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sexta-feira, 13 de maio de 2016

PARADOXO OU A NÃO IMPORTÂNCIA DE SER ARTISTA


Sinto a necessidade de escrever sobre a minha não-importância, como escritora.
Talvez isso resulte de ver tanta gente a escrever que se crê relevante ou que se autoatribui um papel que jamais terá.
Muito raramente, no domínio da arte, alguém é um sine qua non, pelos caminhos da vida. Esta corre, indiferente, na aparência das coisas, à existência e produções individuais.
O escritor, em especial, por lidar com a matéria viva que é o verbo, matéria tão ensopada de mistério como de dificuldades na sua mestria, é alguém muito vulnerável e que, se não tomar as devidas precauções, rapidamente desanda para o ridículo quando não o grotesco. Atente-se, por exemplo, no patético caso dos experimentadores da escrita (alguns deles escritores premiados) que, de modo insensato, utilizam jogos de palavras e de construções gramaticais para obterem o efeito de choque ou de surpresa no leitor e, assim, se tornarem interessantes, pela diferença, aos olhos do mesmo. Não se dão conta que entram, deste modo, no perigoso jogo de utilização de uma técnica de marketing, adequada talvez a uma agência de publicidade mas que, ao arrogar-se de alturas de arte, neste caso a da escrita, a profana.

Fresco Pompeia
Cada ser é, em qualquer momento da sua vida, a súmula de muitas e variadas influências, quase impossíveis de diferenciar. Não há como escapar a esse estado de coisas.
Por esse motivo, a escrita, como qualquer outra arte, pressupõe a existência de um olhar pessoal, directamente emanado do espírito, sobre a realidade e os seus múltiplos cambiantes, que os reflicta de forma livre, sem estar preso em motivos ulteriores, como seja o do choque literário, forjado através de truques semânticos para o almejado sucesso. O espírito não se pode fixar em nada de forma estanque, mas tudo deve reflectir como um espelho movediço.
A escrita não deve ser minimalista, mas tem forçosamente de exibir claridade e beleza para que se torne de fácil compreensão e possa, desse modo, ser de alguma utilidade para quem sobre ela se debruça. Para que assim seja, o escritor, como qualquer outro agente artístico, precisa de exercer a sua máxima atenção sobre a tarefa que se propõe, cuidando-a com desvelos maternais, enquanto algo da criança em si preside ao processo criativo.
Ora,  a atenção seja ao que for, é algo pouco cultivado nos dias de hoje. Tudo se passa pela rama, com efeitos especiais, logo esquecidos, e a uma velocidade supersónica. Não se vive, sobrevive-se na crista de uma onda fugaz que não permite sustentabilidade ao olhar atento. Não se escreve, na maioria dos casos, escrevinha-se por cima do que outros disseram, com colagens e sobre colagens abusivas  e uma utilização tão lugar comum dos jogos de palavras que as mesmas resultam encardidas de banalidade e sem propósito.

Escrevo porque, espiritualmente, isso me é imprescindível para prosseguir na densidade. Há quem goste ou se reveja nas minhas palavras, a maioria passa ao lado, indiferente ou com desprezo pela minha audácia em me expor.
Não pertenço a clubes literários, a academias elitistas, a lobbies intelectuais, não pretendo imitar ninguém e sei a fundo da minha total não-importância.  É dentro dos modestos limites desta minha consciência que quero continuar a mover-me.

Muito poucos  agentes da arte passam, individualmente, à eternidade possível – aquela que a memória regista e que irá nutrindo outros no futuro, pela qualidade que vive na obra. Mas até isso é incerto. Um súbito e inesperado fenómeno cósmico pode tudo apagar sem deixar rastro, de um momento para o outro. O único registo perdurável é aquele que a alma integra e esse não se contenta com balelas, nem truques de marketing.



