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quinta-feira, 9 de março de 2017

ELA E O OUTRO DOENTE

“Let us consider that we are all insane. It will explain us to each other. It will unriddle many riddles."Mark Twain

“Be kind, for everyone you meet is fighting a harder battle.” 

― Plato
Quadro: ANdrea Kowch















Ponto de rotura. Na contenção do rosário dos dias desde há muito, soltaram-se os pássaros negros dos limites passados pela virtude. Sairam fogos-fátuos de morteiros escondidos nas pregas do desespero instalado, a pele pariu ouriços mortíferos e ela quedou-se, estática e surda, ante horizontes sem luz. Black out, secura, não sentir.
Choveu desolação das abóbadas belas que ela olhava sem compreender, o ar corrompido por estalidos e estilhaços, o ar rebentado por todos os lados como ela, exausta, fatigada de mistérios e de crenças.
Meditou. E o milagre não se operou...
Falou com outrem. E a mudança não aconteceu...

Em mudez, enfiou o velho casaco de pele e levou o outro doente a lanchar fora, numa pastelaria escondida nalguma rua lateral da cidade provinciana.
Não sei qual é o teu segredo, mas estás mais bela do que nunca. E o doente mirava-a com olhos húmidos, suplicantes de que regressasse ali, aonde o ar saturado do cheiro do café e de croissants acabados de sair do forno, os cercava como única solução possível. Detrás do balcão, uma jovem prematuramente obesa, diligente e de avental às riscas, olhava-os por detrás dos óculos pesados, com uma expressão de carinho e assumida cumplicidade, alheada por momentos da sua própria miséria.

Cedeu. Acariciou por momentos a mão trémula do outro doente, ajudou-o a comer o croissant que se esfarelava de tão tenro. Começou a falar de trivialidades, Trump e o louco da Coreia do Norte, o outro doente a procurar seguir o raciocínio e a concordar com tudo. Deixou-o por minutos com a jovem gordinha e diligente para ir ao Multibanco (esteja descansada, que eu fico atenta), agradeceu depois.

No regresso ao carro, amparou-o com um empenho mais sentido, era a hora em que o dia e a noite compartem a mesma linha divisória, subtil e misteriosa.
A tensão começara a aliviar. Vá-se lá saber porquê.



domingo, 26 de fevereiro de 2017

NOITE ADENTRO

deveria talvez apagar a televisão - gente exaltada discute ninharias com pompa inadequada, sobretudo inoportuna

crises múltiplas em todas as frentes assolam a Terra, a maior crise global da história registada, creio

(pode ser que dos céus desabe, um destes dias, uma chuva de gotas amplas de fogo... línguas limpas, escaldantes, impregnadas do antídoto para tanta ruindade e equívoco)

pensar sobre mim, sobre quem sou e ao que venho
deixar assentar as poeiras da ansiedade por não chegar para tudo

tudo...o que é tudo, pergunta uma futura eu, encapsulada nos sonhos da actuante presente – fazem-se tantas coisas, matam-se outras tantas para realizar aquelas, mato-me a mim, eu que sinto todos os sons do universo a buscarem o verbo na minha pena

(emails por responder, o esforço para o deal a querer adiar-se porque cáustico para a tenra interioridade, vender, convencer, pagar as contas, levantar, despertar, indispensável alarme, sem tempo, sem mim)

a minha atenção focada agora no sagrado deste quase silêncio, imperceptíveis sons da noite a rendilharem quietude no ser esgotado

(sinto a voluptuosa rosa salmão, oferecida à minha Flor Morta, como um facho de glória e de triunfo sobre o que desaba...nada mais relevante que essa rosa-amor no cenário absurdo das minhas produções)

ressoam, de eras outras, vozes sábias, antepassados presentes em mim, calafrio bom a percorrer a espinha dorsal como um afago
(cor, centro, coração, do teu campo magnético emana a minha maior força, pensamento-coração, dádivas-coração, sentimentos-coração, coração quero-te florido como um andor de Páscoa a desfilar imponente pelas artérias impolutas da vida que sei ser possível)

que o meu bafo perpasse, como brisa inspiradora, tudo o que o meu toque  achar no caminho, que haja coerência entre o ritmo que adentro em mim soa, mântrico e imparável, e o gesto produtivo destas mãos incansáveis

