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sábado, 19 de dezembro de 2015

COLUNA DOS MILAGRES


Às vezes penso que não sairá nem mais um verso da minha alma, penso isso em dias difíceis como hoje, dias de muito trabalho obrigatório, os raros dias em que um enorme peso de uma solidão gritante me acabrunha – alma, corpo, gestos, tudo – e me faço ao largo do que sinto que sou, tudo para baixo cá dentro, desencantado.
Não gosto de me sentir assim, apresenta-te minha alma,  espanta o silêncio baço que me asfixia a voz, aligeira-me o gesto, pois não me sinto eu, nem nada à minha volta é o de sempre.

Quando a sombra baixa e a alegria cede lugar à inquietude e aos medos, ganham corpo perguntas inesperadas, cenários dantescos projectam-se, sombrios, sobre o ritmo das horas e deixamos de ser quem somos, como se tudo estivesse perdido.
A espuma dos dias, onda suja das coisas guardadas, mal entendidas, lambe-nos os contornos, impregna tudo de dureza e mal-estar.

Duvida-se então que alguma vez mais se possa fazer ouvir o poema, que o canto da alma volte a ecoar de novo, ainda que longínquo, a percepção e a beleza do sublime.

Por isso te invoco, alma minha, resgata-me deste vale sombrio que me tolhe o passo, ampara-me na reabertura do caminho para o meu canto próprio, registo perfumado que o espírito deixa, à passagem.

CHRISTIAN SCHLOE
Eis então que irrompe no meio da noite a melodia saída de outra alma, portadora dos contrastes e dos ritmos que, assimilados, trazem a paz. Trazem o verso, o verbo, a companhia e a partilha que pareciam perdidos.

São assim o tempo e os ciclos da vida, sucedem-se deste modo a sombra e a luz.

Cada qual deve sustentar-se na coluna dos seus milagres.

sábado, 12 de dezembro de 2015

CARTA ABERTA COM AMOR, RECOMENDAÇÕES E OUTROS DETALHES A UMA AFILHADA BEM AMADA



CARTA ABERTA
COM AMOR, RECOMENDAÇÕES E OUTROS DETALHES
A UMA AFILHADA BEM AMADA


Leonor Fini
Bom, já chegou. O esperado dia em que atinges a maioridade, assim se  convencionou.

Antes de mais, rodopiemos de alegria num abraço rotativo, apertado e cálido como só o amor sabe protagonizar. Parabéns, minha doce querida, pelos teus maravilhosos dezoito anos, idade de luz e de esperança, de todas as expectativas em relação à vida daqui para a frente.

Chamas-te Clara porque trouxeste luz aos sonhos da tua mãe. Na verdade tu começaste a existir para mim há muito mais tempo, num brilhozinho aceso no fundo dos olhos dela, um fogacho de sonho, apesar de lhe ser repetidamente dito que não tinha grandes probabilidades de conhecer as alegrias da maternidade, dado o seu problema de saúde. Durante anos, isso pareceu confirmar-se mas, num dia improvável, abraçámo-nos comovidas, ela e eu, ante a confirmação de que chegarias a esta dimensão dentro de uns meses.
Não mais deixei de te abraçar, minha Caganita, longe ou perto, mais embrulhada na problemática da minha vida ou mais disponível para um tête-a-tête.

Hoje, 11 de Dezembro, é uma data convencional, mas pelo nosso amor por ti, ela transforma-se num marco celebratório de uma vida, a tua, que nos trouxe alegria profunda e uma maior união entre todos.

Tive a honra de ser convidada para tua madrinha e foi num ritual de rosas chá e do  teu serzinho recém-chegado a este mundo e engalanado com um vestido de material creme e modelo vitoriano, que me comprometi formalmente, perante uma audiência atenta e comovida, a cuidar de ti e a proteger-te, a passar-te a minha visão do mundo  e mostrar-te os sensíveis contornos da verdadeira beleza e da excelência, a partir do ritual de amadrinhamento, especialmente escrito para ti. Antes disso, porém,  estou bem certa que já a minha alma se havia comprometido há muito com a tua, para mais esta passagem de amor e convívio pelo planeta azul.

