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terça-feira, 30 de agosto de 2011

RESPIRAÇÃO PERSISTENTE

hoje despertei insana e contemplei com olhos novos os objectos ouro e prata, as flores quase asfixiadas no apartamento londrino, elas que aspiram aos céus e ao azul e ao ar fresco dos céus que reflectem...
o pouco sentido da repetição diária e a minha alma a empurrar docemente este veículo treinado para a vida de superfície, a minha alma a segredar, inaudíveis as vozes antigas, as futuras, pré-murmúrios de grandes revelações - acho eu que não desisto...
entro na onda do dia e mantenho-me paralela a mim mesma sem saber, pobre criança, como fazer da maneira que a alma queria que eu fizesse, tudo questionado e efémero salvo aquilo que não logro tocar mas que me dá sentido, valor, aquilo que canta que sonha que emerge uma vez e outra, sempre, como o dia, como a noite, como a lua e o sol e esta respiração persistente que me confirma...
se houvesse fios mais visíveis, pistas esclarecedores a alumiar o caminho – dizem ser antigo, tanto como a memória perdida – poderia para mim, quem sabe, acender-se a luz interna das coisas e saberia melhor a fonte do choro e do riso, sombras transmutadas...
poderia, quem sabe, ler nos interstícios, nas brechas, nos vazios, alcançaria a vastidão imensa de quem sou e nela beberia a seiva do infinito pela qual me consumo... 

Quadro: Remedios Varo

domingo, 28 de agosto de 2011

MANIFESTO POÉTICO À ORDEM NASCENTE

"Um pouco mais de sol - eu era brasa
Um pouco mais de azul - eu era além...
"(1)
Viajante do cosmos, pequeno-grande ser tolhido nas malhas de uma dimensão aprisionante, lembra-te que, agrilhoado em ti, vive o gérmen da tua libertação, na espera do teu ser em plenitude. Aprende que tudo é nada e nada é tudo e é contigo e por via de ti que correm todas as coisas eternamente, para cima e para baixo, em círculo e às avessas, tudo corre, viajante, no mesmo sentido único.
Diferente tudo e tudo igual. O Bem que é o Mal e o Mal que é o Bem. O claro que é escuro e o escuro que é claro. Num perpétuo rodopio de efeitos refeitos, desfeitos, trocados...
"
Apaga a minha flama, Deus,
Porque ela não serve para viver os dias
"(2)
Reacenderei o fogo da minha vida à luz do que sei que vou saber,
sem que o saiba já. Não serve prosseguir do mesmo modo.
Anunciados nos portais da consciência surgem os reconhecíveis
mas trémulos contornos de um novo Amanhã...
Morro transmutada pelo nascer do novo Ser.
"
Eles não sabem que o sonho
É uma constante da vida
Tão concreta e definida
Como outra coisa qualquer
"(3)
Pois eles não sabem que eu sou pássaro, nuvem
e a serpente alada que ascende aos céus.
Cruzo-me nos vazios cósmicos com os filhos das galáxias,
engolem-me vórtices e logo emerjo, coroada pelo bafo das estrelas,
pulsante, ágil, metáfora dos deuses,
canto azul translucente e ignoto
como o que só é pressentido...
Sonho ou escuto o eco inicial,
A voz antes de todas as vozes, se é que o foste...
Nenhuma palavra te define
Mas pulsas, imparável, no diálogo dos átomos que me formam
Na mais singela partícula de todas as coisas,
Pulsas vibrante, ó voz de outrora,
Voz do agora e de todo o porvir,
Misteriosa ligação entre céu e terra.
"
Eu queria mais altas as estrelas,
Mais largo o espaço, o Sol mais criador,
Mais refulgente a Lua, o mar maior,
Mais cavadas as ondas e mais belas
"(4)
E por isso me aventuro no inesperado espaço/tempo
Do meu Eu/agora
nos enleados voos da catadupa de estrelas
Eco maior, repetititvo,
bate em uníssono com este meu coração dourado
donde brota imparável um azul líquido e firme
- céu aberto sobre o chakra coronário
dos meus meninos de oiro,
todas as crianças do mundo,
aquela que se me assemelha e a outra
cuja pele ou é noite ou é canela
em doce contraste com a minha.
"
Eles nem sabem nem sonham
Que o sonho comanda a vida
"(5)

Beijo o coração das coisas, as tenras folhas,
o restolho seco que me ecoa
quando passo, vaga e breve,
sob escolta do espírito Natura
entre as árvores antigas
e me assombro.