(não quero pensar no que me falta, apenas levantar o véu da impossibilidade que me embacia a luz própria)

ir mais fundo, aquietar os tons e os sons dissonantes, empoleirada na nuvem enraizada do meu ser de agora
(pode ser que a epifania me ilumine, numa hora próxima, inesperada como a morte e me conduza miraculosamente para a Vida de verdade)

outra vez...o Trump já fez mais trampa, ninguém entende como está lá e como prossegue, excepto os poucos que sabem como se processam estas coisas da sombra

(pode ser que dos céus desabe, um destes dias, uma chuva de gotas amplas de fogo... línguas limpas, escaldantes, impregnadas do antídoto para tanta ruindade e equívoco)

não posso esperar...vida à superfície demasiado curta
entrar no esforço da redenção, por mérito próprio, emanado do centro como um raio de luz inviolável
aquietação
vozes deslembradas
silêncio para poder escutar

noite adentro



terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

OS MUROS DA VERGONHA

We shall go on to the end. We shall fight in France, we shall fight on the seas and oceans, we shall fight with growing confidence and growing strength in the air, we shall defend our island, whatever the cost may be. We shall fight on the beaches, we shall fight on the landing grounds, we shall fight in the fields and in the streets, we shall fight in the hills; we shall never surrender.
WINSTON CHURCHILL

Quando nos primeiros anos da década de 90 visitei o que restava do derrubado Muro de Berlim, senti a exaltação que muitos  bem-intencionados ingénuos experimentam frequentemente ante a queda de impedimentos absurdos e vergonhosos à livre prática da existência humana no planeta Terra e à legítima inter-conectividade entre todos. Tombara finalmente o Muro da Vergonha, vinte e oito anos e montanhas de sofrimento depois da sua perversa construção. Já em 1987, Reagan havia com arrojo desafiado Gorbachov a deitar abaixo essa parede discriminatória entre duas metades de um mesmo povo. Há um sinal de que os soviéticos podem fazer que seria inconfundível,ca que faria avançar dramaticamente a causa da liberdade e da paz. Secretário Geral Gorbachev, se você procura a paz, se você procura prosperidade para a União Soviética e a Europa Oriental, se você procurar a liberalização, venha aqui para este portão. Sr. Gorbachev, abra o portão. Sr. Gorbachev, derrube esse muro. Dois anos depois, caía a aviltante muralha.

Os dias que atravessamos, com alguém insano e imaturo na Casa Branca a vomitar a toda a hora decretos e ordens que contrariam em absoluto o espirito de liberdade e da necessária união entre os povos da Terra e partilha dos problemas inerentes, está a desencadear guerras abertas por todos os lados., Estou segura que outros alimentarão como eu, no meio do desespero, a esperança de que a absurda presença e miserável comportamento de Trump na Casa Branca, possa catalizar a consciência colectiva para o repúdio da fascista ordem de valores que a nova administração procura implementar. Esta reflexão conduziu-me de volta ao pensamento desenvolvido pelo filósofo alemão Hegel entre os finais do séc.XVIII e as primeiras décadas do século XX, com base numa tese originalmente criada por Fichte, seu contemporâneo. Segundo Hegel, os pilares fundamentais do progresso  acabam por resultar do encontro entre a tese e a antítese. Desse encontro e do que for possível conciliar de ambos os campos, surge a síntese, base de todo o progresso.