domingo, 1 de maio de 2016

DIA DA MÃE


O meu filho ofereceu-me 365 rosas virtuais, uma para cada dia do ano visto que lhe disse sempre, desde que abriu o olho, que dia da mãe é todos os dias.
A filha, um ramo criativo, assente numa enorme folha de couve, feito de salsa gigante, malmequeres campestres e rosinhas do seu jardim, tudo símbolo do seu trabalho diário.
Ela e ele sabem que não significam nada para mim estes “dias de”, há muito que desmascarei o aproveitamento mercantilista que a sociedade faz do insuportável rosário de dias específicos dedicados a gente da nossa afeição e a causas ditas nobres.
Mas toda a gente dá qualquer coisa à sua mãe neste dia, lembra-se dela, poemas, flores, chocolates, uma qualquer prendinha. A pressão é demasiado forte.
Não sei se apanhei, sem querer, a onda do dia da mãe. A verdade é que não fiz qualquer associação consciente, mas senti uma urgência premente hoje em visitar a sua sepultura no cemitério alentejano. Só dei pela aparente coincidência quando já ia a caminho. Tinha de viajar mais tarde, por isso fui logo de manhã em peregrinação solitária até ao monumento em sua memória. Raramente penso que sob a bela escultura estão os seus restos mortais, quando ali estou não é muito diferente de quando não estou.
A Mãe vive em mim de forma celular, como sopro de vida que teima em manifestar-se, não obstante a ausência. Cada vez me emociono mais, ante a grandeza e a integridade do laço entre as nossas almas. 


Talvez também por o mundo estar como está, a Mãe que guardo no meu coração e na inteligente memória dos meus átomos é conforto, apoio, sabedoria, seriedade, bem aventurança, coragem, segurança e esperança...

Todos os dias, todas as horas, minutos, segundos, não tempo, sempre, são teus, são meus para ti, minha amada ausente, flor esbatida na névoa de um tempo só nosso.
Abençoada sejas, Anita!

sexta-feira, 8 de abril de 2016

VOX ANIMAE


Nasci abençoada por uma saúde de ferro e uma  quase inesgotável capacidade de trabalho a vários níveis simultaneamente, sem me perder. Quando criança, os meus irmãos contraíam as maleitas comuns nessas idades mas eu ficava sempre imune e de fora. Após mais de seis décadas de vida, continuo a trabalhar arduamente todos os dias. Desconheço o que sejam horários rígidos de trabalho e tenho uma disponibilidade interior para empenhar continuamente o meu esforço na concretização do que se me apresenta para fazer – sempre muito.
Sinto-me cansada, é certo, mas encontro em cada dia força renovada para prosseguir.
Há muitas e diferentes teorias que explicam a boa ou a má saúde de cada um. Prefiro não subscrever nenhuma, e fixar-me apenas naquilo que depende directamente da minha actuação aqui e agora.
O ano passado, em Janeiro, tive uma forte gripe que me afectou muito a garganta e, facto inédito, fiquei mais de duas semanas sem voz. Avessa a consultar médicos, vi-me obrigada nessa ocasião a fazê-lo a nivel da especialidade e, lentamente, lá fui recuperando a voz e consegui curar as cordas vocais que tinham chegado a apresentar uma situação pré-poliposa. Este ano, após um inverno sem incidentes (não me constipei), sentia-me mais segura e no controle da situação.
Pois, há dois dias, caí de novo. Com os sintomas de  gripe, que ataquei de imediato, a voz “adoeceu” outra vez. Não se foi, mas está muito alterada e devo evitar falar.
Está nitidamente instalada em mim uma vulnerabilidade a este nível e tenho de trabalhar interiormente no tema, pois não creio que sejam os antibióticos ou os anti-inflamatórios que me venham a resolver o problema.
Creio saber a origem deste ponto fraco: a minha voz literária esperou demasiado tempo para se expressar e ainda não encontrou, na logística da minha vida, modo de o fazer como o meu impulso de alma me pede.
É verdade que cada um se torna naquilo que consegue ser, no contexto da sua vida e circunstãncias, batidos que somos pelos ventos da nossa origem social, da trama que se vai tecendo com o desenrolar da existência, dos factores externos ao nosso controle e dessa voz sempre presente, tantas vezes abafada, oriunda de um ponto impalpável mas latente em nós a que chamamos alma. Creio, no entanto, que a opressão anímica é a responsevel máxima pela patologia que tende a roubar-me a voz.

Tenho muito a reformular, sem dúvida, e vou fazê-lo.

