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segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

MUNDOS PARALELOS


Diz-se que outras eu vivem, em mundos paralelos,  desenvolvimentos diferentes da minha história.
Outras eu sofrem na pele o que me foi poupado, conhecem alegrias que eu não toco, derramam no papel as palavras para que não tenho tempo, comem o pão que o diabo amassou, amam são amadas corpo alma tudo.
Simultâneas, concomitantes, complementares, alheias, partes de um todo, vivemos  em paralelo e à revelia umas das outras, misteriosos pedaços de um só ente plasmado no coração do universo.
Talvez que as outras eu sejam só a fantasia de mim mesma, como eu delas o sou, todas apostadas num esclarecimento que não chega e na libertação.
Se nos encontrássemos todas, cada uma acorrentada ao seu rosário de chagas e imperfeições, cada uma prisioneira do seu choro soberana do seu canto, se essa convergência de mundos ocorresse talvez pudessemos por fim vislumbrar a verdadeira face da Deusa e relembrar quem em verdade somos e ao que vimos, nesta parte do todo por onde hoje navegamos.

Diz-se que ninguém vive sózinho. Coexistimos  uns com os outros aqui, com as almas afins e com as outras, mas sobretudo com as alternativas partes de nós mesmos, que noutros mundos vivem o nosso inviável de hoje, exploram os caminhos que se nos fecharam aqui ou registam pela dor os contornos da sombra que escolhemos ignorar.
Coexistimos na saudade do ser inteiro para o qual as personas são só máscaras,  efémeros instrumentos de afirmação de um ego em geral doente, preso da absurda ilusão da superioridade.
Relembrar, trazer de volta os acessos, reconstruir as pontes com o invisível, saber, mas saber deveras, que  percepcionar a vida apenas pelos cinco sentidos nos arredou há milhares de anos de quem verdadeiramente somos.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

PARÁBOLAS

 Com palavras amo, escreveu o poeta. Com palavras canto, danço fantásticos passos de criação,  encontro as matizes secretas das coisas, apalpo ao de leve o pulsar profundo da vida. Com palavras subo à nota mais vibrante da oração, rasgo janelas sobre mundos esquivos, apaziguo as minhas ânsias e dou rosto ao indizível, por momentos deusa efémera do Verbo.
Escritas como se de fonte eterna elas brotassem, as palavras esculpem as minhas horas e aí deixam o rastro do choro ou do êxtase, soluçantes e mágicas, testemunho da passagem.

Com palavras me descubro e me revejo, sem saber que sou aquilo que as palavras me dizem que eu sou. Com palavras amo, sim, e com palavras mato. Exorciso, exerço a tentadora prática da sedução, reponho a verdade e construo a mentira da ilusão. As palavras doces, as intensas, as profundas, as orgásticas. As duras, certeiramente mortais, as ditas palavras de agape e de luz bem como as suas sombrias companheiras do desamor.
Com palavras incito, inspiro, embelezo, castigo, reduzo a cinzas, faço os meus lutos, apoio o outro, lanço no ar perfumes de coisas por saber ou relembrar, invento eternidades no que já passou ou nunca foi. Com  palavras sou maior, sou mais eu e deixo de ser quem sou pois elas transcendem os meus limites conhecidos, ponte entre mim e Eu e mais alguma coisa que não sei o que é mas que vibra em contínuo, inalcançável quase sempre na latência dos dias.

Faço tantas coisas com palavras,  refaço-me a mim e, de cada vez, abrem-se inesperadas brechas para o que eu já era sem o saber. Com palavras eu descubro outras palavras dentro delas, mundos, intermundos, sinapses de um todo incompreensível, estonteante.
Serão parábolas, afinal, formas de me representar e ao fogo que me anima, instrumentos de construção/destruição, assentes num núcleo mórfico e periferias dançantes, laços precários com a eternidade.

