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sábado, 18 de outubro de 2014

O HOMEM ENSOMBRADO



Mas a sombra se o sol está longe, excede a figura.

A sombra quando o sol está no zênite é muito pequenina

 e toda se vos mete debaixo dos pés.

Mas quando o sol está no Oriente ou no

ocaso, essa sombra se estende tão imensamente, que

mal cabe dentro do horizonte.

(Padre Antônio Vieira -Sermões Pregados no Brasil)



Conheci-o desde sempre, pois não me lembro de mim antes do seu nascimento. Enquanto crescia, foi-se revelando a tendência para a complicação e para o detalhe, a alma feminina sempre a buscar consolo e referências junto da mãe. Também a natureza exploratória, aventureira e uma forma de rir alto, com gargalhadas sonoras e frescas quando algo o tocava pela positiva. Guardava no âmago um coração doce  e ternurento que cedo foi cobrindo com capas protectoras reforçadas.
Bonito e inteligente, vulnerável contudo aos grandes embates emocionais, cedo as dores abriram brechas em níveis mais subtis do ser e por elas se esgueiraram forças alheias que tomou como suas. Começou a sentir coisas estranhas, para além do que a consciência poderia explicar, e tomou-as como naturais.
Tornou-se assim, com o passar dos anos, um homem ensombrado, pois entre si e o sol da vida se posicionaram , com frequência crescente, corpos opacos que o privavam da luz.

O tenro coração, ocultado sob densas capas, bem o tentava impulsionar, mas a luta era desigual pois uma certa arrogância de carácter, resquício negativo do que fora a sua força na juventude, fortalecia as sombras invasivas que o habitavam e lhe manipulavam a mente.

Fomos tão próximos, um dia, sangue do mesmo sangue, sonhos bordados num tempo de aventura e idealismo,  afecto transbordante nos corações dourados de inocência e dádiva.
Passou tudo, resta só a ausência, a aparente indiferença. Ambos receamos as palavras, eu por não saber por quê, ele por achar que sabe bem demais. Ou será o contrário de algum modo, quem sabe.
Sinto que nos perdemos um do outro, que já nada pode salvar o nosso laço, pois a força solar do amor não consegue encontrar expressão no pouco tempo que nos resta na Terra.

Sinto que a Sombra venceu e se estende, ameaçadora, para além do horizonte.

Não importa a explicação. Só o que não teve lugar.
Doiem fundo as lágrimas que não deixo que ninguém veja, afasto-me esvaziada pelo que não pode ser…

Às vezes é preciso reconhecer que a desistência é o único caminho, pelo menos por agora, nesta já longa manifestação na Terra.

De uma coisa estou certa: um de nós irá ao funeral do outro.

sábado, 4 de outubro de 2014

CONVERSAS COM ANIMAIS



 Assisti com gosto ao lançamento do livro “Conversas com Animais” da Marta Sofia Guerreiro, uma médica veterinária “que comunica com os animais e cura os seus donos”. Na pequena cidade de Reguengos de Monsaraz, no ainda mais pequeno centro de apoio educativo que tenta promover novas referências para a educação das gentes. Foi um encontro muito agradável, de vinte e tantas pessoas. A energia de compreensão e amor aos animais foi-se adensando à medida que a sessão, moderada por Felippa Lobato, avançava.

A jovem veterinária falou com simplicidade e em tom amoroso da sua relação com os animais, o muito que lhe ensinam todos os dias e da emocionante dedicação que a maioria deles sente pelos seus donos (cuidadores), estando dispostos a dar a vida por eles.
Seguiu-se a tertúlia, troca de experiências pessoais, gente comovida pela partida recente ou distante de um animal de estimação. Num país onde as audiências são em geral apáticas, fiz e ouvi testemunhos diversos, perguntas, o ênfase sempre posto no respeito e amor com que os animais devem ser tratados e a nossa grande ignorância e falta de reconhecimento ainda pelo papel que estes nossos companheiros de rota desempenham durante a residência conjunta na Terra.

É certo que já vão surgindo, entre os humanos terrestres, núcleos de consciência mais elevada em relação aos animais, mas sinto que ainda nos falta muito colectivamente para um padrão comportamental aceitável nesta área. Ele há-de, contudo, surgir e ganhar força em definitivo com a energia dos novos paradigmas de um Mundo Novo assente nos valores do feminino da alma.

