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sexta-feira, 11 de novembro de 2011

CHAVES

Fora, como muitos outros, (a)traída pelo amor romântico um par de vezes na sua vida.
Um par de vezes sentira-se amada até à loucura, rainha do mundo, a mais bela, a sine qua non, a musa e a número um, a maior, a melhor, a mulher da vida do outro, insubstituível, enviada dos deuses. Um par de vezes achara que ali estava enfim a alma-gémea, um pedaço da mesma coisa e que a impossível fusão aconteceria mesmo a qualquer momento.
Foram sonhos e mais sonhos, sobressaltos e desgostos, a projecção do entendimento total a dar lugar à realidade mais palpável dos equívocos e do distanciamento. Traições camufladas, competições (entre os dois géneros), lutas de poder e o sonho sempre adiado de tocar de verdade o infinito através do outro. Um dia percebeu o engano, a fraude, a imitação de Vida que estes relacionamentos amorosos quase todos são, mesmo os mais pacíficos.
Ela sabia o que lhe cantava no coração, conhecia a memória do corpo, a saudade da alma. A imagem de um outro passo tingia-lhe ainda o olhar de uma prata azulada, reminiscente de luares antiquíssimos, afins de uma bravia interioridade que só a doçura extrema e a pureza poderiam emular.
Tivera, alcançara...a ilusão desse ponto. Tudo hipérboles, exercícios divergentes da rotina, fantasias com efe minúsculo a demorá-la escusadamente.
Com o passar do tempo, sobrava ela, agora. A memória do corpo, o canto da alma. Grandes chaves para a longa estrada de regresso a si mesma.

Quadro: "Amore" de Andrew Gonzalez

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

EM NOME DO AMOR

A capacidade individual de imaginação leva-nos frequentemente a  todo o tipo de transferências, ao criarmos e alimentarmos laços fantasiados de fusão, seja com essa primeira e insubstituível figura que é a mãe, seja com os objectos de amor que vamos identificando pela vida fora. A  privação  afectiva conduz, de facto,  a todo o tipo de projecções e  identificações enganosas. Estas últimas ocorrem mais frequentemente no ser propenso ao auto-engano, em geral aquele que, por ser incapaz de se enfrentar verdadeiramente nos seus aspectos mais sombrios, encontra evasão, alívio e uma passageira auto-confirmação de bem-estar e de felicidade, na eternamente renovada (e actualizada) versão do que lhe "acontece” ou “vai acontecendo”no processo a que me habituei a chamar turismo emocional .

A palavra amor tem vindo a perder o sentido, pela banalização do seu uso. Chama-se amor a toda e qualquer excitação, por mais passageira e fútil que ela seja, ou meramente baseada numa atracção física. São também erroneamente identificadas como amor as projecções que não passam de meros processos de gratificação de um ego descompensado,  eternamente em busca de “contrapesos” para as suas frustrações ou para justificar o script que a persona alienada inventa e acarinha para a sua própria sobrevivência.

Num tempo em que tanto se fala de amor mas em que os exemplos de vivências de amor genuino e amadurecido são raros, parece-me que estamos de volta à estaca zero em termos de evolução nesta matéria.  Somos em geral seres descompensados, pouco ou nada conscientes do que em nós transportamos e, como tal, ao prosseguirmos as histórias imediatas (as que estão ao alcance da mão),  deixamos com frequência escapar a Verdadeira Vida.  Seja por ignorarmos ou relegarmos para lugar secundário os nossos mais importantes e já encontrados parceiros de rota na Terra, seja pela nossa incapacidade de nos preservarmos para esse encontro.
Tudo isto advém da falta de amor-próprio e da não integração do que é essa energia que permite, com o outro, tocar a transcendência. A experiência de amar, para ser verdadeira, não exige formatos ou compromissos.
Ela É em si mesma o compromisso e adapta-se naturalmente às circunstâncias da vida. Com a inocente alegria da dádiva e sem a ultrajante contabilidade hoje em dia demasiado presente nas “histórias de amor”.

sábado, 5 de novembro de 2011

O SER DE AQUÁRIO E O CANTO DE ANDRÉ

Após o canto, que lhe escoava da alma como luminoso nutriente da hora passante, falou e as palavras encontraram as suas irmãs esquecidas dentro de mim. As palavras dançaram o regozijo da identidade e senti o bafo inconfundível da Alegria.