Com palavras escrevo, respiro. Não sei o que são, donde vêm, mas habitam-me, poderosamente emotivas e transformadoras e nelas me celebro, no fugaz instante que passa.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

NATAL OUTRA VEZ


Passamos a vida entre símbolos e crenças, tradições e mitos, apoiados num jogo de imagens, sons, hábitos que nos emprestam cor e, às vezes, um certo sentido à vida.
Alguns destes apoios existenciais ligam-se directamente com o coração e com os afectos. Era assim quando, criança, entrava eu numa espécie de estado alterado de consciência com a aproximação do Natal, os seus cheiros, frio, sapatinho na chaminé - onde se materializavam na manhã de Natal  os livros com que sonhara – e a imagem do Menino Jesus nas palhinhas deitado. Havia excitação, muito que fazer, o afecto no coração das pessoas parecia iluminá-las de forma especial quando diziam “É Natal!”, os olhos inundados de uma tolerância inusual.
Claro que não era bem assim, mas deste modo eu sentia a magia do Natal, pretexto para as prendas, as cores quentes e brilhantes dos enfeites, comida boa em abundância, amor, partilha. Eramos todos mais pobres mas que rica eu me sentia com o meu magro orçamento de alguns escudos que sensatamente administrava para que a todos coubesse um miminho.
Passaram anos-luz de lá para cá e parece-me que o que hoje acontece, para além de uma mega operação comercial – também ela em declínio, dada a crise – é um eco vago e muito falseado do Natal que eu conheci e que, a prazo, tenderá a desaparecer.

Contudo, o coração humano precisa de Natais. Carece de processos ritualísticos que mantenham aceso o fogo interno e nos assegurem do efeito-milagre do abraço e da dádiva e de acreditarmos na salvação.

Pelo que o Natal já foi e em nome de um “Natal” futuro, radicado no coração aberto da humanidade, deixo-vos aqui o meu abraço caloroso, amigos e companheiros de rota no planeta Terra, neste histórico ano de 2011.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

FLYING OVER A CUCKOO’S NEST




Sou filha do Universo.

Confundem-se em mim estranhas combinações advindas com certeza de origens diversas e ainda longínquas para a Terra… A Terra onde hoje se vive uma agenda negra e sem esperança. A par desta, contudo, sinto que corre em silêncio uma outra história, dissociada das acções imediatas da humanidade terrestre, um agendamento maior integrado no todo, nos ciclos imparáveis da vida e da morte que depois é vida e a seguir é morte para logo ser vida renascida.

Aquilo que ocorre subjacente à vida de superfície tranquiliza o meu corpo emocional e empresta o único sentido possível para eu estar aqui neste momento transformacional, tempo de síntese e ascensão vibratória para aqueles que as puderem e souberem permitir.



Sempre ocorreram milagres na minha vida. Ou seja, princípios/formulas desconhecidas pelo estabelecido permitiram muitas vezes e de modo inesperado que a improvável saída dos problemas ocorresse. Nunca a mente soube explicar bem estes “fenómenos”, mas algo de muito central/centrado em mim os recebeu, de cada vez, como naturais. Na hora que passa, acentua-se gradualmente a minha ligação consciente a esse nível vibratorio para onde sinto que desce de modo imparável um esplendor sem fim, inerente à própria Vida nas suas ilimitadas possibilidades.

Escangalham-se os acordos, caiem as instiutições – pilares paradigmáticos do mundo tal como o sabemos – esboroa-se o estado social, volatilizam-se como num pesadelo as condições de vida e sobrevivência de milhões, após séculos de duras lutas, sociais e políticas. Ninguém sabe para onde se caminha, mas as previsões são negras.



Algo está, contudo, a mudar em mim pois esse cenário desconhecido não me inquieta. Caminho com a hora que desce sobre o meu ser em escuta, na humildade de nada saber ao certo, entregue e confiante na Vida Maior. Viro-me mais e mais para esse interior inexplorado onde, suspeito, vivem as chaves da salvação. Esse centro cristalino donde emergem as pontes dos afectos, da solidariedade, do impulso artístico e de um canto quente e húmido como o pulsar da vida.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

RIO ACIMA



O que está a acontecer agora?

Multiplicaram-se as coisas para fazer, as solicitações, as dificuldades, o trabalho e os deveres a crescerem brutalmente nos dias da minha vida e este cansaço imenso  dentro do meu corpo, a mente a querer soltar-se, a alma tão desejosa de promover as pontes para uma outra coisa, vibração mais alta, diferente…
 
Se estou entre o Céu e a Terra, o facto é que me sinto a caminhar quase sem descanso por uma estrada aparentemente impeditiva do meu passo, escolhos e esboços de ligações precárias por todos os lados, as coisas a partirem-se, a ajustarem-se, tudo quase, ao milímetro, o sufoco de quem sabe que tem de aguentar, tem de conseguir passar pela porta estreita, que há no profundo da Vida um Oriente para onde os corpos se querem voltar…


Tudo tão relativo, o caminho fez-se para agora ser reconhecido como ilusão, assim que foi importante tudo quanto empreendi, quanto me trouxe até aqui, a este ponto do entrecruzar de forças que me puxam em todas as direcções, mil tentáculos agentes da minha prova-límite, nesta etapa.