Minha querida, não quero soar ex catedra, nem dar-te conselhos que pareçam pomposos e maternalistas.
Mas, como mulher mais velha que muito te quer, vou deixar-te aqui afectuosamente, umas deixas que espero possas honrar, através da tua existência.
·      *Lembra-te, todos os dias da tua vida, que nasceste mulher num tempo em que, pela própria dinâmica da história e de possivelmente certos impulsos cósmicos que o nosso conhecimento ainda não alcança por via científica,  a mulher, o feminino do mundo, a Mãe do Mundo procuram reemergir, após milénios de um obscurantismo que relegou o nosso género para um nível de inferioridade mental, intelectual, social e  até espiritual. Mas fica atenta, Clara: há muitos simulacros de mulher inteira, integral, nos protótipos que proliferam no mundo.
Augusto Gomes
*Para além da busca da independência económica – base sine qua non – concentra-te na tua educação e na aquisição de conhecimento (de preferência por meios não ortodoxos)  e de forma continuada através da vida. Não deixes que entretenimentos de superfície e os sofás deste mundo te distraiam do que deves a ti mesma: tentar compreender o mais possível quem és e ao que vens e honrar cm a tua acção os dons e talentos que são o teu legado.
*Ao mesmo tempo, habitua-te a olhar para dentro de ti, de forma atenta e vigilante, com a coragem indispensável para acolher o teu lado mais sombrio. Ele existe em todos nós e poderá ser um precioso guião para o teu avanço, na sua descodificação residirá a tua maior força, podes crer.
·      *O mundo à superfície do planeta é um lugar cada vez mais perigoso, porque os tempos estão revoltos e tudo parece em radical transformação, sob forças  poderosas e dispares. O medo é um egregor real e em expansão e o único antídoto para tal é a nossa força interior e determinação de reflectir na densidade a grandeza e liberdade do espírito que nos habita.  Sê cuidadosa na tua movimentação, mas não deixes que as acções de uns poucos e a maquiavélica manipulação dos media travem o teu passo. Desbrava novos caminhos, sê original e criativa na vida preciosa de que dispões.
·      * Reclama a tua soberania, sempre, em todos os actos. Não deixes que os outros decidam por ti ou projectem a tua vida, por transferência dos seus próprios sonhos  gorados. Mas aprende a escutar as vozes dos mais experientes, dos que te amam e ajudaram a chegar ao momento actual.  A vida de cada um acaba por ser também o resultado de um longo encadeado de contribuições de uns para os outros, umas construtivas, outras nem tanto assim.  
   *Aprende a aceitar com humildade que sabes pouco de tudo e que, não obstante o aparente grande progresso  científico e tecnológico no mundo,  a humanidade terrestre está ainda na infância do Conhecimento.
·     *Recomendo-te que estejas muito atenta ao desenvolvimento e implementação da inteligência artificial no mundo. Corresponde a um enorme avanço, poderá facilitar imensamente a nossa vida e aliviar muito do sofrimento actual, mas há o grande perigo de vir a controlar  o ser humano, seu criador. Só pela força do espírito, que é preciso a todo custo  fazer baixar à matéria, o caminho poderá prosseguir de forma saudável.
·      * Não creias no amor romântico, na balada ficcionada sobre a fusão  com o outro de quem dependes  para a tua segurança, gratificação.  O outro sem o qual não és nada e que te serve e te subjuga. Vira a página, querida, isso são conceitos de um passado bafiento e de má memória. Só se pode falar de amor quando a unicidade de cada um pode ser preservada em liberdade e se conseguirem ver um ao outro na maior verdade possível e, ainda assim, sem falseamentos nem projecções, quererem partilhar o caminho.
·      *Não precisas de ser mãe para seres uma mulher completa. Mas se for essa a tua opção, lembra-te que será mais o teu comportamento e menos as tuas palavras, o grande referencial dos teus filhos.
*  *Desejo-te, meu amorzinho, dias de grande prosperidade segurança e felicidade pessoal. Quando os viveres, não te esqueças dos teus irmãos mais pobres, mais infelizes, mais sós. Não numa perspectiva de caridade, mas em consequência da consciência profunda de que há muito por compreender no chamado destino de cada um e não nos cabe julgar ninguém. O que de material nos passa pela mãos, durante a nossa estada na Terra, não nos pertence verdadeiramente. Flui apenas através de nós e o nosso verdadeiro poder pessoal revela-se na energia que imprimimos a esse fluir.
*A gratidão é um porto seguro e um garante do retorno da prosperidade e da bem aventurança. Sê grata.
* Faz-te acompanhar por essas companheiras nobres que são a compaixão e a solidariedade para com todos. 
* Cultiva a verdadeira alegria, por oposição à histeria desvairada tão em voga no mundo de hoje. A alegria genuína irrompe da alma e contagia tudo à sua volta com
a luz que lhe é própria.
*Livra-te dos abraços infames, do fingimento e da pretensão e arquiva em definitivo as visões alindadas da existência. Esta é ainda neste planeta uma história de sobrevivência difícil e muito sofrida. A esperança de transmutação reside sobretudo na força do Espírito.
* Lembra-te que só na casa dos afectos poderás encontrar o teu consolo e o bálsamo para as tuas feridas.

