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terça-feira, 8 de setembro de 2015

A GRANDE PROVA

Foto: Ryan Jones

A angústia e a incerteza que se abateram sobre o mundo trazem a humanidade terrestre descentrada, confundida, a cabeça incapaz de digerir com lucidez as catadupas de informação e desinformação que lhe chega, um torvelinho nauseante de vida cada vez mais difícil de levar. De coração apertado, tanto rimos como choramos, tão depressa sentimos toda a solidariedade do mundo como nos distanciamos, aparentemente indiferentes ao que ainda há pouco nos magoava por dentro, pululando de tema em tema - há-os a rodos neste mundo em profunda decadência.

O que se passa, afinal?
Incontestável o caos, o desalinhar do esforço colectivo, largamente ignorante do que se passa nos “bastidores” do mundo, onde os motivos são outros e o empenho maior consiste em manter a humanidade controlada e regulável segundo os requisitos de uma ordem alheia ao que nos é dado conhecer. Não são poupados esforços nesse sentido e mais do que nunca o grande princípio maquiavélico parece aplicar-se: qualquer meio (leia-se mentira, fraude, alucinação, holograma, utilização abusiva dos media, et cetera) serve desde que justifique o fim

Leio os depoimentos, comentários, desabafos e outros de tantos amigos, conhecidos e desconhecidos, e sinto o tormentoso caudal de aflições e incerteza e os seres humanos perdidos de si mesmos, à deriva num mar de dejectos morais, de obsessão em obsessão, esquecidos do essencial.

Uma vez mais, por convicção própria e não por estar alinhada com nenhuma filosofia “New Age”, venho partilhar a mais profunda das minhas conclusões.  A única forma de lidar com este mar de dor e sofrimento é não incorporar a sua vibração. Sem nos alhearmos da dor do mundo e sem regatearmos a nossa disponibilidade para ajudar o outro, devemos a meu ver gerir cuidadosamente o nosso pensamento e corpo emocional, não permitindo que a onda de lixo que varre o mundo e as sociedades penetre de modo devastador a nossa interioridade.
Educar a mente e gerir as prioridades emocionais deve seguramente ser um empenho diário.
É nisto que consiste a muito badalada noção de que somos criadores do nosso destino.
É esta, sem sombra de dúvida, a grande prova.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

G A B R I E L A


 

Fixo-me nuns olhos negros, directos, sérios, quase agrestes.

Agradam-me. Bem como a ligeiríssima curva, ascendente e irónica , nos cantos da boca. Rosto sério, austero.

Inteireza e dissidência palpáveis.

Neste mundo ficcionado, à boleia de uma infantilização crescente, sabe bem encontrar, ainda que seja num livro, um par de olhos assim, de alcance laseriano, olhos que abdicaram obviamente de parâmetros fixos e se distanciaram da norma e dos códigos convencionais de pensamento. Os olhos de Gabriela Llansol.

A sua escrita, largamente desconhecida do público português,

aí ficou a comprovar o que digo.

Intuo que ela experimentou, como eu, a necessidade imperiosa de viver fora e à margem desse maralhal de seres indiferenciados, em movimentação robótica sobre a superfície terrestre, pululantes de lugares comuns e vontade incerta.

Preciso de romper com a paisagem baça que me rodeia, estilhaçar os contornos previsíveis da vida de onde o canto da alma se ausentou, esgueirar-me para além dos papéis e das responsabilidades atribuidas, preciso de uma cintilação nova que alumie a minha sempre mutante relação com o imaginário.

Entrelaço-me no fulgor estonteante da tua escrita, Gabriela. Entra-me no sangue, numa espiral ascendente de fogo e desejo de transcendência, de mais além daquilo que me trava o passo.

Grave a degradação que por aqui grassa.

Graves a inverdade, a incultura, a desistência…

Gravíssimo deixar que as coisas nos aconteçam, sermos matraqueados com limites rigidos de pensamento e cairmos, pouco a pouco, no esquecimento de quem somos.

Mas tu sabias, Gabriela, sabias que por detrás do canto, há outro canto por descobrir, que a cor verdadeira não é a que a visão física  percepciona, que ela se oculta, subtil e rara, na luz que a ilumina por dentro, a cor que só olhos treinados pela alma podem captar …
Montada no verbo  viajaste ao encontro dessa outra vida, no encalce de uma “outra ocupação da Terra”.

