Número total de visualizações de página

sábado, 21 de janeiro de 2017

NEM SÓ DE PÃO VIVE O SER HUMANO

“Então o Espírito conduziu Jesus ao deserto, para ser tentado pelo diabo. Jesus jejuou durante quarenta dias e quarenta noites, e, depois disso, sentiu fome. Então, o tentador se aproximou e disse a Jesus: «Se tu és Filho de Deus, manda que essas pedras se tornem pães!» Mas Jesus respondeu: «A Escritura diz: ‘Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus.’ «

S. Mateus IV.1-11



O triste dia de ontem, em que ocorreu em Washington a patética inauguração de Trump como Presidente dos EUA, leva-me a uma reflexão, nem sempre fácil de verbalizar, sobre o que está engatado no nosso mundo.

 Quando olhamos para trás na história, é fácil constatar que, no chamado mundo moderno, foi nos últimos cem anos que importantes mudanças políticas, em especial no ocidente e após a traumática experiência da segunda Grande Guerra, permitiram dar força a factores como a cooperação entre estados, o nascimento de grupos  político-económicos como a União Europeia,  o estado social, o ênfase na importância da cultura, da educação e da saúde. Em termos gerais, é possível afirmar que mais gente tem hoje consciência da importância do ambiente natural, da forma como a nossa ignorância e irresponsabilidade o têm afectado e dos esforços a levar a cabo para contrariar essa tendência.


De repente, contudo, o mundo parece virado ao contrário. O populismo, esse vírus  global que se alimenta da carência, do medo e da fé na força de um líder forte, independentemente da sua ideologia, alastra como um rastilho imparável pelo globo.  As novas tecnologias desempenham um papel fundamental no fenómeno, pois chegaram cedo demais; ou seja,  a vasta audiência que as utiliza não havia atingido o nível de cultura e educação e o discernimento que acompanham estas últimas, para ser capaz de distinguir o trigo do joio. As redes sociais tornaram-se, assim, um meio preferencial para os demagogos, “hackers” por excelência das frágeis estruturas democráticas. O que o ser humano comum não consegue ver com lucidez é que se os populistas ascendem facilmente a lugares de poder por meios democráticos, uma vez instalados utilizam esses mesmos meios para silenciar as vozes que não encaixam no seu projecto de domínio pessoal. Trump foi coroado há meia dúzia de horas e, mesmo no meio dos festejos,  já começou a assinar decretos que almejam arrasar o que o antecessor de bom construiu, com tanta dificuldade e oposição, como o Obamacare.

Historicamente,  como chegámos a esta situação?
Acredito que foi a instrumentalidade conferida ao pensamento racional que minou deste modo a democracia e a formulação de políticas.
O que está engatado no nosso mundo é que a nossa perspectiva de actuação passou a estar isolada  de princípios ético-filosóficos, mesmo religiosos, e a vida humana foi desvalorizada, deixando de ser a grande protagonista  da manifestação. A economia do dinheiro e da acumulação de capital adquiriu auras de transcendência, sobrepondo-se ao interesse colectivo que foi subalternizado.
O ser humano vive hoje formatado  pela ânsia de viver bem materialmente, mas esse sonho existe destituído de um significado mais profundo e não é orientado por crenças ou valores de ordem espiritual.
Independentemente do que realmente nos pode tornar mais felizes, cooperantes uns com os outros e em verdadeira evolução pessoal, o foco foi transferido para a eficiência, o que funciona, o que está a dar (dinheiro). O mistério e a magia ausentaram-se das nossas vidas e deram passagem a um desencanto generalizado e ao medo de que nos falte a segurança indispensável.

Seja qual for o nosso caminho futuro, é urgente lembrar que “nem só de pão vive o ser humano...”.  E actuar conforme.


sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

SOARES (1924-2017)





Começou por me surpreender o impacto que a sua morte causou em mim. 
Embora tenha tido contacto com Soares a nível profissional, nunca houve propriamente uma relação de amizade pessoal. Tinha noventa e dois anos, estava doente há bastante tempo e, depois da encefalite, há três, nunca mais foi o mesmo. Tratou-se de uma morte anunciada, a qual pacientemente  esperou que a quadra festiva terminasse para se revelar em toda a sua irreversibilidade.