Os factos relatados passaram-se,,como disse, num pequeno centro educativo duma cidade do interior. O produto da venda do livro destina-se integralmente a financiar cuidados com os animais.

A bem de uma Consciência Maior.

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Memória de Einstein (em jeito de poema)
Para os meus netos e todas as crianças do mundo

o meu  cão chamava-se Einstein  
era um animal belo e imponente  
longo pelo louro focinho pontiagudo 
olhos de mel naturalmente maquilhados

o meu cão destilava amor   
o meu cão era a canificação do amor 
até quando ladrava  
amava as crianças e amava-nos a todos 
não largava a Vovó
que o apaparicava às escondidas 
comida sempre fresquinha nada de latas

um dia o meu cão fugiu  
pedia-lhe o corpo o instinto 
andou milhas nas praias próximas 
sabe-se lá em que andanças se meteu 

gritei por ele nas ruas da vila 
ecoava o seu nome de sábio
na minha voz inquieta 
pelas ruas  vielas  à entrada dos prédios 
pelos terrenos baldios  postos de gasolina

nada

um dia voltou pela manhã 
montinho de areia sobre o nariz afilado 
corpo exausto  olhar culpado  
dormiu dois dias a fio  
e nunca mais fugiu

viveu muitos anos  rei do nosso jardim 
até que doente e velhinho 
a uivar de dor noites sem fim 
decidimos que partisse

despediu-se de todos 
arrastado o corpo enfermo
até cada um
o focinho longo e quente
encostado às nossas lágrimas
pela última vez

a memória do meu cão
eleva-me a consciência  

Einstein sumptuosa dádiva  
companheiro incomparável 
não te soubemos reconhecer
devidamente
no teu dia próprio)e instein os reconhecer devidamente no dia prmo atm  decidimos que partissecinho pontiagudo  olhos de mel naturalmente maquilha





sábado, 13 de setembro de 2014

O FUTURO DAS NAÇÕES

Acredito cada vez mais que o futuro da humanidade terrestre, para ser sustentável e representar verdadeiro progresso para a mesma, deverá construir-se sobre as pequenas comunidades, que tenham, no máximo, algumas dezenas de milhares de habitantes.
Aglomerados de pessoas que se cumprimentam quando se encontram na rua ou no elevador, que têm brio e empenho no trabalho e no esforço comum de evolução, que cuidam do seu espaço e possuem por conseguinte um sentido de comunidade.

Lugares onde a existência decorre ainda a uma escala humana e o ser não se sente constantemente acossado e a ter de correr para não perder sabe-se lá o quê.


Acabo de ler na revista “New Scientist” um artigo que, de algum modo, creio estar ligado a esta percepção, pois adianta que as nações, tal como as conhecemos, podem estar a chegar ao seu fim e que estaremos possivelmente, num futuro próximo, a braços com um post-nacionalismo de acordo com o qual o poder estará porventura mais localizado em certas cidades ou centros, tal como na Idade Média. Neste tipo de solução, há obviamente o perigo do ressurgimento de nacionalismos locais exacerbados, o que é conducente a situações de belicosidade indesejável.

Tornou-se porém claro e incontornável que a política, tal como é praticada na actualidade, se despiu de conteúdos válidos e os grandes poderes mundiais, como a América e a União Europeia, não dispoem de uma estratégia coerente e de longo prazo, indicativa para os cidadãos de um caminho futuro com sentido e causa.

A União Europeia, por exemplo, tem tentado por todos os meios transcender a cultura, as tradições e a opinião pública dos seus países-membro e impor, de fora para dentro, uma ordem europeia global que a maioria dos europeus desaprova.

Sucedem-se conflitos por toda a parte. Os catalães e os escoceses procuram, cada um por seu lado e momento próprios, separar-se da respectiva nação-mãe, os jihadistas fundaram o Estado Islâmico e a Rússia, aproveitando-se da onda, actua na Ucrânia sob o falso pretexto de proteger um grupo: o dos russos residentes naquele país.

Será bom lembrar que antes do século XVIII não havia propriamente nações. O passaporte ainda não havia sido inventado e as fronteiras, tal como hoje as conhecemos, não existiam. As referências para os raros viajantes, na sua maioria mercadores ou membros das classes nobres, eram os grandes centros nucleares como Florença, Veneza ou Hamburgo. A era das nações e a ligação emocional a um estado nação começou com a Revolução Francesa.