Dada  a impermanência de tudo quanto vivemos, quero albergar as minhas aflições relativamente a este assunto, na brilhante reflexão dos filosofos alemães e nutrir a esperança de que a síntese a sair do crescente confronto possa preservar os valores fundamentais da liberdade de expressão, criatividade construtiva, direitos das mulheres e das minorias, solidariedade para com a carências de milhões na Terra, respeito pela Mãe-Natureza e renascimento das grandes causas radicadas na nobreza do Espírito.

Há muros da vergonha de muitos tipos, mas nem sempre estamos deles conscientes. Todos, em geral, derivam da ascenção ao lugar de deus supremo da força bruta e da adoração ao dinheiro sobre todas as coisas.

Povos da Terra que ainda  conseguem fazer ouvir a vossa voz, não permitamos, unidos, por todos os meios ao nosso alcance, que mais muros da vergonha se voltem a erguer. Temos já suficientes desafios nos erguidos até hoje.

sábado, 21 de janeiro de 2017

NEM SÓ DE PÃO VIVE O SER HUMANO

“Então o Espírito conduziu Jesus ao deserto, para ser tentado pelo diabo. Jesus jejuou durante quarenta dias e quarenta noites, e, depois disso, sentiu fome. Então, o tentador se aproximou e disse a Jesus: «Se tu és Filho de Deus, manda que essas pedras se tornem pães!» Mas Jesus respondeu: «A Escritura diz: ‘Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus.’ «

S. Mateus IV.1-11



O triste dia de ontem, em que ocorreu em Washington a patética inauguração de Trump como Presidente dos EUA, leva-me a uma reflexão, nem sempre fácil de verbalizar, sobre o que está engatado no nosso mundo.

 Quando olhamos para trás na história, é fácil constatar que, no chamado mundo moderno, foi nos últimos cem anos que importantes mudanças políticas, em especial no ocidente e após a traumática experiência da segunda Grande Guerra, permitiram dar força a factores como a cooperação entre estados, o nascimento de grupos  político-económicos como a União Europeia,  o estado social, o ênfase na importância da cultura, da educação e da saúde. Em termos gerais, é possível afirmar que mais gente tem hoje consciência da importância do ambiente natural, da forma como a nossa ignorância e irresponsabilidade o têm afectado e dos esforços a levar a cabo para contrariar essa tendência.


De repente, contudo, o mundo parece virado ao contrário. O populismo, esse vírus  global que se alimenta da carência, do medo e da fé na força de um líder forte, independentemente da sua ideologia, alastra como um rastilho imparável pelo globo.  As novas tecnologias desempenham um papel fundamental no fenómeno, pois chegaram cedo demais; ou seja,  a vasta audiência que as utiliza não havia atingido o nível de cultura e educação e o discernimento que acompanham estas últimas, para ser capaz de distinguir o trigo do joio. As redes sociais tornaram-se, assim, um meio preferencial para os demagogos, “hackers” por excelência das frágeis estruturas democráticas. O que o ser humano comum não consegue ver com lucidez é que se os populistas ascendem facilmente a lugares de poder por meios democráticos, uma vez instalados utilizam esses mesmos meios para silenciar as vozes que não encaixam no seu projecto de domínio pessoal. Trump foi coroado há meia dúzia de horas e, mesmo no meio dos festejos,  já começou a assinar decretos que almejam arrasar o que o antecessor de bom construiu, com tanta dificuldade e oposição, como o Obamacare.

Historicamente,  como chegámos a esta situação?
Acredito que foi a instrumentalidade conferida ao pensamento racional que minou deste modo a democracia e a formulação de políticas.
O que está engatado no nosso mundo é que a nossa perspectiva de actuação passou a estar isolada  de princípios ético-filosóficos, mesmo religiosos, e a vida humana foi desvalorizada, deixando de ser a grande protagonista  da manifestação. A economia do dinheiro e da acumulação de capital adquiriu auras de transcendência, sobrepondo-se ao interesse colectivo que foi subalternizado.
O ser humano vive hoje formatado  pela ânsia de viver bem materialmente, mas esse sonho existe destituído de um significado mais profundo e não é orientado por crenças ou valores de ordem espiritual.
Independentemente do que realmente nos pode tornar mais felizes, cooperantes uns com os outros e em verdadeira evolução pessoal, o foco foi transferido para a eficiência, o que funciona, o que está a dar (dinheiro). O mistério e a magia ausentaram-se das nossas vidas e deram passagem a um desencanto generalizado e ao medo de que nos falte a segurança indispensável.