Irmanada, ofereço-te estas poucas palavras pois, hoje, o teu canto dissidente e fulgurante arrancou-me do abismo.

sábado, 22 de agosto de 2015

VIAGRA FEMININO


Já existia, desde há tempos, para os homens. Embora tenha opinião pouco favorável sobre o assunto, não vou aqui discuti-lo pois não sou homem, nem me sinto abalizada para analisar as questões íntimas do sexo oposto.
Apareceu  agora no mercado para as mulheres. Addyi, a pílula cor-de-rosa. Após anos de investigação e, ao que parece,  muito aguardada, a miraculosa pílula aumenta a libido das mulheres, actuando directamente sobre o seu sistema nervoso central. Com efeitos secundários, claro, embora isso tenha uma importância menor para a questão que desejo analisar aqui.
Hoje em dia é difícil que algo me surpreenda, os tempos vão de feição a que qualquer coisa se possa esperar, todo o tipo de alienações, falseamentos, fraudes, mentiras.
Não obstante esse estado de abertura permissiva a qualquer possibilidade,  confesso que a notícia me causou um estranho impacto. Senti-a como bofetada abusiva e deslocada, uma espécie de alfinetada certeira no coração apertado e tenso pelos dias e ocorrências destes tempos. Em última análise, a mulher fica enfim reduzida à condição de máquina e o seu comportamento e reacções no âmbito sexual dependentes da ingestão de uma pílula.
Sentimentos, ciclos de vida, o enquadramento sagrado em que o sexo deve ocorrer jamais desligado do amor – nada disso parece contar para este miserável e decadente sistema de valores, paradigma sem alma que, apesar de moribundo, propaga indefinidamente o seu estertor de morte com produções como a pílula rosa.
Convém ter presente que este é um remédio desenvolvido por uma sociedade de contornos patriarcais, na qual a mulher está muito mal compreendida, sujeitada como foi a uma fragmentação milenar e sofredora, em consequência, de limitações complexas a nível da libido.

Que mulher sou eu, afinal,  se o meu desejo sexual tem a ver com uma pílula, rosada, para não destoar do género? Em que tipo de aberração me tornei se o meu corpo, na sagrada prática do amor, é apenas uma máquina de reacções químicas controladas por fármacos, sem que o meu corpo emocional, para não ir mais longe, não seja tido nem achado para os meus envolvimentos íntimos e performance?!
No fundo, não é de admirar. Vivemos num imediatismo perigoso e patético e uma pilula cor-de-rosa pode similar, ainda que de modo passageiro, a solução rápida para problemas atávicos cuja solução  exigiria  empenho e aprofundado esforço de expansão da consciência por parte de homens e mulheres.
Por atalhos sem alma, não se abrirão jamais as portas do céu.

Mariana Inverno, NOTAS À SOMBRA DOS TEMPOS

domingo, 16 de agosto de 2015

A MECENAS


Neste jogo complexo que é a vida, as peças dos nossos gestos, afectos, transferências e intenções encaixam usualmente no que nos é mais conveniente. Por maior dificuldade que tenhamos em aceitá-lo, a vida e os seus imbroglios são, para cada um, uma coisa diferente e o esforço pessoal vai inevitavelmente  na direcção das coisas fazerem sentido para o próprio.  No caso particular das nossas vulnerabilidades, o drama adensa-se.

Michel Cheval, ON THE WAY OF DESTINY
Soube recentemente do caso de uma suposta mecenas que, vinda de longe, iria salvar meio mundo das dificuldades da vida e financiar n projectos, imbuídos de espiritualidade.  Pouco a pouco, várias pessoas com dificuldades económicas e sonhos pessoais de avanço da consciência,  acercaram-se à dita mecenas na expectativa da chegada da prometida ajuda.
De algum modo, as suas vidas ficaram em suspenso, cativas desse sonho que lhes criava novos horizontes e lhes permitia respirar a esperança. Ocorreu um interstício de alívio entre a dura realidade e a projecção  do sonho realizado ou, pelo menos, em marcha. Um pouco como quando jogamos no euromilhões com uma fé cega e planeamos durante dias o que vamos fazer com tal fortuna – os problemas reais tornam-se inexistentes ante a avalanche da riqueza e, no no écran interno, surge todo o tipo de materializações, inacessíveis até então.
Pois, como no caso do euromilhões e protelada de mês para mês, a ajuda da mecenas não chegou. O balão perdeu o ar e os dias recuperaram a sua patine real.

Parece que a falsa benfeitora poderá padecer de algum distúrbio: megalomania, síndrome de salvatore mundi ou outras coisas aparentadas. Pouco importa. O que conta aqui é tentar compreender o mecanismo  interior que leva pessoas inteligentes, bem intencionadas e com projectos muitas vezes válidos a transferirem, ainda que temporariamente, a possibilidade de realização dos mesmos para uma terceira pessoa que nunca viram, da qual nada sabem a não ser a máscara apresentada pela net. Quanto a mim, isto prende-se com um problema universal – por via das nossas vulnerabilidades, acreditamos no que nos convem, naquilo que mitiga a nossa dor, no abraço que envolve a nossa carência, no falso trampolim quântico para a concretização dos nossos sonhos e que nos é prometido a troco de nada.