Há que escrever tudo de novo, a palavra purificada pelo ouro solar, o encantamento a querer ressurgir numa inocência agora sábia (haverá outra?).

Não fica pedra sobre pedra, pó sobre pó, embora tudo continue lá, na vida de superfície. Sei que busco o Grande Horizonte, os Grandes Mistérios, a Divindade dentro de mim. Não obstante as grades, abismos, tabiques, densidade sufocante, espessos véus encobridores da luz, abro-me sem dúvidas a um Gigante no profundo do Ser.
Já nada é facilmente adjectivável, talvez que a própria qualificação pela palavra já tenha vivido o seu próprio tempo de ilusão e agora tenhamos de a depurar de artificialismos românticos e vãos. Aos poucos, pequenos mas definitivos os passos na auto-escuta.

Prossigo. Titubeante ainda mas tão segura de que por detrás de mim vivo Eu e só a voz desse Eu me saberá guiar rio acima.


quarta-feira, 16 de novembro de 2011

MENTES FOSSILIZADAS

Se há área que me seduza e alimente em mim a esperança num futuro mais equilibrado e justo, essa é a da educação. Pelo muito trabalho a fazer, pela perspectiva que urge mudar, por ser a educação aquilo que deixa no ser humano marcas e referências incontornáveis e determina, pela vida fora, a qualidade da sua caminhada na Terra.
É por demais óbvio que os programas educacionais implementados pela ordem vigente e a vida que levamos contribuem para fossilizar as mentes pois ênfase profundo é colocado numa formatação densa e normótica desde os primeiros anos da vida, em completa obliteração da liberdade e leveza originais com que a encarnação começa por se manifestar no planeta.
A agilidade mental necessária ao questionamento da vida e das situações bem como ao brotar de respostas criativas fica comprometida desde cedo através de programas que não deixam qualquer margem de manobra para aquela. A função central da educação deveria ser o despertar o ser humano para o seu propósito maior na Terra, para a especificidade da sua essência nele dormentes. Cada ser humano traz consigo um imenso potencial criativo – idealmente a explorar de forma única – e caberia aos educadores e à sociedade em geral estimular a descoberta desse vasto e diversificado repositório de talentos e qualidades particulares de cada ser, o qual representa afinal o grande legado da espécie humana terrestre.
Ora, nas sociedades actuais, em que por um lado programas educacionais medíocres, cada vez mais debelados de profundidade, são impostos aos educandos como metas-padrão para que lhes sejam passados atestados  de qualificação profissional e por outro a vida social se passa entre o shopping centre, a aberrrante televisão e os jogos de computador, não se podem esperar resultados por aí além. A grande maioria dos jovens torna-se  flor murcha à partida, fossilizados pela educação num comportamento robótico, incapazes de articular o pensamento para além de um modesto léxico de 3.500 palavras que, por vezes, nem soletrar de forma correcta conseguem. Como se o espírito, silenciado por essa castrante formatação, se tivesse distanciado do seu portador, não possibilitando assim uma mais genuina manifestação.
Dói-me, dói-me muito. Vejo a miséria da submissão, o adormecimento da luz interior, a estupidificação, a vulgaridade. O planeta está povoado de seres manipuláveis, os escravos modernos, exactamente as peças necessárias ao enfraquecimento do único factor que pode salvar a humanidade: o poder criativo. Aquele que cria dispõe de estruturas internas arejadas, sabe escutar, olhar. Prescruta, investiga, canta, põe em causa, abre-se a novas perspectivas, aponta  sempre para mais alto, como o solitário pássaro de San Juan de la Cruz. O criativo sabe estabelecer de forma intuitiva novas conexões com os elementos conhecidos e, sobretudo, com os apenas pressentidos. À mente afloram-lhe com naturalidade combinações únicas, frequentemente geradoras de novos caminhos, mais justos e promissores. A criação verdadeira é sempre bela e comovente! Combustível da Esperança, ela é no fundo a única verdadeira riqueza que podemos deixar aos nossos descendentes.
Toda esta problemática levanta complexas questões relacionadas com a educação das nossas crianças e os padrões da vida que levamos e lhes impomos como referência. Parece-me urgente que resgatemos dentro de nós os valores dos afectos, da ligação à mãe natureza e aos animais, nossos companheiros na Terra, os nobres valores da consciência social e do empreendorismo responsável nas diferentes áreas da existência humana. Que reencontremos a coragem de questionar a qualidade da vida que nos foi sendo imposta e que, quase inconscientemente, deixámos que fosse minando todas as horas dos nossos dias.
Grandes mudanças são necessárias, mas não nos podemos amedrontar pela gigantesca tarefa que se vislumbra. Há que começar por algum lado e, no fundo, pode ser mais simples do que parece.
Paro. Escuto. Olho.
Quem sou? Este ser de superfície, moldado por forças alienadas, que se debate por manter o pescoço fora de água, ou algo que nas profundezas de mim mesmo espera a hora da sua expressão? Ao que venho? O que é que me faz feliz?
O que é que permanece em mim, quando o ruído esmorece e as luzes se apagam?
Diante de quê é que o meu coração canta?
Por onde anda a luz dos meus sonhos, o que é que dorme latente, esquecido em mim, como posso purificar-me ao ponto de expressar em mim o máximo de energia do que realmente sou?

