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sábado, 22 de agosto de 2015

VIAGRA FEMININO


Já existia, desde há tempos, para os homens. Embora tenha opinião pouco favorável sobre o assunto, não vou aqui discuti-lo pois não sou homem, nem me sinto abalizada para analisar as questões íntimas do sexo oposto.
Apareceu  agora no mercado para as mulheres. Addyi, a pílula cor-de-rosa. Após anos de investigação e, ao que parece,  muito aguardada, a miraculosa pílula aumenta a libido das mulheres, actuando directamente sobre o seu sistema nervoso central. Com efeitos secundários, claro, embora isso tenha uma importância menor para a questão que desejo analisar aqui.
Hoje em dia é difícil que algo me surpreenda, os tempos vão de feição a que qualquer coisa se possa esperar, todo o tipo de alienações, falseamentos, fraudes, mentiras.
Não obstante esse estado de abertura permissiva a qualquer possibilidade,  confesso que a notícia me causou um estranho impacto. Senti-a como bofetada abusiva e deslocada, uma espécie de alfinetada certeira no coração apertado e tenso pelos dias e ocorrências destes tempos. Em última análise, a mulher fica enfim reduzida à condição de máquina e o seu comportamento e reacções no âmbito sexual dependentes da ingestão de uma pílula.
Sentimentos, ciclos de vida, o enquadramento sagrado em que o sexo deve ocorrer jamais desligado do amor – nada disso parece contar para este miserável e decadente sistema de valores, paradigma sem alma que, apesar de moribundo, propaga indefinidamente o seu estertor de morte com produções como a pílula rosa.
Convém ter presente que este é um remédio desenvolvido por uma sociedade de contornos patriarcais, na qual a mulher está muito mal compreendida, sujeitada como foi a uma fragmentação milenar e sofredora, em consequência, de limitações complexas a nível da libido.

Que mulher sou eu, afinal,  se o meu desejo sexual tem a ver com uma pílula, rosada, para não destoar do género? Em que tipo de aberração me tornei se o meu corpo, na sagrada prática do amor, é apenas uma máquina de reacções químicas controladas por fármacos, sem que o meu corpo emocional, para não ir mais longe, não seja tido nem achado para os meus envolvimentos íntimos e performance?!
No fundo, não é de admirar. Vivemos num imediatismo perigoso e patético e uma pilula cor-de-rosa pode similar, ainda que de modo passageiro, a solução rápida para problemas atávicos cuja solução  exigiria  empenho e aprofundado esforço de expansão da consciência por parte de homens e mulheres.
Por atalhos sem alma, não se abrirão jamais as portas do céu.

Mariana Inverno, NOTAS À SOMBRA DOS TEMPOS

domingo, 16 de agosto de 2015

A MECENAS


Neste jogo complexo que é a vida, as peças dos nossos gestos, afectos, transferências e intenções encaixam usualmente no que nos é mais conveniente. Por maior dificuldade que tenhamos em aceitá-lo, a vida e os seus imbroglios são, para cada um, uma coisa diferente e o esforço pessoal vai inevitavelmente  na direcção das coisas fazerem sentido para o próprio.  No caso particular das nossas vulnerabilidades, o drama adensa-se.

Michel Cheval, ON THE WAY OF DESTINY
Soube recentemente do caso de uma suposta mecenas que, vinda de longe, iria salvar meio mundo das dificuldades da vida e financiar n projectos, imbuídos de espiritualidade.  Pouco a pouco, várias pessoas com dificuldades económicas e sonhos pessoais de avanço da consciência,  acercaram-se à dita mecenas na expectativa da chegada da prometida ajuda.
De algum modo, as suas vidas ficaram em suspenso, cativas desse sonho que lhes criava novos horizontes e lhes permitia respirar a esperança. Ocorreu um interstício de alívio entre a dura realidade e a projecção  do sonho realizado ou, pelo menos, em marcha. Um pouco como quando jogamos no euromilhões com uma fé cega e planeamos durante dias o que vamos fazer com tal fortuna – os problemas reais tornam-se inexistentes ante a avalanche da riqueza e, no no écran interno, surge todo o tipo de materializações, inacessíveis até então.
Pois, como no caso do euromilhões e protelada de mês para mês, a ajuda da mecenas não chegou. O balão perdeu o ar e os dias recuperaram a sua patine real.