Não defendo que o chamado milagre não exista. Milagre entendido como o transcender das leis conhecidas da vida e da matéria. O mecanismo que o acciona, contudo, prende-se muito mais com o poder pessoal de cada um, a sua capacidade para  nutrir o sonho mantendo-se enraizado na Terra onde se manifesta e a lucidez necessária para descartar o ilusório.

A vida tem vontade própria e nós somos os seus agentes.

Mariana Inverno, NOTAS À SOMBRA DOS TEMPOS

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

AGONIAS



Ter hoje apenas ecos da força estranha que um dia, avassaladora, me percorreu as células, as físicas e as outras, e me ligou ao coração da vida…



Passaram luas sobre luas, o tempo cavou sulcos fundos na pele da alma da gente, restaram folhas ensanguentadas à deriva no arco maior dos sonhos incompletos, do canto que se não fez ouvir…

Quem me poderá levar para além da minha dor, senão eu mesma? Quem irá desmascarar as transferências, as projecções, as dependências, o amar sobretudo o amor que outrém sente por nós?

Quem resgatará a tua alma, quando o portal se abrir e os mil coros do mundo encoberto  te lembrarem a grandeza que mantiveste velada, porque a prova parece ter ido longe demais?

Papéis inexactos, entradas em cena fora do tempo adequado, o destino titubeia palavras imprecisas no quente vento estival, somos náufragos de um barco que um dia partiu enlouquecido de amor, mas de casco já furado,,,

Entrar no vazio com coragem, embora o chão nos escape e a tentação de olhar para trás  lance fogos fátuos na escuridão dos equívocos e dos arrependimentos…

Não há nada à nossa espera senão aquilo que já somos, súmula do que vivemos ou não vivemos, pássaros nocturnos de asa quebrada, vulneráveis no ar e em terra, filhos de um quase, em breve só memória…
Mas tu és quem eu sei que és. Talvez que eu não seja quem dizes eu ser.
Tempo da verdade.

Mariana Inverno, NOTAS À SOMBRA DOS TEMPOS

Litografia: Montserrat Gudiol

sábado, 13 de junho de 2015

A LINGUAGEM DAS FLORES





Sweet flowers alone can say what passion fears revealing.
THOMAS HOOD (1799-1845)

Há dias, um conhecido intelectual da nossa praça, meu amigável conhecido em tempos,  comentava publicamente que as flores o inquietam porque não comunicam.  Acho que não tinha ouvido nunca alguém dizer tal coisa, pelo que retive a afirmação e fiquei eu, por minha vez, algo inquieta, a reflectir sobre a questão.
Se há companhia que me conforte na densidade em que nos movemos, é com certeza a das flores e a do reino vegetal no seu todo. Talvez porque estavam no planeta muito antes da minha espécie o habitar e são com certeza repositório de uma sabedoria que estou longe de possuir. Firmemente enraizadas na terra-mãe, as plantas e as árvores erguem-se para o cosmos, convivem corajosamente com os elementos e povoam as nossas vidas de cor, graça , senhoras de uma estética incomparável e, na  nossa cultura,  acompanhantes inseparáveis de momentos importantes das nossas vidas. Casamentos, funerais,
nascimentos, namoros, agradecimentos de toda a ordem. Nenhum evento social as dispensa. Eu também não.
Há dias, comovi-me, ao deparar-me com uma avenida inteira de jacarandás floridos a erguerem aos céus a mancha intensamente azul da suas flores com que atapetavam também o caminho por onde eu passava. Belo, sem dúvida, mas vá-se lá saber a profunda e misteriosa razão para as minhas lágrimas.