A optimização do ser terá de constituir  o fulcro central da educação. Passa pelo amor, pelo respeito e pela dádiva contínua, passa por uma inequívoca ambição espiritual e por muito trabalho realizado incansavelmente na Alegria maior da consciência em expansão.

domingo, 13 de novembro de 2011

A HORA DA DISSIDÊNCIA

Ando pelas artes, a escrita, essas coisas ditas da cultura contra as quais sopram hoje em dia ventos contrários. Nunca foi fácil, mas agora ergue-se com inesperado vigor o negro e barrento muro da situação económica como pretexto para todos os cortes.
Ser culto qualquer dia é capaz de passar a condição subversiva (lembram-se de “Fahrenheit 451” de Ray Bradbury?), a ficção anuncia frequentemente o que há-de vir, uma forma “soft” de nos preparar para o inesperado. Percorre-me um calafrio quando imagino uma sociedade ainda mais ignorante e normótica do que a actual, onde artigos como este poriam de imediato fim à minha vida.
O que é que nós aprendemos, companheiros, neste grão de poeira suspenso no cosmos que é a Terra? Como é que continuamos a consentir que meia dúzia de seres alienados ditem o nosso caminho e a qualidade da nossa vida na Terra?
Não avalizo guerras de nenhum tipo, mas falo de um levantamento interior, determinado e lúcido, em prol do alargamento de horizontes e da expansão da consciência. Um assumir de que albergamos dentro de nós uma soberania esquecida, a luminosa capacidade de recriar a partir dos escombros e das cinzas.
O Espírito nunca se rende. E só com ele podemos em verdade contar para escapar ao destino da fénix que, embora sempre renascida, parece nada aprender pois continua a fazer os mesmos erros que levam à sua destruição cíclica.
As respostas não estão com certeza nos lugares habituais. Historicamente falando, claro. Há que redescobrir a coragem e a tenacidade e subir uma oitava no canto interior. Há que relembrar os conselhos dos poetas, que pelo sonho é que vamos e que se faz caminho ao andar. Se nos queimarem todos os livros, ainda teremos a nossa memória para guardar as palavras. Somos muitos e, como no romance de Bradbury, se cada um de nós memorizar um livro, o conhecimento não se perderá pois resta-nos a partilha que a todos enriquece.
Chegou a hora de pormos fim às guerras e aos conflitos, à separatividade. É a hora da verdadeira Dissidência, o começo do fim das ilusórias diferenças que nos conduziram à insanidade dos dias actuais.
Temos de reaprender a chamar as coisas pelo seu nome pois este é um tempo revelador o qual, malgré nous, tudo traz à superfície. Nem nada nem ninguém podem impedir o cair dos véus pois há um tempo certo para tudo. Este é o de abrir o coração e deixar o Espírito impulsionar os actos, por mais absurdos que eles nos pareçam.
Amén.