"Amo o infinitamente finito
e amo o impossivelmente possível
" (6)
Mas nada pode já conter as minhas asas
A voz única do meu ser.
Tudo é passagem, tudo é viagem.
Vivo, respiro, enfim não adiada.
"
Mãos de heróis, sem fé, acobardadas
Puseram grades sobre os precipícios
"(7)
Abro-me à vida que não sei, ainda que soluçante
na corda farpada que ousa intentar o paro
do passo do meu espírito.
"
Sou uma religiosa sem igreja,
Uma reclusa sem convento
"(8)
Não tenho livros sagrados que me guiem,
Antes me encontro, dolorosa e firme,
na crista do final de uns tempos já só estertor
Baixai línguas de fogo,
limpai o que era dantes o credo,
talvez em tempos a própria salvação.
Em nada de estanque posso crer
porque a alma segue solta
no fluido impulso da própria vida
a libertar-se das amarras da contenção e do pretenso.
Corro com lobos(9), sou também loba,
como sou pomba e ave e lagartixa, minhoca verde,
casulo e aroma incerto.
Sou sombra e dor e mágoa.
Grito, dentro dos ventos,
alucinada pelos fascinantes contornos
desse impossível que me ensinaram a ignorar.
E se
"Ogivas para o sol vejo-as cerradas"(10)
Se desabam as vigas estruturais
se o meu canto livre sofre a punição dos tempos,
se a fome e a mortandade nos assolam
e nos encombrem o promissor reflexo da luz
com a ilusão da força
Restas-me tu, irmã
Sobras-me tu, irmão
Mãos, corpos, uns olhos da alma
que tudo em tudo agregam
como a própria vida.
Pois
"
Não há separação;
Não há diferença
Não há tempo nem espaço
No uno, sagrado e eterno lugar
Em que residimos afectuosamente
"(11)
Partilharemos a última fruta
da macieira que alguém se esqueceu de arrancar,
entoaremos o som antigo que nos conforta,
ritmaremos os corpos, assim desvestidos da dor e dos suplícios
Restas-me tu, irmã
Sobras-me tu, irmão
Tu que espelhas a firmeza dos meus passos
e não vacilas, mas és bambu oscilante como eu
na incerta noite em que vivemos.
"
Quebra a gaiola, pássaro louco!
Não mais fronteiras, foge de mim
que a terra é curta, que o mar é pouco
que tudo é perto, princípio e fim
"(12)
Livrai-me, universo, das vozes que não criam
das que pouco ou nada expressam
e das mecânicas vozes a repetir o de sempre.
Amparai-me no meu destino sem rede
e, se fôr caso disso,
na ausência do pão, da água e dos afectos.
Apoiai o sentido íntimo desta rota
rumo ao mundo que desponta.
"
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos
"(13)
Essa és tu, irmã
Aí resides, irmão, na imensurável Força...
Companheiros, pioneiros, conspiradores atentos
de uma ordem nascente, que há-de florir
como leitos de begónias na manhã nova.
Privilégios, amores, o teu destino
"
Não os compras, nem te vendes
E os teus gestos não buscam dividendos
"(14)

"Antes que tudo em tudo se transforme"(15)
Recupere-se o fôlego e fique inscrito na hora
"
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos
"(16)

MARIANA INVERNO,
Junho 2003


NOTAS
(1) Mário de Sá-Carneiro
(2) Clarice Lispector
(3) António Gedeão
(4) Florbela Espanca
(5) António Gedeão
(6) Álvaro de Campos
(7) Mário de Sá-Carneiro
(8) Rosa Leonor Pedro
(9) Referência a título de obra de Clarissa Pinkola Estés
(10) Mário de Sá-Carneiro
(11) Aldegice Machado da Rosa
(12) Fernanda de Castro
(13) Sophia de Mello Breyner
14) Sophia de Mello Breyner
(15) Fernando Pessoa
(16) Sophia de Mello Breyner

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

ESTAR SÓ e SOLIDÃO


Tenho reflectido muito sobre a questão de “estar só” versus “solidão” e acho que, salvo raras excepções e como tudo na vida, é preciso experimentar para não mitificar. Aqueles que nesta encarnação ainda não viveram em plenitude, de forma assumida e durante um período considerável de tempo, uma relação sentimental a dois é natural que busquem e sonhem e sintam nostalgia de algo que lhes pareceu sempre escapar e que, ilusoriamente, parece conter a resposta para o vazio que a algum nível sempre experimentam.