Senti-me de luto, correram-me as lágrimas várias vezes e, absurdamente, algo parecia perguntar em mim: “E agora?”  Qualquer coisa no ar, um vago sopro triste, reminiscente de orfandade.

O impacto foi inesperado mas a surpresa aponta para o muito pouco atentos que estamos ao que realmente toca pontos-chave em nós, a identidade, os impulsos da alma e coisas tais.

Nasci e respirei durante mais de vinte anos num país pequeno, periférico e isolado,  onde os tentáculos autoritários do sistema instalado se faziam sentir por toda a parte e penetravam os nossos sonhos e gritos de alma com a fria e cortante lâmina da censura. Um país agarrado de forma extemporânea a um império que o já não era, uma terra onde tudo soava a acanhado e os poetas guardavam os versos mais importantes no coração dorido.  Quando o não faziam, conheciam as agruras da prisão e do isolamento.

Pela  Revolução dos Cravos - feita por militares e não pelo povo - surgiram várias figuras novas na cena pública, entre as quais a de Mário Soares, combatente anti-fascista de toda a vida, sofredor de múltiplas prisões e deportado para São Tomé e
exilado em Paris por alturas do 25 de Abril.
Nos conturbados anos que se seguiram a 1974, este homem controverso, polémico, determinado e amante da vida, lutou incessantemente pela construção do processo democrático e, mostrando uma coragem invulgar, salvou Portugal no 25 de Novembro das garras do comunismo soviético.
Amado por muitos e odiado por outros tantos - em especial por aqueles que lhe atribuíram a culpa de uma descolonização feita fora de tempo, após uma sangrenta guerra de treze anos – Mário Soares veio a ocupar legitimamente os mais altos cargos da nação e trabalhou incessantemente até ao final da sua longa vida. O seu prestígio internacional é bem testemunho deste facto.

Quando me detive por momentos junto do seu caixão em câmara ardente nos Jerónimos, no meu ecrã interior cruzaram-se, como rastros de estrelas, as palavras: liberdade, ousadia, coragem, tolerância, sinceridade, res portuguesa, alma, verdade, força interior, ponte entre mundos, espontaneidade, irreverência, arte, amor à vida...
Corriam-me as lágrimas e percebi finalmente porquê. Não importa quantas imperfeições e defeitos lhe possam apontar a nível da persona. A razão nunca poderá explicar a identidade a este nível subterrâneo, identidade que invariavelmente a tudo se sobrepõe, nas contas finais.

Gratidão, Mário Soares! Que o teu legado possa sobreviver aos dias áridos e destituídos de espiritualidade que hoje vivemos, pois não vejo no panorama mundial líderes equiparáveis ao ser extraordinário que foste, na amada Lusitânia e no mundo.


Temo que demorará muito a nascer, se é que nasce, um ser igual...

domingo, 1 de janeiro de 2017

CARTA ABERTA NO DIA DE ANO NOVO


Querida Mãe,

Precisava de me expressar e não me apetecia nenhum dos géneros habituais. Pensei, que melhor forma que uma carta  aberta à minha flor-saudade, onde possa despejar os sentires vários e alguma informação que decerto já conheces, tu que adejas por outras paragens, onde a consciência da multidimensionalidade é de certeza mais apurada.

