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quarta-feira, 6 de agosto de 2014

O CONFLITO


Evitar conflitos tornou-se uma das minhas prioridades comportamentais.

Tenho uma personalidade forte e propensa a reacções emotivas, por isso foi necessário alcançar uma certa maturidade antes de integrar essa lição fundamental.

O potencial para o conflito parece ser, infelizmente, consubstancial à própria vida, pois em todos os caminhos se apresentam continuadamente escolhas entre situações antagónicas ou mesmo incompatíveis.  As mesmas podem ser exteriores aos indivíduos ou habitarem o seu interior de forma conflituosa, representando nesse caso a ocorrência de impulsos vários dentro do ser, numa oposição de forças cuja intensidade se equivale. Estes processos geram uma poderosa energia que é, frequentemente mal usada.
Sendo em princípio inevitável, torna-se urgente que aprendamos a gerir o conflito, enfrentando-o. Do sucesso ou do fracasso que obtenhamos nesse processo dependerá o futuro.  Dado que estamos a lidar com forças em tensão, olhar de frente um conflito implica a capacidade de compreender que as crenças pessoais são o cenário de fundo do mundo de cada um e que representam para o mesmo a verdade. E se exigimos que isso seja aceite no que nos diz respeito, é de esperar que o mesmo se aplique ao ser ou seres do outro lado da história.


Parece-me, pois, que a estratégia para a solução passa por um distanciamento inicial do turbilhão emotivo inerente aos processos conflituosos  e que deverá passar da nossa parte por uma tentativa honesta de identificação das emoções dos outros.

Avançar por etapas no caminho da solução é um aspecto fundamental.    Em primeiro lugar, considero da maior importância separar as pessoas do conflito,  e estabelecer o grau de prioridade dos diferentes aspectos do problema. Tentar compreender o que move o outro, que crenças estão subjacentes ao seu comportamento. Aquilo que nos parece a nós natural e inofensivo pode ser, para o outro, o botão que acciona o maior dos cataclismos internos. Por muito difícil que isso se apresente ante as nossas próprias emoções e as defesas que o ego inevitavelmente constrói, impõe-se que respeitemos o sentir do outro. Isso não significa estar de acordo, deve representar simplesmente a meia-ponte que cada um de nós tem o dever moral de lançar na busca da solução. Essa atitude de aceitação da diferença no outro, nutre a sua auto-estima o que, por sua vez, contribui para aplanar o caminho.

Esperar para ver e dar tempo ao tempo são etapas  a observar no conflito, em especial nas situações mais delicadas.

É que o conflito gera uma poderosa energia, a qual nos pode ser muito útil se não perdermos o auto-controle e procurarmos encontrar soluções criativas, saídas novas para um problema que em dado momento nos pareceu inultrapassável.

Em resumo, perante a ameaçadora energia do conflito, há que parar, deixar arrefecer a lava do desentendimento, saber escutar mais do que argumentar em defesa própria, evitar terminologia agressiva e, sobretudo, acreditar na capacidade própria para ajudar a construir o túnel de saída para a luz do reequilíbrio energético.



terça-feira, 17 de junho de 2014

DESCIDA AO ROSEIRAL



 Amparou-se trémulo no meu braço, um passinho curto atrás do outro, na tarde cansada dos calores do dia. Dissera que sim, que queria descer ao roseiral comigo, um quase sorriso a aflorar-lhe o rosto murcho, quando o convidei.
Cachos e cachos de belas rosas, semiqueimadas pelos altas temperaturas dos últimos dias, muita poda a realizar.

Ficou parado logo ao princípio da álea do jardim, estático e mudo, o olhar entre feroz e longínquo, aparentemente à escuta, à espera…

Fui falando, disse-lhe da história de cada roseira, as florações continuadas quase todo o ano, o entre grená e roxo daquela tão fragrante que mandei vir de Inglaterra.

E ele à escuta de alguma coisa, o corpo enfraquecido e magro a mal suster-se em pé, o meu cesto de verga com as rosas colhidas, a seus pés.

“Escuta este som…a paz…” disse, num murmúrio.