A civilização anda à deriva, há muitos políticos mas não existem verdadeiros chefes de estado, as uniões são falsas, a prosperidade é falsa, as promessas foram vãs e as grandes conquistas que a humanidade alcançou desde o séc XIX, sob a forma de direitos e benefícios sociais, assentam afinal numa frágil e ilusória bolha que maquiavélicos alfinetes furam metodica e diariamente.

Vastas franjas da humanidade terrestre, na ordem dos biliões, nem sequer suspeitam que são ignorantes. Vegetam à sombra de uma inquestionada normose,  autómatos programados, seguros dos seus passos na inconsciência total da sua condição de marionetas, habilmente manipuladas por mãos ocultas e preversas.É a Cãmara das Trevas Exteriores.

Quando o ser humano transita para a consciência dessa ignorância, ele dá um verdadeiro salto quântico pois alarma-se, porque sabe agora nada saber. Entrou na Câmara da Ignorância.

É a partir deste ponto que se abrem as infinitas avenidas de acesso ao conhecimento. O ser humano, que sabe nada saber, busca conhecer, ir mais além ou mais adentro e despontam assim portais  nos horizontes da sua caminhada.  Câmara do Conhecimento.

Só a sabedoria nos permite realmente amar, o fulcral verbo tão levianamente conjugado...Câmara da Sabedoria.

E quem AMA pode. Quem alcança este ponto, quem ama de verdade encontra um sentido  de continuidade sagrada na existência, perde o medo e tem a coragem de nutrir os impulsos do seu ser essencial numa aparente indiferença aos espasmos globais, ao inculcar da desconfiança e da distância entre os seres em que as forças involutivas estão apostadas. Câmara do Poder.


Só neste percurso de coragem com a nossa interioridade será possível recuperar a soberania perdida e alcançar a vida mais abundante que o Ser de Aquário e o límpido canto de André nos prometem.


Quadro: Victor Vasarely.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

ALMA ANTIGA

Alma antiga, pedes-me que te escute recostada assim no momento da árvore alta que da minha cama vejo há décadas perder as folhas, nesta altura do ano, para logo as renovar quando a luz voltar a subir...
Passa o tempo e passo eu ou o que em mim se vê e dizes-me que não passe por mim sem que por mim eu passe, enquanto as folhas vão e vêm e a luz oculta busca em vão brechas para a liberdade.

Basta às vezes o sopro inesperado da palavra encorajadora. Há dias um amigo desejou-me que a par das belas rosas do meu jardim eu continuasse a produzir rosas metafísicas e aquilo foi de repente a luz inesperada a incendiar a esperança numa aurora húmida, abençoada, um recomeço harmonioso, postigo entreaberto para a vastidão do que transporto, sem nada poder. Sem acesso continuado, livre, em delírio, num parto íntimo e alargado ao tempo que me resta.

  Viver na simplicidade, soltar-me do obrigatório, ficar aqui eternamente na tecelagem da palavra de ouro, sonhar-me por inteiro, livre de este ser de superfície tão sacrificado, mandala lacrimejante nos dias baços do faz de conta.
Eu sou talvez apenas o que perdura dos instantes fugitivos da minha vida, essa é a memória activa e só aí posso colher as flores duradouras da criação. Percorrer esse caminho, mirar-lhe a face persistente... ser tudo e nada ser, no encalce do que me escapa e vai e vem pelas estrias da vida, saturado de luz e de sombras, a um tempo asfixiante e fugidio como as estrelas cadentes.

Dar à luz vezes sem conta, no incontornável vale dos soluços e da incerteza, dar à luz uma vez e outra, em pulsões intensas e reveladoras, a feliz agonia  do que se solta, doce crisálida em expansão, metamorfose.  

Possa eu nascer, por fim.

domingo, 30 de outubro de 2011

ASPIRINA PARA A FELICIDADE?