Dada a incapacidade das grandes nações atenderem hoje de forma satisfatória os problemas dos seus povos, põe-se a questão, cada vez mais acesa de um “retorno a casa”, em que as comunidades sejam formadas por pessoas que se reconheçam entre si pela via étnica e cultural e por propósitos espirituais comuns.

A história está pejada de experimentalismos, é essa a natureza da nossa passagem pelo planeta. Avançamos e retrocedemos através de experiências e provas várias e estamos muito provavelmente sujeitos a impulsos cósmicos que a nossa consciência não abarca.

Mas estou em crer que, para que um novo mapa mundi funcionasse de forma aceitável à luz deste novo conceito de agrupamento, seria necessário que a consciência colectiva  subisse uma oitava, deixando definitivamente para trás os factores de corrupção e ganância que estão na origem de tanta miséria e infelicidade para a grande maioria dos humanos terrestres.

O fim das nações será por agora um conceito utópico mas provavelmente de inevitável concretização, uma vez esgotado o modelo politico-económico vigente e…a paciência das gentes.
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NOTA: Mapas acima e por ordem de apresentação.
Mapa Europa 3.500AC, Mapa Europa ano 1000, Mapa Europa Século XXI

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

REGRESSO À INTERIORIDADE


A interioridade é um vasto campo povoado de flores húmidas e desconhecidas e que em si mesma contem o pressuposto daquilo a que chamamos verdade.
Habita-nos, como repositório silencioso de um leque infinito de caminhos em direcção a nós mesmos

As chagas da ignorância e do descuido, as máscaras sociais e o continuado e desconexo ruído exterior impedem-nos a vera entrada no mundo gerador do movimento ascensional.

Não posso julgar a interioridade a partir do que é exterior, impossível proceder à releitura da vida à luz do olhar que se move de fora para dentro.

Assim, ser que me escutas, contempla de novo e outra vez a árvore, a água corrente na ribeirinha, o olhar da criança perplexa. Não penses nada, não queiras coisa alguma, senão percepcionar com os sentidos de dentro a latência da vibração. Confia no que te é interior pois assim serás capaz de transpor os limites da ilusão e reinteriorizar as dimensões da alma.
Segue com fervor os impulsos que daí nasçam pois é fácil que se esvaiam na inércia.

Sente o sopro que passa, os sinuosos contornos do que aparentas desconhecer, empenha-te - corpo, alma, coração, tudo – na educação da subjectividade. Conduz, portanto, para fora aquilo que está dentro,  alheia ao julgamento alheio. Deste modo se nutre a consciência holística que volta a juntar o que o mundo dito real separou.

Regressa à casa que te é própria, rega num gesto amoroso os secretos jardins que alindam as tuas múltiplas caminhadas, permite-te a misteriosa claridade das estrelas,

Tudo isso é o que mais te desejo
Com amor.


domingo, 31 de agosto de 2014

A ÉTICA É UMA COISA A FINGIR ou COMO NOS TORNÁMOS COBRADORES DE BORLA AO SERVIÇO DO ESTADO

De repente é como se tivesse mudado de câmara. De ares, de tempo. Deixaram as coisas habituais de fazer sentido e quase nem me lembro de quem fui.
Parece que tudo deixou de obedecer a planos, o peso do aleatório cresce sem cessar e a incerteza inerente à vida, avivada e generalizada, propaga-se como doença contagiosa pelos meus dias. Os meus e os de toda a gente com quem partilho esta estada na Terra. Parece que tudo pode acontecer e que tudo, mesmo o aviltante, tem direito a ser legitimado.

A partir da última parte do século passado, as religiões e as ideologias começaram a desabar e, em seu lugar, tem-se vindo a instalar uma subterrânea incredulidade (e passividade) face à degeneração política, aos desequilíbrios económicos e sociais e aquele fundo cinzento e triste, resultado do desaparecimento gradual dos benefícios do estado social que tanto sangue, suor e lágrimas custou a muitos de nós e sobretudo aos que nos precederam.
A ética é uma coisa a fingir, um simulacro-engana-tolos, e a todas as prioridades se impõe a estatística e o cifrão.