Parece que a falsa benfeitora poderá padecer de algum distúrbio: megalomania, síndrome de salvatore mundi ou outras coisas aparentadas. Pouco importa. O que conta aqui é tentar compreender o mecanismo  interior que leva pessoas inteligentes, bem intencionadas e com projectos muitas vezes válidos a transferirem, ainda que temporariamente, a possibilidade de realização dos mesmos para uma terceira pessoa que nunca viram, da qual nada sabem a não ser a máscara apresentada pela net. Quanto a mim, isto prende-se com um problema universal – por via das nossas vulnerabilidades, acreditamos no que nos convem, naquilo que mitiga a nossa dor, no abraço que envolve a nossa carência, no falso trampolim quântico para a concretização dos nossos sonhos e que nos é prometido a troco de nada.

Não defendo que o chamado milagre não exista. Milagre entendido como o transcender das leis conhecidas da vida e da matéria. O mecanismo que o acciona, contudo, prende-se muito mais com o poder pessoal de cada um, a sua capacidade para  nutrir o sonho mantendo-se enraizado na Terra onde se manifesta e a lucidez necessária para descartar o ilusório.

A vida tem vontade própria e nós somos os seus agentes.

Mariana Inverno, NOTAS À SOMBRA DOS TEMPOS

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

AGONIAS



Ter hoje apenas ecos da força estranha que um dia, avassaladora, me percorreu as células, as físicas e as outras, e me ligou ao coração da vida…



Passaram luas sobre luas, o tempo cavou sulcos fundos na pele da alma da gente, restaram folhas ensanguentadas à deriva no arco maior dos sonhos incompletos, do canto que se não fez ouvir…

Quem me poderá levar para além da minha dor, senão eu mesma? Quem irá desmascarar as transferências, as projecções, as dependências, o amar sobretudo o amor que outrém sente por nós?

Quem resgatará a tua alma, quando o portal se abrir e os mil coros do mundo encoberto  te lembrarem a grandeza que mantiveste velada, porque a prova parece ter ido longe demais?

Papéis inexactos, entradas em cena fora do tempo adequado, o destino titubeia palavras imprecisas no quente vento estival, somos náufragos de um barco que um dia partiu enlouquecido de amor, mas de casco já furado,,,

Entrar no vazio com coragem, embora o chão nos escape e a tentação de olhar para trás  lance fogos fátuos na escuridão dos equívocos e dos arrependimentos…

Não há nada à nossa espera senão aquilo que já somos, súmula do que vivemos ou não vivemos, pássaros nocturnos de asa quebrada, vulneráveis no ar e em terra, filhos de um quase, em breve só memória…
Mas tu és quem eu sei que és. Talvez que eu não seja quem dizes eu ser.
Tempo da verdade.

Mariana Inverno, NOTAS À SOMBRA DOS TEMPOS

Litografia: Montserrat Gudiol

sábado, 13 de junho de 2015

A LINGUAGEM DAS FLORES





Sweet flowers alone can say what passion fears revealing.
THOMAS HOOD (1799-1845)