Seja qual for o nosso caminho futuro, é urgente lembrar que “nem só de pão vive o ser humano...”.  E actuar conforme.


sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

SOARES (1924-2017)





Começou por me surpreender o impacto que a sua morte causou em mim. 
Embora tenha tido contacto com Soares a nível profissional, nunca houve propriamente uma relação de amizade pessoal. Tinha noventa e dois anos, estava doente há bastante tempo e, depois da encefalite, há três, nunca mais foi o mesmo. Tratou-se de uma morte anunciada, a qual pacientemente  esperou que a quadra festiva terminasse para se revelar em toda a sua irreversibilidade.

Senti-me de luto, correram-me as lágrimas várias vezes e, absurdamente, algo parecia perguntar em mim: “E agora?”  Qualquer coisa no ar, um vago sopro triste, reminiscente de orfandade.

O impacto foi inesperado mas a surpresa aponta para o muito pouco atentos que estamos ao que realmente toca pontos-chave em nós, a identidade, os impulsos da alma e coisas tais.

Nasci e respirei durante mais de vinte anos num país pequeno, periférico e isolado,  onde os tentáculos autoritários do sistema instalado se faziam sentir por toda a parte e penetravam os nossos sonhos e gritos de alma com a fria e cortante lâmina da censura. Um país agarrado de forma extemporânea a um império que o já não era, uma terra onde tudo soava a acanhado e os poetas guardavam os versos mais importantes no coração dorido.  Quando o não faziam, conheciam as agruras da prisão e do isolamento.

Pela  Revolução dos Cravos - feita por militares e não pelo povo - surgiram várias figuras novas na cena pública, entre as quais a de Mário Soares, combatente anti-fascista de toda a vida, sofredor de múltiplas prisões e deportado para São Tomé e
exilado em Paris por alturas do 25 de Abril.
Nos conturbados anos que se seguiram a 1974, este homem controverso, polémico, determinado e amante da vida, lutou incessantemente pela construção do processo democrático e, mostrando uma coragem invulgar, salvou Portugal no 25 de Novembro das garras do comunismo soviético.
Amado por muitos e odiado por outros tantos - em especial por aqueles que lhe atribuíram a culpa de uma descolonização feita fora de tempo, após uma sangrenta guerra de treze anos – Mário Soares veio a ocupar legitimamente os mais altos cargos da nação e trabalhou incessantemente até ao final da sua longa vida. O seu prestígio internacional é bem testemunho deste facto.

Quando me detive por momentos junto do seu caixão em câmara ardente nos Jerónimos, no meu ecrã interior cruzaram-se, como rastros de estrelas, as palavras: liberdade, ousadia, coragem, tolerância, sinceridade, res portuguesa, alma, verdade, força interior, ponte entre mundos, espontaneidade, irreverência, arte, amor à vida...
Corriam-me as lágrimas e percebi finalmente porquê. Não importa quantas imperfeições e defeitos lhe possam apontar a nível da persona. A razão nunca poderá explicar a identidade a este nível subterrâneo, identidade que invariavelmente a tudo se sobrepõe, nas contas finais.

Gratidão, Mário Soares! Que o teu legado possa sobreviver aos dias áridos e destituídos de espiritualidade que hoje vivemos, pois não vejo no panorama mundial líderes equiparáveis ao ser extraordinário que foste, na amada Lusitânia e no mundo.


Temo que demorará muito a nascer, se é que nasce, um ser igual...