Há dias recebi uma notificação registada informando-me de que uma renda que a minha empresa paga ao senhorio estava penhorada, que a empresa passava  a ser fiel depositária dos dinheiros a partir daí, tinha x dias para responder ou era considerada consentânea da situação contractual invocada e que tinha por conseguinte a obrigação de, no portal das finanças, procurar  a forma de liquidar o pagamento a favor da autoridade estatal. Decorria esta situação do facto de o meu senhorio não ter ainda pago as custas de um processo que contra si decorre.


Perturbada com tal mensagem, pus-me a pensar no total absurdo e imoralidade da mesma.
Em primeiro lugar, eu não sou nem desejo ser cobradora do estado (de algum modo, isto traz-me à memória outros tempos politicos, em que não se confiava  nem na própria sombra).
Em segundo lugar, não quero entrar, ainda por cima à força, na vida privada do meu senhorio, ficar a saber das suas dívidas pessoais, pois isso só a ele lhe diz respeito e faz parte da sua privacidade.
Depois, não tenho que ocupar a minha sobrecarregada cabeça nem gastar o meu precioso tempo a executar tarefas que cabem ao estado e pelas quais não sou paga. Pior ainda, posso vir a ser penalizada se não cumprir à letra e atempadamente com as instruções recebidas.

Desloquei-me, por consequência, a uma repartição de finanças a fim de apresentar o meu protesto. A funcionária que me atendeu deu duas vezes a volta à notificação e, com um olhar meio perdido, aconselhou-me a entregar ao meu contabilista para que resolvesse. Disse-lhe que era eu a responsável maxima da empresa e que queria compreender  o porquê de uma mensagem tão desconexa. Levou-me à chefe, amável e um pouco mais bem informada. Convidou-me a sentar e, virando o écran na minha direcção, localizou o assunto. Fiquei a saber que o meu senhorio não pagou o IMI das suas propriedades e que, como tal, está a decorrer um processo contra ele. Que este montante se refere às custas (o processo iniciou-se em Julho e estamos em Agosto!!) e que a empresa tem de tirar da renda o que ele não pagou e entregá-lo ao estado.
Reiterei o meu protesto, não me compete saber o que o meu senhorio paga ou deixa de pagar, muito menos ser cobradora à borla das suas dívidas. Olhar condescendente: “É a lei, minha senhora!”

Não, minha senhora, não é a lei, é a interpretação abusiva da mesma, é o aproveitamento da ignorância das pessoas, da passividade instalada, da nossa falta de tempo e de meios para nos queixarmos a instâncias mais altas, de lutarmos nos tribunais pelos nossos direitos, de exigirmos tribunais isentos e imparciais.

Como todos os outros cidadãos, e não obstante todos os meus protestos, também eu vou “cumprir”, porque estou tão metida na teia como todos os outros e não disponho de mais tempo e energia para lutar por uma alteração que jamais viria com a rapidez  desejada.

Mas deixo aqui o testemunho de que me sinto em traição aos meus princípios fundamentais e que sou cúmplice consciente  de comportamentos que abomino.
Contribuição frouxa, bem sei, para um problema magno e que alastra todos os dias. Tristemente, não me sinto capaz de fazer mais nada, de momento.













sexta-feira, 8 de agosto de 2014

PELO VALE DAS SOMBRAS


 Atravessamos o vale das sombras, eu e ele, de joelhos percorremos as veredas onde a vida já não corre e por onde chegaremos ao unico possível caminho enlutado do futuro.
Sei agora que já não há mais nada para salvar, a vida e a morte movem-se abraçadas e as trevas adensam-se.

Vão-se apagando todas as luzes  no teu cérebro de circuitos queimados, uma a uma esfumam-se, reminiscentes de poema moribundo, como campo de flores que tristemente chega ao fim.
A vida já não corre, o compasso de espera é um insuportável monumento ao absurdo, eu e tu ancorados na agonia do sem sentido.

Contudo, há que prosseguir. As horas soam num cântico mudo porque tudo é tão triste, sabias tantas coisas, alcançavas num ápice um sentido oculto da vida  e agoras perdes-te desnorteado, entre a patetice e a insanidade, viajante involuntário de um labirinto cuja existência determinaste com as tuas opções.
Os meus olhos seguem o rastro dos passos que não deste em prol da tua essência, os meus olhos-espelho de um gigantesco lago lacrimal, requiem de sonhos derrubados pela conspiração da vida que se não cumpriu.