Só te foste há quase cinco anos, mas como o mundo endoidou, desde então! Vivemos actualmente o estertor da morte para a política, tal como a conhecemos no passado, mas ainda não há nada de promissor à vista para a substituir. Está tudo muito explosivo pela Terra, o terrorismo e  a dolorosa mancha de refugiados das guerras e do ódio vieram agravar o estado das coisas, há muitas pontas soltas que se podem tornar incendiárias a qualquer momento, estreitam-se as possibilidades para o ser comum. Os estados assaltam cada vez mais a carteira das pessoas mas vão-lhes dando umas distracções a ver se não protestam muito. Se ao menos cada um entendesse o poder do colectivo unido, a solução está debaixo dos olhos, mas s verdadeira união ainda é uma miragem. Para isso é indispensável uma consciência expandida e... dá muito trabalho investir nela.
O nosso António Guterres foi eleito secretário-geral das Nações Unidas e coloca-se, como prioridade máxima, a aparentemente impossível tarefa de alcançar a paz, o Mário Soares em coma profundo quase a deixar-nos. Em Istambul, a noite de Ano Novo, tingiu-se do sangue de civis que se divertiam numa discoteca. O resto do mundo em alerta máximo.
Os EUA elegeram um entertainer, que funciona apenas pelo chakra de raiz, para reger os destinos do mundo, o Putin aguça os dentes, reposicionam-se as forças mundiais face ao que se vai mudando tão depressa e de modo tão inesperado.
Está tudo tão incerto e confuso, que poucos se atrevem a fazer previsões. Não sei quanto tempo me resta no planeta – fiz 66 anos há dois dias, como sabes, Mamãzinha – mas tudo o que anseio é poder contribuir, na medida das minhas possibilidades, para a tessitura de um novo paradigma central ou de outros muitos novos paradigmas secundários que possam, ao agregar-se, constituir uma nova ordem de valores, mais justa  e respeitadora da soberania de cada um.
Suspeito que, antes de conhecermos o Novo Dia, vai ficar tudo pior...

Lembro como gostavas desta quadra. Como do teu coração forte mas triste subia um impulso novo de entusiasmos ante o Natal e as suas magias.
Levavas muito a sério as prendas, as que davas e as que recebias, eu adorava mimar-te e surpreender-te. Amavas o calor da minha casa, a árvore gigante cheia de enfeites de todas as eras, a mesa bem decorada e abundante, as velas, as flores, a música e os afectos.
Está tudo...quase na mesma, o Bill muito frágil.  Mas há mais gente, incluindo os teus cinco bisnetos. Estou  cansada, agora que a idade avança, já não tenho a tua ajuda, e o trabalho aumentou. Receio não ser possível continuar as festividades da mesma forma nos anos próximos. Está a deixar de fazer sentido tanto esforço que me rouba a energia e o tempo que necessito para coisas mais importantes. Hei-de encontrar uma fórmula mais adequada para os tempos que correm.

No dia dos meus anos, ofereceram-me uma biografia da Aurélia de Sousa, a pintora portuense que morreu no ano anterior ao teu nascimento. Apreciei muito esta prenda, pelo seu simbolismo na minha vida.  Creio ser o Universo a utilizar os seus agentes para me lembrar uma vez mais que não há criatividade que se possa expressar adequadamente, sem o espaço, o tempo e os meios necessários. Virginia Wolf lembrou-o, com genialidade, em “A Room of One’s Own”.
Estou a tentar, Anita. Trabalho diariamente na minha consciência, vigilante ante as oportunidades e as armadilhas. Sinto-me aberta à mudança e quero fluir com a  corrente, atenta às necessidades da minha alma. Quero ser mais de mim e hei-de consegui-lo, no tempo que me resta, embora não seja fácil a  coordenação de todos os factores.

Grata pelas memórias que de ti em mim transporto,  grata pela vida que me deste, pelo legado do teu exemplo, vou permanecendo por estas margens a tentar fazer o meu melhor e a nutrir aquela graça a que chamamos Esperança.