      Finalmente, querida, venera sempre a tua mãe que te sonhou e te amou sem limites, através da sua difícil vida. Ela é a representante junto de ti da Grande Mãe, a origem e matriz de toda a manifestação da vida.

Dan Hudson
Quanto a mim, se me conseguires recordar, muito depois da minha partida desta dimensão, como uma suave luz que, à distância ou na proximidade circunstanciais, sempre te acompanhou com amor, então a minha alma terá cumprido o seu papel para com a tua.

Parabéns, minha Clara querida!
Já sabes que podes sempre contar 
com a
Tua
Madrinha





sábado, 5 de dezembro de 2015

A SILENCIOSA REVOLUÇÃO INDIVIDUAL


Só existe um bem: o conhecimento.
Só há um mal: a ignorância.
SÓCRATES

Habituámo-nos, historicamente, a que as grandes mudanças viessem de cima para baixo ou, se quiserem, de fora para dentro. Este fenómeno esteve sempre ligado a conceitos como a autoridade do estado, dos ganhadores dos grandes conflitos, das maiorias ditas democráticas ou então dos ditadores, dos exploradores, dos usurários e dos grandes manipuladores a todos os níveis e em todas as áreas da actuação humana. Espera-se sempre ou que a revolução chegue, que a iniciativa venha de alguém com poder para a fazer valer ou que, por qualquer impulso oriundo não se sabe donde, as coisas mudem como por magia ou milagre.

Esta crença, fortemente enraizada nos povos, está claramente ligada à consciência de si mesmo. Na história registada e com o suporte que os avanços científicos  nos proporcionam na descoberta do potencial humano versus regulação da existência, só hoje e de forma ainda titubeante, começa o ser humano a dar-se conta do potencial de poder que em si transporta. Os tempos vão, porém,  difíceis, confusos, as dificuldades são de toda a ordem e as tensões criadas pela luta pela sobrevivência e pelo formato incerto que os relacionamentos afectivos vêm adquirindo, distraem o ser humano daquilo que maior poder lhe pode conferir: alcançar consciência das forças exteriores a si mesmo as quais, fortemente integradas em si por uma inquestionada formatação, lhe comandam a vida e o destino, mantendo-o prisioneiro de crenças e dogmas que perpetua com a sua ignorância.

Montserrat Gudiol
Na era da rapidez, do imediatismo e da aceleração, convém continuar a lembrar que não há atalhos para a construção e para o evoluir estruturado e consistente. Ninguém pode ser aquilo que ainda não alcançou dentro de si mesmo, o mundo anda povoado de simulacros e de zombies. É fundamental que saltemos para “fora do sofá do nosso contentamento” (comprado a prestações) e façamos todos os dias um esforço de atenção ao que se passa no mundo, por meio de fontes mais seguras do que os noticiários televisivos. A educação e a cultura são instrumentos de base para o discernimento ante as ondas de contra-informação que nos entram pela vida dentro. Os ideais de solidariedade e de respeito por todas as manifestações de vida essenciais para o equilíbrio. Por outro lado, pobres dos que pensam que tudo sabem e que tudo correctamente percepcionam, só porque se sentem intuitivos ou melhores do que os outros. A chamada “New Age” é altamente responsável por todo este equívoco.
Costumo dizer que há tantos mundos quantas as percepções individuais e a falta de preparação interna para lidar com o aparente facilitismo que o grande instrumento que é a internet veio aportar à existência confundiu ainda mais as pessoas. Deixaram de estudar, de buscar, de se interrogar, pois está tudo na internet, à distância de um clique. Urgente denunciar esta ilusão e instigar nos nossos filhos a humildade e a ambição espiritual e intelectual que está na base do verdadeiro progresso, no qual a internet tem, sem dúvida, um papel instrumental a desempenhar.
Na posse de uma consciência mais alargada e profunda, instruído pela educação e por uma saudável dinâmica interior, o ser humano encontra mais facilmente a força motivacional para aplicar na sua própria vida mais daquilo em que acredita, sem se preocupar em demasia com normas ou com aquilo que a maioria faz ou pensa.
Creio firmemente que será o estímulo energético criado colectivamente por esta coerência que há-de mudar o mundo, ao abrir de uma vez por todas o portal tantas vezes anunciado pelos arautos da Nova Era.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

AMAR O AMOR

Que pode uma criatura senão,

entre criaturas, amar?

amar e esquecer,

amar e malamar,

amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

(...)
Este o nosso destino: amor sem conta,

distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,

doação ilimitada a uma completa ingratidão,

e na concha vazia do amor a procura medrosa,

paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa

amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drumond de Andrade

Quadro: Lauri Blank


Amar quer quase sempre dizer que aquele que se diz apaixonado por outrem está, antes de tudo, enamorado do próprio amor.


