There is a fascist
cultural impulse that’s voracious.
SUSAN SONTAG
O mundo está a mudar tornou-se talvez, nos nossos dias, a mais banal das afirmações. Ninguém
parece duvidar de tal facto e são óbvios a incerteza e o pessimismo subjacentes
à expressão.
Ainda assim, convem tentar
compreender os meandros da vida que levamos e como as transformações que
ocorrem, dentro e fora de nós, parecem orquestradas por mão invisível e fugir quase por completo ao nosso controle.
A questão prende-se, a meu ver, com
a falta de consciência das grandes massas relativamente a tudo o que não tenha
a ver com os problemas de sobrevivência imediata e de satisfação superficial
das necessidades básicas a par do aproveitamento que daí decorre pelas forças subterrâneas
activas no processo de manipulação e controle das pessoas.
Ocupados como andamos com a luta
pela sobrevivência, iludidos pelos avanços tecnológicos, temos ido relegando
para segundo plano dois aspectos fundamentais para o exercício da nossa soberania:
a urgência numa educação de qualidade através da qual o lado criativo do ser
humano possa revelar-se em plenitude; e o desenvolvimento espiritual,
sustentáculo seguro da verdadeira expansão da consciência.
Sem que déssemos por isso,
instalou-se no mundo aquilo que Susan Sontag apelida de impulso cultural
fascista, ao qual corresponde um esvaziamento de ideais, causas, princípios e
sobretudo dos aspectos transcendentes da nossa breve residência na Terra. A
vida colectiva passou a reger-se pela sobrevalorização das aparências, do
dinheiro e do falso poder que este
confere a quem o detem.
Destituídas dos valores que nutrem a
expansão da consciência, assaltadas todos os dias por uma cultura televisiva
comandada pela publicidade – com óbvios motivos ulteriores - “servidas” pela crescente inovação
tecnológica, esgotadas pela incapacidade de se concentrarem nas questões
essenciais do ser profundo, as pessoas estrebucham à superfície de uma vida sem
sentido, manietadas como se encontram no único factor que as poderia salvar: a
criatividade ao serviço do Espírito.
A situação colectiva tem assim
evoluído de modo ideal para que normas de vida arbritrárias, restritivas da
liberdade individual e altamente punitivas para os dissidentes se implementem
com sucesso no seio das sociedades. Sem consciência e sem capacidade e coragem
para questionar o que lhe é imposto de fora para dentro, o ser humano legitima a coerção e torna-se, desse modo,
patética marioneta, cadaver adiado,
vago e triste simulacro de vida que o campo de forças de comando activo no
planeta gere a seu belo prazer. As pessoas mais bem sucedidas guiam-se por
estereotipos e clichés com os quais
povoam os palcos da vida, ao som do lamentável ruído do seu delirio.
Processo patético, inconsciente, no
fundo um estertor de morte em vida, já que a voz da alma não se faz ouvir e a
sua missão, por conseguinte, não se cumpre.
Este estado de coisas tem de ser objecto cuidado da nossa reflexão e da nossa vigilância e acção diárias, se é que ainda ambicionamos conhecer o Novo Dia.