Conto com a ajuda do Universo, através dos seus múltiplos agentes, para encontrar o caminho e consolidar essa mudança. Não tenho dúvida de que a “voz” precisa de sair, de se espraiar e reinventar no seu fluir, mas tenho de ser eu, de forma nuclear, a assegurar a emanação da minha alma.

terça-feira, 5 de abril de 2016

CARTA ABERTA AOS SERES ENLUTADOS

E agora, como vai ser?
Pergunta recorrente quando, nesta plataforma da existência, o outro parte abruptamente pois, com ou sem doenças na estória, ninguém está preparado para esse fim sem retorno.
Não dá para acreditar, nem para integrar na consciência de um momento para o outro. Entra-se num estado alterado, uma espécie de anestesia criada pela própria dor.
E agora, como vai ser?
Que significado, sentido, propósito pode ter a vida nesta densidade em que nos movemos, se a voz, o gesto e a energia de um ser muito chegado deixam de nos acompanhar? Não mais os abraços, a voz reconfortante, não mais a segurança de não nos sabermos totalmente sós pois o afecto do outro iluminava a nossa difícil rota e, não raramente, conferia-lhe propósito na complexa manifestação.
E a pergunta surge, insistente, por entre lágrimas e um assustador vazio. E agora?

Agora há que viver o luto, uma espécie de exorcismo da perda dolorosa. Mesmo aqueles que creem na imortalidade da alma, são surpreendidos pela intensidade da dor vivenciada.
Cada um tem o seu modo de passar pelas coisas e não há formulas fixas  para as experiências que cada um tem de viver. A nossa cultura vive na negação da morte e ensina-nos a fugir dela, a não a mencionar e, quando finalmente confrontados com a mesma de forma incontornável, a despachar o assunto (leia-se vigília, funeral, etc) o mais rapidamente possível e a “virar a página”. Equívocos da formatação. a meu ver.
Ninguém pode realmente “virar essa página”, se a não viver com verdade e entrega total ao que lhe está a acontecer. O que não sai de nós, em nós enquista. Corrói-nos, seca-nos por dentro.

Ao ser enlutado, eu diria o seguinte.
Chore, grite, procure expressar a sua mágoa. Fale de quem partiu, em voz alta, do ser que amou, dessa alma que se foi mas que permanecerá para sempre no seu coração. Tudo quanto habita a nossa consciência vive.
Não se feche, não se isole, esqueça tudo o que aprendeu ou que esperam de si. Gratidão, sim, pelo que teve e que a sua alma guardará para sempre. Mas sobretudo, agora, vivência dessa dor que o despedaça por dentro e lhe rouba sentido à vida. Não sufoque nada, fale com essa alma amada. Sinta o perfume das suas roupas, acaricie os objectos que lhe pertenciam, recupere as memórias, "pinte" as paredes com o seu nome, erga imagens gigantes do ser querido nos Horizontes e nos ecrãs da sua vida.
Deixe tudo sair: lágrimas, risos, raiva, protesto, revolta, amor, saudade. Tem direito a tudo, ante a mágoa do irreparável.
Se viver a sua dor com Verdade, de forma politicamente incorrecta, passará à fase da aceitação. E aí dar-se-á inicio ao reconstruir. Diferente, claro, sem o privilégio do outro ser incarnado a seu lado na vida, mas com a integração total do rastro dessa alma na sua.
Isso dar-lhe-á forças para prosseguir no tempo que lhe falta cumprir aqui na Terra, onde a sua manifestação ainda não terminou.
E agora um lugar comum: conte com o tempo, não para esquecer mas para suavizar os efeitos da dura prova. Manifeste o seu luto, não deixe o mental bloqueá-lo.
A hora é invariavelmente negra e dura e áspera e urge assumi-la.
Do outro lado do acanhado portal que ora lhe é proposto transpor, aguarda-o a Paz profunda, aguarda-o a si mesmo um ser mais forte e mais bem equipado para cumprir os desígnios da sua manifestação.

Entre as coisas perversas que a dita civilização ocidental nos trouxe, figura a fuga à experiência da dor que a morte de um ser amado nos causa. Não raro evadimo-nos para a depressão ou mascaramos com o silêncio a revolta e o sentido de perda que nos assolam. Deixámos de fazer rituais ou reduzimo-los ao mínimo indispensável. O ser humano é, contudo, ritualista, as cerimónias com alma produzem um efeito mântrico no ser, suavizam o efeito devastador que os grandes problemas e a perda de um ser querido exerce em nós. E viver de forma adequada um luto torna-se cerimonial. Faz ressurgir a sinceridade da criança, recupera qualquer coisa de intrinsecamente verdadeiro em nós.
Só nesse processo, podem a Vida e a Morte dar-se as mãos, reencontrar-se no seu significado transcendente que continua a escapar-nos.

sábado, 26 de março de 2016

JASMIM



Partiu, há um par de dias, essa alma amiga da minha. 
Uma alma com fragrância de jasmim.
Partiu de noite, sob a luz feiticeira de uma generosa lua cheia, de olhos postos nos olhos que a amavam e que a encheram de desvelos e de alívios até ao último suspiro.
Abriu-se a porta para o jardim enluarado e a fragrância fecundou livremente os ares com a sua beleza balsâmica, liberta por fim do sofrimento atroz.

