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quarta-feira, 9 de março de 2016

A VIDA QUE NÃO VIVEMOS


Quase todos somos perseguidos pelo fantasma da vida que éramos para ter vivido e não vivemos, correspondente nalguma medida às aspirações da alma e à materialização das produções que os nossos talentos inatos e potencial poderiam ter gerado.
Em vez dela, foi outra a vida que lográmos levar a cabo. Frequentemente insípida e sem esperança, esta última pesa-nos, não raro nos envergonha secretamente. Há entre as duas uma espécie de abismo intransponível cuja percepção é responsável pela desistência, pela morte em vida. Quando nos damos conta do contraste assombroso entre o factual e o ideal, sentimos quase invariavelmente ser demasiado tarde. E conformamo-nos.

"SAN BENEDICTO, Montserrat Gudiol (1933)
Para além  das contingências económicas e sociais, creio que o entorpecimento espiritual e psicológico a que a nossa cultura nos submete desde o nascimento, é o factor responsável por este estado de coisas. Para tentar viver o sonhado, a aspiração íntima, é preciso coragem e determinação para assumir aquilo que frequentemente vai contra a norma, o inconveniente e o censurável e que radica na nossa criatividade pessoal. Trata-se de tarefa gigantesca que requer um esforço continuado, um exigente trabalho espiritual e psicológico, espécie de remar contra a maré normótica e estupidificante que todos os dias nos assalta, desde os bancos da escola até ao martelar constante de ideias pré-concebidas, princípios de vida uniformizados e que ignoram o legado essencial de cada um. Nas nossas sociedades, tem lugar, sem sombra de dúvida, um  acção punitiva sobre os que ousam ser diferentes,  escapar às garras do sistema; desde logo materialmente, mas também a outros níveis, quando as opções de vida não coincidem com o estabelecido e o aprovado. Tudo muito redutor dos luminosos e promissores impulsos que adivinhamos no olhar das crianças e que, regra geral, vai esmorecendo até se apagar em definitivo.
O trabalho pessoal é condição "sine qua non" para diminuir o "gap" entre o que somos e o ideal de nós mesmos. Será sempre, contudo, a vida possível, cujos pontos luminosos, muitos ou poucos, nos cabe acolher com alegria e gratidão A nossa deve ser uma barca audaz e corajosa, enraizada contudo na realidade histórica em que vivemos mas sem perder de vista os promissores horizontes que os desígnios da alma nos apontam.

As mulheres pagam sempre o mais alto preço. Mas são as Mães do mundo e têm o seu maravilhoso legado como género; será apoiadas nele e na redescoberta dos seus verdadeiros prodígios que verdadeiramente se hão-de libertar e aportar uma grande contribuição aos novos paradigmas em nascimento.

Fórmulas, não as há. Neste mundo em mudança cada dia mais acelerada, um mundo pleno de contrastes absurdos e paradoxos, cada um tem de encontrar a sua estratégia pessoal se não quiser entrar para o célebre clube dos “cadáveres adiados”. Aos seis como aos sessenta ou em qualquer outra idade, cada dia, cada nova oportunidade têm de representar uma bela folha em branco onde nos cabe pincelar artisticamente as cores do nosso canto íntimo. Ele “cai do céu aos trambolhões”, mas requer a nossa competência pessoal para se fazer ouvir.

segunda-feira, 7 de março de 2016

A DEUSA NO JARDIM DAS HESPÉRIDES


A DEUSA NO JARDIM DAS HESPÉRIDES
Desvelando a Dimensão Encoberta do Sagrado Feminino
no Nosso Território
LUIZA FRAZÃO, 2016, 286 páginas


No momento em que comecei a ler esta obra, fui invadida por uma ressonância íntima que bem conheço. E, à medida que fui avançando na leitura, confirmou-se o sentimento e a emoção de estar perante o resultado de uma investigação a camadas profundas, não  desveladas, da história da humanidade terrestre na qual o paradigma central do patriarcado, vigente há milénios, infligiu feridas profundas, nomeadamente pela masculinização, sob o ponto de vista cultural, social e religioso, dos traços e indícios que o Sagrado Feminino imprimiu à sua passagem.
A obra de Luiza Frazão é um muito importante livro de referências sob este ponto de vista e restitui-nos um sentido de integralidade e de equilíbrio tão necessários no contexto histórico em que vivemos. Na verdade,  por todos os lados afloram à superfície da vida ecos de uma outra ordem de valores, uma espécie de re-acordar de memórias ocultas no fundo de psiques mutiladas que, ante a decadência profunda a  que a vida na Terra chegou, buscam com determinação alternativas mais saudáveis para o futuro. E a autora buscou na memorabilia natural, nos poucos registos na pedra, nas tradições muitas vezes distorcidas e na mitologia,  a recuperação de um sentido novo para a vida, assente no amor pelo natural e descodificação dos seus códigos secretos, na solidariedade, dádiva e compaixão, na paz e na abundância, na celebração da vida e da morte como processo transformacional. As Hespérides do Jardim Dourado que ela localiza no nosso território, representam, cada uma, aspectos fundamentais do legado feminino, englobados na Deusa Cale (palavra que habita, segundo a autora, o étimo de Portugal), a qual a esta parte do mundo preside.