Tua filha
Mariana Teresa


terça-feira, 13 de dezembro de 2016

AMOR, MEIA LUA E A ÁRVORE DO MUNDO

AMOR, MEIA LUA E A ÁRVORE DO MUNDO
Arranjo gráfico e pintura: Felippa Lobato

























Para o João,
Alma Forte e Clara,
companheiro de rota na densidade terrestre,
neste primeiro Natal sem a presença física
da Alma com Perfume de Jasmim.
Com Amor.
Mariana



Chegaram de mãos dadas, numa manhã outonal, risos expectantes olhares esperançados plenos de interrogações: Será aqui? Como? Quando?
Chegaram com o vento fresco da manhã,  a Alma Forte e Clara e a Alma com Perfume de Jasmim. Acompanhados de arcos-íris incandescentes e das memórias novas do para além da ordem estabelecida, num desafio à ilusão organizada.
Germinava nos corações dos seres o acto criador do lugar neste mundo, mas fora dele, aonde cultivar a multiplicidade dos sonhos comuns, reencontrar o sentir originário e construir  pontes magnéticas em profundo alinhamento com as energias mais subtis.

Há só uma espécie de Amor, todas as outras são simulacros, aproximações debotadas ao sentimento maior. Amor é aquilo que se faz sentir em cada átomo dos seres sintonizados e rege o funcionamento da nossa vida, ao transitar em glória inalterável por entre as dificuldades da densa existência. Comparável à luz dos sonhos, incondicional e estranho a conveniências e à lógica conhecida, o Amor pulsa sem controle racional e toma conta dos seres em resposta a um chamamento atávico, eco recuperado das vozes de antanho que nos habitam mas que a consciência relegou para o mundo do olvido.

epifania continuada
canto da alma
pontes de luz diáfana que a carne sente
e as mãos identificam
em pulsão conjunta com o universo

Foram assim, de novo companheiras, a Alma Forte e Clara e a Alma com Perfume de Jasmim. No limiar do terreno em socalcos, discretamente integrado na floresta, as almas beijaram-se, encorajadas pela tranquilidade do local e pela frescura que se desprendia do solo e da densa vegetação. Pequenas sombras movimentavam-se alegremente por entre os troncos, curiosas com a chegada destes seres.
A Alma com Perfume de Jasmim pediu permissão para entrar e, logo ali, se rejubilaram os Espíritos do Bosque pelos recém-chegados. Os devas receberam com carinho as sâmaras[1] de asas ténues com que o fluxo do vento fizera acompanhar o par e ajudaram a enterrá-las no solo, maravilhosa dádiva de boas vindas.

Os passos das almas em sintonia subiram, um a um, todos os socalcos, sobre eles ergueram plataformas assimétricas de convívio e silêncio e, assim, as paredes de cristal do seu palácio foram reflectindo, pouco a pouco, dentro o que estava fora e para fora o que estava dentro.

Na primavera seguinte e pelo poder transmutador da Mãe-Terra, das pequenas sâmaras  brotaram as três hastes de um freixo, primeira árvore da criação, axis do Mundo, árvore hermafrodita, ligada à protecção e à magia, símbolo da fecundidade. Foi pelo freixo que Odin conheceu os segredos das Runas pois a árvore cósmica recebera em tempos longevos as chaves dos códigos secretos da ordem natural do universo.

Existe, contudo, na densidade em que habitamos, um risco inerente a tudo quanto é criatividade, fertilidade e vida, por via do equilíbrio que a dualidade requer.
Alma com Perfume de Jasmim
Assim, a vida perdeu, numa noite de luar, a Alma com Perfume de Jasmim. Desprendeu-se como um sopro do corpo de dor e sofrimento, dançante pelos ares frios da noite, enquanto os devas, seus amigos, a reverenciavam na partida. Das novas alturas de Esplendor e Supra-Vida acompanha desde então, com a proximidade que só o Amor confere, a caminhada  da Alma Forte e Clara, a qual, reerguida pouco a pouco da dor sufocante da perda,  retomou gradualmente os sonhos que juntas na Terra haviam nutrido, os grandes e os pequenos, tudo perfumado das sagradas memórias, de novo possuída pela destreza do Espírito.
  
Em volta das três hastes do freixo construiu a Alma Forte e Clara, em silêncio, o banco de pedra em meia lua que o sonho espiritual comum havia concebido.
  