Preciso da companhia das flores no dia a dia, em cada momento, a sua presença luxuriante e em profusão nas casas que habito e no jardim dá-me confiança e empresta ao meu ambiente algo de vital que me faz sentir rica e abundante, no sentido mais puro que a expressão possa ter. Recurso emocional, portadoras de uma linguagem simbólica complementar das minhas palavras e dos meus actos, as flores, desde sempre presents nas mitologias e nas relgiões, tornaram-se uma extensão do que aqui e agora manifesto. Quando duas mulheres amadas faleceram, encontrei alívio e conforto espiritual enchendo o caixão de rosas, e foi com uma que acariciei pela última vez o rosto sem vida da minha amada Mãe, momentos antes do féretro ser depositado na sua última morada. Ocorreu nesse instante um poderoso e indizível mistério, um amplexo de amor que nada poderá jamais quebrar.
Com flores digo muito do que as palavras não alcançam. Isso vem acontecendo desde há milhares de anos e tal já ressalta no celebrado “Cântico dos Cânticos”. Também Shakespeare conferiu um significado emblemático às flores  na obra-prima Hamlet, Prince of Denmark, pois a heroína Ofélia refere o significado simbólico de várias flores.
Esta linguagem, também conhecida como floriografia, foi mais tarde desenvolvida e cultivada pelos vitorianos, após ter sido trazida da luz de Constantinopla por Lady Mary Wortley Montagu, em princípios do século XVIII.*
Assim, é razoavelmente bem conhecido o simbolismo das flores e como ele nos assiste nos nossos esforços de comunicação.
Creio, contudo, que o que inquieta e intriga o meu amigo é a aparente inacessibilidade de uma linguagem poderosa, existente a níveis vibratórios que a sensibilidade pode reconhecer mas que a razão não consegue explicar. É esse o caso de muita coisa na nossa existência. No das flores, fomos associando a cor e características a sentimentos humanos e criámos toda uma correspondência.
Algo me diz, contudo, que a linguagem encriptada das pantas é outra…
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* A primeira obra publicada dedicada às flores parece ter sido o Dictionnaire du language des fleurs, de joseph hammer-purgstall, em 1809, mas a mais antiga e obra de referência sobre o tema é La langage des Fleurs (1819)  de Madame Charlotte de la Tour, pseudónimo de Louise Cortambert.

Quadros: GEORGIA O'KEEFE

sábado, 6 de junho de 2015

EM BUSCA DA DEUSA


Há qualquer coisa de essencial que se perdeu no mundo em que vivo. Algo que vem do lado feminino da vida e que a nossa cultura de orientação patriarcal barrou, empurrando esses aspectos para níveis recônditos do ser.
Penso nestes coisas enquanto olho, num livro companheiro da minha insónia, figurinhas pré-micénicas da deusa datadas de cerca de dois milénios A.C. Vêm-me à memória a imagem da “Vènus de Willendorf”, a representação em escultura mais antiga que se conhece do ser feminino, encontrada numa caverna na Áustria e que acabou por ser datada de cerca de 24.000 A.C.  O rotundo dos corpos, as curvas acentuadas das ancas e das mamas circulares são para mim evocativas de uma energia vital que parece actualmente perdida ou nos escapa, por via do nosso posicionamento face a nós mesmos.  Figuras reminiscentes de uma alegria erótica, um assumir frontal do instintivo e da paixão pela vida e pelo natural que hoje desconhecemos. Em sua substituição, emergiram a promiscuidade sexual e o artificialismo do normótico .

A questão prende-se com o processo puramente mental que dirige as nossas vidas, em aceleração crescente e muito suadas. Se há quatro ou  vinte e quatro milénios atrás, uma antepassada, distante de mim no tempo é certo, mas figurante na mesma linhagem, segurava nas mãos uma destas figurinhas e nela colhia inspiração e segurança para assumir as suas facetas de fertilidade, alegria criativa, sensualidade e erotismo, o que foi que me aconteceu a mim? Onde se esconde, na minha vida de agora, essa pulsão natural, plataforma para um pleno gozo da existência e da sua inerente vitalidade? Para que níveis velados do ser escorregou o lado mais esplendoroso do meu ser feminino?

Identifico laivos desse aspecto no amor que sinto pela beleza e pela arte, no empenho que ponho na estética e em certos cuidados pessoais, na abrangência do calor humano que me habita, na sincera e consequente solidariedade para com o sofrimento alheio, no apelo que as flores e a natureza em geral exercem sobre mim. Mas há um elemento profundo de ligação entre todos esses factores que este mundo não me permite assumir, pois o primado da racionalidade e da norma sobrepôs-se ao do sentir com as conhecidas e desastrosas consequências  de falta de harmonia e do culto da vida interior, sentimento de vazio e ausência de sentido transcendente na caminhada.

Olho com ternura a figurinha que a minha antepassada venerava e uma parte de mim sabe, não sem alguma pena, que a recuperaçao desse estado é praticamente inviável. Estamos num mundo em acelerada mudança e inovação tecnológica, é quase impossível não perder o fio à meada, com a avalanche de informação, os imperativos da sobrevivência e o empestamento da vida a muitos níveis.

Mas, seja qual for a direcção que o mundo tomar,  preciso de me lembrar que recordo veladamente algo perdido em mim, algo que já não sei fazer bem e que a minha consciência me dita que não me conforme, que busque, com quantas forças eu tenha, esse canto perdido, essa inebriante dança dos sentidos, afinal a pureza da sensualidade ao serviço do espírito.