“A Deusa no Jardim das Hespérides” é um acto  imbuído de sinceridade e de busca determinada e paciente de uma verdade maior, até hoje oculta da nossa consciência e, sobretudo, da formatação que nos tem sido abusivamente imposta desde o dia em que nascemos. Um acto criativo e estimulante, restaurador do feminino ancestral e do ritual na vida humana, um acto que merece toda a nossa gratidão!
Mariana Inverno

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

O ABRAÇO QUE ME FALTA

Ando vulnerável e confusa por estes dias.
O cansaço imenso não ajuda, a falta de interlocutores válidos ainda menos. Alternativas para esta situação vejo-as escassas. Resta-me a escrita, este misterioso meio de desbravamento interior, onde cabem todas as perguntas e todas as respostas.


Tenho a escrita, mas pouco tempo para ela. E é essa a ironia suprema de quem, agrilhoado no espaço fóbico do trabalho obrigatório para a sobrevivência, mal pode virar os olhos na direcção da identificada brecha para a luz. Comigo é a escrita, mas a quase toda a gente que eu conheço está vedado o caminho conducente a uma espécie  de ogiva para a libertação.
Não quero, contudo, cair na armadilha da autovitimização. São por demais insondáveis e misteriosas as causas do aprisionamento de cada um e, na maioria dos casos, há que conseguir conquistar a pulso, com sangue suor e lágrimas, os meios de emancipação da realidade castrante que nos cabe. O processo passa pela atenção profunda, em primeiro lugar a si mesmo – emoções, reacções, comportamentos e impulsos a serem implacavelmente escrutinados – e, depois, aos inúmeros sinais que mapeiam o nosso caminho individual e colectivo.
A tarefa é gigantesca e a nossa energia, tão consumida na luta do dia a dia, apresenta-se escassa para esse trabalho de fundo, sem o qual ficamos presos na eterna roda de comportamentos e padrões de vida cármicos.

GEORGE TOOKER
É neste contexto da manifestação que sinto a falta deles. Dos seres de alma afim, dos que sentem em profundidade as palavras que escrevo, do seu abraço cálido e envolvente, do seu não julgamento. Da intimidade natural que entre nós se estabelece, da dádiva sem motivos ulteriores.
A verdade é que identifiquei poucos desses seres durante a minha passagem por aqui, mas o drama reside no facto de nem desses eu poder em geral desfrutar, dado o carácter impositivo das amarras ao trabalho e às responsabilidades.

Devo ter falhado em algo de fundamental, preciso de rever tudo outra vez, com rigor e empenho, quero crer que da minha criatividade há-de sair a chave que abrirá a porta para o amplexo que me falta.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

O AMOR É UMA RARIDADE

A vida não é um passeio na avenida.
Mas é que não é mesmo, embora haja muita gente que disso parece não ter qualquer consciência.



Escrever sobre o amor, tal como o conhecemos na Terra, não é tarefa fácil e, os mais corajosos e lúcidos de entre nós, capazes de ir fundo na desconstrução, habilitam-se a qualquer coisa aparentada de uma desértica insanidade.

Desde que nascemos que somos formatados para o amor. A língua, espelho infalível das nossas ideias e crenças, está recheada de termos que reflectem esse facto. “Quando cresceres e te casares”, “quando encontrares a tua cara metade”, “a tua alma gémea”, “o grande amor da tua vida”,
“quando arrumares a tua vida”, “a ver se não ficas só”, “apressa-te ou ficas para tia“, “boa escolha, ele é bom partido=ganha bem e a família tem posses”,  “um homem só não se aguenta “, "a ver se arranjas quem te aqueça a cama e te ajude nas despesas”, “o melhor é juntarem os trapinhos”, etc. Para já não falar dos chamados livros sagrados, arautos de infalíveis princípios doutrinários: “Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idónea.” (Gênesis 1:18).

Deve haver um sentido oculto neste impulso para a necessidade de acasalamento. O argumento da procriação e da sexualidade não chegam, por temporários, e mesmo que se lhe juntem os do interesse económico, das conveniências várias e do grande medo da solidão, a explicação fica, ainda assim, curta. O amor, tal como o idealizamos é, de facto, uma raridade.
Há algo que se sabe a níveis profundos, algo que pulsa nos genes, nas células, nos átomos do nosso inteligente corpo  e nos recomenda a busca do outro, do espelho. Lembrava-me alguém há dias a sabedoria indiana, segundo a qual nascemos com dois olhos mas não nos podemos ver a nós mesmos.
Precisamos, por conseguinte, do outro para esse indispensável espelhamento, espécie de identificador dos nossos passos, sem o qual não sabenos com algum rigor o que manifestamos.  O problema parece contudo complicar-se com as folclóricas crenças que rodeiam os nossos relacionamentos, crenças que radicam essencialmente na moldagem recebida desde que abrimos o olho, os estímulos e restrições transmitidos, os mitos inculcados sobre a identidade própria e os quase sempre inconscientes sistemas de defesa que levantámos em nós ao longo da vida. O problema complica-se porque esse estado algo patológico não é só nosso, é o do outro também e, assim, o resultado óbvio do exercício é uma monumental ilusão que termina quase sempre em dor, sentimento de perda, estilhaçar do nosso tenro interior, decréscimo da auto-estima ou, alternativamente, na indiferença e afastamento progressivos.

Enquanto a humanidade terrestre escolher estes ilusórios caminhos, enquanto ela não tiver a coragem e a sabedoria de mergulhar fundo nos sombrios enredos que manipulam as suas motivações e comportamento – e para tal muito trabalho pessoal de fundo é necessário -  não saltaremos colectivamente fora desta roda alienatória nem ganharemos acesso a quem somos e ao que vimos.

“Nosce te ipsum!”

Mas sem batota…