Há dias, um conhecido intelectual da nossa praça, meu amigável conhecido em tempos,  comentava publicamente que as flores o inquietam porque não comunicam.  Acho que não tinha ouvido nunca alguém dizer tal coisa, pelo que retive a afirmação e fiquei eu, por minha vez, algo inquieta, a reflectir sobre a questão.
Se há companhia que me conforte na densidade em que nos movemos, é com certeza a das flores e a do reino vegetal no seu todo. Talvez porque estavam no planeta muito antes da minha espécie o habitar e são com certeza repositório de uma sabedoria que estou longe de possuir. Firmemente enraizadas na terra-mãe, as plantas e as árvores erguem-se para o cosmos, convivem corajosamente com os elementos e povoam as nossas vidas de cor, graça , senhoras de uma estética incomparável e, na  nossa cultura,  acompanhantes inseparáveis de momentos importantes das nossas vidas. Casamentos, funerais,
nascimentos, namoros, agradecimentos de toda a ordem. Nenhum evento social as dispensa. Eu também não.
Há dias, comovi-me, ao deparar-me com uma avenida inteira de jacarandás floridos a erguerem aos céus a mancha intensamente azul da suas flores com que atapetavam também o caminho por onde eu passava. Belo, sem dúvida, mas vá-se lá saber a profunda e misteriosa razão para as minhas lágrimas.

Preciso da companhia das flores no dia a dia, em cada momento, a sua presença luxuriante e em profusão nas casas que habito e no jardim dá-me confiança e empresta ao meu ambiente algo de vital que me faz sentir rica e abundante, no sentido mais puro que a expressão possa ter. Recurso emocional, portadoras de uma linguagem simbólica complementar das minhas palavras e dos meus actos, as flores, desde sempre presents nas mitologias e nas relgiões, tornaram-se uma extensão do que aqui e agora manifesto. Quando duas mulheres amadas faleceram, encontrei alívio e conforto espiritual enchendo o caixão de rosas, e foi com uma que acariciei pela última vez o rosto sem vida da minha amada Mãe, momentos antes do féretro ser depositado na sua última morada. Ocorreu nesse instante um poderoso e indizível mistério, um amplexo de amor que nada poderá jamais quebrar.
Com flores digo muito do que as palavras não alcançam. Isso vem acontecendo desde há milhares de anos e tal já ressalta no celebrado “Cântico dos Cânticos”. Também Shakespeare conferiu um significado emblemático às flores  na obra-prima Hamlet, Prince of Denmark, pois a heroína Ofélia refere o significado simbólico de várias flores.
Esta linguagem, também conhecida como floriografia, foi mais tarde desenvolvida e cultivada pelos vitorianos, após ter sido trazida da luz de Constantinopla por Lady Mary Wortley Montagu, em princípios do século XVIII.*
Assim, é razoavelmente bem conhecido o simbolismo das flores e como ele nos assiste nos nossos esforços de comunicação.
Creio, contudo, que o que inquieta e intriga o meu amigo é a aparente inacessibilidade de uma linguagem poderosa, existente a níveis vibratórios que a sensibilidade pode reconhecer mas que a razão não consegue explicar. É esse o caso de muita coisa na nossa existência. No das flores, fomos associando a cor e características a sentimentos humanos e criámos toda uma correspondência.
Algo me diz, contudo, que a linguagem encriptada das pantas é outra…
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* A primeira obra publicada dedicada às flores parece ter sido o Dictionnaire du language des fleurs, de joseph hammer-purgstall, em 1809, mas a mais antiga e obra de referência sobre o tema é La langage des Fleurs (1819)  de Madame Charlotte de la Tour, pseudónimo de Louise Cortambert.

Quadros: GEORGIA O'KEEFE

sábado, 6 de junho de 2015

EM BUSCA DA DEUSA


Há qualquer coisa de essencial que se perdeu no mundo em que vivo. Algo que vem do lado feminino da vida e que a nossa cultura de orientação patriarcal barrou, empurrando esses aspectos para níveis recônditos do ser.
Penso nestes coisas enquanto olho, num livro companheiro da minha insónia, figurinhas pré-micénicas da deusa datadas de cerca de dois milénios A.C. Vêm-me à memória a imagem da “Vènus de Willendorf”, a representação em escultura mais antiga que se conhece do ser feminino, encontrada numa caverna na Áustria e que acabou por ser datada de cerca de 24.000 A.C.  O rotundo dos corpos, as curvas acentuadas das ancas e das mamas circulares são para mim evocativas de uma energia vital que parece actualmente perdida ou nos escapa, por via do nosso posicionamento face a nós mesmos.  Figuras reminiscentes de uma alegria erótica, um assumir frontal do instintivo e da paixão pela vida e pelo natural que hoje desconhecemos. Em sua substituição, emergiram a promiscuidade sexual e o artificialismo do normótico .