Em noites de lua cheia, torna-se visível para alguns uma luminosa coluna de luz sobre o banco de pedra, à volta do qual dançam os devas, em sentida homenagem à eternidade do Amor.

o vento transporta trovas
Banco em meia lua
à volta do freixo
sussurrantes de segredos
dia e noite noite e dia
portador de tantos  sonhos

hei-de cantar este fado
no banco da meia lua
que sentirás meu amor
se te disser que sou tua

se te disser que a memória
não é coisa de enganar
ela conta a nossa história
e perfuma o teu andar

sou o ser que não existe
o coração que não bate
sou a voz emudecida
na noite da tua solidão
mas eterna e constante
habito para sempre
no teu puro coração

â volta do nosso freixo
soam cânticos agora
dançam devas  baixa a luz
meu rei de Amor  aliado
já sabes não fui embora
pelo nosso reino encantado
velo hoje como outrora

Mariana Inverno
Natal de 2016



[1] Sementes do freixo

AUDIO:https://soundcloud.com/mariana-inverno/amor-meia-luz-e-a-arvore-do-mundo
Música: JORGE QUINTELA

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

CELEBRANDO A INCERTEZA




Há dias, em Londres, num jantar de amigos ligados à arte – como o são, de um modo ou de outro, quase todos os meus amigos - discutia-se com apreensão e mágoa o estado do mundo. O Brexit, a inesperada/indesejada vitória do odiado Trump, a incerteza do amanhã para os pobres, os não brancos, os muçulmanos, os defensores do estado social, a cultura, a solidariedade e os valores em geral que as pessoas de boa fé e coração aberto têm tentado, ao longo de décadas, nutrir e preservar a todo o custo.
Muita revolta, muito lamento. Compreensíveis, mas inúteis.

A história acaba de virar uma página definitiva sobre o liberalismo – o termo pós-liberalismo entrou para ficar no vocabulário dos comentadores – e de nada serve planger os violinos da nossa desolação.
Há tempos que se vinha adivinhando a muito necessária mudança paradigmática, mas que nós, humanidade, não soubemos levar a cabo da forma angélica e pristina que os arautos da New Age incansavelmente anunciaram. Se a pequena minoria dos privilegiados deste mundo tem vindo a enriquecer cada vez mais, se a classe média do mundo ocidental está em vias de desagregação e um milhão de almas em Mossul sobrevive aterrorizado ao minuto vendo os entes queridos cair como moscas e sem destino para onde ir,  se o problema dos refugiados foi miseravelmente tratado e se olhou noutra direcção a ver se desaparecia, se não há liderança capaz no mundo, se a grande resposta que a UE encontra para as dificuldades dos seus membros é a austeridade, se a cultura e a educação têm sido relegados para situações cada vez mais alienadas e alienantes, o que é que se esperava?

As contas são simples de fazer. Cedo ou tarde, iria surgir alguém como Trump – hoje diabolizado como um anti-Cristo por vastas faixas da população mundial mas que não é mais do que um agente da mudança que o mundo produziu com os seus erros e arrogância.
Há demasiado individualismo, todos querem ser protagonistas de alguma coisa, todos querem consumir o mais possível, ganhar fortunas e com isso impor-se aos outros, a nossa solidariedade para com o sofrimento no mundo é da boca para fora e meramente televisiva.
A hipocrisia é tanta que, note-se, mesmo os conservadores legítimos (que funcionam dentro do processo democrático) estão ou caladinhos ou a arranjar explicações  mais ou menos apologéticas para o fenómeno Trump.