É  verdade que as relações íntimas são necessárias pois nenhum ser é uma ilha isolada. Mas o nosso frequente erro é não ter consciência de que uma valiosa e compensadora relação íntima não tem de passar necessariamente pela sexualidade. Nem pode representar dependência de outrem.

A atracção entre as almas, a coincidência de gostos e a afinidade espiritual são pilares adequados à construção de laços duradouros, estáveis, qualificados na sua prática diária pela alegria, confiança mútua, grande respeito e estímulo recíproco. São ligações reconfortantes e quem as sabe construir e nutrir dificilmente experimentará sentimentos de profunda solidão.

Por outro lado, os elos que implicam sexualidade, exactamente porque tocam no ponto nevrálgico do ser humano (não é o sexo um grande portal para o estabelecimento do mistério de quem somos, se tem como espinha dorsal a subida da kundalini?) acarretam desde logo outras implicações.  Envolvidos numa prática que toca como nenhuma outra as secretas profundezas (ou alturas) do ser, os corpos emocionais “descarrilam” facilmente, sob a tensão  de precário equilíbrio do jogo amoroso. A alguns momentos de êxtase seguem-se regra geral complicações relacionais geradas pela interacção de personalidades a maior parte das vezes enfermas de problemas graves e, mais cedo ou mais tarde, o “sonho de amor” torna-se pesadelo.

Não pretendo com esta argumentação negar a importância do amor sentimental entre as almas.  Parece-me contudo e por experiência própria que a humanidade padece ainda de males gravosos, primos da imaturidade emocional, da ignorância sobre o funcionamento do seu mecanismo energético e do seu psiquismo e, finalmente, de uma patética percepção romântica da vida que atrasa consideravelmente o seu passo evolutivo.

Não é possível partilhar com sucesso a  existência com quem não esteja na mesma frequência vibratória, não seja íntimo da nossa alma, não partilhe pelo menos alguns dos nossos sonhos e cujas células do corpo não falem às nossas e vice-versa. Este último aspecto – o mais misterioso de todos – é a chave para a sexualidade.
Há hoje em dia demasiada pressão social no sentido de dar propósito à vida através de relacionamentos amorosos, muitas vezes quanto mais melhor.  Nunca deixa de me surpreender a extraordinária mobilidade dos partners amorosos, em especial na área homossexual. Dificilmente haverá verdadeira mobilidade, pois não considero possível uma verdadeira entrega de corpo e alma a um outro ser com tão espantosa frequência. No meu entender, esta transferência constante representa um “tapa-buracos” ou um “penso rápido” para ir aguentando a vida e dar-lhe um falso sentido.

Por outro lado, a “obra” de cada um pede um espaço próprio, interior e exterior e, não raras vezes, ela é afectada, quando não mesmo obstaculizada,  pela ruidosa turbulência das ligações amorosas. Estas são, mais vulgarmente do que se possa pensar, danças de egos, jogos de interesses, padrões kármicos incompreendidos e que se repetem por consequência ad nauseam. Representam em suma a indesejável distracção do trabalho interior a que nenhum ser se pode evadir se quiser avançar.

Em conclusão, parece-me que antes de haver uma real disponibilidade para um relacionamento íntimo do tipo amoroso, os seres precisam de se encontrar a si mesmos, curar feridas encarnacionais e perceber que é dentro deles que se encontram todos os recursos necessários ao cumprimento pessoal.
O outro, se encontrado e vivido em circunstâncias saudáveis do ponto de vista emocional, espiritual e físico, o outro é a doce luz acompanhante da nossa rota, é do nosso jardim interior o manifestado perfume.


quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Q U E T Z A L


A sua alma quer subir aos céus, sob a forma de estrela. Ou talvez de sopro ou de som aflautado, um caminho esguio e sinuoso que ninguém testemunhasse.