Escutei com ele, entre curiosa e inquieta, na tarde perfumada. Era o  zum zum das muitas abelhas, numa dança incessante sobre  um mar de lantanas brancas.

Aquele zunido de fundo reteve-o por muito tempo na mesma posição, como que desperto subitamente para qualquer coisa de fundamental, um som repetido que lhe resultava mântrico, estou certa.

Em cada ser vive um mistério único, potencilaidades e sonhos, forças e anti-forças que pouco sabemos manejar.

A memória esboroa-se-lhe, pouco retem já dos dias que passam, o processamento de dados é mínimo.

Mas a minha voz e o amor subjacente ao que lhe vou dizendo, lembram-lhe, sem que o saiba. o que parece ter esquecido. Tudo do domínio do sentir, sem raciocínios.

Aquele som…a paz…motivações  inesperadas para o ser que se apaga.
Insistiu em levar a minha cesta de rosas,  tão próprio dele esse gesto, e regressámos devagarinho.

Ainda estivemos parados frente ao salgueiro que os  filhos lhe ofereceram  num aniversário, meia dúzia de anos atrás.

Admirámos os longos braços da árvore chorona a beijar a terra, a sombra frondosa, o verde.
E o dia, que se apagava.

Quadro: Monserrat Gudiol


domingo, 25 de maio de 2014

A DOR DEBAIXO DO CHAPÉU


 Lá teve de ir.
Ao médico, (aonde nunca vai), dada a incontornável pressão das circunstâncias e dos familiares.

Foi de tarde, neste Maio de tempo inseguro, chuvas extemporâneas e até mesmo granizo, numa incongruência pegada, cachos de flores a brotarem por todo o lado.
Maria de São José chegou um pouco antes da hora, estavam ainda só dois ou três pacientes na sala de espera neutra e minimalista cuja única decoração era um girassol solitário colocado meio de esguelha numa jarra demasiado larga.
Sentou-se na poltrona mais próxima da porta, como se isso pudesse acelerar a sua saída do local, e viu de novo os emails no iPhone.
Era apenas uma consulta de rotina, tudo estaria certamente em ordem. A remissão acontecera quatro anos antes, de forma inexplicável para a medicina – sem quimio, radio, sem operações.
Às vezes abre-se dentro de nós um riso amplo e rasgado, uma janela de luz intensa e gloriosa na manhã clara do nosso contentamento, em claro desafio  às normas que nos passaram e à lógica e, como por encanto apresenta-se o inesperado, o místico cenário do milagre.
Assim acontecera com ela, alguns anos atrás, quando lhe fora diagnosticada a doença. Talvez que a São José nunca tenha acreditado que a tinha, nunca lhe tenha dado força, digamos que cantou sempre em vez de chorar e seguiu em frente. Pensava nisso agora, naquela sala de espera, sorria para dentro de qualquer coisa em si ao pensar que no próximo ano seria o ultimo check up. Livre, depois.

Entraram mais duas pessoas, um homem magro precocemente envelhecido que se afundou, solitário, num sofá junto à janela do outro lado da sala e a rapariga, jovem  e sorridente, que se sentou com uma postura elegante mas desafectada muito perto dela. Os olhos, de um verde claro e luminoso, sorriam-lhe.
Não deveria ter mais de vinte e tal anos. Alta e esbelta, vestia uns blue jeans muito apertadinhos, como agora se usa, e um casaquinho de linho rosa pálido com top a condizer. Sobre os cabelos alourados, presos atrás num mono, exibia um chapéuzinho delicioso, daqueles  que vemos nas lojas da moda e que nunca compramos pois, hoje em dia, chapéu parece só ser moda na passerelle.
A São José não conseguia tirar os olhos dele, do chapelinho. Ficava tão bem à jovem que, se ela se alheasse da indumentária, podia integrar aquele rosto e o respectivo chapéu num quadro do princípio do séculoXX, com laivos impressionistas.
A pequena sorria, dando-se certamente conta do fascínio da outra.
“Fica-lhe muito bem, tão bem que, se fosse a si, não o tirava nem para dormir” atreveu-se.
A jovem continuou a sorrir mas algo  indizível parecia ter estancado nela por momentos. A Maria de São José receou, por segundos, ter sido demasiado directa mas sentia-se à vontade, dada a dua idade, para fazer  comentários desta ordem. Além disso, desprendia-se da rapariga uma auréola de energia suave e amigável, muito cativante.
Contudo, mal sabia ela a implicação do que acabara de dizer.
“Olhe, seria realmente bom não ter de o tirar nunca…” disse, numa voz pausada e, de forma inesperada, com aquele jeito elegantemente simples que a seduzira logo, levou a mão ao chapéu,  retirou-o e virou-se lentamente de costas. Na parte superior da cabeça, uma área extensa e descoberta, onde apenas despontavam cabelos de tamanho mínimo, apresentava uma longa cicatriz.
Foram só uns segundos de silêncio, mas à São José pareceu-lhe uma eternidade até que a outra começasse a dizer alguma coisa.. Chamava-se Leonor e tinha sido operada recentemente a um tumor na cabeça. Maligno, veio a saber-se depois.