A questão prende-se com o processo puramente mental que dirige as nossas vidas, em aceleração crescente e muito suadas. Se há quatro ou  vinte e quatro milénios atrás, uma antepassada, distante de mim no tempo é certo, mas figurante na mesma linhagem, segurava nas mãos uma destas figurinhas e nela colhia inspiração e segurança para assumir as suas facetas de fertilidade, alegria criativa, sensualidade e erotismo, o que foi que me aconteceu a mim? Onde se esconde, na minha vida de agora, essa pulsão natural, plataforma para um pleno gozo da existência e da sua inerente vitalidade? Para que níveis velados do ser escorregou o lado mais esplendoroso do meu ser feminino?

Identifico laivos desse aspecto no amor que sinto pela beleza e pela arte, no empenho que ponho na estética e em certos cuidados pessoais, na abrangência do calor humano que me habita, na sincera e consequente solidariedade para com o sofrimento alheio, no apelo que as flores e a natureza em geral exercem sobre mim. Mas há um elemento profundo de ligação entre todos esses factores que este mundo não me permite assumir, pois o primado da racionalidade e da norma sobrepôs-se ao do sentir com as conhecidas e desastrosas consequências  de falta de harmonia e do culto da vida interior, sentimento de vazio e ausência de sentido transcendente na caminhada.

Olho com ternura a figurinha que a minha antepassada venerava e uma parte de mim sabe, não sem alguma pena, que a recuperaçao desse estado é praticamente inviável. Estamos num mundo em acelerada mudança e inovação tecnológica, é quase impossível não perder o fio à meada, com a avalanche de informação, os imperativos da sobrevivência e o empestamento da vida a muitos níveis.

Mas, seja qual for a direcção que o mundo tomar,  preciso de me lembrar que recordo veladamente algo perdido em mim, algo que já não sei fazer bem e que a minha consciência me dita que não me conforme, que busque, com quantas forças eu tenha, esse canto perdido, essa inebriante dança dos sentidos, afinal a pureza da sensualidade ao serviço do espírito.


domingo, 31 de maio de 2015

IN TRANSIT


Não me contem histórias de encantar, agora que ajoelhada ante o momento inglório, revolvo a terra com mãos trémulas  em busca de um húmus milagroso que fertilize  e assegure o meu passo na dureza dos dias.
Não me falem de luzes, céus azuis, amores diáfanos e da Deusa. Eu cavalgo  no sopro infernal do esquecimento e da cercania da Companheira certa e um plasma de dor calada fixa-me no cenário insuportável da destruição progressiva.
Poucas coisas fazem sentido na lentidão dos dias acelerados, o cerco aperta-se, mas todas as noites tento encontrar, no respirar solitário da insónia, uma força nova para prosseguir.

Como foi que a vida decorreu, entre montes e vales, tudo num torvelinho e, de repente, deixou de acontecer?
Um ocaso feito de  repeticões entediantes mas seguras aspergem os teus dias com o anúncio adiado desse final, que desejo e temo, que antevejo e repudio mas que o senso comum aponta como libertador.

Será?

Aqui na cidade grande, a tua cidade, só saio por dever. Recolho-me e encolho-me,  porque as esquinas estão ainda povoadas dos teus olhos ávidos de vida e aventura, e as pedras e as árvores guardam a memória dos nosso passos, dos nossos voos excêntricos pela vida fora, sustentados por uma cumplicidade temerária, sobrevivente a mil quedas. Não me atrevo ainda a desfrutar de novo dos tesouros que esta cidade  me oferece, dói-me que já os não possas gozar, um luto antecipado e premonitório de um fim certo, adiado por mil cuidados que já não sei se desejáveis ou excessivos.