A sua alma não quer prosseguir privada do encantamento próprio das uterinas águas donde emergiu, a sua alma sente-se quetzal privado do voo livre.

A sua alma desenganou-se no cansaço das utilizações e das explicações e dos sábios e dos mestres. Está em debandada, na agonia de mil sombras que se esgatanham algures no background desta cena toda.

Todas as noites, a tempestade se intensifica e o recuo é maior, todos os dias o gesto perde fogo, a voz o timbre mágico, baixa uma secura tersa, limada, a aderir aos átomos do corpo sem retorno possível.
Sempre ao borde delas, mas não há lágrimas.

AS EMOÇÕES E O POLITICAMENTE CORRECTO

Calar as emoções e seguir a nossa vida da forma habitual sem as expressar é, com frequência, considerado politicamente correcto. Próprio dos educados, dos evoluídos mesmo.
Considera-se correcto não levantar a voz, não agitar os ares, não causar alterações abruptas numa ordem que se quer sem grandes ondas ou inconveniências para merecer o epíteto de civilizada!
Assim, as emoções e as dores, fechadas à chave nos recônditos do ser, fermentam perigosamente no veneno da sua não expressão e transformam-se em não detectáveis corpos de anti-vida os quais, cedo ou tarde, nos hão-de consumir em silêncio, de dentro para fora, e levar o mais precioso dos nossos bens: a saúde e mesmo a Vida.

Não sou politicamente correcta e sinto a Vida em mim com uma intensidade pouco habitual. Acima de tudo, preciso de a expressar, como indispensável me é o ar que respiro.
Ao contrário do que muito boa e “qualificada” gente proclama, acredito ser de toda a vantagem para o ser verbalizar a panóplia de emoções que o assaltam, desde a alegria à dor, do desapontamento ao medo e mesmo a própria zanga. Isto porque é importante tentar reconhecer o que nos habita, sem coloridos hiperbólicos ou a odiosa máscara de “se ser bom e estar acima do lixo emocional próprio dos fracos”, encará-lo e dar-lhe voz no momento adequado. Desde que não nos descontrolemos ou descarreguemos as nossas emoções de forma inadvertida sobre inocentes terceiros que possam estar no nosso caminho. Desde que cuidemos a linguagem que utilizamos, sem recurso a asneiras ou termos de mau gosto, os quais podem rapidamente acarretar o descontrole.

Dar expressão ao que nos vai dentro é próprio do ser humano e liberta-nos. Como, de dentro de um quarto abafado,  abrir uma janela de par em par para o ar fresco da manhã.
A verdade é sempre algo relativo, pois cada um detém a sua. A mim cabe-me buscar e dar expressão à minha, apresentando-a em toda a sua inteireza perante o outro.

Ser assim leva-nos muitos “amigos”.
Elimina os politicamente correctos, para começar, os dissimulados, os falsos, os oportunistas, os teatreiros e os que se relacionaram com uma projecção mas nunca com o nosso verdadeiro ser. Cabe-nos muitas vezes a culpa de isso ter acontecido, pois o tango, em especial o da vida, é sempre dançado a dois.