Acorri a abraçar com a minha alma aquele cujos olhos amavam o jasmim. A minha alma que chorou a partida prematura dessa flor perfumada que muito amava a vida que não pôde prosseguir, mas que também derrama lágrimas muito sentidas pelo doloroso vazio que sentiu no coração daquele que tanto amava o jasmim.

Jazia ela na  longa veste turquesa, como misteriosa fada celta, coroada de flores, adormecida sobre o ataúde, o rosto sereno, a alma já em voo livre para o Esplendor.
Recordei como, há muitos anos, aquele que amava o jasmim, enamorado e feliz com a companheira, me confidenciou a apreensão de não saber se o  Universo lhe retiraria aquele ser algum dia...
A última vez que a vi foi na casa idílica que o amor de ambos construiu. E era tal a vitalidade, o olhar encantatório sobre o mundo em redor que se desprendia da alma com fragrância de jasmim que, apesar de a saber muito doente, me interroguei sobre se não conseguiria vencer a onda maligna que a invadira. 

A manifestação tem, contudo, desígnios algo indecifráveis para nós. 
A alma com perfume de jasmim acabou por partir, mas deixou na daquele que a amava a marca indelével da sua alegria de viver, do seu amor por ele e pelos mistérios do natural e do maravilhoso. Viveram ambos o toque de um mundo ainda inacessível para a maioria.


Amor é perfume inextinguível, o único  verdadeiro perfume da Vida.
Amor tem toque de jasmim.

terça-feira, 22 de março de 2016

REINVENTAR A VIDA

Faz-se o que se pode. Faz-se o pouco que se sabe para ganhar a vida e justificar a existência. Dão-nos um título, uma designação e encostamo-nos ao espaldar de um estatuto, aproveitam-se ou não as oportunidades, nasce-se com uma estrela na testa ou desafortunado ou nem uma coisa nem outra. E o epitáfio, a existir, diz sempre eterna saudade, sentida homenagem. A seguir, os poucos que nos lembram, vão-se também. Sem memória, não existimos. Fim.

À medida que os anos passam, a reflexão acima toma mais e mais conta de nós e os contos de outrora deixam de fazer sentido. O ser, em processo de envelhecimento físico, precisa de novos mitos para se aguentar sem que o bafo da depressão o contamine.  Os mitos da continuidade para além de, da permanência apesar de, da eternidade sob outra forma, vibração. Ou simplesmente os do aqui e agora, do eterno presente como únicas verdades absolutas e válidas.
Habituámo-nos à vida neste patamar de manifestação, por muito difícil e desregulada que ela se apresente, e ninguém regra geral quer partir. O que está mal há de melhorar, o que foi bom há de voltar. Esperança, esperança, sempre esperança no dia vindouro, na produção que ainda  acontecerá, na felicidade que escapou por um triz, não foi culpa de ninguém, quando muito do próprio.



Encontramos forma de prosseguir. Sem se perceber como, muito menos porquê, lá continuamos inseridos no filme da nossa vida de umas dezenas de anos, quando muito, a vida que havíamos sentido, inconscientemente durante tanto tempo, como inacabável. Foi esta última a crença responsável por decisões desastrosas, pelo grande pecado, talvez o único, de não nos termos aplicado a escutar com maior empenho a voz daquilo a que chamamos alma, interioridade. Começaram aí todos os desvios e embrenhámo-nos em papéis vários, redundantes da nossa cegueira, insuficiência, engano dos sentidos, ilusão.

Há saída para este estado de coisas? Penso que sim, sinto que sim. Mas não como a nossa consciência limitada nos indica.

Vamos ter de nos resignar à transitoriedade da existência, mas não sem antes termos  interiorizado a importância relativa de cada um dos nossos sonhos e passos, paradoxalmente fundamentais na contribuição que aportam à construção colectiva, à transformação do obsoleto e do caduco. E, humildemente, tornarmo-nos conscientes do  muito pouco que sabemos, da forma distorcida, mil vezes reformulada como o vamos sabendo, dos mitos que inventamos para nos aguentarmos, do tempo sem tempo em que fluímos, passantes incautos.