A espera pelas consultas foi longa, deu tempo para que os corações se abrissem um ao outro. Pequenas chispas de cumplicidade imperiosa cruzaram os ares, a São José sentia-se perplexa e maravilhada pela alegria de viver da Leonor, a sua aceitação serena do que lhe acontecera. Pois com a jovem não tinha havido nenhuma remissão espectacular e inexplicável, a vida não abrira  nenhuma janela transcendente para o milagre, como no seu caso. Mas fornecera-lhe um chapéu. Um chapéu elegante, rosa pálido, que lhe ficava a matar e sob o qual ela guardava o horrendo testemunho da sua dolorosa prova.
Leonor falou dos seus projectos, do noivo que se afastara por não conseguir lidar com a doença, da tese de doutoramento ainda inacabada sobre a emergência dos direitos das mulheres nos países em desenvolvimento. Ia visitar na semana seguinte a avó velhinha e levar-lhe de surpresa uma torta de ameixas em calda que aprendera a fazer com ela.

Estupefacta ante este amor à vida e aos outros, tendo tal espada de Dámocles sobre a cabeça, São José acarinhou Leonor dentro de si com o abraço mais cálido e penetrante de que se sentia capaz. Trocaram telefones, emails e combinaram encontrar-se em breve.

Tudo devido a uma dor maior, escondida debaixo de um chapéu francês, rosa pálido e coquette.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

A MENINA MAFALDA



Morreu hoje a Menina Mafalda.
Só nos vimos um par de vezes, e em ocasiões sociais, pois ela era irmã de uma alma muito próxima da minha. Talvez isso nada tivesse a ver com o facto de eu simpatizar tanto com a Mafalda. Tinha um ar gaiato, lembro-me que a boca dela me fazia pensar num coelhinho e rodeava-a uma auréola amigável e carinhosa.



Pois foi, morreu hoje a meio da manhã, uma enfermeira a seu lado num hospital grande cujo nome me escapa.

Branco, branco e sereno se me apresenta tudo, quando penso na morte da Menina Mafalda. Chamo-lhe menina pois, conquanto fosse já sexagenária, transportava em si qualquer coisa meio indizível, talvez da meninice, de quando se é jovem e se tem curiosidade por tudo.



A serenidade, uma quietude imensa que percepciono quando penso nela e na sua partida desta dimensão, terão a ver com os méritos da Menina  Mafalda. Já teria cumprido o seu tempo, o labor e as questões que aqui veio tratar. Nunca foi mãe, mas abriu as suas asas maternais sobre muitas crianças, ao acarinhá-las a descobrir o mundo, na primeira infância. Gostava muito delas e elas da Menina Mafalda. Suspeito que albergasse em si um repositório de amor sem fim a que não conseguiu dar todo o uso que o seu coração pedia. Também aí se pode ver quão complicada e tortuosa pode ser a encarnação, os difíceis testes a que vimos nesta breve residência na Terra.



Sentia-a meiga por dentro, ansiosa por acarinhar e ser acarinhada, em retorno. Apesar da educação espartana, da moderação aprendida, irradiava essa luminoisidade cativante.

São assim as coisas. Meio inexplicáveis, à luz do raciocínio lógico.