Temos que nos conformar? De modo algum!
A história já deu muitos trambolhões e, tristemente, pouco parecemos ter aprendido com isso, pois continuamos presos no imediatismo e na superficialidade da vida. Embora de coração pesado, apelemos a todos que têm um mínimo de consciência, que se não conformem com o “novo normal”, nem validem os muito prováveis aparentes sucessos “trumpistas” no mundo da matéria.
Porque eles estão já a caminho e, num mundo sem alma como aquele em que vivemos, será com o êxito material que nos tentarão calar a boca.
Lembram-se de “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury? Tal como os seus personagens, temos memória e não vamos deixar apagar da nossa consciência os valores fundamentais da vida humana no planeta. Não poderemos permitir que nos adormeçam com a cantilena do sucesso pelo sucesso.
Largas porções da humanidade estão a entrar numa escuridão energética, para não falar dos que já lá se encontram. É de esperar que aqueles de nós que ainda o podem fazer, se empenhem no dia a dia, através do comportamento e opções, no preservar dos sagrados valores da compaixão, solidariedade, dádiva e amor ao próximo, na educação pela liberdade de espírito, na informação não manipulada, no regresso inequívoco à proximidade com a Mãe-Natureza que tanto nos pode ensinar.

Tudo é incerto, mas esta é a nossa vida e nela temos que investir como melhor soubermos. Apoiados num firme enraizamento no planeta, nutramos a coragem e a lucidez, para que o amanhã seja mais promissor que o dia de hoje.




quinta-feira, 13 de outubro de 2016

BOB DYLAN – PRÉMIO NOBEL DA LITERATURA 2016


Já sabemos que quase tudo tem mudado no mundo e que tudo continua  a mudar, num processo imparável, em busca desenfreada de inovação e de funcionamento fora da caixinha habitual. 
Tudo bem. Há épocas assim, durante as quais a humanidade aparenta receber determinados impulsos cósmicos para passos numa direcção nova. Aconteceu durante a Revolução Francesa, no movimento hippy, no de Maio de 68 em França, na Perestroika e na queda do Muro de Berlim, para mencionar apenas alguns desses momentos mais recentes.
Houve passos em frente e passos atrás, pois a consciência da humanidade está ainda na infância e a sua interpretação do que lhe chega do cosmos nem sempre é a mais apurada e tem tendência a deturpar, a desconhecer os seus limites e a acabar frequentemente no boicote, no mínimo distorção, do objectivo inicial.

A Academia Sueca decidiu atribuir este ano a maior distinção literária do nosso mundo a Bob Dylan.
Sem qualquer depreciação das grandes qualidades deste poeta/cantor popular cujos poemas atravessaram fronteiras e agitaram mentalidades através de várias gerações (o cantor/poeta tem hoje 75 anos), uma figura icónica na universalidade das mensagens que nos tem passado, não posso deixar de me recolher no meu lugar do espanto ante uma tal escolha para o Nobel da Literatura.
Talvez que na sua determinação de provocar, de assumir o novo e o diferente, a Academia Sueca se tenha no mínimo excedido ao atribuir o galardão máximo da literatura a este poeta/cantor. Talvez  que se tenha querido agradar à América, contrariar o movimento pró-Trump, reforçar a mensagem central de irreverência e de busca do Céu em nós, soar a novo e a diferente, buscar as respostas que “sopram no vento”.
Mas para tal fim, há outros prémios e reconhecimentos.
Literatura é literatura, corresponde à maestria da palavra, ao seu manejamento hábil e criativo, num exercício a um tempo alicerçado na cultura, no talento literário e na espiritualidade profunda. Basta  percorrer meia dúzia de blogs de qualidade para constatar que há tanta gente anónima, ou quase, a escrever maravilhosamente. Para não mencionar os muitos grandes poetas e escritores que nos deixaram um legado de peso, muitas vezes a bordejar a eternidade.
Quem se lembrou de Jorge Luis Borges, Natália Correia, Clarice Lispector, Fernando Pessoa, Maria Zambrano ou mesmo Jacques Brel, Vinicius de Morais ou Chico Buarque de Holanda para tal prémio?

Não, estes prémios convencem-me cada vez menos. Aliás, como quase todos os prémios. Nos tempos que correm, em que as referências culturais e sociais seguem os impulsos de inconstância da gig economy, melhor que nos habituemos a estes disparates. E que passemos ao lado, sem sermos afectados.


“The answer, my friend, is blowin' in the wind”