diligente para ir ao Multibanco (esteja descansada, que eu fico atenta), agradeceu depois.

No regresso ao carro, amparou-o com um empenho mais sentido, era a hora em que o dia e a noite compartem a mesma linha divisória, subtil e misteriosa.
A tensão começara a aliviar. Vá-se lá saber porquê.



domingo, 26 de fevereiro de 2017

NOITE ADENTRO

deveria talvez apagar a televisão - gente exaltada discute ninharias com pompa inadequada, sobretudo inoportuna

crises múltiplas em todas as frentes assolam a Terra, a maior crise global da história registada, creio

(pode ser que dos céus desabe, um destes dias, uma chuva de gotas amplas de fogo... línguas limpas, escaldantes, impregnadas do antídoto para tanta ruindade e equívoco)

pensar sobre mim, sobre quem sou e ao que venho
deixar assentar as poeiras da ansiedade por não chegar para tudo

tudo...o que é tudo, pergunta uma futura eu, encapsulada nos sonhos da actuante presente – fazem-se tantas coisas, matam-se outras tantas para realizar aquelas, mato-me a mim, eu que sinto todos os sons do universo a buscarem o verbo na minha pena

(emails por responder, o esforço para o deal a querer adiar-se porque cáustico para a tenra interioridade, vender, convencer, pagar as contas, levantar, despertar, indispensável alarme, sem tempo, sem mim)

a minha atenção focada agora no sagrado deste quase silêncio, imperceptíveis sons da noite a rendilharem quietude no ser esgotado

(sinto a voluptuosa rosa salmão, oferecida à minha Flor Morta, como um facho de glória e de triunfo sobre o que desaba...nada mais relevante que essa rosa-amor no cenário absurdo das minhas produções)

ressoam, de eras outras, vozes sábias, antepassados presentes em mim, calafrio bom a percorrer a espinha dorsal como um afago
(cor, centro, coração, do teu campo magnético emana a minha maior força, pensamento-coração, dádivas-coração, sentimentos-coração, coração quero-te florido como um andor de Páscoa a desfilar imponente pelas artérias impolutas da vida que sei ser possível)

que o meu bafo perpasse, como brisa inspiradora, tudo o que o meu toque  achar no caminho, que haja coerência entre o ritmo que adentro em mim soa, mântrico e imparável, e o gesto produtivo destas mãos incansáveis

(não quero pensar no que me falta, apenas levantar o véu da impossibilidade que me embacia a luz própria)

ir mais fundo, aquietar os tons e os sons dissonantes, empoleirada na nuvem enraizada do meu ser de agora
(pode ser que a epifania me ilumine, numa hora próxima, inesperada como a morte e me conduza miraculosamente para a Vida de verdade)

outra vez...o Trump já fez mais trampa, ninguém entende como está lá e como prossegue, excepto os poucos que sabem como se processam estas coisas da sombra

(pode ser que dos céus desabe, um destes dias, uma chuva de gotas amplas de fogo... línguas limpas, escaldantes, impregnadas do antídoto para tanta ruindade e equívoco)

não posso esperar...vida à superfície demasiado curta
entrar no esforço da redenção, por mérito próprio, emanado do centro como um raio de luz inviolável
aquietação
vozes deslembradas
silêncio para poder escutar

noite adentro