Na hora de me ir deste plano, vou querer que me deixem só na neblina da minha transição, sem permanências forçadas. Mas isso sou eu, totalmente responsável pela minha vida e espero que ainda lúcida nessa hora. Contigo é diferente, já se apagaram  quase permanentemente as luzes admiráveis da tua inteligência, os impulsos dementes que te acossam são rugas dolorosas cruelmente infligidas à minha alma.
Ainda assim, busco a força para iluminar  a vida em teu redor, com quê não sei bem, mas vou experimentando.
Sou a guardiã das memórias.
Sossega. Eu estou aqui!
Hei-de enfrentar os pássaros negros que me sobrevoam e  aprender pela exaustão a olhar de frente a realidade do que resta da tua vida. De rojos, extraio das horas um ténue e transcendente fio de esperança, um fio tecido pela lealdade que devemos sempre aos nossos companheiros de rota.

In transit, um pouco mais…

Londres, 31 de Maio de 2015

domingo, 24 de maio de 2015

IMPULSO CULTURAL FASCISTA




There is a fascist cultural impulse that’s voracious.

SUSAN SONTAG



O mundo está a mudar tornou-se talvez, nos nossos dias, a mais banal das afirmações. Ninguém parece duvidar de tal facto e são óbvios a incerteza e o pessimismo subjacentes à expressão.

Ainda assim, convem tentar compreender os meandros da vida que levamos e como as transformações que ocorrem, dentro e fora de nós, parecem orquestradas por mão invisível  e fugir quase por completo ao nosso controle.

A questão prende-se, a meu ver, com a falta de consciência das grandes massas relativamente a tudo o que não tenha a ver com os problemas de sobrevivência imediata e de satisfação superficial das necessidades básicas a par do aproveitamento que daí decorre pelas forças subterrâneas activas no processo de manipulação e controle das pessoas.

Ocupados como andamos com a luta pela sobrevivência, iludidos pelos avanços tecnológicos, temos ido relegando para segundo plano dois aspectos fundamentais para o exercício da nossa soberania: a urgência numa educação de qualidade através da qual o lado criativo do ser humano possa revelar-se em plenitude; e o desenvolvimento espiritual, sustentáculo seguro da verdadeira expansão da consciência.

Sem que déssemos por isso, instalou-se no mundo aquilo que Susan Sontag apelida de impulso cultural fascista, ao qual corresponde um esvaziamento de ideais, causas, princípios e sobretudo dos aspectos transcendentes da nossa breve residência na Terra. A vida colectiva passou a reger-se pela sobrevalorização das aparências, do dinheiro e do falso poder  que este confere a quem o detem.

Destituídas dos valores que nutrem a expansão da consciência, assaltadas todos os dias por uma cultura televisiva comandada pela publicidade – com óbvios motivos ulteriores  - “servidas” pela crescente inovação tecnológica, esgotadas pela incapacidade de se concentrarem nas questões essenciais do ser profundo, as pessoas estrebucham à superfície de uma vida sem sentido, manietadas como se encontram no único factor que as poderia salvar: a criatividade ao serviço do Espírito.

A situação colectiva tem assim evoluído de modo ideal para que normas de vida arbritrárias, restritivas da liberdade individual e altamente punitivas para os dissidentes se implementem com sucesso no seio das sociedades. Sem consciência e sem capacidade e coragem para questionar o que lhe é imposto de fora para dentro, o ser humano legitima a coerção e torna-se, desse modo, patética marioneta, cadaver adiado, vago e triste simulacro de vida que o campo de forças de comando activo no planeta gere a seu belo prazer. As pessoas mais bem sucedidas guiam-se por estereotipos e clichés com os quais  povoam os palcos da vida, ao som do lamentável ruído do seu delirio.

Processo patético, inconsciente, no fundo um estertor de morte em vida, já que a voz da alma não se faz ouvir e a sua missão, por conseguinte, não se cumpre.


Este estado de coisas tem de ser objecto cuidado da nossa reflexão e da nossa vigilância e acção diárias, se é que ainda ambicionamos conhecer o Novo Dia.