Já se foi a Menina Mafalda, como a conhecemos aqui. Começa agora a ser só memória. Para o marido, os irmãos, para o resto da família. Para mim, que mal a conheci mas que fui tocada por ela. Até que chegue a nossa hora e passemos todos a ser também já só memória para os que ainda por cá continuam.

Nunca acreditamos verdadeiramente nisto, até que acontece. A princípio, irreal para quem cá fica, depois definitivo e muito tangível na ausência física daqueles que amamos.



Aplausos para a Menina Mafalda, pelo ser carinhoso, pelos cuidados com os outros, pelo rastro de paz e serenidade que deixou na passagem.

Boa viagem para o Esplendor!
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Desenho de LENA GAL

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

E U S É B I O


"...há gente bem pior no panteão"
Vasco Graça Moura


Estou para aqui a pensar no Eusébio.



Nunca o conheci pessoalmente, não gosto de futebol e tudo quanto sei sobre o assunto entra-me à força pelo écran da televisão ou pela rádio onde as notícias futebolísticas têm, em geral, honras de abertura.

Do Eusébio eu ouvia falar quando era pequena, pois o meu pai, benfiquista ferrenho, idolatrava-o. Mas agora há muito que não sabia nada sobre ele.

Tudo quanto escutei, através de terceiros, sobre o Pantera Negra levaram-me, como a toda a gente, a sentir simpatia pelo homem de qualidades raras hoje em dia, como a humildade, o sentido de fairplay, a doçura de alma, a leal entrega toda a vida a um clube e aquilo a que os ingleses chamam de friendliness, uma palavra que não tem correspondência directa na nossa língua mas que implica uma atitude essencial de amigo em relação a todos e a todas as coisas na vida.



Fiquei no entanto surpreendida pela reacção geral ao falecimento de Eusébio, captada que me senti pelas imagens das ruas apinhadas de gente aplaudindo emocionada a passagem dos restos mortais do futebolista, as múltiplas declarações carregadas de emoção de politicos, empresários, dirigentes e responsáveis a todos os níveis. A volta olímpica ao Estádio da Luz sonhada pelo próprio ainda em vida uniu milhares visivelmente de coração destroçado pela partida prematura de Eusébio. E a viagem final até ao cemitério do Lumiar a rebentar pelas costuras de gente que, encharcada pela chuva impiedosa que caía na noite a baixar sobre Lisboa, não arredou pé e em muito dificultou o enterro – provisório, estou certa, pois esperam o futebolista honras de Panteão – essa viagem soou-me acompanhada de um grande e desesperado grito anímico, como se um pedaço da res colectiva tivesse sido arrancado injustamente e antes de tempo àquilo a que chamamos a alma de Portugal.



De algum modo, como no seu momento aconteceu com a princesa Diana, o povo português encontrou na morte de Eusébio e na sua impecável reputação – ainda por cima nem foi nunca rico – o pretexto perfeito para chorar a sua grande dor colectiva, uma catarse perfeita pela mágoa dos tempos que passam, cruelmente materialistas, destituídos de ideais e amor ao outro. Eusébio está rapidamente a ser elevado à categoria de deus, de memória referencial do que é ser universal, consensual e português, no melhor sentido. E isto acontece também com a maioria que nunca o viu jogar mas porque, no desértico esvaziamento de ideais, de princípios nobres, no empobrecimento geral da população a todos os níveis, encontra no crescente mito de Eusébio uma muleta perfeita para chorar por si mesma e de algum modo nutrir-se acarinhando um culto novo de retorno à simplicidade e ao amor entre todos os seres humanos.



Todo lo explican con cuentos escreveu com genialidade o poeta Léon Felipe. Este é um conto novo, fresquinho, a que os portugueses  se agarraram com desespero. As leituras podem ser múltiplas, mas convem manter as proporções para escapar à insanidade que ameaça instalar-se.



Paz à alma de um homem simples e bom que aconteceu ter sido um futebolista  de génio, num tempo em que as coisas eram mais verdadeiras, mais próximas do coração da gente.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

NOVA PALAVRA


Preciso de inventar uma palavra. Uma palavra nova, fresca, arejada. Perpassada de música e calor humano. Uma palavra táctil como uma pele quente, amistosa e envolvente. Um abraço.