Estou aqui, sou contigo, por opção. Poderia entregar-te a cuidados alheios, mas quem seria capaz de entender a súplica estrangulada, ambivalente, que o teu ser emite, a pedir vida e a pedir morte, numa agonia prolongada, onde conseguir o afecto das entranhas que o teu ser requer para uma pequena acalmia? Quem passaria a mão calorosa pela tua fronte transpirada, os olhos baços a recuarem para dentro de uma coisa que não sei definir mas que me amedronta?
Perante a desintegração, quisera ser muito mais mulher alquímica, atrair magicamente a vibração dos céus para o teu coração prostrado de inquietudes, restablecer a ordem nessa mente à beira do abismo, embarcar em mais uma das mil viagens que juntos fizemos durante a vida, mas desta vez  ao núcleo do teu ser essencial.  Suspeito, contudo, que esses são impulsos românticos, ancorados numa crença ultrapassada de varinhas mágicas e anjos salvadores.

Tudo quanto posso é acompanhar-te humildemente, aprendiza à força da minha própria imperfeição, da patética insuficiência do que consigo ser ante o terror dos precipícios que te assaltam. E sigo-te e amparo-te a sentir-me na perigosa linha da exaustão profunda, sem saber qual a cor da minha coragem e se é coragem, no final das contas.
Até que tudo se apague e te tranformes em cinza, húmus, depois em ramo, outra vez em flor efémera…

Quadro: Monserrat Gudiol 

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

O CONFLITO


Evitar conflitos tornou-se uma das minhas prioridades comportamentais.

Tenho uma personalidade forte e propensa a reacções emotivas, por isso foi necessário alcançar uma certa maturidade antes de integrar essa lição fundamental.

O potencial para o conflito parece ser, infelizmente, consubstancial à própria vida, pois em todos os caminhos se apresentam continuadamente escolhas entre situações antagónicas ou mesmo incompatíveis.  As mesmas podem ser exteriores aos indivíduos ou habitarem o seu interior de forma conflituosa, representando nesse caso a ocorrência de impulsos vários dentro do ser, numa oposição de forças cuja intensidade se equivale. Estes processos geram uma poderosa energia que é, frequentemente mal usada.
Sendo em princípio inevitável, torna-se urgente que aprendamos a gerir o conflito, enfrentando-o. Do sucesso ou do fracasso que obtenhamos nesse processo dependerá o futuro.  Dado que estamos a lidar com forças em tensão, olhar de frente um conflito implica a capacidade de compreender que as crenças pessoais são o cenário de fundo do mundo de cada um e que representam para o mesmo a verdade. E se exigimos que isso seja aceite no que nos diz respeito, é de esperar que o mesmo se aplique ao ser ou seres do outro lado da história.


Parece-me, pois, que a estratégia para a solução passa por um distanciamento inicial do turbilhão emotivo inerente aos processos conflituosos  e que deverá passar da nossa parte por uma tentativa honesta de identificação das emoções dos outros.

Avançar por etapas no caminho da solução é um aspecto fundamental.    Em primeiro lugar, considero da maior importância separar as pessoas do conflito,  e estabelecer o grau de prioridade dos diferentes aspectos do problema. Tentar compreender o que move o outro, que crenças estão subjacentes ao seu comportamento. Aquilo que nos parece a nós natural e inofensivo pode ser, para o outro, o botão que acciona o maior dos cataclismos internos. Por muito difícil que isso se apresente ante as nossas próprias emoções e as defesas que o ego inevitavelmente constrói, impõe-se que respeitemos o sentir do outro. Isso não significa estar de acordo, deve representar simplesmente a meia-ponte que cada um de nós tem o dever moral de lançar na busca da solução. Essa atitude de aceitação da diferença no outro, nutre a sua auto-estima o que, por sua vez, contribui para aplanar o caminho.

Esperar para ver e dar tempo ao tempo são etapas  a observar no conflito, em especial nas situações mais delicadas.

É que o conflito gera uma poderosa energia, a qual nos pode ser muito útil se não perdermos o auto-controle e procurarmos encontrar soluções criativas, saídas novas para um problema que em dado momento nos pareceu inultrapassável.

Em resumo, perante a ameaçadora energia do conflito, há que parar, deixar arrefecer a lava do desentendimento, saber escutar mais do que argumentar em defesa própria, evitar terminologia agressiva e, sobretudo, acreditar na capacidade própria para ajudar a construir o túnel de saída para a luz do reequilíbrio energético.