domingo, 24 de julho de 2011

NADA PARA DIZER

Hoje não tenho nada para dizer.
Tudo parece posto em causa, não sinto fé, não sinto esperança. Ando muito ciorânica, muito pessoana. Não sofro, não choro, e se acontecem espasmos dramáticos dentro de mim será a um nível tão profundo que não dou por eles. A vida continua nos seus trilhos habituais. Ah, mas claro dentro da crise. O que causa alguns incómodos, limitação, restrições e por aí fora. Nada que meia dúzia de ajustamentos não vá solucionando.
É como se o corpo emocional tivesse encerrado vários compartimentos, não sei se para obras ou se em definitivo. Cada vez me sinto mais a gosto sózinha comigo mesma, mas é um gostar sem exaltação, sem rasgo. Impróprio da pessoa que eu me parecia ser. Também não tenho grande interesse em analisar quem sou ou deixo de ser, porque é um trabalho inútil, baseado em ideias, conceitos e o que eu sou não se consegue dizer. Sai assim, aos solavancos, em borbotos, palavras aqui, gestualidade mais à frente, um ror de sons e arabescos e impulsos inconfessados a traçarem imagens, contra-imagens, um rascunho patético e inaproveitável...
Este não-sentir é uma espécie de pesadelo, um sonho mau. Não sei o que ele mascara, mas coisa boa não é com certeza. Coisa boa?! Mas que raio, a língua está cheia destas formatações que a gente adopta já sem pensar, eu quero lá saber se as coisas são boas ou são más. Só me interessam se SÃO. Ser, sem disfarces nem mentiras, sem conotações ambivalentes nem dualidade, isso é tudo o que pode de verdadeiro acontecer.
Quero SER, apenas. A minha própria afirmação me cansa, confesso. Já vi que se não vai lá com as cantilenas de comportamento exemplar (vide esforço de ascensão, depuração de ideias, mente em branco, luz, luz e mais luz bem como abraços luminosos e hábitos de vida monásticos), o que foi que se trilhou em mim e me deixou à mercê do pesadelo?

Outro dia, comprei num museu um livro para o meu neto, “BAKU – O Devorador de Sonhos Maus”. Um animal meio elefante, meio cavalo que no espaço onírico encontra o alimento para sobreviver: os sonhos maus.  O problema é que, mesmo que houvesse um para mim, o BAKU só funciona durante o nosso sono e o meu pesadelo ocorre agora que estou bem desperta, a caminhar no dia a dia, de olhos baços e montada no cepticismo.
Comecei por referir que não tinha nada para dizer.
E não disse.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

NO CORPO DO SOPRO

Com quem se relaciona o outro, em mim? Com a minha aparência física, com as palavras que digo?
Com as construções que vou deixando pelo caminho, com a minha conta bancária?
Com o que sou ou com o que pareço ser? Com o meu passado, com o meu futuro?
Em que precários e transitórios pilares assenta a dança entre os seres, que fantasiosas invenções assistem os grandes envolvimentos, uniões, amores, acordos, amizades e o seus opostos, toda a trama a que chamamos vida?
Em que é que devo acreditar? No abraço ou na rejeição, os papéis confundem-se, há com frequência trágicas nuances de ilusão naquilo em que acreditamos, prosseguimos, no empenho que colocamos no que nos parece acima, para além de, mais importante que tudo.
Chega depois a interrogação fulcral, num crescendo, por vezes ardente ferro em brasa, latejante e febril lá nos fundos da gente. Quem sou eu? O que sou eu? Para quê, eu? Por quê, eu? Eu não sou o medo e eu não sou a cólera, não sou nem a filha de, nem a mãe de, não sou a esposa, nem a chefe, não o ser que entra e sai de cena, não a ganhadora, não aquela que perde...
O nível da minha verdadeira existência alinha-se com o corpo de um sopro, uma ampla liberdade inexpressável, doçura antiquíssima, infinita como um golpe de asa branca. Algo que vive no alinhamento cósmico, alguma coisa eterna, inquebrável, um canto sem voz mas gloriosamente escutado no dentro de todas as coisas vivas.
Quanto mais me posso aproximar, no verbo, daquilo que sinto que sou? E se o sou, a que nível é que esse ser acontece, como e quando se expressa, quem ou o que é que despoleta a sua manifestação?
Ponho e tiro máscaras. As máscaras funcionam para o consenso, não desafiam em demasiado a norma. Escudos, barreiras, diques protectores daquilo que eu não sei dizer, aquilo que respira e pulsa como um coração de cristal, insustentável na aparência porém sobreposto ao espaço e ao tempo, eu sinto. As máscaras cobrem, abafam o coração cristalino, aquele que se não pode e se não sabe expôr.
Eu queria, eu queria ser só o que sou para não mais aparentar ser o que não sou. Mas  os sóis e as luas do infinito cosmos continuam a cruzar-se nas suas danças elípticas, avançam hipóteses, contrariam planos. Tudo com certeza pleno de significado e de intento. Eu, contudo, sou apenas uma consciência em expansão, pequena glosa de um todo que não abarco, inábil transportadora de indelével memória, força, registo.
Desço agora ao roseiral para ver se me sinto, se me agarro, antes que a noite baixe e já não possa mirar as rosas...