Tem cor, sons alegres como o dos sinos das igrejas antigas, de campanários altos e o cheiro cimentado do incenso. Impõe-se a todas as outras, espécie de cântico dos cânticos, coroa majestosa de um léxico desconhecido, ainda à espera de ser inventado. Vela colorida, beijo amante, hino dos poetas, casa comunal, gáudio das crianças, há-de arder pela noite dentro, dançante e mística, fogueira nas trevas, marca de alianças.

Preciso dessa palavra vindoura, despida de mercantilismos, austera e ousada, portadora de afectos e consolos, corajosa e gorda como as deusas primitivas. Uma palavra rubra, que cheire a canela e a cravinho, saiba a mãos dadas e possa escancarar o coração da gente. Nova, bem cheirosa, intocada. Uma palavra que soe como a voz do sol e me transmita o reflexo prateado das estrelas, que cheire aos madeiros na praça pública mas me possa conduzir, como amante calorosa, à maior interioridade.

Vem a mim, palavra de ouro, mensagem espacial, palavra-chave das almas, verbo sentido, salvação de um mundo descompensado e disfuncional. Vem e traz contigo a tua descida à matéria. Ágil e espiritualizada, emblemática, sagrada, redentora, balsâmica, mãe da conciliação e da paz, berço da harmonia, semente de esperança, barca para um amanhã na Luz.

Vem, apresenta-te com urgência. Emerge desta farsa sem sentido onde nos perdemos cada ano, sem sabermos o porquê, o para quê. Substitui-te de uma vez à patética, esvaziada, alienante e impostora palavra Natal.

domingo, 8 de dezembro de 2013

DE BOAS INTENÇÕES ESTÁ O INFERNO CHEIO


Só chegamos a aprender muito do que é importante sobre nós mesmos e a vida em geral com a passagem dos anos, a dureza de certas experiências e uma aguda e imparcial auto-observação.
Refiro-me às boas intenções que, uma vez passadas a actos que supostamente beneficiarão aqueles a quem se destinam, acabam frequentemente em desastre.

Através da minha existência, tenho-me visto vezes sem conta confrontada com os maus resultados da minha bondade, vontade de ajudar o próximo, aliviar-lhe o sofrimento, partilhar com os outros a maior ou menor prosperidade que me vai chegando, tornar minhas também as dores e aflições alheias para que mais suportáveis se tornem para os directamente atingidos.



Com o passar dos anos, muitos desenganos e, esperemos, a chegada de alguma maturidade fui tomando consciência do seguinte.



·      As dores e limitações dos outros não me pertencem e não sou por elas responsável.

·      Os meus impulsos de desenfreada bondade e partilha emergem provavelmente de um sentido inconsciente de culpabilidade por eu estar melhor que o outro, o que é totalmente irracional e injusto para mim própria. Cada vida alberga insondáveis mistérios e cada um colhe o que semeou ao longo das provavelmente múltiplas existências no universo (não só na Terra) e em consequência da pessoa humana que ora consegue ser.

·      As minhas boas intenções, por mais sinceras que sejam, uma vez materializadas em actos interferem amiúde com o caminho evolutivo do outro, retiram-lhe a capacidade de luta e criam-lhe a ilusão de uma força que afinal não possui. O resultado é um inflacionamento do ego com as consequências previsíveis.

·      Estranhamente, a dádiva acaba muitas vezes por provocar ressentimento, em vez da natural gratidão – a velha síndrome do “cão que morde a mão que lhe dá de comer”. Assim, o receptor vira-se internamente contra o dador em quem acaba por encontrar mil defeitos e, não poucas vezes, a obrigatoriedade de dar sempre.



Estas conclusões, integradas após uma vida de difíceis experiências, não me tornaram amarga. Continuo a acreditar na importância da dádiva, da solidariedade e compaixão, na justa redistribuição de meios. Mas essas práticas devem ocorrer com discernimento, ponderadas com honestidade as razões para a nossa actuação, analisados com isenção os contornos da situação que se pretende aliviar e, sobretudo, tida em conta a não interferência na evolução espiritual do outro.

Receio que este último seja o ponto em que mais falhei até hoje.