Pedias isso nesse jeito que a gente te conhece, pensamento que ocorre por vezes à maioria, quando a luz escasseia, o corpo pesa e a esperança parece um mito distante e inalcançável, tudo insuficiente, baço, tão pouco à altura...
E houve logo abraços e beijos, confortos, companhia (ainda que virtual), receita de aspirina para uma catrefada de coisas (como aqueles sampoos dois em um que estragam o cabelo, dizem) e tu ficaste confortada, agradecida, na mesma.
Se estivesse ao pé de ti, teria possivelmente dito as mesmas coisas e abraços e beijos com aquela afectividade que bem conheces. Mas se olhasses no fundo dos meus olhos, terias encontrado lagos imensos de solidão, uivos de um vento agreste, o desespero dos trilhos desconhecidos, a vibração incongruente do que nos fere sem ter nada a ver com este som único, pessoal que a alma emite. A pergunta persistente, o véu que se não levanta, aquele golpe de asa que o poeta cantou e que nos continua a faltar para atingir, sabe-se lá o quê...Mas sabemos que está lá, algures, impensavelmente encoberto, um princípio de resposta, trampolim para outras etapas.
No fundo dos meus olhos encontrarias, também, a doce luz da gratidão por estares aqui na Terra a par de mim, tu que podes entender o que te escrevo. E é só isto que verdadeiramente te posso dar, em jeito de aspirina para algum alívio.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

NO ENCALCE DAS COISAS

Para saber as coisas melhor, para as ver por dentro, eu preciso que o poeta em mim lance o seu olhar encantado sobre a realidade. Deixar que a sua voz doce e secreta nomeie os fios invisíveis, os preciosos filamentos subjacentes a tudo quanto existe e vibra com o coração da vida.  Tocar este fundo implica por vezes um delírio lúcido, num acto de amor desmesurado, sem marcações prévias. As palavras têm de gotejar como chuva inesperada, mas logo as palavras já não chegam, são os átomos do corpo a ganhar asas, um frémito, um vislumbre total do que se não sabe nem se pode saber e se consegue apenas soletrar.
Para saber as coisas melhor, há que transgredir, levantar véus oficiais, caminhar no escuro com o coração-lanterna a alumiar o caminho. Se se ama a vida, há que buscar-lhe o sentido, testemunhar a continuada transformação com a capacidade de transcender as barreiras do vigente que é própria do espírito.
Andamos todos enganados. Somos todos enganados. Mas aquele que ousa entra frequentemente, por entre sombras e ruinas, em consonância com os ritmos cósmicos e uma espécie de sonho primitivo, sendo-lhe franqueado por instantes o acesso a uma dimensão mais autêntica do espaço-tempo-vida, um acercamento a qualquer coisa mais verdadeira e sustentável no sentir.
Vertigem, sonho, vazio e absoluto, inocência febril a querer resgatar o rosto velado do que somos.

Quadro: Remedios Varo

domingo, 2 de outubro de 2011

DOS DIAS INCOLORES

Instalou-se nela um grande silêncio.
Aos poucos, fora-se afastando dos certos, dos correctos, dos virtuosos, dos superiores, dos que vêm mais, dos que conhecem, propagam, divulgam, estão acima...
Apartara-se do que parecia amor mas não era, do que se chamava cumplicidade e era só interesseirismo ou vazio ou qualquer coisa do género, das suas próprias ilusões àcerca de si mesma versus os outros, distanciara-se de tudo e agora tudo via através de um véu incolor mas efectivo.
Guardava as memórias do como se deve proceder e buscava cumprir. Era tudo.
Segurava a mão da mãe velhinha e sofredora, tocavam-na muito ainda as lembranças do seu empenho nela e nos irmãos, os desvelos, incondicional apoio. Tiveram a sorte de a ter tido, nunca haveria flores suficientes para a celebrar.. chorava por dentro a velhice, a incapacidade, a dor da impotência. Ainda o olhar sobre quem sofre, o gesto ainda, a partilha, tudo em câmara lenta, como num filme antigo.
Distanciara-se tanto de quase tudo e todos que bem poderia ser ela a partir e não a velhinha. Pois só o amor dá sentido à vida, só o toque das almas, a infinita compaixão, o gesto dos afectos... velas na noite escura da passagem por este ermo de incompreensões e simulacros.
Estranha a si mesma, marejada de lágrimas, algo em si persistentemente estupefacto perante a inverdade.