Les Aamants, Magritte
Aquilo que despoleta o amor sentimental está envolvido em mistério, pois as razões usualmente apontadas para tal fenómeno – atracção física, intelectual, química entre os seres e outras – aparecem insuficientes para explicar a radical alteração de comportamento que o ser enamorado apresenta, como se dentro de si tivesse emergido uma outra pessoa: alguém irracional, desinteressado de tudo quanto não tenha a ver com a história sentimental em curso e, acima de tudo, destituído de qualquer objectividade em relação a quem sente amar. A abundância de superlativos e o encantamento com o outro brilham-lhe nos olhos e cantam repetitivamente  nas palavras, pelo menos no capítulo inicial do processo, a imensurável, inultrapassável, inconcebível, fabulosa, imaculada e irresistível qualidade do ser amado.

Love and Pain, Edvard Munch
Torna-se frequente ver homens e mulheres inteligentes e equilibrados alterar de forma radical o seu comportamento e hábitos, em nome desta emoção. Embora já estejam identificados no corpo humano as transformações que ocorrem por via do apaixonamento – aumento da dopamina, neurotransmissor responsável por sintomas de prazer e da excitação, facto que tem o poder de nos alhear da realidade e a baixa da serotonina que provoca pensamentos obsessivos relativamente ao ser amado – não foi ainda possível determinar com precisão qual a causa inicial da paixão sentimental a que, de forma equívoca e perigosamente generalizada, se chama vulgarmente amor.
Pela minha parte, partilho de uma teoria conhecida. O sentimento de insuficiência para a construção da felicidade experimentado pelo ser humano relativamente a si próprio, leva-o a projectar frequentemente no outro aquilo que ele sente faltar-lhe para atingir a tal mítica bem aventurança que ninguém sabe ao certo em que consiste.  O mistério reside um pouco naquilo que no outro dá origem ao sinal de partida do processo. Por absurdo que pareça, não é tanto a aparência física ou a riqueza material que estão subjacentes à paixão (há que distinguir entre esta última e os seus demasiado frequentes simulacros). Muitas vezes, o apaixonado sentiu-se particularmente tocado por um sentir comum, a partilha de ideias, um perfil caloroso ou esquivo, características físicas não necessariamente atractivas para os outros mas que para ele resultam reminescentes de algo que o estimula mas cuja origem em si mesmo não consegue localizar com precisão. 
Muito é velado neste processo, em geral desestabilizador para quem o vive,  e à fase do palpitante coração, da idealização e do flutuar nas nuvens, segue-se o inevitável desencanto. A instalação da rotina, a que poucos laços deste tipo sobrevivem, desmascara impiedosamente as ilusões e permite um acesso mais directo à verdade do outro que não corresponde nunca à projecção criada. O apaixonado só esteve interessado nas características do outro que completam a imagem idealizada que dele criou,  dando deste modo lugar a uma falsa relação pois o processo teve lugar entre dois seres imaginados e não reais. Em casos raros, torna-se possível nesta fase, trabalhar no laço e aproximá-lo daquilo a que identificamos como amor amadurecido, com os traços de lucidez, companheirismo e honestidade que o mesmo implica.

De tudo isto resultam para mim várias conclusões.
A pessoa humana tem dentro de si um impulso para tocar mais alto, elevar-se acima  da rotina e do conhecido a que chamarei impulso para a auto-transcendência. Embora sem saber a que é que isso a pode levar, rotula-o de busca da felicidade. Este facto está na base da evolução da consciência.
Como não se conhece e não trabalha em si mesma, a pessoa humana vive na ignorância dos mecanismos subterrâneos que a habitam e é presa fácil do seu sentido de auto-insuficiência. É, por outro lado, vítima da normatização a que foi sujeita pela cultura e meio ambiente que a moldaram e que lhe inculcaram de forma enfática a noção do amor romântico.

Haverá um longo caminho a percorrer, a nível da consciência, até que tudo isto se ajuste. Atrevo-me a imaginar a dita paixão entre seres que não se idealizaram um ao outro, mas que encontraram no espelhamento recíproco, no companheirismo, cumplicidade e residência no afecto, uma plataforma duradoura de vida partilhada com alegria, prazer e descoberta. Mas, admitamos, a isso já não se pode chamar paixão, mas sim amor, Amor, AMOR!


Dado o cenário geral e o "trabalho de casa" por fazer, parece-me que estamos a anos-luz de lá chegar.